O salão da academia bélica de Velaskian fervilhava de vozes. O som metálico das espadas batendo em uníssono, as ordens dos capitães ecoando como trovões, a disciplina rígida que tornava cada soldado uma engrenagem viva. Nymira caminhava com passos incertos entre eles, disfarçando a fragilidade com uma postura altiva. Ainda sentia a garganta arder pela mentira que contara: cadete enviada para avaliação. Mas, para sua surpresa, haviam acreditado.

As fileiras se abriram diante dela. Um capitão trajando uma armadura pesada a guiou até um salão menor, onde armas e armaduras eram armazenadas. Sobre um suporte, estava uma armadura simples, de placas leves e cinzentas, ainda reluzentes pelo polimento.

— Cada cadete recebe sua proteção — disse o capitão, firme. — É apenas um fardo simbólico. Se viver o suficiente, poderá trocá-la por uma de soldado.

Nymira tocou as peças com a ponta dos dedos. O metal estava frio, e ao vesti-lo, parecia um peso maior do que ela poderia suportar. A armadura era estranha em seu corpo, como se tentasse negar sua natureza. Mas ela permaneceu firme. Se era esse o papel que precisaria fingir, o faria.

Quando retornou ao pátio, ouviu pela primeira vez as vozes explicando a ordem das patentes.

— Cadetes… — dizia o capitão. — Depois soldados. Então os Cavaleiros Sagrados, que servem como extensão da vontade dos deuses. Acima deles, apenas os Valetes Reais: dois para cada divindade, exceto Hyperion, que possui apenas um. E acima de todos… o Ás de Paus.

As vozes se calaram quando o nome foi dito. Era uma patente lendária.

— Ninguém nunca viu um Ás — continuou. — Eles servem diretamente aos deuses.

Nymira sentiu um calafrio. Aquela hierarquia não era apenas uma organização militar, era uma escada até o impossível.

E então, ele apareceu.

O som dos passos ecoou, e um homem alto atravessou o portão principal. Sua armadura dourada refletia a luz das tochas, e o símbolo de Hyperion brilhava em seu peito. O rosto severo, os olhos duros como lâminas.

Tyr. — o capitão anunciou, e todos se curvaram.

Nymira congelou. Tyr. O cavaleiro sagrado que havia derrotado Kaelvor.

— Escolham um cadete para enfrentar Tyr em treino — disse o capitão, hesitante.

Mas o próprio cavaleiro ergueu o braço e apontou diretamente para ela.

— Aquela.

Nymira sentiu o corpo gelar. Ainda assim, caminhou até a arena. A armadura leve pesava como chumbo. Os olhos de Tyr a perfuravam.

— Um rosto estranho. Não reconheço você. Mas talvez eu devesse. Recentemente, um verme de Hyperia ousou me enfrentar. Um garoto tolo que dizia queimar a Yggdrasil.

O nome não foi dito, mas Nymira sentiu a centelha. Algo queimou dentro dela, não em fogo, mas em água. A lembrança de Kaelvor tombando ensanguentado acendeu uma fúria que nunca havia sentido.

Quando Tyr avançou, ela ergueu as mãos instintivamente. A água brotou não como cura, mas como lâminas. Formas humanas surgiram, moldadas em líquido: homúnculos de água, de olhos vazios, que se interpunham entre ela e o golpe.

O choque da espada contra os corpos líquidos ressoou como um trovão. A água se dividiu, mas não se desfez. As figuras fluíram, reformando-se e agarrando a lâmina, protegendo Nymira.

O pátio inteiro silenciou.

Nymira respirava ofegante. Nunca havia usado sua água assim. Sempre para curar, para restaurar. Agora, ela percebia que o mesmo dom podia proteger, podia lutar, podia repelir.

Tyr recuou um passo, os olhos estreitados.

— Então você também é uma Valerion. Interessante. Não esperava ver isso aqui.

Ele avançou de novo, e os homúnculos reagiram, multiplicando-se, formando uma barreira viva ao redor dela. Um a um, atacavam em sincronia, pressionando o cavaleiro. O impacto não o derrubava, mas fazia com que recuasse, surpreso com a resistência.

Por fim, ele ergueu a mão, pedindo para cessar. A arena estava encharcada, o chão refletindo a luz como um espelho quebrado.

— Basta.

Nymira tremia, mas se manteve firme. Tyr a encarou longamente, então falou:

— Você lutou como uma soldada, não como cadete. Reconheço sua força. Está promovida.

Um murmúrio correu entre os guardas.

Nymira tirou o elmo da armadura leve e o segurou nas mãos. O metal frio não combinava com ela. No reflexo da água no chão, viu algo diferente: pequenas gotas começaram a surgir em sua pele, formando placas líquidas que cintilavam como cristal. Uma armadura nascida de si mesma, moldada por suas lágrimas e sua vontade. Roupas simples se transformaram em vestes elegantes, combativas, vivas.

Ela sorriu pela primeira vez em muito tempo.

— Eu não preciso de sua armadura. Eu já tenho tudo que preciso comigo.

Quando voltou ao salão interno, os guardas a guiaram para as dependências da prisão. As chaves tilintaram, e logo diante dela estava Ignara, deitada na jaula, os olhos em chamas.

Nymira se ajoelhou, tocando as correntes. Os homúnculos de água deslizaram por seus braços, infiltrando-se nas fechaduras e quebrando-as com facilidade.

— Vamos embora daqui — disse com firmeza.

Ignara se ergueu, a cauda flamejante batendo no chão. E juntas, partiram pelas sombras da academia, mais fortes do que quando chegaram.

Notas finais
Cada Deus possui dois valetes, exceto Hyperion, que possui apenas um. Há rumores que um dos valetes era tão antigo que se aposentou, restando apenas um. Outros dizem que o valete renunciou ao cargo para se dedicar ao destino de ser pai. Outros dizem que ele está apenas desaparecido.