Valerion - a Busca por Yggdrasil
16 A Promessa de Kaelvor
O deserto ardia sob a lua.
Ignara corria com velocidade sobrenatural, suas patas flamejantes incendiando a areia a cada passo. Sobre suas costas estavam Tiberan, ensanguentado e exausto, Nymira, agarrada com desespero à pelagem da raposa, e Kaelvor, que ainda respirava com dificuldade após a luta contra Drael.
Atrás deles, uma cena impossível se desenrolava.
Valerah, a cidade esquecida, desaparecia diante de seus olhos. Não em chamas, não em ruínas, mas comprimida dentro de um globo translúcido que brilhava como cristal.
As muralhas se dobraram para dentro, as casas se curvaram, os cidadãos gritaram enquanto eram sugados para aquela prisão de vidro.
O globo diminuiu, diminuiu, até caber na palma da mão do Valete, aquele homem de manto negro e máscara branca.
Ele ergueu a esfera contra a lua, observando como se fosse apenas uma peça de coleção.
— Ora, ora… finalmente capturei esta cidade. Agora, posso estudá-los de perto.
E fechou os dedos em torno dela.
O silêncio que se seguiu foi pior que qualquer grito.
Nymira começou a tremer.
Seus olhos se arregalaram, o corpo recusando acreditar no que acabara de presenciar.
E então ela explodiu.
— NÃO!
Ela bateu contra o dorso de Ignara, tentando fazê-la voltar.
— Meus irmãos! Minha família! Temos que voltar, agora!
Ignara rugiu baixo, mas não desacelerou. Tiberan a segurou pelos ombros, tentando contê-la.
— Nymira! Não podemos voltar. Ele nos esmagaria junto com a cidade.
— E daí?! — os olhos dela estavam cheios de lágrimas. — Eu deveria estar lá com eles! Eu deveria… eu deveria…
Sua voz quebrou em soluços.
Ela se virou para Tiberan e Kaelvor, os punhos cerrados.
— Isso aconteceu por causa de vocês! Foram vocês que trouxeram o caos para Valerah!
O silêncio entre eles pesou.
Tiberan não conseguiu responder.
No fundo, ele mesmo se culpava. Se não tivesse trazido Kaelvor até a vila… talvez Selindra nunca tivesse chegado, talvez Drael não tivesse sido enviado, talvez o Valete não tivesse aparecido.
Mas foi Kaelvor quem quebrou o silêncio.
Ele se ergueu, ainda fraco, o corpo marcado por cortes e cicatrizes, mas os olhos ardendo como brasas.
— Você tem razão — disse com firmeza, apesar da voz rouca. — Foi por minha causa.
Ele olhou para Nymira, encarando sua dor sem desviar.
— Mas eu juro… vou trazer sua vila de volta. Vou salvar seus irmãos.
Nymira o encarou, surpresa.
— Você não entende… ninguém pode enfrentar o Valete. Ninguém! Ele não é um cavaleiro comum, nem mesmo um cavaleiro sagrado. Ele… ele está em um patamar muito acima.
Kaelvor apertou os punhos.
— Então eu vou até esse patamar.
As chamas em seu corpo se intensificaram, mesmo contra sua vontade, iluminando a noite do deserto.
— Eu juro, Nymira. Nem que eu precise queimar o mundo inteiro, eu vou salvar Valerah.
As palavras ecoaram como um trovão.
Tiberan fechou os olhos por um instante, absorvendo aquilo.
Ele já tinha visto Kaelvor falar em queimar Yggdrasil, em desafiar deuses… mas nunca daquela forma. Não era só insanidade.
Era determinação.
Uma chama que não se apagava, mesmo diante da derrota, da humilhação e da dor.
Nymira, ainda com lágrimas nos olhos, respirou fundo.
Seu coração doía, sua cabeça dizia que era impossível.
Mas uma voz interna, fraca, insistia: “E se ele puder… e se ele realmente puder cumprir o que promete?”
Ela limpou o rosto com o dorso da mão, ainda tremendo, mas agora com um novo brilho nos olhos.
— Então… eu vou com vocês.
Sua voz saiu firme, mesmo que seu corpo fosse frágil.
— Eu vou ficar mais forte. Forte o bastante para ajudar a salvar minha vila.
Kaelvor sorriu de lado, apesar do cansaço.
— É isso que eu queria ouvir.
Ignara soltou um rugido baixo, como se aprovasse a decisão.
E Tiberan, em silêncio, olhou para frente, pensativo.
Ele sabia que aquele momento era mais do que uma promessa.
Era o nascimento de algo maior.
A raposa flamejante continuou a avançar pelo deserto, deixando atrás de si apenas brasas e cinzas.
E acima deles, o céu escuro parecia carregar a lembrança de Valerah, agora perdida dentro da mão de um inimigo muito maior do que eles podiam compreender.
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