O deserto deu lugar a uma planície mais fria, onde o vento carregava o cheiro distante de ferro.

Ignara corria incansável, mas já em ritmo menos frenético. A lua ainda iluminava o caminho, e, pela primeira vez desde a queda de Valerah, o silêncio tomou conta do grupo.

Nymira permanecia cabisbaixa. Seus dedos brincavam com a bainha de tecido de sua roupa, apertando e soltando, como se tentasse conter as memórias que a rasgavam por dentro. Ao seu lado, Kaelvor mantinha os olhos fixos no horizonte, o fogo em seu olhar inabalável, mesmo que o corpo ainda clamasse por descanso.

Tiberan, sentado atrás de ambos, foi o primeiro a quebrar o silêncio.

— Estamos perto de Velaskian. — Sua voz soou calma, mas carregava cautela. — É a cidade que cultua a deusa Velaska. Não é como Hyperia, e muito menos como Phytonia.

Kaelvor ergueu uma sobrancelha.

— E o que tem de tão diferente?

— Tudo. — Tiberan respondeu, cruzando os braços. — Em Velaskian, o ferro é lei. A maioria dos habitantes nasce e morre cercada de aço. São guerreiros, ferreiros, guardas. Muitos dos Valerion de lá controlam o metal, criando armas, armaduras ou ferramentas bélicas. Para eles, ser fraco é ser descartável.

Nymira ergueu o rosto, pela primeira vez mostrando interesse.

— Talvez… talvez eu consiga uma armadura lá. Algo que proteja meu corpo. — Ela tossiu levemente, mas manteve a voz firme. — Se eu for mais resistente, poderei lutar de verdade… não apenas curar os outros.

Kaelvor sorriu de canto.

— Você? De armadura? Já consigo imaginar.

Ela o olhou de lado, séria.

— Não zombe de mim. Eu vou me fortalecer, custe o que custar.

Kaelvor ergueu as mãos, rindo.

— Eu não zombei. Eu realmente consigo imaginar. Vai ser interessante.

Tiberan observou os dois, mas manteve-se quieto. Seus olhos, sempre serenos, brilhavam de forma enigmática.

O grupo seguiu em silêncio por mais um tempo, até que Nymira, ainda pensativa, voltou-se para Kaelvor.

— Mas me diga… por que você quer tanto queimar Yggdrasil?

O fogo nos olhos do jovem pareceu se intensificar.

— Porque ela precisa arder.

— Só isso? — Nymira insistiu. — É uma árvore lendária. É sagrada para muitos. O que você ganha destruindo-a?

Kaelvor deu de ombros, mas sua voz veio firme, quase feroz:

— Tudo. Se eu a queimar, vou provar que até o que dizem ser eterno pode ser reduzido a cinzas. E, além disso… é só queimando que vou entender o que ela realmente é.

Nymira não respondeu. Apenas baixou os olhos, inquieta. Aquela obsessão a intrigava. Parte dela achava loucura, mas outra parte… sentia que talvez fosse justamente essa loucura que os guiaria até a árvore que ninguém jamais encontrara.

Tiberan foi quem interrompeu os pensamentos dela.

— Há outro detalhe. — Seu tom ficou mais sério. — Velaskian já deve ter notícias sobre nós. A derrota de Selindra, a morte de Drael, o desaparecimento de Valerah… vão nos ver como hereges ou rebeldes. Talvez sejamos caçados ao pisar lá.

— E daí? — Kaelvor respondeu, sem hesitar. — Eu não vou recuar de ninguém. Já enfrentei Cavaleiros Sagrados e sobrevivi. Agora… tenho uma vila para salvar. E uma árvore para queimar.

O fogo em suas palavras fez Ignara erguer as orelhas e soltar um rosnado baixo, como se também estivesse pronta para a luta.

O vento mudou. A planície deu lugar a uma floresta densa, onde as árvores altas escondiam a luz da lua. As sombras se estendiam pelo chão como dedos.

Ignara avançava com cautela, farejando o ar.

De repente, bem diante deles, surgiu uma porta de aço suspensa no ar, sem parede, sem moldura. Apenas uma porta solitária, iluminada por símbolos que brilhavam no escuro.

Kaelvor franziu o cenho.

— O que…?

Ignara não conseguiu parar a tempo. A raposa atravessou a porta, levando todos com ela.

Houve um clarão.

E, num instante, a floresta desapareceu.

Notas finais
Velaskian é uma região bem bélica, com adornos parecendo uma versão repaginada da Roma antiga. Muitas estátuas, templos e soldados espalhados por toda parte.