Valerion - a Busca por Yggdrasil

31 A grande tropa de cavaleiros negros se reúne


O sol nascente tingia o céu de dourado quando Kaelvor abriu os olhos, ainda dolorido do treinamento infernal do velho Baarto. O casebre estava silencioso demais. Ele se levantou depressa, procurando os companheiros. Soraja já estava desperta, os braços cruzados, encostada na parede. Seu semblante trazia a mesma estranheza que o dele.

— Não estão aqui — disse ela, sem rodeios. — Tiberan e Nymira se foram.

Kaelvor apertou os punhos. — Foram para onde? Justo agora, depois de tudo o que passamos?

Soraja desviou o olhar. Desde que perdera a grande chave para Anorith, o último chaveiro, ela carregava a sensação de estar incompleta. Agora, sem a arma que sempre carregou nas costas, só lhe restava sua força bruta e as portas que podia abrir. Mesmo assim, respondeu firme: — Devem ter os próprios motivos.

Kaelvor resmungou. — Eu não posso perder tempo com mistérios. Ephiron está lá fora, e eu preciso encontrá-lo. — Os olhos dele faiscaram. — Ele sabe de algo que não disse, eu sinto.

Soraja lembrou-se da história que Baarto lhe contara em segredo: o lugar onde havia encontrado Kaelvor ainda bebê, cercado de brasas e carvão incandescente. Mas não tinha coragem de revelar isso ainda. — Talvez devêssemos seguir aquela pista de Baarto.

Antes que Kaelvor pudesse questionar, o velho surgiu à porta do casebre. Apesar da aparência frágil, sua voz soou grave. — Não há tempo. Sinto presenças se aproximando. Eles já chegaram até aqui.

O ar se tornou pesado. O som de passos metálicos ecoou entre as árvores. Kaelvor e Soraja saíram às pressas da casa, apenas para dar de cara com um homem imponente, vestido com a armadura reluzente de Hyperion. O elmo refletia a luz do sol como se fosse feito de ouro vivo.

Tyr… — Kaelvor rosnou.

O cavaleiro sagrado ergueu a espada com desdém. — O herege que ousou sobreviver. Desta vez, não escapará.

Kaelvor avançou em chamas, criando o contorno de uma fênix ao redor do corpo. O impacto contra a lâmina de Tyr sacudiu o chão, espalhando fagulhas como se a floresta fosse incendiar.

Soraja recuou alguns passos. Desde que perdera a chave, não tinha mais uma arma sólida para atacar, mas ainda podia usar as portas como escudos e improvisos. Ergueu a palma da mão e uma pesada porta de ferro surgiu entre ela e a batalha, bloqueando o vento de cada golpe. “Se não posso abrir destinos, ao menos posso fechar caminhos”, pensou.

Kaelvor foi arremessado contra o solo, o peito ardendo de dor. — Maldição! Eu já derrotei cavaleiros antes… até Valetes eu enfrentei!

Tyr girou a lâmina, firme. — Aqueles que caiu diante de ti eram fracos ou azarados. Eu sou diferente. Eu sou a lança de Hyperion.

Soraja gritou, forçando-se a agir. Criou uma porta ao lado de Kaelvor, que se abriu parcialmente e sugou parte das chamas dele, cuspindo-as de volta como uma labareda improvisada que distraiu Tyr por um instante. — Kaelvor, não se iluda! — bradou. — Não importa o quanto evoluímos, os cavaleiros são soldados moldados para a perfeição. Se não formos criativos, sempre estaremos um passo atrás.

Kaelvor se ergueu com dificuldade. As lembranças do treinamento com Baarto ecoaram: “Disciplina. Limpe o coração e o fogo será puro.” Ele inspirou fundo. A chama em seu peito tornou-se mais intensa e dourada.

Fênix Flamejante! — rugiu, lançando a ave de fogo aprimorada. Agora, as asas se abriram imensas no ar antes de mergulhar sobre Tyr.

O cavaleiro tentou bloquear, mas o impacto o arremessou para trás, rachando o solo. A armadura reluzente ficou marcada de brasas, e Tyr caiu de joelhos, respirando com dificuldade.

Kaelvor caminhou até ele, ainda em chamas, mas não desferiu o golpe final. Tyr ergueu a cabeça, o olhar frio. — Você ainda não entende, não é? — tossiu. — A caçada começou. Os deuses declararam que os quatro Valerions são inimigos do mundo.

Soraja arregalou os olhos. — O quê?

— Uma ordem direta — continuou Tyr. — Não apenas cavaleiros sagrados, mas uma nova tropa foi liberada. Os Cavaleiros Negros. Guerreiros tão poderosos que já superaram os limites humanos. Eles são os escolhidos para se tornarem os próximos Valetes.

O silêncio pesou. Kaelvor sentiu a chama vibrar. Cavaleiros que estavam no limiar de se tornarem Valetes…

Tyr apoiou-se na espada, tentando se levantar. — Vocês podem ter derrotado alguns soldados, até um ou outro cavaleiro… mas agora todos os olhos dos deuses estão sobre vocês.

Soraja fechou os punhos, a falta da chave queimando em sua mente como uma ferida. Mesmo assim, manteve-se firme. — Então a verdadeira caçada começou.

Kaelvor, suado e sangrando, deixou a fênix se desfazer no ar. Sorriu, um sorriso quase insano. — Melhor assim. Quero ver todos eles diante de mim. E quando encontrarmos a Yggdrasil, quero que o mundo inteiro veja o fogo consumi-la.

Tyr não respondeu. Cambaleante, deu alguns passos para trás e desapareceu entre as árvores, deixando apenas o silêncio da floresta.

Soraja olhou para Kaelvor, com uma mistura de preocupação e admiração. — Agora é oficial. Somos caçados por deuses e pelos homens mais poderosos deste mundo.

Kaelvor limpou o sangue do rosto com as costas da mão. — Ótimo. Então vamos caçá-los também.

E pela primeira vez, os ventos trouxeram o nome que ecoaria dali em diante: Cavaleiros Negros.

Notas finais
O grande sonho de Tyr é se tornar um cavaleiro negro.