Valerion - a Busca por Yggdrasil
60 Descanse em paz, Ephiron.
A raiz vermelha pulsava como um coração vivo, estremecendo com cada impacto entre os três guerreiros. O calor era insuportável, brasas desprendiam-se das paredes e caíam como chuva incandescente, iluminando o campo de batalha em tons de sangue e fogo. Alenor erguia-se imponente, as correntes da Chama Eterna chicoteando o ar e rasgando o chão, enquanto seus dois filhos — revelados como irmãos — encaravam-no com olhos incendiados de fúria e dor.
Ephiron tremia, mas não de medo. O peso das palavras de seu pai ainda o esmagava: não era o herdeiro da chama, não era o escolhido. Apenas um filho comum, um substituto. Seu coração ardia de ódio, não contra Kaelvor, mas contra aquele homem que o moldara numa mentira.
— Pai… você destruiu tudo o que eu poderia ter sido! — gritou, o cosmo flamejante explodindo em volta dele. — Se não sou o escolhido, então serei eu mesmo!
Ele ergueu as mãos e, num rugido que ecoou por toda a raiz, conjurou um fogo jamais visto. Chamas azuladas, sombrias, que dançavam como almas perdidas, surgiram em volta de seu corpo. Seus olhos brilharam em tons de cobalto.
— Fogo Fátuo das Sombras!
As labaredas azuis se ergueram em espectros flamejantes que se lançaram sobre Alenor. O Ás, pela primeira vez, recuou. As correntes bateram contra as chamas, mas elas não se dissiparam: grudaram-se nelas como fantasmas, corroendo o metal incandescente e queimando sua pele imortal.
Alenor rugiu de dor, o corpo marcado pelas labaredas espectrais.
— Maldito! Esse fogo… não deveria existir!
Ephiron sorriu, mas suas lágrimas escorriam. — Ele existe porque eu me recusei a ser o que você queria!
Kaelvor, observando, sentia a fúria crescer em seu peito. Não importava a revelação, não importava o sangue. Pai, filho, herança divina — tudo isso era pó diante de sua chama. Ele respirou fundo, o coração latejando, e ergueu as mãos. O cosmo explodiu num clarão negro e vermelho, e seu corpo foi envolvido por uma fênix de fogo escarlate que, aos poucos, se distorceu em algo mais sombrio.
As penas da fênix se tornaram negras, os olhos ardiam como sóis rubros, e asas colossais se abriram atrás dele. Seus cabelos e olhos queimavam em chamas incandescentes, como se fosse uma criatura renascida da morte.
— Não importa de quem eu sou filho. — a voz de Kaelvor ressoou, grave e distorcida pelo poder. — Eu sou aquele que vai queimar a Yggdrasil, e com ela, a mentira dos deuses!
Alenor o encarou com um misto de espanto e orgulho sombrio. — Benu incandescente… então é isso que você escolheu ser.
Kaelvor avançou. O impacto de suas asas negras fez a raiz estremecer, abrindo rachaduras que liberavam labaredas. Ele golpeou o ar, e uma rajada flamejante em forma de fênix negra investiu contra Alenor, que ergueu as correntes para se defender. O choque incendiou todo o ambiente, mas, pela primeira vez, o corpo do Ás se curvou.
— Ephiron! — gritou Kaelvor. — Juntos!
O irmão olhou para ele, os olhos azuis faiscando com o Fogo Fátuo. Por um instante, esqueceu o rancor, a dor, a revelação. Viu apenas o irmão ao seu lado, carregando a mesma chama, lutando pelo mesmo destino. Ele sorriu, com um semblante que misturava tristeza e orgulho.
— Vamos, Kaelvor. Uma última vez.
Os dois avançaram, cada um liberando o ápice de seus poderes. O Fogo Fátuo azul e as chamas negras do Benu incandescente colidiram em um turbilhão de luz e destruição, atingindo Alenor com a força combinada de duas vontades que se recusavam a se dobrar.
O impacto foi devastador. A raiz inteira tremeu, rachaduras se espalharam, e o corpo de Alenor foi lançado para trás, as correntes se partindo em pedaços flamejantes. Ele caiu de joelhos, a armadura rachada, o peito marcado pelas duas chamas.
— Impossível… — murmurou, tossindo sangue ígneo. — Vocês… meus filhos…
Kaelvor arfava, mas as asas negras ainda o envolviam. Ephiron, exausto, mal se mantinha de pé. Ele olhou para o pai, depois para o irmão, e um pensamento doloroso tomou forma em seus olhos.
— Kaelvor… você é o verdadeiro escolhido. Não eu. — disse com a voz embargada. — Mas isso não me importa mais. O que importa… é que você continue.
Antes que Kaelvor pudesse responder, Alenor se ergueu novamente, mesmo ferido. As chamas em seu corpo cresceram, prestes a consumir tudo. Ephiron sabia que não resistiriam a outro ataque.
Sem hesitar, ele se lançou à frente de Kaelvor, canalizando o restante de sua chama azul. O Fogo Fátuo das Sombras se acendeu uma última vez, envolvendo o corpo de Ephiron.
— Pai… adeus.
Ele explodiu em chamas azuis, chocando-se contra Alenor com todo o seu ser. O clarão consumiu ambos, e a raiz foi tomada por uma onda de calor que cegou Kaelvor.
Quando a fumaça baixou, Alenor estava de pé, mas cambaleante, o corpo dilacerado. Ephiron, porém, estava deitado no chão, seu corpo quase sem vida.
Kaelvor correu até ele, segurando-o nos braços. As asas negras tremulavam, quase se desfazendo. Ephiron abriu um último sorriso, o olhar marejado.
— Agora entendo… porque seus olhos me atraíam tanto… Eram os olhos do meu irmão. — sua voz era um sussurro. — Proteja esse mundo… por nós dois.
E então, seu corpo se apagou, a chama azul se dissipando como uma brisa fria.
Kaelvor gritou, o eco de sua dor ressoando pela raiz vermelha da Yggdrasil. O Benu incandescente se expandiu em fúria, incendiando tudo ao redor. Diante dele, Alenor ainda se mantinha de pé, mas seus olhos ardiam em lágrimas.
— Meus filhos… — murmurou o Ás, pela primeira vez deixando escapar a dor de um pai. — Um morreu me odiando, o outro… me nega como pai. Essa é a chama que deixo ao mundo?
Kaelvor ergueu a cabeça, os olhos incandescentes queimando. — Não é você quem decide, Alenor. É a gente!
O capítulo encerrou com a raiz em chamas, pai e filho prestes a travar o último combate. E o corpo de Ephiron, deitado, parecia ainda irradiar um brilho silencioso — a centelha de um sacrifício que nunca seria esquecido.
Fale com o autor