Quando as portas criadas por Soraja se fecharam, a luz que engoliu o grupo se fragmentou em mil caminhos. Cada um foi lançado em um destino diferente, arrastado por forças que não compreendiam. O laço que os unia foi rompido, e a sensação de vazio os envolveu como se estivessem despencando para fora do mundo.

Tiberan foi o primeiro a despertar. Seus olhos abriram-se em uma escuridão pulsante. Não era um túnel de pedra comum: as paredes respiravam, pulsavam como carne viva. Ao tocar uma das superfícies, percebeu que eram raízes, grossas, ancestrais, que se estendiam até perder de vista. Um brilho verde emanava de musgos e trepadeiras que se enrolavam pelas paredes. O ar era quente, úmido, e cada passo parecia ecoar como se ele estivesse caminhando no coração de uma criatura colossal. Ele percebeu, horrorizado e fascinado, que estava dentro de uma das raízes da Yggdrasil. E, quando encostou em um galho menor que se destacava da parede, sentiu-o responder, como se reconhecesse sua presença. O calor que percorreu sua mão não era humano. Era algo antigo, primordial.

Enquanto Tiberan explorava aquele túnel vivo, Nymira e Ignara surgiam em um ambiente completamente diferente. Caíram em um salão real iluminado por tochas azuis, onde o som metálico de espadas chocando ecoava de todas as direções. Soldados alinhados treinavam, seus movimentos sincronizados, vozes gritando ordens com precisão. A grandiosidade e a disciplina eram esmagadoras. Antes que pudesse reagir, Ignara rosnou, caindo em posição de ataque. Um grupo de guardas avançou, usando correntes reforçadas. Em poucos segundos, a raposa flamejante foi capturada, arrastada como uma fera perigosa para uma jaula de ferro. Nymira, sozinha, sentiu os olhos de dezenas de soldados recaírem sobre ela. Uma garota frágil, com roupas rasgadas, claramente deslocada.

— Quem é você? — uma voz severa exigiu, de um capitão que se aproximava.

Nymira respirou fundo. Seu coração disparava, mas ela ergueu o queixo e respondeu com uma firmeza que não sabia possuir:

— Uma cadete enviada para avaliação.

A mentira saiu com a voz trêmula, mas convincente o suficiente para fazer os soldados hesitarem. O capitão a olhou de cima a baixo, desconfiado, mas não a desmascarou de imediato. Ignara rugiu dentro da jaula, e Nymira desviou o olhar, tentando esconder o medo. Sabia que havia apenas comprado algum tempo.

Soraja, por outro lado, caiu nas ruas silenciosas de Valerah, a cidade esquecida. Reconheceu de imediato os detalhes que ouvira de Nymira: as casas de madeira, o pomar ao longe, as muralhas simples. Mas algo estava errado. As pessoas caminhavam pelas ruas como sombras, presas em um tempo que não avançava. Não falavam, não olhavam para nada. Soraja segurou a chave gigante em suas costas, o instinto lhe dizendo para abrir uma porta e escapar dali. Mas hesitou. Como poderia abandonar um lugar que claramente estava aprisionado? Como poderia virar as costas a algo que talvez fosse a única pista para salvar a vila de sua amiga?

Seus passos a levaram até o centro da cidade, onde encontrou um prédio de pedra com portas pesadas. Era uma biblioteca antiga, abandonada e coberta de poeira. O silêncio ali era ainda mais profundo, e os livros pareciam esperar alguém que ousasse abri-los. Soraja sentiu um arrepio. Talvez a resposta sobre quem ela realmente era estivesse escondida entre aquelas páginas.

Enquanto cada um dos companheiros encarava seu próprio destino, Kaelvor despertava novamente no Coliseu dos Deuses. O chão estava rachado, colunas caídas, estátuas partidas ao meio. O ar cheirava a cinzas. Seu corpo doía como nunca, os músculos tremiam e o sangue escorria pela boca. Mas dentro dele ainda ardia a lembrança da Fênix flamejante. Ele havia invocado algo além do que conhecia, um fogo que queimava até as sombras.

De repente, ouviu passos. Lentos, pesados, ecoando entre as ruínas. Ephiron surgiu das trevas do Coliseu. A armadura negra estava trincada, parte do corpo exposta, mas seus olhos vermelhos brilhavam ainda mais intensos. Ele caminhava com firmeza, apoiando-se em sua espada cravada no chão, como um juiz que se recusa a encerrar o julgamento.

— A chama que renasce das cinzas… — sua voz grave fez o coliseu tremer. — Mostre-me de novo. Mostre-me a Fênix flamejante.

Kaelvor ergueu os olhos, o peito arfando. As chamas ainda adormeciam em seus punhos, esperando por um sinal para despertar. Um sorriso insolente, quase infantil, cruzou seu rosto ensanguentado.

— Se é isso que você quer… então eu vou te mostrar o quanto essa fênix pode queimar.

Ephiron apontou a espada para ele, e o Coliseu rachado voltou a estremecer. Não havia público, não havia deuses. Apenas dois hereges prontos para incendiar o mundo.

O duelo ainda não havia acabado.

Notas finais
Apesar de estar dentro de uma das raízes da Yggdrasil, isso não é o suficiente para levar Tiberan até a árvore. As raízes da grande árvore se entrelaçam debaixo do solo de todo o mundo. Portanto, é quase um labirinto impossível de prever.