Valerion - a Busca por Yggdrasil

45 Ecos de um mundo fragmentado


O vazio foi o último som que ouviram. O rodopio da chave de Anorith rasgou o espaço e cada um dos Valerions foi lançado para longe, como peças separadas em um tabuleiro cósmico. Não sabiam se ainda estavam vivos, se os amigos sobreviveram, ou se aquela seria sua última memória. Mas o destino não os queria mortos — não ainda.

Nymira foi arremessada contra o calor seco de um deserto sem fim. Ao abrir os olhos, a areia entrou em sua boca, seca como ferro. O céu era um lençol branco, e o vento soprava cortante, sem oferecer alívio. Ela se arrastou, sem água, sem alimento, o corpo já fragilizado pela doença e agora consumido pela exaustão. A mancha negra em seu braço se estendia como uma trepadeira venenosa, latejando sob sua pele.

Mas, pela primeira vez, a garota não chorou. Sentiu a vida prestes a escapar e decidiu que não se renderia. Se não havia água no mundo, buscaria dentro dele. Concentrou-se na areia, nos grãos microscópicos que guardavam moléculas de umidade. Forçou o poder até seus dedos tremerem, e dali nasceu uma gota, pequena mas brilhante. Uma gota arrancada da própria morte. A cada dia, aprendeu a retirar um pouco mais — da areia, do ar, das nuvens distantes.

Sem perceber, seu corpo mudou. O semblante ganhou linhas mais adultas, os olhos agora eram determinados. Ela costurou roupas com pedaços de tecido azul que encontrou em mercadores nômades, adornando-se com pedras preciosas, braceletes e joelheiras de metal. Já não era apenas a garota frágil que tossia na beira da cama. Era uma guerreira moldada pelo deserto, uma mulher de água em meio à secura.

Tiberan, por sua vez, despertou em uma floresta que não reconhecia. As árvores eram colossais, com raízes que tocavam o horizonte, e o ar pulsava com energia viva. A fome e a sede o pressionavam, mas logo percebeu: aquela floresta não queria devorá-lo, queria comunicá-lo. Sentou-se diante de uma árvore antiga, fechou os olhos e estendeu suas mãos ao solo.

Foi nesse silêncio que ouviu. Primeiro, um sussurro leve, como um eco da mãe. Depois, a batida de corações que não eram seus. Criou raízes finas sob seus pés, explorando o chão como se fossem dedos. Aprendeu a sentir a distância, a presença de animais, a localização da água. Agora, não apenas floresciam rosas e vinhas: raízes brotavam de seus braços, veias grossas como cordas, conectando-o à vida.

Ele tentou sentir Lorien, o irmão adormecido. E o sentiu. Uma pulsação distante, fraca, mas real. O irmão ainda esperava, em algum lugar. Tiberan deixou de se preocupar com roupas finas ou aparência. Sua beleza agora era a comunhão com a natureza. Folhas adornavam seus ombros, galhos cresciam junto ao seu cabelo. Tornou-se, enfim, um homem da floresta, preparado para enfrentar deuses.

Ephiron caiu em um campo de ossos. Montanhas de crânios, restos de armaduras enferrujadas, armas quebradas espalhadas até onde a vista alcançava. Ali repousavam os cavaleiros mortos, esquecidos, descartados após servirem aos deuses. O cheiro era seco, quase doce, como cinzas.

O guardião do cemitério, um homem esquelético com olhos que ardiam em âmbar, observou-o de cima de um trono feito de espadas enferrujadas.

— Você não está morto — disse, em voz áspera. — Mas está aqui. Então este é seu destino.

Ephiron tentou se esconder entre os ossos, mas o guardião não o deteve. Apenas sorriu.

No silêncio daquele campo, Ephiron encarou os restos de guerreiros que um dia foram reverenciados. E entendeu: todos eles, heróis ou não, acabaram ali, esquecidos. Foi ali que seu ódio cresceu. Não queria apenas queimar a Yggdrasil. Queria derrubar o sistema, os deuses, destruir o ciclo que usava homens como ferramentas e depois os descartava.

Treinado pelo guardião, aprendeu a usar ossos como armas, moldando-os em sua carne. Sua armadura dourada e negra se desfez, substituída por ataduras e ossos incrustados. Quando deixou o cemitério, já não era mais apenas o filho de Alenor. Era um herege que sonhava em derrubar os próprios deuses.

Soraja caiu em uma vila distante, onde o tempo parecia quebrado. Perguntava sobre Hyperia, Velaskia, Phytonia. Ninguém sabia responder. Havia apenas um nome: Gaia. Descobriu, pouco a pouco, que estava no passado, em uma era em que os deuses ainda caminhavam entre os homens.

O choque foi enorme, mas ali ela cresceu. Aprendeu técnicas novas com viajantes estranhos, forjou novos estilos com sua grande força e a intuição que sempre teve. Até receber uma visita. Anorith.

Ele não veio como inimigo, mas como guia. Disse acreditar que os deuses estavam selados ou mortos, que alguém controlava o mundo em seus nomes. Para manter os Valerions vivos, ele precisava parecer um traidor. Não podia devolver ainda sua chave, mas ensinou a criar portas sem tranca — que se abriam a curtas distâncias, mas cujo destino ela controlava.

Quando voltou ao presente, seu corpo já não era o mesmo: cabelos curtos, roupas práticas, adornos vitorianos e duas grandes maçanetas douradas nas mãos. Agora, podia controlar melhor seu poder.

Kaelvor… ninguém sabia para onde ele foi. Nem ele contou. Mas quando retornou, seu olhar era outro. Seus cabelos agora tinham dois tons de vermelho, suas roupas eram vermelhas, pretas e marrons, e um braço estava coberto por uma cicatriz de queimadura, sempre escondida sob uma luva grossa.

Ao se reencontrarem, todos sentiram o peso de sua presença. — Agora eu sei — disse, em voz firme — exatamente como queimar a Yggdrasil.

E, como se o destino brincasse com eles, o reencontro aconteceu em frente à casa de Baarto. Mas o casebre estava vazio. O velho não estava mais lá.

O vento soprou, carregando cinzas de uma fogueira extinta. O silêncio se impôs. O mundo havia mudado — e eles também.

Sem Baarto ali, cada um decidiu seguir seu caminho. Nymira prometeu encontrar Arkanis e salvar sua vila. Tiberan partiu sem dizer onde iria. Soraja abriu uma porta e disse: vejo vocês em breve!

Kaelvor permaneceu ali. Como uma sombra, a poucos metros dele, se erguia Ephiron.