A raiz vermelha da Yggdrasil pulsava como uma veia viva, tingida pelo brilho incandescente que se espalhava em torno deles. Cada passo de Kaelvor ecoava em meio ao calor sufocante que lembrava brasas respirando. O ar era denso, como se o próprio fogo fosse líquido, envolvendo-os num manto ardente. Era ali, no coração do ramo escarlate, que o destino preparava seu confronto mais cruel.

Kaelvor avançava com as mãos cerradas, ainda sentindo no peito a ausência de Ignara. O sacrifício da raposa, abrindo o caminho através do portal flamejante, queimava em sua memória como cicatriz. Ephiron o seguia, mas em silêncio. O cavaleiro rebelde parecia mais tenso do que nunca, seu olhar fixo na escuridão adiante.

Do calor, uma presença surgiu. Um vulto colossal, coberto por armadura negra e dourada, com correntes presas aos pulsos e ao peito, como se fosse forçado a conter o próprio poder. Os olhos ardiam como sóis, e a simples respiração dele fazia a raiz tremer.

— Alenor, Ás da Chama Eterna… — murmurou Ephiron, seu semblante endurecido. — Meu pai.

Kaelvor parou, engolindo em seco. Aquele era o homem que o levara para o palácio de Hyperion algum tempo atrás. Porém, dessa vez não havia honra no ar, apenas a sensação de que estavam diante de um monstro feito de fogo e disciplina.

Alenor ergueu a cabeça, como se contemplasse dois insetos. Sua voz retumbou:

— Finalmente chegaram. A rebeldia trouxe vocês até mim, como eu esperava. Ephiron… e você.

O olhar se voltou para Kaelvor, pesado como lâminas.

— Aquele que quer queimar a Yggdrasil.

Kaelvor rosnou. — Saia do meu caminho! Eu já disse que não quero me curvar a você!

Em fúria, lançou a Fênix Flamejante, o fogo alado que queimava até sombras. A ave ígnea cortou o ar, colidindo contra Alenor com violência. A raiz inteira tremeu… mas o Ás ergueu apenas uma das correntes, desviando o golpe como se fosse um sopro. O fogo se dissipou.

Num instante, Alenor desapareceu. Reapareceu à frente de Kaelvor, golpeando-o com o punho incandescente. O impacto arremessou o jovem contra a parede da raiz, rachando a madeira viva e deixando o corpo dele tombado, cuspindo sangue.

— Vamos ver até onde a rebeldia te leva — a voz de Alenor ressoava.

Ephiron avançou, sacando sua lâmina. — Pare, pai! Essa luta é comigo!

O Ás sorriu de forma amarga. — Então o filho pródigo ainda insiste em me enfrentar. Já não bastou ter se rebelado, Ephiron? Ainda carrega o fardo de achar que pode ser mais do que é?

Os dois colidiram. As correntes flamejantes de Alenor chicoteavam o ar, esmagando pedras e abrindo crateras no chão. Ephiron, ágil, desviava e contra-atacava, cada golpe seu carregando a fúria de uma vida inteira sufocada pelo nome do pai. O duelo era brutal, chamas contra chamas, mas mesmo no auge de sua força, Ephiron rangia os dentes — sabia que não podia superá-lo.

Kaelvor se ergueu, cambaleando. Observava os dois lutando, o coração acelerado. Algo o corroía por dentro: por que Alenor o fitava com aquele olhar, como se o conhecesse desde sempre?

No meio da batalha, Alenor segurou a lâmina do filho com as correntes, prendendo-o. Os olhos dele cintilaram.

— Ephiron, meu filho… você sempre acreditou que era o escolhido. Sempre acreditou que carregava a chama eterna. Mas a verdade é outra.

Ephiron empalideceu. — O quê?

Alenor ergueu a voz, agora mirando Kaelvor:

— O verdadeiro herdeiro da chama é ele.

Kaelvor congelou. O eco daquelas palavras o atravessou como uma lança.

— Não… não pode ser. — sua voz saiu rouca.

Ephiron arregalou os olhos, o coração partindo em fúria e incredulidade. — Não ouse mentir! Eu sou seu filho! Sempre fui!

— Sim. — respondeu Alenor. — Mas nunca foi o escolhido. Você nasceu comum, Ephiron. A chama eterna foi dada ao seu irmão, Kaelvor. No momento em que vieram ao mundo, vossa mãe, temendo a maldição do fogo, abandonou aquele que ardia em brasas. Eu permiti que fosse levado. E Baarto o encontrou, criando-o como um herege.

Kaelvor cambaleou para trás. Seu peito queimava, não pelas chamas, mas pelas palavras. Todas as dúvidas, todas as feridas de sua vida, ganhavam um novo contorno.

Ephiron gritou, a raiva rompendo seu controle. — ENTÃO EU NÃO PASSEI DE UMA SOMBRA? TODO ESSE TEMPO?!

Ele se lançou contra o pai com violência, chamas negras contorcendo-se em volta de si. O duelo explodiu em fogo puro, mas agora carregado de ódio e desespero. Kaelvor assistia, o corpo trêmulo, sem saber se gritava, se atacava ou se desabava.

Alenor, contudo, mantinha-se impassível. Seu rosto era o de um guerreiro que cumpria um destino, mesmo que destruísse seus filhos no processo.

— Vocês são meus. — disse ele, esmagando Ephiron contra o chão. — Filhos da chama. Não importa o quanto lutem, jamais escaparão do sangue que carregam.

Kaelvor cerrava os punhos, lágrimas misturando-se ao suor e ao sangue em seu rosto. O peso da revelação se misturava à fúria. Ephiron gritava em dor, mas ainda resistia, encarando o pai com olhos cheios de lágrimas e fogo.

O capítulo terminava com Kaelvor, arfando, avançando outra vez contra Alenor. O olhar dele não era mais o do herege que queria queimar deuses, mas o de um filho que jurava jamais aceitar aquele destino imposto.

— Eu não sou seu filho! — rugiu Kaelvor. — Nem agora, nem nunca!

As três chamas — do pai, do filho rebelde e do filho revelado — se entrelaçavam, incendiando a raiz vermelha da Yggdrasil em um clarão que parecia desafiar o próprio mundo.