Valerion - a Busca por Yggdrasil
32 O Poço dos Gêmeos
A floresta de Phytonia parecia mais silenciosa do que nunca, como se cada galho observasse em segredo o andar cauteloso de Tiberan. O botânico movia-se pelas sombras, os passos leves demais para despertar atenção. Ele conhecia aqueles caminhos desde menino, sabia quais folhas evitavam o farfalhar, quais raízes produziam sons ocos se pisadas. Era como se a própria natureza o ajudasse a passar despercebido.
Atrás dele, porém, uma pequena gota d’água se arrastava pelo solo. Tiberan parou diante da entrada de uma caverna e suspirou. — Pode se revelar, Nymira. Sei que é você.
A água se ergueu, formando um corpo frágil. A jovem de cabelos escuros apareceu, tossindo levemente. — Você percebeu… desde quando?
— Desde o começo. Sua água tem uma essência diferente. Ela não engana as plantas, e muito menos a mim. — Tiberan não a olhou, apenas avançou para dentro da gruta.
Nymira correu atrás, intrigada. — Então por que não disse nada? Por que… por que deixou o grupo? Justo agora, quando precisamos estar unidos?
Tiberan não respondeu de imediato. A caverna era estreita, úmida, e quanto mais avançavam, mais vinhas cobriam as paredes, pulsando como se tivessem vida própria. Ele passava os dedos por elas, abrindo caminho. Às vezes, a própria pedra cedia, permitindo que avançasse.
— Não deixei vocês — murmurou enfim. — Só vim cumprir algo que não podia mais adiar.
A curiosidade de Nymira crescia. A caverna se abriu em um salão natural iluminado por um brilho verde. No centro, um poço escuro. Sobre ele, uma cama de vinhas resplandecentes, como um berço feito de luz vegetal. E, deitado naquele leito, um corpo humano.
Nymira conteve a respiração. Aproximou-se com cautela, os olhos se arregalando. O corpo estava coberto por vinhas que se moviam como se respirassem. Do peito, uma raiz grossa se projetava, pulsando com seiva verde que subia e descia como sangue correndo em veias.
— É… igual a você… — Nymira murmurou, a voz embargada.
O rosto diante dela era o mesmo de Tiberan, apenas mais pálido, adormecido, como um reflexo adormecido. — É você? — engasgou. — Ou… quem é ele?
Tiberan ficou em silêncio por longos segundos. Seus olhos pareciam pesar toneladas. — Ele é meu irmão.
Nymira se afastou, assustada. — Isso não faz sentido… você tem um irmão gêmeo e nunca contou? Por que escondê-lo de nós? Por que mantê-lo aqui, preso, coberto de raízes? Isso é… isso é monstruoso!
O semblante calmo de Tiberan endureceu. — Não é prisão. É sobrevivência. Se as raízes forem arrancadas, ele morre.
A garota recuou mais um passo. O coração dela apertava. Pela primeira vez, olhava para Tiberan com desconfiança. — Então você… não é o verdadeiro. Você roubou a vida dele, não foi? Está usando esse corpo enquanto ele definha!
Tiberan arregalou os olhos, mas antes que respondesse, pedras começaram a despencar do teto da caverna. Um frio intenso percorreu o ar. Uma presença sombria tomou conta do lugar.
Das trevas do corredor por onde haviam entrado, surgiu uma figura alta, envolta em sombras densas. Sua pele era cinza, marcada por inscrições vermelhas que brilhavam como brasas. Os olhos eram dois buracos fundos, como se fossem poços sem fundo. Vestia uma armadura negra moldada na forma de um cão infernal.
A voz saiu rouca, arranhando o silêncio. — Eis o fedor que me guiou até aqui… o cheiro pútrido que os hereges exalam quando se afastam dos deuses.
Nymira gelou. — Quem é você?
Ele ergueu uma foice de lâmina curva, envolta por um brilho espectral. — Koedmiya. Cavaleiro Negro de Phytonia.
As paredes da caverna estremeceram. Atrás dele, almas translúcidas de guerreiros mortos surgiram, como espectros que atendiam ao chamado.
— Estou a serviço de Arkanis, o Valete de Cristal — anunciou com orgulho. — Foi ele quem reduziu Valerah a um globo, e foi ele quem nos ordenou caçar vocês. Agora que os deuses declararam guerra, tenho a sorte de ser o primeiro a sentir o perfume da morte de dois Valerions.
Nymira ofegou. Tiberan se colocou entre ela e o cavaleiro. — Então finalmente você veio. Eu já esperava.
Koedmiya riu. — Um jardineiro contra o cão do inferno. Uma curandeira contra a foice da morte. Que ironia deliciosa. Vida e morte no mesmo palco.
Ele avançou, a foice cortando o ar, deixando um rastro de sombras. Tiberan ergueu vinhas afiadas para interceptar, mas cada raiz era partida ao meio com facilidade. As almas espectrais atacaram Nymira, que ergueu homúnculos de água para se proteger.
A luta foi brutal desde o início. O som metálico da foice ecoava contra as paredes, enquanto as vinhas se enrolavam e tentavam segurar a lâmina. Nymira, desesperada, moldava guerreiros de água, mas Tiberan gritou: — Não toque na água daqui!
Ela o olhou, confusa. — Por quê?!
Ele apontou para o corpo adormecido sobre a cama de vinhas. — Essa água o mantém vivo. Se você a manipular, a vida dele pode acabar!
Koedmiya sorriu, arreganhando os dentes como um cão. — Então é isso… um irmão morto-vivo, sustentado por raízes amaldiçoadas. Quanta decadência para alguém que ousa desafiar os deuses!
As palavras ecoaram como um veneno no coração de Nymira. Ela não sabia se ajudava Tiberan ou se fugia daquele segredo obscuro. Mas o olhar do botânico queimava em determinação. Ele se pôs entre ela, o irmão e o cavaleiro, as vinhas brotando de cada centímetro do chão.
— Se quiser me matar, tente. Mas não tocará nele.
A foice brilhou com energia espectral. As almas urraram em uníssono. E o combate começou de verdade.
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