Valerion - a Busca por Yggdrasil
34 Yggdrasil e a seiva da eternidade
A caverna tremia com cada investida de Koedmiya. O Cavaleiro Negro ceifava o ar com sua foice, e dela nasciam rajadas de escuridão que transformavam a pedra em pó. Os espectros uivavam, levantando-se do chão como sombras de soldados esquecidos. O fedor de morte impregnava o ar.
Tiberan e Nymira lutavam lado a lado, mas ambos já sentiam o peso do combate. Cada golpe exigia um esforço brutal. Nymira tossia, seu corpo frágil tremendo, enquanto moldava homúnculos de água que se desfaziam diante da foice. Tiberan, suado e sangrando, fazia flores brotarem no chão para explodir em clarões que repeliam momentaneamente os espectros.
Koedmiya ria. — Suas forças escorrem como areia! Vocês não percebem? Estão tentando erguer a vida em meio a um cemitério!
Ele lançou a foice em arco. Tiberan ergueu uma muralha de vinhas, mas o impacto a despedaçou e o jogou contra a parede. Nymira correu até ele, os olhos marejados.
— Se continuar assim, vai morrer!
Tiberan olhou para Lorien, imóvel no leito de seiva, e fechou os punhos. — Eu não posso recuar. Não enquanto ele ainda respira.
As lágrimas escorreram pelo rosto de Nymira. — Então era isso… todo esse tempo, você lutava por ele.
Tiberan assentiu, e pela primeira vez, deixou a voz embargar. — Uma vez a cada mil anos, dizem que a Yggdrasil derrama uma única gota de seiva. Uma gota capaz de curar qualquer maldição. Eu busco essa seiva, Nymira. Não por glória, mas para salvar meu irmão.
Ela apertou seus ombros, a respiração fraca. — Então… vamos sobreviver, Tiberan. Pelo Lorien.
Ambos se levantaram. Ela conjurou um círculo de água ao redor dos pés dele, e ele fez flores brotarem dentro dela, criando uma energia viva que se expandiu em um brilho verde-azulado. O clarão atingiu os espectros, dissolvendo-os em cinzas. Koedmiya rugiu, avançando com a foice, mas Tiberan cravou o broto da Yggdrasil no solo da caverna.
Uma onda de vinhas cobertas de flores lilases irrompeu do chão, prendendo o cavaleiro. Ele tentou cortar, mas cada golpe fazia novas raízes surgirem, envolvendo sua armadura.
— Vida não morre! — gritou Tiberan, e o brilho das flores iluminou a caverna inteira.
Koedmiya uivou, a foice se partindo em estilhaços negros. Sua armadura rachou, e ele caiu de joelhos, engolido pelo brilho. Aos poucos, seu corpo se dissolveu em cinzas, levado pelo vento subterrâneo.
O silêncio reinou. Nymira caiu no chão, exausta. Tiberan correu até Lorien, mas o irmão permanecia inerte. Nymira, tremendo, se arrastou até ele.
— Deixe… eu tentar… — sussurrou.
Ela pousou as mãos sobre o peito de Lorien. Gotas de lágrimas se transformaram em água, infiltrando-se na raiz que o perfurava. Seu cosmo se expandiu, mas logo a água se dissipou sem efeito. Ela desabou em lágrimas.
— Não consigo… não é uma doença. É uma maldição.
Tiberan fechou os olhos, aceitando aquilo que já sabia. — A seiva da Yggdrasil… só ela poderá curá-lo.
Ele ficou em silêncio por alguns instantes, a mão pousada sobre o ombro do irmão adormecido. E então disse, quase para si mesmo, mas alto o suficiente para ecoar:
— E foi por isso que, quando vi nos olhos de Kaelvor a vontade ardente de queimar a árvore, soube que meu destino estava traçado. Preciso dele para encontrar a Yggdrasil… mas também preciso impedi-lo de cumprir seu sonho.
As palavras pesaram no ar como um juramento.
Enquanto isso, a luz do sol iluminava as colunas douradas do templo de Hyperion. Kaelvor e Soraja chegaram exaustos, as roupas rasgadas, mas os olhos do rapaz ardiam como brasas.
— É aqui — disse ele. — Se há um caminho para Yggdrasil, começa neste templo.
Soraja segurava firme a chave em suas costas, atenta. Mas antes que pudessem dar mais um passo, três vultos surgiram das sombras do templo. Armaduras negras, reluzentes como obsidiana, cobriam seus corpos.
— Cavaleiros Negros — sussurrou Soraja, o coração acelerado.
Um deles avançou, a espada negra apontada. — Vocês são os hereges que mancharam o nome dos cavaleiros. Hoje, Hyperion receberá suas cabeças.
Kaelvor cerrou os punhos, chamas se erguendo ao redor dele. — Se querem me impedir de queimar Yggdrasil, terão que passar pelo meu fogo!
Ele avançou, lançando o Falcão Flamejante contra um dos cavaleiros. A explosão iluminou o templo, mas, quando a fumaça se dissipou, o guerreiro estava ileso. Outro cavaleiro surgiu por trás, golpeando-o e jogando-o ao chão.
— Eles são muito rápidos! — gritou Soraja, erguendo sua chave como maça. Ela tentou acertar um dos inimigos, mas foi repelida com facilidade, sua arma ricocheteando na armadura negra.
Kaelvor se ergueu, sangrando, e tentou usar a Fênix Flamejante, mas um dos cavaleiros interceptou o ataque, desviando as chamas com a lâmina. O impacto o lançou de costas contra as colunas do templo.
Soraja foi atingida no ombro, caindo de joelhos. Em menos de um minuto, os dois estavam imobilizados, espadas negras cruzadas contra suas gargantas.
— Patéticos — disse um dos cavaleiros, a voz metálica sob o elmo. — Vocês não são mais do que presas que caminharam até a boca do lobo.
As correntes foram atadas em torno de seus pulsos, e os dois foram arrastados para o interior do templo.
Na caverna, Tiberan ajeitava Nymira encostada contra uma rocha. Ela sorria fracamente, tentando parecer forte. Mas, quando ele se afastou para observar Lorien, ela puxou discretamente a manga da túnica.
Seu coração gelou ao ver.
Uma mancha negra se espalhava sob a pele do braço dela, como raízes podres se infiltrando lentamente em suas veias.
Nymira fechou os olhos, tentando esconder a dor.
O silêncio da caverna voltou a pesar.
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