Valerion - a Busca por Yggdrasil
1 O Herege de Hyperion
O sol reinava absoluto sobre o reino de Hyperia.
As ruas de pedra clara refletiam sua luz como se o próprio chão fosse dourado, e altas torres adornadas com símbolos solares guardavam os templos dedicados a Hyperion, o deus do Sol.
Lá, tudo era ritual e disciplina: tochas ardiam mesmo ao meio-dia, sacerdotes vestindo túnicas vermelhas entoavam cânticos em coro, e a sombra de Yggdrasil, invisível mas reverenciada, pairava sobre cada palavra e cada gesto.
Para os cidadãos de Hyperia, não havia maior ofensa do que questionar a árvore.
Diziam que ela era a prova de que Hyperion iluminava todos os mundos, a raiz e o tronco do qual tudo fora moldado.
Era proibido sequer imaginar sua destruição.
Mas naquela manhã clara, quando a praça central fervilhava de mercadores e famílias, um jovem de roupas gastas e cabelos revoltos ergueu a voz contra a ordem sagrada.
— Ouçam-me, habitantes de Hyperia!
O alvoroço diminuiu. Vendedores pausaram suas barganhas, sacerdotes interromperam suas orações, e até os animais se inquietaram.
— Vocês veneram uma árvore que nunca viram! — gritou o andarilho, os olhos brilhando como brasas vivas. — Falam dela como se fosse perfeita, eterna, mas nada além de histórias sustentam essa fé! Pois eu digo a vocês, pela chama que arde em mim: eu encontrarei Yggdrasil… e a queimarei até as raízes!
O silêncio que seguiu foi profundo e pesado, como se o próprio sol tivesse parado no céu.
Então vieram os gritos:
— Herege!
— Blasfemo!
— Maldito por Hyperion!
Uma pedra voou e acertou seu ombro, abrindo um corte. Outra atingiu seu rosto.
Mas o jovem não desviou. Abriu os braços como se abraçasse a ira do povo.
— Vocês podem me apedrejar! Podem me expulsar! — gritou, cuspindo sangue. — Mas nada apagará o fogo que carrego. Yggdrasil será cinzas, e desse fogo nascerá a verdade!
Os guardas do templo avançaram com lanças erguidas.
Sacerdotes recitavam orações rápidas, pedindo que Hyperion o fulminasse ali mesmo com uma labareda divina.
Mães agarravam seus filhos, como se o simples som daquela voz pudesse envenenar suas almas.
Ainda assim, o andarilho caminhou em frente, sem pressa.
Com um estalo de dedos, faíscas dançaram no ar — não eram as chamas douradas de Hyperion, puras e disciplinadas, mas fogo rude, impuro, pessoal, que tremulava como se tivesse vontade própria.
O povo recuou por instinto.
Alguns temeram que fosse um presságio de que o deus os puniria a todos por tolerar tal sacrílego.
Outros o enxergaram como possuído, amaldiçoado, um verme que carregava o fogo do inferno.
— Não vai restar nenhum galho! Gritou novamente o andarilho com um sorriso enorme no rosto, camiseta laranja, calças largas e um par de sapatos gastos. — Eu sou Kaelvor! Lembrem-se do meu nome quando virem as labaredas!
Choveram insultos. Apedrejaram-no até que sua boca estivesse rasgada, seu corpo marcado por hematomas.
Os guardas o arrastaram até a muralha da vila e o atiraram para fora, como quem expulsa um cão sarnento.
Ele rolou pela poeira, respirando fundo, cuspindo sangue.
E então riu. Um riso rouco, mas cheio de vida.
Olhou para o horizonte, onde o sol ainda queimava sobre as colinas.
Seus olhos ardiam mais do que qualquer tocha, mais do que qualquer chama dos templos.
Não havia ódio em sua expressão.
Havia apenas uma convicção inabalável.
Naquele dia, nas ruas douradas de Hyperia, começou a se espalhar a lenda:
o Herege de Hyperion,
o andarilho que jurava colocar fogo na Árvore Sagrada.
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