Koedmiya ergueu a foice e bateu sua lâmina contra o chão. Um som metálico reverberou pela caverna, como um sino fúnebre. Do impacto, sombras espessas se ergueram e, delas, surgiram espectros de guerreiros mortos, rostos disformes e olhos vazios que brilhavam em vermelho. Cada um empunhava armas enferrujadas, mas movia-se com a precisão de soldados veteranos.

— Eis meus servos — disse Koedmiya, com um sorriso que não tocava seus olhos. — Guerreiros que ofereceram sua vida a Phyton, agora condenados a me servir pela eternidade. Vocês, hereges, se juntarão a eles.

Tiberan avançou primeiro, lançando chicotes de vinhas cobertos de espinhos que se entrelaçaram em direção aos espectros. As plantas atravessaram os corpos etéreos, mas não os destruíram; apenas os atrasavam. O botânico rangeu os dentes, percebendo que não era tão simples lidar com inimigos que não tinham carne para ser dilacerada.

— Eles não sangram! — gritou ele. — Nymira, precisamos contê-los!

A garota ergueu os braços, gotas de suor escorrendo por sua testa. Correntes de água subiram do chão, moldando-se em homúnculos que se lançaram contra os espectros. A colisão foi brutal, e por um instante, as forças da vida repeliram as da morte. Mas logo os espectros voltaram, rasgando os corpos aquosos com suas lâminas sombrias.

Koedmiya caminhava lentamente, a foice apoiada no ombro. — Vida contra morte. Plantas e água contra a foice do ceifador. Que ironia deliciosa.

Ele girou a foice e lançou uma onda de energia negra. Tiberan se jogou na frente, erguendo uma barreira de flores luminescentes que explodiram em brilho ao contato, repelindo parte do golpe. Mas o impacto o jogou contra a parede da caverna, deixando seu corpo coberto de cortes.

Nymira correu até ele, preocupada. — Tiberan!

Ele cuspiu sangue, mas forçou um sorriso. — Não se preocupe comigo… já passei por coisas piores.

— Você está sangrando muito, precisa se proteger! — Nymira conjurou um homúnculo que se interpôs entre eles e um espectro.

Tiberan olhou para Lorien, imóvel no leito de vinhas. Seus olhos se encheram de uma dor antiga. — Eu não posso parar agora… ou ele não terá mais chance alguma.

Nymira piscou, surpresa. — Ele… seu irmão?

Tiberan respirou fundo. Enquanto moldava novas vinhas, começou a falar, sua voz mesclada com o som da batalha.

— Nossa mãe, Seliora, era a maior botânica de Phytonia. Diziam que ela tinha o dom da própria Yggdrasil em suas mãos. Podia dar vida a qualquer semente, a qualquer raiz. Quando estava grávida de mim e de Lorien, o próprio deus Phyton a convocou. Queria que ela cultivasse uma planta proibida, a Raiz do Sussurro.

Nymira desviou de uma lâmina, sua expressão atônita. — Já ouvi falar… a planta mais bela de todas, mas que amaldiçoa quem a fizer brotar... mas é só uma lenda.

— Não — disse Tiberan, chicoteando um espectro até ele se despedaçar em fumaça. — Não é. Eu estava lá, mesmo antes de nascer.

Enquanto lutava, sua memória o arrastou para o passado.

Ele via sua mãe, vestida em branco, cabelos verdes longos caindo pelos ombros, o ventre enorme prestes a explodir em vida. Via o palácio iluminado, os valetes e até um Ás reunidos para presenciar o espetáculo. Seu pai, rígido e forte, estava ao lado dela, mas o olhar carregava desconfiança.

A mãe regou o cachepô dourado com suas próprias lágrimas. Do solo nasceu um caule reluzente, que em segundos floresceu em uma rosa lilás de beleza tão intensa que até os deuses choraram. Mas do caule surgiu um espinho, que perfurou o ventre dela sem piedade.

— Ela morreu ali, no mesmo instante — disse Tiberan, lágrimas escorrendo em meio à batalha. — Mas antes, conseguiu nos trazer ao mundo. Eu nasci saudável. Lorien nasceu com o coração atravessado pela maldição.

Nymira cambaleou, chocada, mas ainda erguia escudos de água para bloquear golpes. — Então… é por isso que você…

— Sim. Desde então, deposito parte da minha fagulha divina aqui, nesta água, todos os meses. É isso que mantém meu irmão vivo. Um fio tênue entre a vida e a morte.

Koedmiya gargalhou, girando a foice. — Patético. Desafiar deuses para manter um fardo amaldiçoado respirando? Você é mais fraco do que pensei, Tiberan.

O cavaleiro ergueu a arma e lançou dezenas de espectros contra eles. Tiberan e Nymira se posicionaram lado a lado. A água dela se entrelaçou com as vinhas dele, criando uma muralha viva que resistiu ao impacto.

— Não se engane, cavaleiro — disse Tiberan, sua voz agora firme como aço. — Eu não luto por uma maldição. Eu luto por meu irmão.

Koedmiya avançou, sua foice colidindo contra a muralha de vida. O som ecoou como trovão, a caverna inteira tremendo. Nymira tossiu sangue, quase desabando, mas ainda manteve os homúnculos de pé. Tiberan sentiu suas veias queimarem, como se estivesse entregando mais do que podia, mas não recuou.

O choque entre vida e morte iluminou a caverna em tons de verde e lilás contra vermelho e negro. Lorien permanecia imóvel, respirando lentamente, enquanto acima dele dois mundos colidiam: o da esperança e o da perdição.

E a batalha ainda estava longe de terminar.

Notas finais
Seliora e Wendryx foram os pais de Tiberan e Lorien. Conhecidos por toda a cidade, eram os maiores botânicos do castelo. Tiberan não sabe, mas ambos eram também Valetes de Phýton. Com a queda deles, novos guerreiros assumiram o posto.