Valerion - a Busca por Yggdrasil
17 A Sombra de Velaskia
O deserto deu lugar a uma planície mais fria, onde o vento carregava o cheiro distante de ferro.
Ignara corria incansável, mas já em ritmo menos frenético. A lua ainda iluminava o caminho, e, pela primeira vez desde a queda de Valerah, o silêncio tomou conta do grupo.
Nymira permanecia cabisbaixa. Seus dedos brincavam com a bainha de tecido de sua roupa, apertando e soltando, como se tentasse conter as memórias que a rasgavam por dentro. Ao seu lado, Kaelvor mantinha os olhos fixos no horizonte, o fogo em seu olhar inabalável, mesmo que o corpo ainda clamasse por descanso.
Tiberan, sentado atrás de ambos, foi o primeiro a quebrar o silêncio.
— Estamos perto de Velaskian. — Sua voz soou calma, mas carregava cautela. — É a cidade que cultua a deusa Velaska. Não é como Hyperia, e muito menos como Phytonia.
Kaelvor ergueu uma sobrancelha.
— E o que tem de tão diferente?
— Tudo. — Tiberan respondeu, cruzando os braços. — Em Velaskian, o ferro é lei. A maioria dos habitantes nasce e morre cercada de aço. São guerreiros, ferreiros, guardas. Muitos dos Valerion de lá controlam o metal, criando armas, armaduras ou ferramentas bélicas. Para eles, ser fraco é ser descartável.
Nymira ergueu o rosto, pela primeira vez mostrando interesse.
— Talvez… talvez eu consiga uma armadura lá. Algo que proteja meu corpo. — Ela tossiu levemente, mas manteve a voz firme. — Se eu for mais resistente, poderei lutar de verdade… não apenas curar os outros.
Kaelvor sorriu de canto.
— Você? De armadura? Já consigo imaginar.
Ela o olhou de lado, séria.
— Não zombe de mim. Eu vou me fortalecer, custe o que custar.
Kaelvor ergueu as mãos, rindo.
— Eu não zombei. Eu realmente consigo imaginar. Vai ser interessante.
Tiberan observou os dois, mas manteve-se quieto. Seus olhos, sempre serenos, brilhavam de forma enigmática.
O grupo seguiu em silêncio por mais um tempo, até que Nymira, ainda pensativa, voltou-se para Kaelvor.
— Mas me diga… por que você quer tanto queimar Yggdrasil?
O fogo nos olhos do jovem pareceu se intensificar.
— Porque ela precisa arder.
— Só isso? — Nymira insistiu. — É uma árvore lendária. É sagrada para muitos. O que você ganha destruindo-a?
Kaelvor deu de ombros, mas sua voz veio firme, quase feroz:
— Tudo. Se eu a queimar, vou provar que até o que dizem ser eterno pode ser reduzido a cinzas. E, além disso… é só queimando que vou entender o que ela realmente é.
Nymira não respondeu. Apenas baixou os olhos, inquieta. Aquela obsessão a intrigava. Parte dela achava loucura, mas outra parte… sentia que talvez fosse justamente essa loucura que os guiaria até a árvore que ninguém jamais encontrara.
Tiberan foi quem interrompeu os pensamentos dela.
— Há outro detalhe. — Seu tom ficou mais sério. — Velaskian já deve ter notícias sobre nós. A derrota de Selindra, a morte de Drael, o desaparecimento de Valerah… vão nos ver como hereges ou rebeldes. Talvez sejamos caçados ao pisar lá.
— E daí? — Kaelvor respondeu, sem hesitar. — Eu não vou recuar de ninguém. Já enfrentei Cavaleiros Sagrados e sobrevivi. Agora… tenho uma vila para salvar. E uma árvore para queimar.
O fogo em suas palavras fez Ignara erguer as orelhas e soltar um rosnado baixo, como se também estivesse pronta para a luta.
O vento mudou. A planície deu lugar a uma floresta densa, onde as árvores altas escondiam a luz da lua. As sombras se estendiam pelo chão como dedos.
Ignara avançava com cautela, farejando o ar.
De repente, bem diante deles, surgiu uma porta de aço suspensa no ar, sem parede, sem moldura. Apenas uma porta solitária, iluminada por símbolos que brilhavam no escuro.
Kaelvor franziu o cenho.
— O que…?
Ignara não conseguiu parar a tempo. A raposa atravessou a porta, levando todos com ela.
Houve um clarão.
E, num instante, a floresta desapareceu.
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