A estrada poeirenta o levou até uma pequena cidade fortificada, cercada por muralhas baixas e lavouras douradas pelo sol.

Era tarde quando Kaelvor empurrou a porta de uma taverna e entrou cambaleando, coberto de poeira, suor e cicatrizes frescas.

O ambiente estava cheio: mercadores, viajantes, alguns soldados locais. O ar cheirava a vinho barato, carne assada e fumaça de lamparinas.

Assim que entrou, alguns olhares já se ergueram com desprezo. Seu rosto marcado e sua roupa em farrapos o denunciavam: era apenas mais um andarilho miserável, talvez até um mendigo. Mas Kaelvor não se intimidou.

Sentou-se em uma mesa próxima ao balcão, bateu a palma na madeira e gritou:

Uma caneca! E tragam logo, que hoje vou brindar à queda dos deuses!

O taverneiro, um homem gordo e de bigode espesso, estreitou os olhos. Ainda assim, serviu-lhe uma bebida aguada, mais por medo de confusão do que por cortesia.

Kaelvor bebeu de um só gole e, antes que alguém pudesse retomar suas conversas, ergueu-se de novo:

— Vocês aí! Todos vocês que vivem sob a luz dourada de Hyperion! Digam-me, já viram Yggdrasil com seus próprios olhos? Hein? — Bateu a caneca vazia na mesa, fazendo-a tilintar. — Pois eu digo: é mentira! É sombra! É farsa dos sacerdotes!

Um murmúrio de choque percorreu o salão.

Mulheres se levantaram, homens cerraram os punhos. O taverneiro avançou até ele, cuspindo as palavras:

— Cale essa boca, maldito! Não ousa cuspir blasfêmia dentro da minha casa!

Kaelvor riu alto, riso de escárnio, e ergueu as mãos. Faíscas saltaram de seus dedos, iluminando brevemente o ambiente.

Alguns recuaram; outros se levantaram para avançar.

Eu vou queimar Yggdrasil inteira! — gritou, mais alto do que antes. — E quando ela cair, veremos o que sobra dos deuses que vocês adoram!

Foi arrastado para fora a empurrões e socos. Caiu de cara na poeira da rua, cuspindo sangue pela segunda vez naquele dia.

Atrás dele, a porta da taverna bateu com violência. Risadas e insultos ecoaram do lado de dentro.

Mas antes que o barulho se dispersasse, Kaelvor percebeu um detalhe:

Naquele salão, sentado sozinho em uma mesa afastada, um homem distinto observava tudo em silêncio.

Calmo, elegante, trajava vestes limpas demais para aquela cidade poeirenta.

Enquanto todos gritavam, ele apenas tomava chá, como se a blasfêmia de Kaelvor fosse um estudo interessante.

Seus olhos, frios mas atentos, ficaram gravados na memória do andarilho.

Pouco depois, um som percorreu as ruas de pedra: o toque de trombetas.

Os cidadãos largaram suas mesas, portas e mercadorias, correndo em direção à avenida central.

Kaelvor, ainda limpando o sangue da boca, seguiu o fluxo curioso.

— Os Cavaleiros Reais estão chegando! — alguém sussurrou com reverência.

O rumor percorreu como fogo.

Cavaleiros Reais.

Homens escolhidos pela própria luz de Hyperion, enviados periodicamente às cidades para recolher tributos.

Eram lendas vivas, guerreiros quase divinos, cuja presença causava tanto medo quanto devoção.

As casas se abriram, e famílias inteiras saíram com trouxas de moedas.

Uns carregavam sacos pesados, outros apenas pequenas bolsas miseráveis.

Mas todos entregavam com a mesma ansiedade, como se não contribuir fosse atrair a ira do deus do Sol.

Logo, o som de cascos de cavalo ecoou na rua principal.

Uma pequena escolta atravessava a cidade, imponente, cada soldado em armaduras reluzentes que refletiam a luz do entardecer.

À frente, um cavaleiro distinto, coberto por uma armadura dourada que brilhava como o próprio sol.

Seu elmo, forjado em formato de coroa solar, reluzia em todas as direções.

Tyr.

Um dos Cavaleiros Sagrados de Hyperion.

Ele não falava, apenas observava.

Os soldados iam recolhendo os tributos com eficiência, atirando moedas para dentro de arcas pesadas.

Até que, ao chegar diante de um homem. Era o dono do bar, o gordinho que havia servido uma bebida a Kaelvor. Perceberam que sua trouxa de moedas era pequena demais.

O cavaleiro à frente se aproximou, examinou a oferta com desdém e, sem uma palavra, desembainhou a espada.

O golpe foi rápido, certeiro: arrancou a mão do homem, que caiu de joelhos, gritando de dor.

O povo se calou.

Ninguém ousou se mover.

Kaelvor, entretanto, sentiu seu sangue ferver.

O mesmo taverneiro que o havia expulsado agora gritava, desesperado, segurando o braço mutilado.

Basta! — rugiu Kaelvor, avançando pela multidão. — Não importa se veste ouro ou ferro, nenhum homem arranca a mão de outro em nome de um deus!

Tyr voltou-se lentamente, encarando-o como se um inseto tivesse ousado voar contra o sol.

A multidão recuou, chocada.

E Kaelvor, sozinho diante da armadura dourada, acendeu suas mãos em fogo vivo.

Notas finais
O exército dos deuses é formado por patentes. Os cadetes possuem farda básica, com pequenas peças de armadura. Os soldados possuem armadura padrão completa. Já os cavaleiros reais possuem armaduras diferentes entre si, personalizadas.