Valerion - a Busca por Yggdrasil
23 A Cadete da Água
O salão da academia bélica de Velaskian fervilhava de vozes. O som metálico das espadas batendo em uníssono, as ordens dos capitães ecoando como trovões, a disciplina rígida que tornava cada soldado uma engrenagem viva. Nymira caminhava com passos incertos entre eles, disfarçando a fragilidade com uma postura altiva. Ainda sentia a garganta arder pela mentira que contara: cadete enviada para avaliação. Mas, para sua surpresa, haviam acreditado.
As fileiras se abriram diante dela. Um capitão trajando uma armadura pesada a guiou até um salão menor, onde armas e armaduras eram armazenadas. Sobre um suporte, estava uma armadura simples, de placas leves e cinzentas, ainda reluzentes pelo polimento.
— Cada cadete recebe sua proteção — disse o capitão, firme. — É apenas um fardo simbólico. Se viver o suficiente, poderá trocá-la por uma de soldado.
Nymira tocou as peças com a ponta dos dedos. O metal estava frio, e ao vesti-lo, parecia um peso maior do que ela poderia suportar. A armadura era estranha em seu corpo, como se tentasse negar sua natureza. Mas ela permaneceu firme. Se era esse o papel que precisaria fingir, o faria.
Quando retornou ao pátio, ouviu pela primeira vez as vozes explicando a ordem das patentes.
— Cadetes… — dizia o capitão. — Depois soldados. Então os Cavaleiros Sagrados, que servem como extensão da vontade dos deuses. Acima deles, apenas os Valetes Reais: dois para cada divindade, exceto Hyperion, que possui apenas um. E acima de todos… o Ás de Paus.
As vozes se calaram quando o nome foi dito. Era uma patente lendária.
— Ninguém nunca viu um Ás — continuou. — Eles servem diretamente aos deuses.
Nymira sentiu um calafrio. Aquela hierarquia não era apenas uma organização militar, era uma escada até o impossível.
E então, ele apareceu.
O som dos passos ecoou, e um homem alto atravessou o portão principal. Sua armadura dourada refletia a luz das tochas, e o símbolo de Hyperion brilhava em seu peito. O rosto severo, os olhos duros como lâminas.
— Tyr. — o capitão anunciou, e todos se curvaram.
Nymira congelou. Tyr. O cavaleiro sagrado que havia derrotado Kaelvor.
— Escolham um cadete para enfrentar Tyr em treino — disse o capitão, hesitante.
Mas o próprio cavaleiro ergueu o braço e apontou diretamente para ela.
— Aquela.
Nymira sentiu o corpo gelar. Ainda assim, caminhou até a arena. A armadura leve pesava como chumbo. Os olhos de Tyr a perfuravam.
— Um rosto estranho. Não reconheço você. Mas talvez eu devesse. Recentemente, um verme de Hyperia ousou me enfrentar. Um garoto tolo que dizia queimar a Yggdrasil.
O nome não foi dito, mas Nymira sentiu a centelha. Algo queimou dentro dela, não em fogo, mas em água. A lembrança de Kaelvor tombando ensanguentado acendeu uma fúria que nunca havia sentido.
Quando Tyr avançou, ela ergueu as mãos instintivamente. A água brotou não como cura, mas como lâminas. Formas humanas surgiram, moldadas em líquido: homúnculos de água, de olhos vazios, que se interpunham entre ela e o golpe.
O choque da espada contra os corpos líquidos ressoou como um trovão. A água se dividiu, mas não se desfez. As figuras fluíram, reformando-se e agarrando a lâmina, protegendo Nymira.
O pátio inteiro silenciou.
Nymira respirava ofegante. Nunca havia usado sua água assim. Sempre para curar, para restaurar. Agora, ela percebia que o mesmo dom podia proteger, podia lutar, podia repelir.
Tyr recuou um passo, os olhos estreitados.
— Então você também é uma Valerion. Interessante. Não esperava ver isso aqui.
Ele avançou de novo, e os homúnculos reagiram, multiplicando-se, formando uma barreira viva ao redor dela. Um a um, atacavam em sincronia, pressionando o cavaleiro. O impacto não o derrubava, mas fazia com que recuasse, surpreso com a resistência.
Por fim, ele ergueu a mão, pedindo para cessar. A arena estava encharcada, o chão refletindo a luz como um espelho quebrado.
— Basta.
Nymira tremia, mas se manteve firme. Tyr a encarou longamente, então falou:
— Você lutou como uma soldada, não como cadete. Reconheço sua força. Está promovida.
Um murmúrio correu entre os guardas.
Nymira tirou o elmo da armadura leve e o segurou nas mãos. O metal frio não combinava com ela. No reflexo da água no chão, viu algo diferente: pequenas gotas começaram a surgir em sua pele, formando placas líquidas que cintilavam como cristal. Uma armadura nascida de si mesma, moldada por suas lágrimas e sua vontade. Roupas simples se transformaram em vestes elegantes, combativas, vivas.
Ela sorriu pela primeira vez em muito tempo.
— Eu não preciso de sua armadura. Eu já tenho tudo que preciso comigo.
Quando voltou ao salão interno, os guardas a guiaram para as dependências da prisão. As chaves tilintaram, e logo diante dela estava Ignara, deitada na jaula, os olhos em chamas.
Nymira se ajoelhou, tocando as correntes. Os homúnculos de água deslizaram por seus braços, infiltrando-se nas fechaduras e quebrando-as com facilidade.
— Vamos embora daqui — disse com firmeza.
Ignara se ergueu, a cauda flamejante batendo no chão. E juntas, partiram pelas sombras da academia, mais fortes do que quando chegaram.
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