Valente
29 XXVII

Aidan
Desembarcamos. Havia sido um dos voos mais vazios que eu já havia tido. Ao contrário dos demais aeroportos, o aeroporto de Detroit não era tão movimentado quanto você esperaria. Não depois da crise que quebrou a cidade. Passamos direto pelas esteiras de bagagens, visto que nós cinco estávamos levando apenas uma mochila com roupas fáceis de lavar na mão.
Rebecca tinha estado muito quieta nos últimos dias, desde que havia decidido por tentar salvar seu falecido pai do purgatório eterno que é a Terra. E, por consequência, havia decidido salvar sua mãe. Ninguém fazia ideia do que esperar dessa cidade nova, que à noite era tomada por sobrenaturais, então era compreensível que Rebecca estivesse com muita coisa na cabeça. Não sei se ela estava se arrependendo de sua decisão ou se estava apenas se questionando se sua mãe já não tinha passado do ponto em que há salvação. De qualquer maneira, ela continuava sendo ela mesma, apenas mais silenciosa, e todos davam a ela o espaço que ela precisava.
Quando conseguimos um motorista de uma minivan para nos levar até o hotel que eu havia reservado, Lucius Latham revirou seus olhos para mim. Eu sabia o que ele estava pensando. Não só ele, todos. Muito provavelmente não ficaríamos muito em quarto algum, mas, assim como em Las Vegas, ter um abrigo em uma cidade nova era necessário.
À medida que íamos até o hotel, cada um de nós apreciava a paisagem. A “paisagem”. Detroit já havia sido a quarta maior cidade dos Estados Unidos. Hoje, não passava de uma cidade fantasma. A população da cidade tinha se reduzido a ponto de chegar no mesmo patamar que era em 1910. Um século atrás.
Eu não diria que Detroit não tinha salvação – obviamente estava muito melhor do que como estava logo após a crise do subprime – mas ainda era, parcialmente, deserta. Podia-se ver lojas fechadas e poucas pessoas nas ruas. Não havia trânsito algum. Casas vandalizadas, escolas vazias, fábricas abandonadas. Já fazia seis anos, mas os sinais da evasão em massa da cidade devido ao desemprego altíssimo eram evidentes assim como uma profunda cicatriz. Detroit tinha potencial para novamente se tornar uma cidade importante, mas seria difícil ela voltar a ser do tamanho que era antes.
— Não tem nenhum carro na rua – Scarlet comentou, parecendo chocada. Não havia nenhum carro sequer estacionado.
— Acredito que seja por dois motivos – respondeu Riley para ela. – As pessoas que estão aqui não têm condições de mantê-los, ou ninguém os deixa em lugares públicos pois certamente serão roubados ou vandalizados.
— Mas e o policiamento? – a Selvagem perguntou novamente, parecendo não compreender o estado em que uma das cidades mais prósperas do mundo podia chegar com uma grave crise econômica.
Dessa vez, quem se sentiu na obrigação de esclarecer foi o próprio motorista.
— Moça, nossos policiais não são suficientes para patrulhar tudo. Muitos foram embora, pois não recebem salário integralmente. E os criminosos, é claro, prosperam nessas condições. Tem certas áreas em que nem os policiais adentram mais. – Ele suspirou, e pela tristeza em sua voz, imaginei que ele fosse um dos cidadãos que havia nascido e crescido na cidade, e relutava em sair dela, apesar de tudo o que acontecia. – Se aventurem por Detroit por sua própria conta e risco, pois não haverá segurança alguma que a cidade possa oferecer a vocês.
Rebecca estremeceu ao meu lado. Eu sabia que não era medo de violência humana – a menos que algum ladrão com balas de prata tentasse nos abordar, não teríamos problemas. Mas eu conhecia ela, e sabia que ela sentia pena das pessoas que continuavam aqui, por vontade de reerguer a cidade, ou por falta de oportunidade de sair.
Chegamos ao hotel e aproveitamos a única oportunidade, muito provavelmente, de tomarmos cada um seu devido banho e momentos de tranquilidade. Deixamos as mochilas e pegamos apenas o essencial.
Era até mesmo nostálgico, procurar alguém em uma cidade com Rebecca, Scarlet e Lucius. A única diferença era que algumas pessoas não estavam mais conosco, e Riley havia tomado o lugar delas. Ele, é claro, havia insistido em nos acompanhar. Quando Scarlet havia me contado, ainda por telefone na Cidade do México, que o pai de Rebecca havia entrado em contato com ela, ela me fez prometer que ela iria junto para onde quer que nós fôssemos. Queria acompanhar sua amiga no que tivesse que ser feito a qualquer custo. E eu cumpri a promessa. E com ela vindo, Riley se sentiu na obrigação de acompanhar para se certificar de que sua namorada continuasse muito viva e saudável. Eu sabia muito bem como ele se sentia, então logicamente não neguei seu pedido. Além do mais, devido à nossa última invasão, eu não queria que meu Segundo ou Terceiro em comando saíssem de seus postos, apenas se muito necessário.
Ao contrário de Las Vegas, Detroit, por razões óbvias, não tinha tanta gente. Não tinha muito barulho, não tinha muito movimento, não tinha muitos cheiros. De certa forma, isso facilitava as coisas para nós.
Rebecca não tinha, em sua memória, o cheiro de sua mãe, ao menos não forte o suficiente para pode rastreá-lo em uma cidade de trezentos e setenta quilômetros quadrados. Contudo, nós sabíamos como drogas cheiravam, e decidimos seguir por aí.
Apesar de Detroit não ter muitos cheiros, havia muito de um em específico: Metanfetamina. O que, contraditoriamente, dificultava nosso trabalho. Havia muito, e que nos levava para todas as direções possíveis. Rebecca franzia o nariz constantemente durante nossa busca, e eu não sabia se era pelo cheiro ruim da droga, ou pelo fato de que sua mãe podia, muito bem, ser uma usuária dessa substância tão pesada.
No primeiro dia, não encontramos nada. Quer dizer, encontramos muitas pessoas viciadas em drogas, mas em nenhum dos centros estava Melissa. Lucius foi o primeiro a sugerir que nos separássemos, mas não fui eu que neguei, e sim Rebecca.
— Não. Não. De jeito nenhum. – Ela grunhiu, muito provavelmente pelo estresse. – Não por causa de mim. Vocês estão aqui por minha causa, para me ajudar a ajudar uma mulher que nem merece nosso esforço. Em algum lugar aqui, escondidos nas sombras, há um clã vampírico que está controlando o tráfico nessa cidade, se é que não estão controlando a cidade inteira. Nós já somos poucos. Se nos dividirmos ainda mais, e eles acharem algum de nós...
Ela pausou e vi sua pele ser coberta por calafrios. Puxei-a pelo ombro em um abraço lateral, para reconfortá-la. Ela se aconchegou e continuou.
— Não estou dizendo que esses vampiros também sabem fazer o que Roman e Francis Holland fizeram comigo. Mas vampiros têm habilidades secretas e não quero que nenhum de vocês virem alvos fáceis para esse tipo de vulnerabilidade. – Ela encarou Luke, seus olhos azuis como o gelo, e eu soube que sua loba estava tão aflita quanto ela para manter seus amigos próximos. – Sem separações.
Após mais buscas infrutíferas durante o primeiro dia, não nos restou nada além de nos refugiarmos em nossos quartos de hotel, ao menos para recuperarmos as energias e os ânimos. Aposto que ninguém achou desnecessários os quartos depois de se recolherem.
No meio da madrugada, após nós dois já termos pegado no sono, senti alguém me cutucar e virei-me de lado na cama. Rebecca me encarava na escuridão, seus olhos cor de mel tão acesos e suas olheiras tão fundas que eu tive certeza de que o único que havia pegado no sono havia sido eu.
— Eu... – ela começou, hesitando. Desviou seu olhar do meu, parecendo arrependida de ter me acordado abruptamente.
— Rebecca – sussurrei. – Rebecca, eu sei que você está sentindo fortes emoções, e sei que segurá-las para si não vai lhe fazer bem. – Coloquei uma mecha de seu cabelo atrás de sua pequena orelha. – Escutá-la sempre que você precisar desabafar faz parte de minha função. Como Alpha, como homem, como seu.
Ela suspirou, mas levantou seus lindos olhos novamente para mim. Parecia um bom sinal.
— Eu não deveria ter trazido eles – confessou. – Deveria ter feito os três ficaram em casa. Deveria ter forçado eles a ficarem em Columbus. Nem mesmo você eu queria que estivesse aqui, mas eu sei que com você eu não conseguiria argumentar. – Baixou sua cabeça mais uma vez e não me ofendi, pois era verdade. Eu iria para os confins da Terra com ela se ela precisasse.
Rebecca suspirou mais uma vez, decidindo se levantar e ficar sentada na cama. Acendeu o abajur do seu lado. Permaneci deitado, mas apoiando-me com o cotovelo para poder encará-la de lado e com a outra mão apoiada carinhosamente em sua coxa.
— Sei que tenho que pensar que nada de ruim vai acontecer. Por mais que eu seja uma lobisomem, acredito muito nessas superstições de que quanto mais você pensa numa coisa, mais ela pode vir a se tornar realidade. Então, de fato, sempre que me pego pensando que um de vocês vai se machucar feio por minha causa, ou que vocês estão correndo um perigo desnecessário, eu me xingo mentalmente e tento levar meus pensamentos para outro lugar. Qualquer lugar que seja. Mas eu fico com isso me incomodando no fundo de minha mente noite e dia.
— Amor – murmurei, e ela arregalou os olhos brevemente. – estou muito orgulhoso de você ter tomado a sua própria decisão sobre o que fazer com Melissa. Consigo perceber quanto você está angustiada com essa situação toda, e ouso dizer que você só irá se sentir melhor quando tudo isso já tiver passado. Mas, se tem uma coisa que eu tenho certeza, é de que todos que estão aqui agora estão aqui por causa de você.
Ela franziu a testa, seu olhar me dizendo que eu não estava ajudando em nada. Contive uma risada.
— E não quero dizer que estão aqui porque Melissa está em apuros. Eles estão aqui por sua causa porque eles se importam com você. São seus amigos e amam você. E, mais importante de tudo, eles sabem que é um momento emocionalmente pesado para você, e querem estar aqui para te apoiar, seja fisicamente em batalha, seja emocionalmente em momentos compartilhados juntos. Portanto, Rebecca, eles sabem e concordam com todo e qualquer tipo de risco que possam vir a correr. São todos adultos, são todos seres sobrenaturais. E sabem bem no que estão se metendo, sem se arrepender. – Afaguei sua coxa, mexendo minha mão ao longo dela. – Então, por favor, sei que continuará com um turbilhão de emoções nesses dias, mas tente não ser afetada demais por esse lado de sua tormenta.
Ela levantou seu olhar de minha mão em sua coxa, que encarava enquanto eu falava, e fitou-me. Um pequeno sorriso esboçou seus lábios, parecendo-me até um pouco travesso.
— Você tem razão, e eu sei bem como eles estão aqui porque se importam comigo. Eu faria a mesma coisa no lugar deles. Vou me esforçar ao máximo para não deixar que nada de ruim aconteça a eles, mas preciso respeitar a decisão deles de estar aqui. Além disso, se eu ficar remoendo essas inseguranças, não serei muito útil ou muito atenta lá fora.
Seus olhos, agora azuis, transbordavam gratidão, por mim, por eles. Depois de mais ou menos um minuto em silêncio, ela prosseguiu.
— É a primeira vez que você me chama de amor – ela disse, o sorriso sempre presente.
Surpreendi-me com essa afirmação e, portanto, estreitei meus olhos.
— O quê? Não é verdade.
— É sim. – Ela deu uma pequena risada. – Você sempre me chama apenas de Rebecca. Na verdade, acho que não consigo me recordar de uma vez sequer em que tenha me chamado por meu apelido.
— Mas Rebecca é um nome tão bonito, tão sonoro e cheio de melodia. – Ela revirou seus olhos e eu ri. – Estou falando sério. Você não é só a Becca pra mim. É a Rebecca.
— Pra alguém que nunca tenha me chamado de amor, você é muito clichê.
— Eu jurava que já te chamava! – protestei, e ela balançou a cabeça negativamente. – Ao menos em minha mente te chamo assim. – Movi-me para acariciar a lateral de seu corpo e fazê-la voltar a se deitar. Em uma voz mais gutural, acompanhado de meu lobo, falei: – Prometo que daqui em diante, irei me empenhar em te chamar de amor com mais frequência.
Ela soltou uma risadinha enquanto se afundava para debaixo de mim, e deixamos as tormentas e preocupações do dia de lado por algumas horas a mais.
—x-
— Se sua mãe não estiver nesse lado da cidade, Becca, honestamente creio que o fantasma de seu pai esteja errado – informou Luke. Já estávamos no final da tarde do segundo dia de buscas, e só nos restava vistoriar metade do norte da cidade de Detroit. – Vai lá, pessoal, parece que o cheiro de meth dessa vez bifurca em três caminhos. Qual devemos perseguir primeiro?
Lucius estava liderando essa segunda metade do dia, farejando mais a frente para ditar a rota geral enquanto nós, atrás, tínhamos mais liberdade para investigar lugares próximos e prestar mais atenção em todos os cheiros que nos passavam.
— Em primeiro lugar, ela não é minha mãe. Não de verdade. – Rebecca grunhiu ao meu lado, farejando discretamente o chão. – E em segundo, dizem que três é um número sortudo, então vamos pelo terceiro caminho.
O lobo à frente não respondeu, apenas abaixou a cabeça e nos levou para a direita, em meio a uma rua já escura. O sol ainda estava alto no céu, mas os prédios altos dessa rua faziam sombras longas e que continham promessas de perigo. Seguimos por esse caminho até o sol terminar de se pôr e o aroma de diversas drogas, não somente metanfetamina, era realmente muito presente nesse trajeto.
— Tenho a impressão de que vamos encontrar um grupo muito grande dessa vez – Riley mencionou, minutos antes de darmos de cara com um Wendy’s abandonado.
A pintura do antigo restaurante de fast-food estava toda acinzentada e escorrida, com rachaduras e sinais de infiltração. A icônica placa com a menina ruiva estava prestes a cair, pendurada apenas por um lado e balançava com uma brisa mais forte. Era apenas questão de tempo até aquilo cair na cabeça de alguém e matar um.
O prédio não estava tão diferente do resto dos estabelecimentos nesses cantos da cidade, em que a força policial não atuava mais. Mas o que nos chamou a atenção no prédio era que, graças às grandes janelas, dava para ver tudo o que havia ali dentro.
As mesas e cadeiras haviam sido todas amontoadas do lado de fora do estabelecimento, em um canto do estacionamento, barrando uma das portas de entrada. Não dava para dizer se era intencional ou não, visto que a outra porta, que dava para a rua, estava perfeitamente acessível. Todo o chão do local estava amontoado de papelão e cobertas finas. Ocasionalmente podia-se ver um saco de dormir. Até mesmo a cozinha da corrente de fast-food estava com o chão ocupado por camas improvisadas.
E as pessoas. As pessoas que dormiam nesses lugares. Havia dezenas delas lá dentro, mas pelo número de estranhas camas, eu chutaria que se passava de cem moradores. E, de alguma maneira, todas essas pessoas conseguiam se espremer e morar dentro desse estabelecimento decadente. Não havia sido muito diferente do cenário que vimos em outros centros de drogas, mas esse era o mais amontoado em termos de pessoas por metro quadrado. Fechei meus olhos ao sentir meu estômago embrulhar ao imaginar o estado dos banheiros.
— É, está tudo vindo daqui – Luke tirou todos nós de nosso transe de espanto. – Essa é a fonte da trilha de meth, pessoal.
— Tudo bem. – Scarlet suspirou. – Vamos entrar, então.
Olhamos todos para Rebecca, que assentiu, engolindo em seco.
— Vamos. Vamos lá. – Ela então tomou a dianteira, pois era a única que conseguiria reconhecer a mãe. – Honestamente espero que ela não esteja nesse, mesmo que tenhamos que passar a noite toda procurando mais uma vez.
Demos a volta para chegar até a porta de entrada principal, a única que não estava barrada por mesas e cadeiras, e a cada passo que dávamos éramos invadidos cada vez mais como cheiro de podridão. Drogas, urina, fezes, vômito, imundice. Olhei para os outros e percebi que eu não era o único lutando contra minha náusea.
Ela abriu a porta, ação que não chamou a atenção de nenhum deles ali dentro. Alguns ainda dormiam, alguns perambulavam lentamente pelo restaurante, alguns havíamos visto sentados no estacionamento.
‘Os mais agitados devem estar correndo pela cidade’ Meu lobo sugeriu e concordei. Os que estavam aqui pareciam ser os que já haviam apagado, os que usavam drogas menos euforizantes ou os que o efeito já havia passado.
Rebecca passava por cada uma das pessoas que estava em pé ou andando, chegando perto das mulheres para ver seus rostos. Algumas, como no dia anterior, ficavam incomodadas e empurravam-na para longe, mas nenhum de nós intervia, nem mesmo Rebecca. Ela só se importava em achar Melissa.
Virou-se para nós quando chegou até a última pessoa que estava em pé, apoiada no balcão que antes atendia os clientes. Suspirou, balançando negativamente sua cabeça em um sinal de que não havia achado a mulher. Scarlet deu de ombros e gesticulou para Rebecca checar os que estavam dormindo. Enquanto ela fazia isso, nós investigávamos junto, mas com o intuito de achar algum traço de sobrenatural nas pessoas. Como de costume, não achávamos nada, pois o cheiro de todas as outras coisas, encobria qualquer breve encontro que essas pessoas poderiam ter tido com o nosso mundo.
Eu estava descansando um pouco de minha parte da busca, apoiado contra uma das janelas, quando vi Rebecca cair para trás. Caiu sentada em cima de um papelão mal acolchoado, quase em cima da pessoa que cochilava bem atrás dela. Fui até ela e a observei se recompor, e afastar os cabelos castanhos de uma mulher, tão sujos que pareciam cachos negros.
— Está tudo bem? – sussurrei para ela, mas ela nem sequer me olhou. Estava compenetrada na mulher adormecida.
Nossos amigos já haviam percebido o tumulto também, mas ao invés de se aglomerarem conosco e correr o risco de agitar todas essas pessoas, ficaram alertas em seus respectivos lugares.
— M-Melissa? – Ela estreitou os olhos para a mulher, como se não tivesse completa certeza de que se tratava de sua mãe. Cutucou-lhe o braço e em seguida encostou em seu rosto, mas a pessoa sequer se mexeu. Se não fosse pela sua respiração visível, era possível confundi-la com um cadáver. – Melissa Rice? – tentou novamente, mas sem sucesso.
Ela então virou-se para mim, com os olhos assustados.
— É ela? – perguntei em um sussurro.
— Eu, eu acho que sim – respondeu, espiando a mulher novamente. – Não tenho como ter total certeza, mas parece ser ela. – Ela então engoliu em seco e, observando atentamente a outra, completou. – Sei que um pouco é a sujeira, mas ela parece que envelheceu uns quinze anos desde que a vi pela última vez.
Afaguei suas costas, pois, realmente, não sabia como confortá-la nessa situação. As drogas deixavam marcas permanentes na mente e no corpo do usuário, e era muito complexo apaziguar quem sobrava dessa prática horrenda.
— Melissa? – sussurrou novamente, mas um pouco mais alto. A mulher pareceu franzir o cenho levemente dessa vez, e percebi como Rebecca pareceu melhorar levemente os ânimos. – Mãe? – Surpreendi-me com sua atitude, mas o uso dessa palavra, junto com o afago em seu rosto, fez com que a mulher finalmente abrisse seus olhos.
Olhos tão familiares, mas tão diferentes. Tão confusos e tão sofridos.
— Aaagh! – Melissa saltou para trás, tão assustada quanto sua filha havia estado minutos atrás quando a encontrou. Seu espanto não foi alto o suficiente para acordar nenhum dos adormecidos, mas chamou brevemente a atenção dos usuários acordados.
— Melissa – Rebecca chamou-a, novamente usando seu nome. Ela havia parado de gaguejar e percebi naquele momento como ela estava sendo forte. Não estava sendo nada fácil para ela, esse reencontro indesejado e no pior dos lugares, mas ela conseguia, ainda, manter sua compostura. – Melissa, você sabe quem eu sou?
A expressão de Melissa era pura confusão, parecia sequer saber onde estava. Engatinhou para trás até esbarrar em outra pessoa que dormia.
— Melissa, está tudo bem. Ninguém aqui veio te machucar. – Sua voz era suave ao tentar chamar a mãe de volta, tentar convencer a pessoa que estava escondida dentro do vício a sair.
Ela continuava a falar, suavemente, pequenas coisas para tranquilizar Melissa e, depois de um tempo, parecia que um véu havia sido removido de cima da mulher. Seus olhos pareciam mais acesos, mais inteligentes, e o reconhecimento a transbordou.
— Rebecca? – A voz de Melissa estava baixa e rouca, difícil de entender e falhava. – É mesmo você? É você de verdade? – Sua mãe então se levantou e andou até a filha, que ficou igualmente em pé.
Pude ver a expressão de Rebecca, dolorosa, ao ver sua mãe em pé pela primeira vez. Era evidente a desnutrição, as marcas de agressões, brigas. Hematomas, arranhões e marcas de agulhas adornavam seus braços e pernas em uma pintura digna de pesadelos. Rebecca quase cambaleou para trás ao ver a cena, mas a segurei com uma mão na lombar, tentando passar um pouco de minhas forças para ela. Novamente, ela sequer me olhou, concentrando-se em seu objetivo: levar sua mãe para casa.
— Sou eu, sim. Estou aqui.
— Você não é de mentira? Não é minha imaginação? – Melissa levantou as mãos para tocar o rosto da loba, e Rebecca, ainda com minha mão em suas costas, não estremeceu. Fechou seus olhos e sentiu.
— Sou real. Estou aqui de verdade.
Melissa sorriu e, com seus olhos cor de mel brilhando, pude perceber ainda mais as semelhanças entre mãe e filha. Pelo pouco que pude perceber das duas, Rebecca tinha herdado grande parte de suas feições do pai, mas os olhos e, possivelmente, os cabelos eram de sua mãe inegavelmente, gostasse ela ou não.
— Vim aqui para ajudá-la. Vamos, vou te levar para o hotel para você se arrumar. Vamos comer uma grande refeição e-
— Não! – O grito foi tão abrupto que pareceu que havia rompido o tímpano de todos os presentes. Melissa tirou suas mãos do rosto de Rebecca e as posicionou defensivamente entre ela e a filha. – Não vou a lugar algum! O que você quer?!
— Como assim? Como assim, o que eu quero? – Rebecca estava assustada, mas não era nervosismo que acompanhava suas palavras. Era raiva. – O que você acha que estou fazendo aqui, passeando? Vou tirá-la desse beco imundo e trazê-la de volta a sociedade! – Rebecca não erguia a voz ao ponto de chegar a um grito, era apenas um sussurro acalorado.
— Não, não vai! – teimava Melissa.
— Olhe onde você está! Olhe bem! É isso que você quer? – Ela gesticulava para as outras pessoas, no chão, desatentas e perambulando. – Mãe, você precisa de ajuda. Eu vim ajudar. – Pareceu se acalmar e decidiu tentar outra tática para acalmar a mulher.
Parecia ter funcionado, pois Melissa abaixou seus braços machucados e fitou o chão. Rebecca viu essa oportunidade para dar alguns passos a frente e encostar sua mão delicadamente em seu ombro, em um sinal de apoio e conforto.
Levantei-me, pois já previa o pior e, dito e feito, aconteceu. Assim que os dedos delicados de Rebecca encostaram em Melissa, ela parecia ter enlouquecido e empurrou Rebecca para longe, arranhando a filha no processo. Rebecca não parecia demonstrar nenhum sinal de dor física, mas sua mãe estava em um frenesi. Gritava e chutava o ar, mandando-a embora.
— Mas eu... eu preciso levá-la, Aidan. – Rebecca se virou para mim, os olhos cheios de alarme e preocupação, um pouco marejados pelo trauma que sofria nesse momento.
— Nós vamos, mas acho que não poderemos assim. Precisamos que ela se acalme – respondi, assentindo, afagando seu braço machucado pelas unhas de Melissa.
— Saia! Saia daqui! – Melissa gritava com toda a força de seus pulmões não muito fortes, acordando os demais viciados e deixando todos aflitos, inclusive a gente. – Vá embora, sua cadela! Deixe-me em paz! Estou feliz aqui! Não se meta na minha vida!
Tudo ali dentro do Wendy’s estava virando um festival de nervos. Os que perambulavam começaram a gritar conosco também, mandando-nos embora, e os que acordaram, ainda atordoados, apenas se juntavam à melodia histérica com coisas desconexas.
Estava no processo de virar Rebecca para irmos embora quando a porta se abriu. Não eram viciados, ou ao menos não pareciam. Era um grupo de quinze pessoas com roupas escuras, óculos escuros e mochilas, mas não pareciam sujos nem atordoados. Estavam completamente cientes de seus arredores e do que acontecia. Completamente cientes de que nós não deveríamos estar ali.
— Que gritaria é essa! – berrou uma mulher de curtos cabelos negros. Estudou todo o ambiente e sua voz congelou a todos, até mesmo Melissa que parecia fora de si. – Não gosto quando causam confusão na minha área. – Sua voz era distorcida, como se mais de uma pessoa estivesse falando ao mesmo tempo que ela. Uma das vozes era profunda como as profundezas do oceano, e a outra parecia chiar como uma serpente.
Demônios.
Levantou seus óculos de sol para deixar seus olhos à mostra, sabendo, sem dúvidas, o impacto que teria nos meus amigos que não necessariamente sabiam do que se tratava. Sem íris, sem o branco dos olhos, apenas uma escuridão completamente vazia.
— Existe uma bela uniformidade no caos, queridos. Uma uniformidade que pretendo manter. – Ela deu alguns passos em direção à Scarlet e Riley, que estavam mais próximos dela. Percebi Lucius dar um passo à frente de onde estava, porta que dava ao estacionamento. – Então se vocês planejam acabar com a minha ordem, sinto em dizer que irão falhar. – Seu sorriso era largo demais para um humano e, mesmo eu e Rebecca estando longe dela, senti um arrepio percorrer meu corpo.
O demônio fez um gesto com a mão esquerda e cinco de seus acompanhantes começaram a se espalhar pelo ambiente. À medida que abriam suas mochilas, os viciados mais próximos corriam para perto deles, entregando uma infinidade de objetos diversos em troca dos produtos que os demônios tinham a oferecer. Rebecca deu um sobressalto quando Melissa saiu de encontro a um dos traficantes, como se sua vida dependesse disso.
— Não é porque um bando de enxeridos decidiu tumultuar minha área que vou deixar de prestar meu serviço de qualidade. – Ela riu e Rebecca apertou minha mão ao ouvir o som horrível que era a risada de um demônio. – Agora, vocês outros, temos algumas moscas para espantar.
Assim que ela falou isso, ela e os demais demônios largaram suas coisas e berraram em nossa direção, ato esse que transformou suas arcadas dentárias, antes humanas, em duas fileiras de dentes pontiagudos como um tubarão. Não preciso dizer que a melodia de dez demônios sedentos berrando para nós foi aterrorizante. A pele deles, antes normal como a de qualquer pessoa, tornou-se ao mesmo tempo acinzentada e esverdeada, com as veias saltando para fora. Eu já havia lutado uma vez com um demônio, mas, bem como disse, era apenas um.
Eles avançaram, rápidos, na direção de cada um de nós, não se importando se pisavam ou derrubavam sua aparente clientela. Rebecca olhou para trás para ver se sua mãe corria perigo, mas ela estava longe, transacionando com o traficante e aparentemente fora da zona de conflito. Três deles vieram em nossa direção, um avançando na loba, e dois em mim. O de Rebecca a empurrou para o lado, levando a luta dela para longe de mim. Eu teria de confiar que ela conseguiria se cuidar, ao menos até eu me livrar dos meus.
Mas esse era um problema. Não havia como se livrar de demônios.
Consegui olhar para Lucius enquanto tentava chutar um que se arrastava pelo chão, tentando morder-me as canelas, e enquanto afastava com o antebraço outro que atacava meu pescoço. Luke parecia também saber como lidar com eles, afastando-os e dando passos para trás.
— Não os machuquem! – gritei para Scarlet, Rebecca e Riley. – Tentem não dar nenhum golpe letal! São apenas pessoas possuídas, não devemos matá-las!
Ouvi Riley grunhir e Scarlet gritar de volta.
— Mas e como vamos sair dessa? – A ruiva parecia apavorada. – Não podemos machucá-los, não podemos matá-los... Eles certamente querem me matar, Aidan!
— P-por aqui! – Lucius bradou, com esforço, do outro lado do restaurante. Estava afastando a mulher que parecia ser a líder desse bando de traficantes, mas olhava fixamente para a porta do estacionamento. – Eu vou pular e quebrar a porta, vocês precisam dar um jeito de vir junto.
No momento em que ele terminou de dizer isso, outro demônio o atacou por trás, agarrando-se em suas costas com suas garras. Lucius urrou de dor, mas, com sua raiva, acabou por acertar um soco certeiro no demônio à sua frente, fazendo a mulher dos curtos cabelos negros cair atordoada no chão.
— Rebecca! – chamei-a, e vi que ela tinha chutado para longe o demônio que a perseguia.
Lucius então, ainda com o outro demônio nas costas, pulou e se transformou no ar. Com seu pelo negro, era difícil de ver as manchas de sangue em seu corpo, mas estavam lá. Enquanto ele atingia a porta e conseguiu quebrar o vidro, pude ver o rombo que a mordida do demônio havia feito em suas costas.
Empurrei um deles para trás e chutei o rosto do outro que me incomodava, correndo para ser o próximo a pular. Não porque queria sair primeiro, mas porque queria quebrar o restante do vidro para que um espaço maior estivesse disponível para os outros. Assim, ninguém cortaria a barriga ao saltar. Se fosse necessário, pularia de volta para dentro daquele manicômio com prazer.
Transformei-me para ser mais rápido e tentei desviar, o máximo que pude, das pessoas que lotavam o lugar. O demônio que havia estado nas costas de Lucius jazia no chão agora, esperando o próximo a tentar passar pela porta. Rosnei para ele e enfrentei-o. Ele pulou ao meu encontro, mas consegui abaixar minha cabeça um segundo antes, conseguindo assim morder seu braço para atordoá-lo com a dor. Infelizmente, como eu estava em movimento, minhas presas rasgaram seu braço até metade do antebraço, e torci para o ferimento não ser fatal. Torci para alguém conseguir dar os devidos pontos nele depois, e cuidasse para ele não ter uma hemorragia séria ou infecção.
Pulei pelo vidro, soltando não muito alto para quebrar os pontas que faltavam, deixando um buraco suficientemente grande para eles pularem sem se preocuparem. Cortei levemente minha barriga, mas, assim como Lucius, não dei importância. Virei-me novamente para o Wendy’s e esperei os outros.
A próxima a pular foi Rebecca, seu pelo prateado com diversos pequenos sangramentos. Logo em seguida veio Scarlet que, para a surpresa de todos, foi esperta o suficiente para aproveitar sua nova habilidade e se transformar em falcão, desviando facilmente de qualquer demônio que tentasse alcançá-la no processo de saída.
Por último veio Riley que, em meio ao salto, foi detido pela líder. Ela havia conseguido segurar sua perna direita com suas garras e puxava Riley de volta para dentro. Com isso, Riley acabou caindo justamente em cima da divisória de alumínio da porta, amassando-a, mas também fincando todo o vidro que ainda estava em pé em seu abdômen. Ele uivou de dor, um som agonizante que, como Alpha, me fez entrar em ação imediatamente.
Pulei por cima de Riley e ataquei a mulher, me importando um pouco menos com seu estado de saúde dessa vez. Consegui pegá-la pela lateral, jogando-me contra ela com as várias dezenas de quilos que um lobisomem tem. Ela soltou a perna de Riley e acabamos por aterrissar em cima de um demônio e algumas pessoas. Não parei para pensar sobre os inocentes e não olhei para trás. Voltei e vi que Riley tinha acabado de sair, sua perna completamente ensanguentada.
Juntei-me aos outros lá fora e não paramos sequer para analisarmos uns aos outros. Corremos noite adentro, aproveitando a proteção das sombras para fugirmos o mais longe possível dos demônios, ao menos por enquanto.
~X~
Alice
A tela do telefone piscava para mim, lembrando-me de minha responsabilidade. Ele vibrava, tocava, ameaçava cair da ponta da mesa. Era a quarta vez que ele tocava em vinte minutos, e eu sabia que a pessoa do outro lado da linha iria estar furiosa com minha demora. Minha insolência. Mas minha mais profunda e verdadeira vontade – e, honestamente, reprimida – era fechar minha mão em punho e socar o aparelho até ele virar pó.
— Ué, você não vai atender?
O lobo ruivo de Aidan, Liam, apareceu na sala de televisão, comendo um pacote família de algum salgadinho. Olhava-me como se eu fosse doida, pois certamente minha própria expressão era de puro desgosto direcionada a um simples aparelho eletrônico.
— É-é claro. Estava só distraída, não sei o que me deu. – Dei o sorriso que eu sempre dava quando queria sair de alguma confusão, e que funcionava com a maioria das pessoas, e peguei o celular. Subi os degraus da escada de dois em dois e tranquei-me no meu quarto de hóspedes, ignorando o rubor que tomou o rosto do lobisomem ao ver minha última expressão.
Suspirei, um pouco aliviada, quando a ligação parou. Mas a mensagem que o aparelho teimava em me mostrar dizia: 4 chamadas perdidas de Papai.
Joguei-me de costas na cama, parecendo uma estrela do mar. Contei até dez para me acalmar. Depois contei até vinte. Depois o celular tocou novamente.
Levantei-me para sentar na ponta da cama e encarei a tela por mais seis toques antes de tomar coragem.
— Oi, papai! Como está o senhor e a mamãe? – falei na minha voz mais doce, mas eu sabia que meu tom de voz não iria ser útil contra ele.
— Onde você estava? Por que não atendeu o primeiro telefonema? – Sua voz estava carregada de irritação já nas primeiras palavras. – Estávamos preocupados, estou tentando te ligar faz meia hora!
— Desculpe, papai. Estava ajudando os lobos na cozinha – menti. Bem, realmente estive fazendo isso nos últimos dias, mas não era o motivo por eu não ter atendido a maldita ligação.
— Ajudando na cozinha? Você não sabe nem fritar um ovo. – Ele carregava escárnio na voz e meu abdômen se encheu de uma vontade enorme de bater em algo. – Espero, ao menos, que um dos lobos que estava ajudando fosse Lucius.
Contei até dez novamente antes de respondê-lo.
— Não, papai. São alguns dos lobos de Aidan Rucker, aqui da alcateia. Ajudo em coisas básicas, como pegar alguma panela ou medir a quantidade de algum ingrediente. – Eu odiava a necessidade intrínseca que eu tinha de me explicar para o meu pai. – O Luke infelizmente teve que viajar com Aidan e mais alguns outros, acho que foram para Detroit.
— Lucius foi para Detroit? Mas ele apenas ia aí para preencher o relatório para o Letum. As ordens dele, e suas também, eram de voltar assim que tudo estivesse pronto. – Meu pai falava com um evidente desprezo sobre Luke. – Alice, por que você está em Columbus e não em Detroit nesse momento? – Suas palavras, nessa última frase, eram bem espaçadas, claro sinal de que ele, assim como eu momentos antes, tentava manter a calma. Mas meu pai, eu sabia, não era tão bom nisso quanto eu.
— Bem, o assunto deles envolvia uma das lobas do Alpha, amiga do Luke, então realmente, não havia motivo algum de eu ir junto.
Ouvi o som de algo quebrando do outro lado da linha, e pude imaginar com perfeição as porcelanas de minha mãe se espatifando contra a parede.
— Como assim você não foi? E ainda concordou em não ir? – A essa altura ele já gritava comigo, mas eu já estava mais do que acostumada. – Vai desperdiçar tudo o que eu e sua mãe fizemos por você?
— Papai, – tentei acalmá-lo, sabendo que provavelmente seria inútil. – Luke não quis que eu fosse, eu não podia fazer nada. Nada será desperdiçado, estou aqui com ele, não estou?
— Não, não está! – bradou. – Está em outro estado, pelo amor de Deus, enquanto ele está viajando por causa de outra mulher! Você não se incomoda com isso, Alice? Deveria estar furiosa!
Respirei fundo. Agora que ele havia começado, demoraria para ele terminar, e eu sabia que era melhor não o interromper ou tentar racionalizar com ele.
— Você é uma vergonha! Não consegue sequer segurar um macho tão estúpido quanto Lucius Latham? – Mais pratos quebrando. – Chegando aqui, a primeira coisa que vamos fazer em você é uma plástica nessas suas orelhas de abano. Eu falei para ela que você já deveria ter operado quando criança, senão nunca conseguiria acasalar com alguém decente. E pode ter certeza que sua mãe vai te fazer ir à academia todos os dias, não apenas três vezes na semana. – Ele bufava e eu sabia que estava marchando pela nossa sala, tirando o tapete do lugar como minha mãe odiava. Ouvi os chiados que sua mão fazia por apertar demais o aparelho celular.
Depois de quase cinco minutos de insultos e coisas do tipo, senti que o sermão dele estava finalmente chegando ao fim.
– Você dê um jeito de se juntar a Lucius, não vá ficar sentada nessa casa feito uma inútil. – E então, ele conseguiu ferir-me de uma das piores maneiras possíveis. – Faça o que você precisar para segurar esse cara, Alice. Qualquer coisa. Ele é o melhor que você vai conseguir. – Suspirei e, quando ele ouviu meu desânimo, pareceu finalmente se acalmar um pouco e voltar a me tratar como sua filha. – Alice, querida, você sabe o motivo de eu ficar tão estressado, não é?
Eu sabia a rotina, então confirmei com um simples ‘mhm’.
— Eu e sua mãe... Você é nossa única filha, é tudo para nós. Pensamos apenas no seu bem e no seu futuro. Por mais estúpido e irresponsável que Lucius seja, ele é o mais próximo de um príncipe solteiro que nós temos, Alice. O que mais os pais podem querer para as filhas, senão uma vida de princesa?
— Eu entendo, papai. Irei me esforçar – prometi com um sorriso fraco que, no segundo que desliguei o celular, transformou-se em soluços. Nem me lembrei que eu não estava sozinha na casa do Alpha, apenas soltei minhas mágoas sem vergonha alguma, na esperança de que a catarse do choro me faria sentir melhor.
Eu precisava dar um jeito de voltar para Luke, senão... Senão, o que mais eu faria?
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