Valente
30 XXVIII
Notas iniciais

Becca
No dia seguinte, sentados todos no hotel, parecia que havia um sentimento predominante em todos nós: impotência.
Aidan estava aflito, inquieto, o único do grupo que não se sentara. O fato de não poder fazer nada o abalava de uma forma assustadora, possivelmente por ele estar acostumado a ser um Alpha e a ter o poder de proteger os seus.
Mas como protegê-los de um inimigo que não podemos ferir? Eu sabia que ele jamais feriria inocentes, mesmo que isso acabasse nos colocando em perigo. E o fato de nós termos que nos distanciar dos viciados – de minha mãe – até descobrirmos o que fazer, também corroía o meu lobo.
Riley ainda estava machucado, devido ao fato de sua barriga ter sido dilacerada pelo vidro da porta na qual aterrissou bem em cima, e gemia ocasionalmente. Scarlet afagava sua mão em conforto, mas todos sabíamos que os ferimentos dele se curariam em mais alguns dias. Foram graves, mas não foram feitos por materiais com prata e nem, milagrosamente, haviam perfurado nenhum órgão. Portanto, Riley sobreviveria, só estava sem condições de sair do hotel nos próximos dias e sentindo uma dor agonizante.
— Não consigo entender por que seu pai não podia dividir essa informação conosco antes, Becca. Honestamente. – Luke olhava para mim, irritado. – Seria útil saber que demônios estariam envolvidos no meio de toda essa confusão.
— E que os demônios fossem os únicos a sair nas ruas – adicionou Riley com um gemido. – Nem para ter um ou outro vampiro para nós podermos matar.
Eu apenas dei de ombros.
— Ele falou o que ele quis falar, que já nos foi de grande ajuda – argumentei. – O motivo de ele não contar sobre os demônios eu desconheço. Ele é um fantasma, não é como se eu realmente o conhecesse. Sei lá, pode ser que ele nem soubesse sobre os demônios.
— Fantasmas não são onipresentes, ao contrário do que alguns pensam. – Scarlet veio em minha defesa e, de certa maneira, em defesa de meu pai. – Mas agora nosso encontro já aconteceu, Samuel saber ou não sobre os demônios é irrelevante, só temos que descobrir um jeito de passar por eles.
Aidan bufou, certamente irritado com a tonalidade de Scarlet, que fazia parecer que achar uma solução para os demônios fosse fácil.
— Eu sei lidar com demônios – praguejou Aidan. – mas não com dezenas simultaneamente. Em Columbus, no Prédio de Questionamento, tenho algumas ervas estocadas. Algumas nós até cultivamos em estufas, como o Riley bem sabe, para sempre termos disponível. Acónito, Sálvia, Angélica, Beladona e Sanguinária. Ao fazer a queima dessas cinco plantas juntas e soprar a fumaça para que o demônio a inale, ele obrigatoriamente sairá do corpo do hospedeiro temporariamente.
— Tempo o suficiente para se fazer um exorcismo – completou Riley com a voz fraca. – E se certificar que a praga tenha sido devolvida devidamente para o inferno.
Aidan apenas assentiu.
— Mas não vejo como conseguiremos exorcizar um grupo tão grande. Com um demônio é fácil, é apenas uma questão de pegá-lo desprevenido e forçá-lo a inalar a fumaça. Mas com um grupo... Teríamos que imobilizar dezenas de demônios simultaneamente, caso contrário eles irão se esquivar da fumaça e fugir, voltando quando não tivermos mais fumaça nem ervas para queimar.
Mordi meus lábios em frustração. Eu nunca havia visto um demônio antes de ontem, mas agora já conhecia como eram aterrorizantes e malignos. Realmente não se importavam com o corpo que roubaram e, certamente, não iriam querer abrir mão deles de forma alguma.
— Eu acho que temos que enfrentar um problema de cada vez.
Todos olhamos para Luke que, de braços cruzados, parecia saber que poderia levar um soco de Aidan a qualquer momento. Aidan estava frustrado demais com a situação, sensível a qualquer provocação – ou a qualquer comentário que ele pudesse interpretar como uma provocação. É claro que eu sabia que se Aidan socasse Lucius, Lucius socaria Aidan de volta. E uma briga entre dominantes num momento como esse era a última coisa que precisávamos.
— Fale – intrometi-me para tentar evitar um conflito, mas também um tanto desesperada para topar qualquer plano que me ajudasse a tirar Melissa de Detroit o mais rápido possível. Vê-la naquele estado, naquela dependência pura e quase animal, havia mexido profundamente comigo. Até mesmo me traumatizado de certa forma.
— Sim, temos que descobrir como lidar com o bando de demônios, pois é óbvio que eles não agem sozinhos por aqui. São a mão-de-obra suja dos vampiros de Detroit. Mas antes disso, precisamos dos materiais, em primeiro lugar. Precisamos das cinco plantas que Aidan falou e, imagino, uma Athame.
Eu e Scarlet percebemos o olhar que Riley compartilhou com Aidan.
— O que é uma Athame? – perguntei, em busca de sanar a minha curiosidade e da minha amiga.
— Athame é uma espécie de punhal – esclareceu Lucius. – Utilizada em várias cerimônias sobrenaturais, em rituais. Contudo, como as bruxas são os seres que mais fazem rituais, e como adoram um ritual – revirou seus olhos. – normalmente são elas que as têm.
— Então teremos ainda que convencer um clã de bruxas a nos emprestar um punhal raro e, de certa forma, quase religioso para elas? – Scarlet franziu o cenho.
— Raras não são – interveio Luke. – Não totalmente, pelo menos. Existem inúmeras pelo mundo sobrenatural e até humano. Aqueles humanos que tentam se aventurar em magia, em feitiços. Charlatões, pois os únicos que realmente conseguem algum feito de magia são aqueles com alguma descendência distante.
— Não estou entendendo – reclamei.
— Existem muitas Athames, punhais cerimoniais. Mas os únicos que de fato possuem algum valor, alguma utilidade e propriedades mágicas, são aqueles que já foram usados para matar alguma bruxa.
— O que ele quer dizer – interveio Aidan. – É que se o último golpe que tirou a vida de uma bruxa for dado pelo punhal, ele absorve as propriedades dela e começa a ter poderes próprios. Assim, uma Athame que não foi utilizada para matar uma bruxa é tão especial quanto qualquer faca de cozinha.
— Algo me diz que não teremos muito sucesso em emprestar um item desses – Scarlet continuou a expressar suas preocupações. – Também demoraria tempo demais, não podemos esperar muito. Samuel se comunicou comigo justamente porque Melissa não tinha muito mais tempo. O corpo humano dela não vai aguentar.
Estremeci com esse pensamento, e Scar me lançou um olhar de desculpas. Neguei com a cabeça, relatando que ela não precisava se preocupar. Tudo que falavam sobre o estado de Melissa era verdade, mesmo que doesse para eu ouvir. Mesmo que eu não quisesse que doesse.
— Então é realmente muita sorte a nossa que já temos um – Riley sorriu, seu primeiro sorriso do dia.
Eu e Scarlet viramos nossa atenção imediatamente para Aidan que, assim como Riley, sorriu pela primeira vez. Um pouco de esperança atingindo seus olhos escuros.
— Como eu disse, eu já lutei contra um demônio antes. Existem outros meios de mandar o demônio para o inferno após ele sair do corpo do hospedeiro, mas são muito mais complicados e eu não iria conseguir fazê-los. Minha única opção era conseguir uma Athame, uma Athame com propriedades mágicas, e apunhalar o demônio no ar.
— Então você tem uma Athame?
— Tenho, guardada em um dos cofres mais bem lacrados do prédio de questionamento. Afinal, não é um artefato mágico dos mais fáceis de se conseguir – falou com orgulho.
— E como você conseguiu isso, em primeiro lugar? – Scarlet indagou, curiosa.
— Eu tenho amigos bruxos, lembram-se? – Recordei-me imediatamente daquele que nos auxiliou quando a alcateia foi invadida, e não pude sentir nada além de gratidão por todos eles, mesmo sabendo que faziam parte do passado distante de Aidan, um passado um tanto doloroso. – É verdade que não mantemos- Não pudemos manter, contato. Mas, quando eu realmente precisava, eles sempre estiveram dispostos a me ajudar, para honrar tudo que já havíamos passado juntos. – Ele deu um sorriso fraco ao olhar para além de nós.
Luke pigarreou para chamar a atenção para ele e não para Aidan, tentando, de forma solidária, dar ao meu namorado um pouco de privacidade para suas recordações.
— Então acho que está resolvido por ora – disse. – Precisamos pegar os materiais que estão em Columbus e, até eles chegarem, podemos pensar em como fazer um exorcismo em larga escala.
— E quem vai trazer todos os materiais para cá? – Scar perguntou na maior inocência.
~x~
Liam
— Eu vou! – Ela parecia mais determinada do que um touro em acertar o seu toureiro, os olhos verdes brilhando.
Trevor e Connor se entreolharam, não muito certos se deixariam ela ir ou não. Como Aidan não estava em Columbus, Trevor, o Beta, estaria no comando durante seu tempo fora, mas costumava sempre consultar Connor em ocasiões como esta.
— Não fui com eles de início, mas agora posso ir. Quero me mexer, quero fazer alguma coisa! Não nasci para ficar parada – reclamou.
— Entendemos isso Kenna, mas essa é uma questão delicada. Não podemos simplesmente escolher você porque você foi a primeira a levantar a mão.
— Está mais para a primeira que deu um salto no sofá e quase derrubou Trevor, isso sim – resmungou Spencer para Clayton, em deboche.
Kenna estreitou seus olhos para Spencer de forma ameaçadora. Cruzando os braços, continuou a tentar convencê-los.
— Já me recuperei da mandíbula há semanas e, honestamente, quero provar que sou útil para alguma coisa.
— Não precisamos de prova nenhuma, Kenna. Ninguém aqui duvida de você – afirmou Connor, os braços cruzados iguais aos dela. Apesar de sempre ser amigável para com ela, percebi que ele não parecia achar uma boa ideia Kenna ir.
— Tivemos uma discussão parecida com Rebecca, quando Aidan estava escolhendo quem iria caçar Elizabeth Roman em Las Vegas – recordei a todos. – Ela parecia querer se provar também, mesmo sendo desnecessário. Naquela época, Aidan estava relutante em deixá-la ir, pois não estava acostumado com a dominância de uma fêmea. Hoje, sei que ele não te impediria de ir apenas por ser uma fêmea, e sei que Connor e Trevor também não. Mas, – virei-me para Connor. – devemos todos ficar quietos e ouvir porque eles não estão inclinados a aceitar já de cara.
Ela bufou e deu as costas para mim, resmungando alguma coisa sobre lobos submissos que tentam manter a paz. Eu estava acostumado com esse tipo de temperamento com lobos novos, especialmente depois desse tempo todo com Rebecca, então não me importei.
— Liam tem razão, – A voz de Trevor soou. – ninguém vai vetar sua ida por você ser nossa segunda fêmea ou por duvidarmos de sua capacidade.
— Muito pelo contrário – acrescentou Connor, emendando a frase do Beta. – Acreditamos e muito em seu potencial. Por isso eu acho que você não pode ir.
— O quê? Isso não faz sentido-
— Calma Kenna – interrompeu-a Clayton. – Se você está inquieta e acha que precisa se exercitar mais, podemos achar outros meios para isso.
George soltou um grunhido sofrido e Spencer e Nate riram. Trevor rosnou em aviso.
— Espere, chefe, não é o que parece. – Clayton levantou as duas mãos em sinal de rendição. – Estou só falando que, se ela quiser, posso praticar com ela, lutar contra ela. Sei que ela aguenta bastante, então não preciso me segurar e talvez ajude ela a queimar um pouco dessa energia de loba dominante que ela tem.
— Ainda não entendo por que vocês não querem me deixar ir – insistiu Kenna, ignorando completamente Clayton e suas piadas de duplo sentido.
— O Alpha está fora. Já vimos esse filme uma vez. – Connor falou simplesmente.
— Você, como dominante, é essencial para ajudar a manter o território, caso a Alcateia de Joseph se aventure a buscar retaliação. – Trevor olhou para ela com cuidado, pois sabia muito bem que Joseph tinha sido seu antigo Alpha. – Ainda não descartamos essa possibilidade.
Vi Kenna apertar ainda mais os braços contra si, se é que isso era possível, e marchar para a cozinha, contrariada.
George e Nate começaram a discutir entre si depois de ela partir, quando perceberam que ela havia desistido. Connor e Trevor também logo entraram na conversa, para tentar resolver logo esse assunto e comunicar Aidan.
Spencer, Clayton e eu ficamos observando, cada um sentado em um canto da sala. No fim, sabíamos que quem ia decidir seria Trevor, independente do que falássemos. E, ainda por cima, a escolha teria que passar pelo crivo de Aidan, que poderia muito bem mudar os planos completamente caso achasse outra solução.
— Que comoção toda é essa?
Nossa hóspede desceu lentamente as escadas, esfregando os olhos azuis de forma preguiçosa. Aparentemente havia acabo de acordar de uma longa soneca.
— Estão tentando decidir quem vai – Spencer respondeu, olhando para ela apenas de relance, mais interessado no bate-boca de George e Nate.
Nathaniel queria ir pois não era dominante e, por algum motivo, tinha algum desejo estranho de enfrentar um demônio. Encontro que, nas palavras dele, certamente seria “um tesão de luta”. Já George também tinha o mesmo argumento, de não ser dominante, mas também expunha que poderia ser útil nesse momento tão difícil para Rebecca como psicólogo, assim como tinha ajudado sua forma lupina.
— Decidindo quem vai aonde? – perguntou Alice, franzindo o cenho e tomando maior interesse no conflito, que ficava mais acalorado a cada instante.
— Para Detroit – esclareci. – O pessoal precisa de alguns materiais que estão guardados aqui, pois eles encontraram um grupo de demônios e só conseguirão derrotá-los com o auxílio dessas coisas.
Alice engoliu em seco e arregalou seus olhos quando mencionei demônios. Era compreensível, visto que lobos raramente entravam em contato com eles – por não nos relacionarmos com nenhuma magia negra ou nada do tipo – e eram de fato assustadores. Vendo seu alarme, encarei seus belos olhos azuis, tentando transmitir alguma tranquilidade para ela. Afinal, ela não tinha nada a ver com a situação e não precisava se preocupar em enfrentar nenhum demônio no futuro próximo.
De repente, ela pulou do sofá e foi até o meio da conversa, enfiando-se no centro dos quatro machos em pé.
— Eu vou! – gritou, para minha surpresa e a de todos. Até mesmo Kenna resolveu sair da cozinha, mordendo uma coxa de frango, para ver o que acontecia.
Todos ficaram tão perplexos que o silêncio reinou na casa.
— C-como assim? – perguntei, quebrando o silêncio após quase um minuto inteiro.
Nem mesmo eu consegui compreender por que ela, a pequena Alice, nossa hóspede do Maine, gostaria de se voluntariar e se pôr em perigo. Ela deveria ficar aqui, em segurança, protegida pela nossa alcateia por ser nossa convidada. Bem, não convidada, pois ninguém sabia que ela vinha, mas eu tinha de admitir que havia começado a apreciar a companhia dela na casa do Alpha.
— Eu vou – repetiu, dessa vez em tom mais moderado. – Eu me voluntario e, de qualquer forma, vocês não estavam chegando a nenhum consenso.
— Você não pode ir – retrucou Trevor, sem rodeios.
— E me explique, por que não? – desfiou, uma jogada arriscada contra um lobo dominante.
— Você é nossa hóspede. Não podemos te enviar para uma missão que não tem nada a ver com você. Você não tem nenhuma ligação com Rebecca que justifique nós a colocarmos em perigo.
— Vocês não me enviarão estritamente, pois eu estou me voluntariando para ir – pressionou.
— Você nem é da alcateia! – Nate falou, ainda querendo ser selecionado. A forma brusca como ele falou isso para ela me incomodou por algum motivo.
— Lucius também não é, e está lá.
— Lucius Latham é o quarto lobo mais dominante do continente. Acho que ele não precisa de uma justificativa para querer ajudar – Clayton respondeu, não querendo tomar um lado, mas apenas afirmando o óbvio.
— E ela? Ela foi. Scarlet. – Alice cruzou os braços e o tom incrédulo de sua voz não passou despercebido por nenhum dos presentes. – Ela sequer é lobisomem e foi permitida a ir.
— Scarlet é uma Selvagem. – Trevor parecia medir Alice enquanto falava, talvez para ver quão determinada ela realmente estava em ir. – Uma Selvagem que a cada dia se torna mais forte, abandonando todo o tempo perdido. Além disso, é a melhor amiga de Rebecca. Aidan teria que trancar ela no centro da Terra para conseguir impedi-la de ir.
— Pois vocês terão que me trancar no centro da Terra também, pois eu quero ir. Não compreendo por que ela pode ir e eu não, agora que surgiu uma oportunidade para eu ajudar. Estou me voluntariando, vocês deveriam me agradecer!
Todos ficamos quietos, esperando Connor ou Trevor falarem alguma coisa. Ambos, porém, estavam silenciosos, observando Alice com extrema atenção. Era evidente para mim que eles estavam pensando seriamente que Alice poderia ser uma opção.
— Pelo amor de Deus, eu estou resolvendo todos os seus problemas! Não vão precisar movimentar nenhum lobo da alcateia, poderão permanecer intactos. Não sou burra, sei como é importante manter um bom número de lobo no território, e vocês já são uma alcateia pequena. – Ela gesticulava com as mãos a cada argumento que dava, de forma autocrática, mas também um tanto cativante. – Posso ser submissa, mas lhes garanto que não sou um peso-morto. Não irei atrapalhar nenhum deles. Entregarei os materiais e ajudarei no que eles me pedirem.
— Ela tem um ponto – falou Kenna, fazendo todos virarmos para trás para encará-la, encostada na porta da cozinha. – Se ela for, continuaremos aqui para fazer frente a algum ataque.
Olhei para Kenna com uma sobrancelha arqueada, não entendendo sua mudança de postura. Ela então me deu uma piscadela em resposta, o que me fez ter certeza de que, se ela não fosse, então ela preferia que outra fêmea determinada tivesse a chance de provar o seu valor. Franzi o cenho para ela, pois achava que estaríamos colocando Alice em perigo desnecessariamente.
— E ela indo voluntariamente, – Connor refletiu. – a Alcateia do Maine não poderá nos responsabilizar por sua segurança.
— Mas e seu pai? – Trevor questionou. – Sei como ele é influente na sua alcateia. Ele certamente ficará furioso conosco, com Aidan, e demandará alguma retribuição caso... Bem, caso algo de ruim aconteça com você.
— Acredite, ele apoiaria minha decisão – escarneceu Alice, seus olhos tornando-se opacos. – Vocês não precisam se preocupar com minha família. Se quiserem, – acrescentou. – posso ligar para eles agora mesmo afirmando que estou tomando essa decisão por vontade própria.
Trevor e Connor se entreolharam e Trevor começou a dar longas passadas pela sala, remoendo suas opções. Todos ficamos em silêncio, pois o jeito mais fácil de irritar um lobo dominante era desconcentrar ele quando ele precisava tomar uma decisão importante. Após um longo tempo, Alice e os demais já tinham até se sentado, Trevor parou e se virou para nós.
— Vou ligar para Aidan. Alice vai.
Troquei um olhar apreensivo com ela, mas ela rapidamente o desviou, corando, e pulou do sofá para se aprontar.
~x~
Scarlet
Riley gritou e agarrou os lençóis com força, enquanto eu limpava os cortes pela extensão de seu abdômen. Eu odiava ter de ouvi-lo sofrendo, mas sabia que, apesar de sua rápida recuperação, era muito importante manter os ferimentos limpos e com ataduras. Alguém tinha que fazê-lo e, por mais horríveis que fossem seus lamentos, eu era sua namorada. Eu devia isso a ele.
Limpei todos os ferimentos com calma, ignorando o máximo que eu podia seus gemidos. Ele sabia que eu me sentia mal a cada lamento, mas não conseguia se conter na maior parte das vezes. Eu percebia todas as vezes que ele tentava se segurar, por mim, mas era vencido pelo ardor das feridas, pela agonia. Finalmente consegui fechar todos os curativos, levantei-me para pegar uma toalha e ajudar a limpar o suor de sua testa.
— Obrigado, Scar – falou pausadamente, ainda sem fôlego. – Espero que eu melhore logo.
Alcancei uma de suas mãos e a apertei, sorrindo.
— Tenho certeza de que levará apenas mais alguns dias – reconfortei-o, e levantei-me para lavar minhas mãos.
Muita coisa havia acontecido em apenas alguns dias. Procuramos a mãe de Rebecca pela cidade fantasma inteira. Finalmente a achamos somente para sermos espantados de lá por demônios furiosos. Saímos, quase literalmente, com cada um dos nossos rabos entre nossas pernas. Foi uma vergonha que havia atingido nossa moral de uma forma avassaladora e Riley, pior de todos, por ter sido ferido gravemente em meio a todo aquele caos.
Eu nunca havia visto um humano possuído antes, mas depois do encontro que tivemos podia dizer com toda a certeza desse mundo que havia sido a coisa mais pavorosa que eu já havia visto. Aqueles dentes, aqueles olhos, aquelas vozes. Seres puramente compostos por maldade bruta, maldade primitiva.
Eu realmente acreditava que nem toda espécie sobrenatural era inerentemente maligna. Sim, muitos lobisomens acreditavam, por exemplo, que vampiros não valiam nada. Chegavam ao ponto de matar um vampiro à primeira vista. Talvez por eu ser de outra espécie, eu pensaria sobre o vampiro antes, se ele era de fato ruim, ou se tinha família, amigos, se praticava o bem de acordo com suas próprias limitações.
Já demônios eram um caso a parte. Eram fruto da mais antiga malevolência e se aproveitavam de humanos em estado mental vulnerável. Humanos que precisavam de ajuda. Eles não eram invencíveis, mas se aproveitavam da compaixão alheia. Como Aidan havia explicado, momentos antes das criaturas nos atacarem, utilizavam o hospedeiro como escudo, pois sabiam que as chances de seus oponentes não quererem machucar os corpos era grande. Não havia uma qualidade sequer que os redimia.
Talvez por isso, pela perversidade dessas criaturas e nossa inicial impotência, eles haviam assombrado meu sono nessa noite logo após o embate.
Eu não precisava olhar no espelho para saber que olheiras estariam presentes embaixo de meus olhos, cansaço estampado no meu rosto. Pesadelos com demônios me atormentaram por toda a madrugada, e ao meu lado eu sabia que Riley não tivera uma noite muito diferente da minha, e ainda repleta de dor e desconforto.
Meus pesadelos, eu sabia, não haviam sido compostos apenas pelos demônios. Os olhos inteiramente negros da líder do bando não foram o principal par a me manter em um sono agitado. Não, haviam sido olhos azuis como o fundo do oceano.
Uma cena, em específico, havia se repetido em meu subconsciente. Uma memória, um momento no meio do ataque, em que os olhos dele encontraram os meus. Um momento que mais ninguém percebeu, Aidan por estar preocupado com Becca, Becca por estar preocupada com Melissa, e Riley por já ter partido para a luta, para tentar me defender dessas criaturas inéditas. Sim, Riley me defenderia, mas Luke não ligava para isso. Era evidente o desespero em seu olhar para chegar ao meu lado. Ele, que estava do outro lado do recinto, impedido por um mar de pessoas vulneráveis e, em poucos segundos, por demônios sedentos por nosso sangue.
E a dor em seus olhos, ao perceber que jamais conseguiria chegar até mim a tempo. Teria que confiar em Riley, confiar que outro macho me auxiliasse.
Eu já havia visto esses olhos outra vez, tão alarmados, tão exaltado em querer prover minha segurança. No subsolo do cassino abandonado, o laboratório secreto de Roman e seus cientistas. Momento antes, durante e depois de o Letum me levantar pela garganta e me prensar contra a parede da sala de cirurgia, garras perfurando meu pescoço e sua força quebrando minhas costelas.
E eu não queria isso. Não queria ver esse par de olhos. Nem o do demônio, nem o desse lobo. Não assim, não com tanto querer. Não como se eles precisassem de mim.
Riley pigarreou, fazendo-me saltar contra a bancada, na qual eu estava apoiada. Percebi que eu deveria ter ficado minutos inteiros parada ali, minhas mãos descansando no granito gélido e minha cabeça pendendo para baixo. Refletindo sobre essas coisas, sobre essa pessoa, quando eu deveria estar dando atenção a quem realmente importava.
Meu namorado. Maravilhoso, valente, ferido e que certamente estivera falando comigo até perceber que eu não estava mentalmente presente.
— Está tudo bem? – ele perguntou, tendo já se recuperado da tortura que tivera que aturar há pouco.
— Sim, está – respondi sem jeito, lavando meu rosto e passando por ele para pegar uma toalha.
— Passamos por coisas complexas ontem – falou, encostando-se com o ombro na parede. No momento ele não conseguia ficar muito tempo em pé sem apoiar o peso de seu corpo em algum lugar. – Se quiser, estou aqui para conversar.
Olhei para ele com gratidão, mas eu sabia que meu sorriso seria fraco demais, falso demais, e portanto decidi não lhe dar um. Ele merecia sorrisos sinceros, não ilusórios apenas para fazê-lo feliz. Eu queria fazê-lo feliz, Deus sabia que ele me fazia feliz, mas eu não poderia fazer isso agora, não quando no momento eu estaria alimentando-o com mentiras.
— Talvez seja melhor você espairecer – sugeriu, com um suspiro quase imperceptível. – Saia um pouco do quarto, ficarei bem. Vou deitar, como Aidan me instruiu, para me curar mais rápido, mas isso não quer dizer que você também precise ficar enjaulada aqui.
Dessa vez o sorriso, apesar de pequeno, foi genuíno, mas pelo simples fato de Riley conseguir enxergar o que eu mais precisava como nenhuma outra pessoa conseguia.
Queria lhe dar um abraço, dos mais calorosos possíveis, mas isso não era viável no estado dele. Então, acabei por levantar-me na ponta dos pés para um beijo rápido. Um beijo que, por algum motivo, acabou sendo em sua bochecha.
Eu sabia que ele havia percebido esse ato incomum, mas não tive coragem de olhar para trás para ver sua reação. Apenas fugi, como uma covarde, porta afora.
—x-
Havia um pequeno terraço no hotel, um lugar escondido que eu tinha certeza de que hóspedes não deveriam frequentar. Contudo, não tinha quase nenhum hóspede nesse hotel e, pelo estado da cidade, não deveria ter muitos hóspedes em nenhuma época do ano. Isso fazia com que o número de funcionários também fosse reduzido, o que facilitou e muito com que eu achasse e escolhesse permanecer nesse lugar.
Não era uma vista muito bonita, mas não era das piores. Sim, a cidade estava em declínio, mas a região do hotel era uma das poucas em que ainda havia movimento de pessoas, de policiamento. De qualquer maneira, eu não estava aqui por causa da vista, não estava aqui para admirar qualquer coisa que fosse. Estava aqui para, como Riley havia dito, tentar espairecer.
O que não estava dando muito certo.
Sim, eu até tinha tido um pouco de sucesso em parar de pensar nos demônios. O restante do pessoal, eu sabia, estaria cada um pensando em maneiras de executar nosso plano: um exorcismo coletivo. Mas eu não conseguia pensar nisso no momento, teria que pedir perdão para eles depois, por não poder ser útil na hora de bolarmos uma estratégia. Precisava parar de relembrar os demônios a cada instante, para meu próprio bem, caso contrário talvez não conseguisse enfrentá-los uma segunda vez.
E eu havia conseguido, da melhor maneira possível, parar de pensar neles. O que persistia eram os meus demônios interiores.
A porta do terraço fechou com um grande baque e eu pulei no meu lugar, virando-me imediatamente para trás para ver quem havia me descoberto. Senti meu rosto esquentar e eu sabia que eu estaria vermelha feito um pimentão, pois o dono dos meus pensamentos – pensamentos extensos que insistiam em permanecer em minha cabeça por todo esse tempo – havia acabado de chegar.
— Já ouvi falar que raposas são astutas, mas você realmente tinha que se esconder tão bem? – Sua risada ecoou ao meu lado, esquentando-me de uma maneira nostálgica. Ele se sentou junto a mim, no chão do terraço, perto, mas ao mesmo tempo mantendo uma distância educada. – Estive te procurando por toda a parte.
— Por que, exatamente? – perguntei, olhando para ele apenas brevemente e de soslaio, virando minha atenção ao horizonte.
— E eu preciso de um motivo para querer ver minha melhor amiga?
Fiquei em silêncio, remoendo suas palavras. Melhor amiga. Acho que ele tinha razão, no fundo. Éramos tão próximos, desde que eu era criança, que tínhamos nos tornado exatamente isso. Apesar das brigas, dos desentendimentos. Apesar da época em que éramos, ao mesmo tempo, mais que amigos, mas menos que amantes.
Ele suspirou.
— Queria apenas conversar com você.
Novamente fiquei em silêncio. Não porque eu estava brava com ele, não porque queria vê-lo se esforçar. Apenas porque não sabia o que dizer. Tinha medo do que poderia escapar dos meus lábios caso eu não estivesse atenta o suficiente para medir minhas palavras.
— Senti sua falta. Sinto sua falta – corrigiu, virando seu rosto para que ele se forçasse para dentro do meu campo de visão, encarando-me nos olhos sem empurrar meu rosto com suas mãos. Por mais dominante que ele fosse, não queria forçar sua atenção de forma indelicada.
— Também sinto – sussurrei, não conseguindo me conter, mas achando que não havia mal em confessar esse pequeno fato.
Pequeno, pfft. Era um fato enorme.
— Scarlet, eu fui um idiota, eu não deveria ter-
— Não, Luke – cortei-o de imediato, antes que nós dois entrássemos em um buraco do qual não conseguiríamos sair.
— Scarlet, eu preciso dizer-
— Não, você não precisa – retruquei. – Alice, sua namorada, vai chegar em breve. E o meu namorado está nesse mesmo prédio, no quarto que eu divido com ele.
— Você não precisa me lembrar disso – reclamou, abaixando a cabeça, e eu não sabia se era por causa da chegada de Alice, ou por eu estar com Riley, que me aguardava.
Dividimos alguns minutos de silêncio, ele querendo falar algo, mas sabendo que eu o impediria. E eu querendo ouvir, desesperadamente, o que ele tinha a dizer, mas me negando esse prazer pois, realmente, não era certo.
— Alice não é minha namorada – falou de repente, quebrando o silêncio e me deixando confusa com suas palavras, pois era evidente que ambos eram sim um casal. – Não minha de verdade. Alice é quase a namorada da minha mãe! – Riu levemente, tentando extrair de mim uma reação semelhante, mas eu apenas o fitei com confusão. – Quem empurrou ela para cima de mim foi minha mãe. Sei que ela sonha com Alice sendo a última loba a entrar para a família Latham. Alice vem de uma família antiga da alcateia, sempre envolvidos, de alguma maneira, na política. – Ele bufou em escárnio. – Se alguns nos enxergam como a realeza lupina, Alice e seus pais seriam nobres.
Desviei meu olhar dele então, uma antiga dor aflorando dentro de mim. Um sentimento que fazia tempos que eu não sentia: eu não fazia parte daquele mundo. Não o dos lobos poderosos, dos lobos influentes.
— Mas eu não a escolhi, juro que não. – Pegou minha mão, tentando voltar minha atenção para ele, mas impedi-me de encará-lo. – Eu não teria escolhido ninguém.
— Mas está com ela – soltei, sem pensar. Arrependida quase que de imediato, pois nada disso me dizia respeito. Eu também segui em frente, não tinha o direito de me sentir mal pela felicidade de outra mulher.
Fui eu que o dispensei. Eu que o mandei embora.
Lucius soltou minha mão e vi, de canto de olho, que ele levantou a cabeça para o céu, observando o entardecer do nosso terceiro dia em Detroit.
— Meu lobo nunca a quis. Nunca a aceitou completamente – defendeu-se. – Ele lutou comigo a cada dia, a cada instante. Ele jogava em minha mente lembranças suas, nossas. – Fechei meus olhos, não suportando ouvir muito mais daquilo. – Eu fui fraco, o homem dentro de mim. Talvez, por estar sob tanta pressão, por estar tomando responsabilidades governamentais nunca antes impostas a mim, eu quis me poupar de um confronto a mais. Um confronto com Gwyneth Latham, que Deus sabe como pode ser desastrosa. Eu estava- Eu estou estressado. Quis me poupar de mais uma fonte de estresse e concordei.
Ele me contava sua história, história que eu não queria saber, pois era evidente que estava me machucando a cada palavra, mas eu não conseguia juntar as forças suficientes para fazê-lo parar.
— Os encontros foram se tornando mais frequentes. O que antes era obrigação passou a ser prazeroso. Gosto dela, Scarlet. Alice é uma ótima pessoa quando não está tentando me conquistar, não está tentando prender minha atenção a ela. Ela é divertida, perigosamente inteligente. Eu não a amo, mas sua companhia ajudava a renovar minhas energias, todo dia esgotadas pelas minhas nova funções. E...
Ele então parou, como se estivesse repensando se deveria contar-me essa próxima parte. Limpou sua garganta antes de continuar.
— E de noite sua companhia também era bem-vinda, apenas porque eu estava desesperado para tentar encontrar, de novo, o que eu sentia com você.
— E você encontrou? – Ao fazer mais um comentário que eu não deveria, percebi o tom em minha voz. O tom de quem estava à beira das lágrimas.
— Como poderia, se só encontrei com a mulher que eu amo.
Engoli em seco e fechei meus olhos com toda a minha força. Eu tinha que ir embora. Eu tinha que ir embora agora.
Mas minhas pernas não tinham forças para me levantar.
— Você não deveria fazer isso com ela – consegui falar então, não dando importância para sua última afirmação. Eu não poderia dar importância a ela, se eu fizesse isso, faria outras coisas. Coisas que fariam com que eu me odiasse pelo resto da vida.
— Com Alice?
— Sim! Ela obviamente tem sentimentos fortes por você, Lucius. E ela acha que você a retribui.
Finalmente consegui olhar para ele, que balançava a cabeça em negativa.
— Não é verdade – falou simplesmente, o que me deixou levemente indignada.
— Como não, Lucius? Todos conseguem-
— Não é verdade, Scarlet – repetiu, interrompendo-me. – Eu não vou fingir que sei o que se passa na cabeça dela, mas ela não me ama. Talvez ela ame o que eu sou, o que eu represento. Ela... é um pouco forçada demais. Tem vezes que passamos dias sem nos tocarmos, apenas passando tempo como amigos. É quase bom demais para ser verdade. Mas tudo muda quando precisamos sair em público, ou quando encontramos os pais dela ou os meus. – Tentou encontrar meus olhos, mas eu não conseguia fitá-lo nesse estado. – E percebi, depois de um tempo, que ela não é iludida ao ponto de achar que eu retribuo qualquer sentimento que seja.
— Você talvez não seja o melhor namorado desse mundo – cutuquei, tanto por ele ter se recusado em nos assumir, quase um ano atrás, quanto pela lembrança na casa de Aidan. No banco, sentados lá fora esperando Becca voltar, quando Luke só faltou esfregar na cara de Alice que estava de mãos dadas comigo, de forma tão íntima.
— Não, não sou. – Suspirou com o cenho franzido. – E não me orgulho disso. Não gosto de ignorá-la, se é isso que você pensa, mas não consigo me impedir. Não é por ela, não é nada contra ela. É simplesmente por mim.
— Então você não deveria continuar com essa farsa, pois é isso que parece: uma farsa. Certamente deve machucá-la profundamente.
— É isso que você quer, Scarlet? Quer que eu termine com ela? – Ele me olhou sério, como se bastasse meus lábios começarem a formar a palavra ‘sim’ que ele iria correr pegar o telefone.
— Eu não quero que você faça nada, Luke! – Levantei-me então, ficando um tanto quando enraivecida. – Qualquer coisa que você fizer, você não pode fazer por mim. Tem de fazer por você, por ela. Não vou me meter na sua vida!
— Mas, Scar-
— Eu tenho um namorado, Lucius – enfatizei, sentindo meus olhos se enxerem de lágrimas ao mesmo tempo em que meus punhos se fechavam em furor. – Um namorado que, honestamente, parece ter caído das páginas de um conto de fadas.
— E você é feliz com ele? – perguntou-me após alguns minutos, minutos nos quais eu fique paralisada, sem conseguir terminar minha marcha para fora do terraço.
— Sou, muito. – Ou ao menos eu havia sido, nos primeiros meses. Ultimamente, parecia que havia algo faltando, algo fora do lugar.
— Então você deveria continuar com ele.
Tive que me apoiar para não cair, a confissão de Luke carregada com uma mágoa tão profunda, tão crua. Eu sabia, sem precisar olhar para sua expressão, que seu lobo estaria uivando por dentro de seu ser.
E ele tinha razão.
Eu sabia disso também. Ficaria com Riley, pois Riley me amava, Riley me cuidava, me valorizava. Riley era tudo, era submisso, tranquilo e engraçado quando podia, mas sério, intenso e incrivelmente incisivo quando precisava. Eu jamais machucaria Riley.
Mas, bem no centro do meu ser eu sabia que Riley não era Luke. E que, se não fosse por Riley, eu provavelmente estaria mais inclinada a dar uma segunda chance para meu amigo de cabelos negros e olhos azuis. Eu de modo algum podia compartilhar isso com Luke e, honestamente, não podia pensar demais nisso por mim mesma.
Era simplesmente perigoso demais.
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