Notas iniciais
Feliz ano novo, pessoal! Um próspero 2019 a todos! Queria agradecer profundamente a todos que já compraram o livro em pré-venda pelo site da editora e já mandaram a confirmação para o e-mail. ♥ Estou escrevendo as cartas, meus amores (e tentando achar uma caneta boa que pegue direito nos marcadores heheheh) Aproveitem o capítulo e vejam as notas finais, por favor! Tenho notícias para vocês lá no final ( ͡° ͜ʖ ͡°).

Scarlet

Eu já sabia que as coisas não poderiam ir muito bem com Rebecca. Não quando a notícia que eu trazia se tratava de sua mãe ou, como ela mesma dizia, de Melissa Rice. Eu sabia que ela muito provavelmente iria se recusar a ajudá-la. Na verdade, pensei que ela fosse até mesmo se recusar a me ouvir assim que eu pronunciasse o nome de sua progenitora, mas nesse quesito ela me surpreendeu. Apesar da explosão final dela, minha amiga realmente me surpreendeu. Parecia mais compreensiva e menos impulsiva, mesmo que fosse apenas levemente.

Algo dentro dela tinha mudado desde a última vez que eu a tinha visto. E não estou falando de sua breve visita para a Cidade do México. Refiro-me à antes de ela ter sido separada. Antes de ela ter se metido a caçar a vampira Elizabeth Roman sozinha. Era evidente que ela havia passado por muita coisa desde aqueles tempos, tantos meses atrás. Mesmo assim, vê-la progredindo era um choque para aqueles que conheciam a “antiga Rebecca”. Eu só podia torcer para que o que estava por vir, em relação à sua mãe, não empurrasse ela de volta para o comecinho do tabuleiro.

E para mim estava claro que ela não conseguiu esse progresso sem ajuda. O homem responsável por guiá-la – e eu sabia, aturá-la – estava ao meu lado, sentado no banco de seu jardim da frente, vendo os poucos carros daquelas ruas residenciais passarem. No começo havíamos conversado bastante. Agora, creio que já fazia uns quarenta minutos que estávamos em completo silêncio, cada um com seus devaneios, suas preocupações. Aidan e eu estávamos sentados naquele banco há horas.

Em algum momento – e eu não saberia dizer quando, pois já não estava conseguindo perceber o passar do tempo com tanta clareza – Lucius decidiu se juntar a nós. Porém, como não cabia uma terceira pessoa no banco, não se incomodou em sentar-se na grama úmida do anoitecer.

Assim que ele chegou, não pude deixar de me sentir um tanto desconfortável, mas o fato de ele ter se sentado mais perto de Aidan do que de mim ajudou. Era... Tinha sido difícil para mim, vê-lo aqui. Não esperava que ele estivesse aqui. Em realidade, a última pessoa que eu esperava ver em Columbus era Lucius, ainda mais com todos os problemas de seu pai ainda frescos.

Certamente não esperava vê-lo acompanhado.

De uma namorada, ainda por cima.

Enquanto Luke e Aidan jogavam conversa fora, falando desde amigos em comum de ambos e futebol americano, fingindo que não estavam de vigília esperando Rebecca voltar, eu discutia comigo mesma. E era nessas horas que eu agradecia por não ser como eles, por não ter um espírito animal sussurrando – ou gritando, quem sabe – em minha cabeça. Pois se eu tivesse, com certeza estaríamos brigando.

Era hipocrisia minha ficar indignada e aborrecida por Luke estar namorando alguém? Hah, todos sabiam o quão rapidamente eu pulei dele para Riley. Isso era algo que eu não podia negar. Havia sido rápido. Havia me feito um bem tremendo, e eu amava Riley de coração, mas inegavelmente havia sido rápido.

Então o que eu queria ficando magoada com a volta de Lucius e aquela Alice? Até onde eu sabia, Alice era uma pessoa boa. Uma pessoa que podia mudar Luke, algo que eu definitivamente não consegui, aparentemente. Ou talvez eu tenha conseguido, visto que a primeira que veio depois de mim conseguiu convencer Lucius a assumi-la.

Apesar de que... eu não tinha como saber se Alice tinha sido a primeira depois de mim. Luke pode ter tido várias.

Eu deveria parar de pensar nisso.

Bufei involuntariamente e os dois meninos viraram-se levemente para mim.

— Erm, maldito time de Michigan! – brinquei, numa tentativa de fingir que eu estava reagindo à conversa deles sobre futebol americano. A única coisa que eu sabia sobre futebol era a tremenda rivalidade que havia entre Ohio e Michigan. Honestamente, não tinha como você não saber dessa rivalidade quando você morou há tanto tempo na capital.

Aidan franziu o cenho para mim e Luke me olhou como se eu fosse de outro planeta. Aparentemente o assunto não era nem esse mais.

O Alpha então suspirou e pôs as mãos nos joelhos, como quem fosse se levantar do banco.

— Não acho que ela voltará tão cedo e, se querem saber, ela que fique. Ela precisa desse tempo sozinha, isso é mais do que compreensível. Se ela quisesse nossa companhia, teria voltado ou ligaria para um de nós. – Luke assentiu e eu apenas continuei a escutá-lo. – Precisamos respeitar não somente a decisão que ela tomará quando voltar, mas também a forma como ela escolheu para refletir sobre o assunto. – Levantou-se então e caminhou até sua porta da frente, abrindo-a para voltar ao abrigo da casa. – Caso ela não dê nenhum sinal até o amanhecer, irei atrás dela para ver se está bem. Mas se ela quiser continuar em reclusão, continuaremos a esperar.

Aidan então entrou, deixando Luke e eu sozinhos no jardim. Depois de um tempo, o lobo decidiu levantar-se da grama para se juntar a mim no banco.

— Então, Scarlet – começou, um tanto sem jeito, olhando para suas mãos que se apoiavam na madeira. – Conversei com Riley anteriormente-

— Você conversou com Riley? – Tive de interrompê-lo de tanta incredulidade. Ele olhou-me curioso, mas assentiu. – Huh. Por algum motivo eu não imaginaria que vocês se dessem bem. – Principalmente não depois que eu me juntei com ele, mas essa parte eu não falei.

— Nos damos surpreendentemente bem – ele mesmo admitiu, parecendo tão surpreso quanto eu. Eu me envergonhava de admitir que eu me senti levemente ofendida com isso. Como se eu não valesse sequer a animosidade entre eles.

— Riley é um cara sensacional.

— Disso realmente não há o que falar – concordou comigo. Passaram-se alguns minutos de um silêncio constrangedor. – Riley me contou sobre o que tem vivido com você no México. – Surpreendi-me que os dois tivessem falado sobre mim, qualquer coisa que fosse. – Ele me diz que você tem estudado como uma louca.

— Correndo contra o tempo – contei. – Estou muito atrás de muitos dos Selvagens de lá. Como fui privada dessa realidade, tenho muito o que correr atrás.

Eu nem sequer mencionei que foi por culpa do pai dele, de seus segredos e políticas que eu não pude viver uma infância com aqueles de minha espécie, aprendendo a ser o que eu de fato sou. Mas Luke não precisava que eu falasse para saber disso, e pude perceber o quão desconfortável ele ficou, querendo se desculpar, mas sem saber como compensar um crime nessas proporções.

— Ele me diz que você tem avançado muito nas... artes de ser uma Selvagem. – Tentou continuar o assunto e eu não pude conter uma pequena risada.

— Não é uma arte. São apenas... – procurei a palavra certa. – Apenas uma série de habilidades com as quais nascemos, mas vamos desbloqueando ao longo da vida. – Olhei para o chão. – Coisas muito simples. Até os adolescentes conseguem.

— Scarlet! – Ele parecia ter recomposto um pouco de sua autoconfiança após acidentalmente me fazer rir. Falava mais alto e me encarava com maior frequência. – Riley disse que recentemente você conseguiu se transformar em um falcão!

— Sim, é verdade – respondi, um tanto envergonhada, mas muito orgulhosa. – Meu ancião diz que leva tempo para desbloquear a segunda forma, mas depois dela as outras vêm mais facilmente.

— Que grandioso! – exclamou. – Deve ser uma sensação estupenda, sentir o vento batendo em seu corpo, estar acima das nuvens.

Ele falava com o olhar brilhando, mas percebi que havia uma profunda tristeza em seus olhos azuis junto com a empolgação. Tive a impressão de que o que Luke queria transmitir era que ele queria, mais do que qualquer coisa, ter estado presente para esses eventos. Ter estado ao meu lado durante meu progresso, minha ascensão. Não, eu devia estar enganada.

— É indescritível – respondi apenas, desviando minha atenção de seus olhos azuis cheios de mensagens que ele não conseguia falar. Mas ele continuou me olhando, como se esse momento, nós dois a sós, fosse algo que ele apreciasse mais do que poderia dizer.

— E você, lá no Maine? Como está sua família? Como está... seu pai? – perguntei, numa tentativa desesperada de fazê-lo parar de me encarar e imediatamente me xinguei por ter entrado em um assunto tão ruim.

Ele suspirou e passou a mão por seu rosto num gesto que evidenciava seu cansaço.

— Se quer mesmo saber, já me arrependi mil vezes de ter voltado – suas palavras transbordavam exaustão e tive pena dele naquele momento.

— Seria um transtorno, mas você poderia simplesmente se recusar a fazer parte disso. Eles não podem simplesmente te forçar a fazer o que não deseja. A ser infeliz.

Enfatizei a última palavra, pois era isso que sua figura mostrava para mim, mas nesse momento ele me olhou. Realmente me olhou. Como se estivesse me enxergando pela primeira vez. Ou como se eu estivesse piscando que nem uma árvore de natal, tanto faz. Depois de alguns segundos, ele balançou a cabeça, como quem tentava recuperar o foco.

— Eu- eu sei. Mas ao mesmo tempo sei que se eu não estiver lá, minha mãe vai sofrer. E com meu pai ainda se recuperando... – Resmungou um xingamento. – Eu preciso estar lá para ajudar meus irmãos a monitorarem tudo. Não quero, mas sei que minha família nunca precisou tanto de mim quanto agora. Seria egoísta de minha parte deixá-los se resolverem sozinhos.

— O seu pai ainda não está bem?

— Está. Quer dizer, ao menos achamos que sim. Os médicos dizem que sim.

— Ele já se recuperou de tentar me assassinar? – Fechei o punho assim que as palavras escaparam de minha boca, machucando minha palma levemente com minhas unhas. Não era minha intenção falar isso, mas essa raiva reprimida foi mais forte do que eu. – Desculpe, eu não quis... – Tentei desculpar-me, pois não queria brigar com ele tão exausto.

— Não! – interrompeu-me de imediato. – Por favor não se desculpe. Não há motivos para isso. O Letum enlouqueceu e tentou te matar por você, fatidicamente, ter dado o último golpe numa ex-amante dele. – Luke deu de ombros e tentou sorrir, tentando fazer graça. Mas por mais que eu estivesse arrependida de ter sido ácida, não estava a fim de rir da situação. – Ele nunca mais falou sobre isso, não sei de mais nada e ele finge como se o confronto com Elizabeth, e a situação com você, nunca tivessem acontecido.

— Seria bom se eu pudesse me recuperar assim também.

— Scarlet...

Lucius chegou mais perto, pegando minhas mãos nas suas e, naquela hora, com aquele assunto, eu não me importei em como a situação poderia ser desconfortável. A verdade era que tê-lo me segurando daquela forma não era desconfortável, não para meu corpo, não para meus sentimentos. Apenas para minha cabeça, que estava ocupada no momento.

— Scarlet, não vou ficar aqui e tentar defender meu pai. Aprendi anos atrás que, por melhor líder que ele seja, ele não é um homem tão bom assim. Robert sabe, por isso provavelmente se esforçou para conseguir uma profissão que o permitisse fugir dos jogos políticos com dignidade. Alexander, por outro lado, segue-o com fervor. Admira seu poder, sua astúcia, sua lábia e sua força. Mas eu enxergo além disso tudo e, se eu pudesse, vingaria o que lhe aconteceu.

— Lucius, por favor, não estou pedindo nenhuma retaliação-

— Eu sei que não. Você é maior que isso. – Sorriu para mim. – Mas estou dizendo que você merece. Tenho certeza de que as ações dele, um dia, vão cobrar seu preço.

— Eu não tenho tanta certeza – confessei com um suspiro. – Lucius, ele é o Letum. Ele é intocável.

— E ele também é meu pai – Luke sussurrou. – E eu sei distinguir quando ele está verdadeiramente bem. Alexander acredita nos médicos. O amor de minha mãe faz ela enxergar o que o coração dela quer acreditar. Mas Robert e eu... Nós estamos observando, Scar. Por isso é tão importante eu ficar perto dele.

— O que você quer dizer? – Franzi o cenho.

— Ele está saudável, ele está lúcido, ele está recuperado. O que foi divulgado ao mundo não é mentira. – E ele então prosseguiu com seu tom de voz baixo. – Mas ele também é velho. Antigo. Se algo acontecer, a família terá que intervir.

— Eu- Sinto muito, Luke – falei com sinceridade, e também sem saber outra forma de reagir.

— Tudo bem. Uma hora ou outra isso teria que acontecer, faz parte dos estágios de vida de um lobisomem. – Ele deu de ombros, mas eu sabia que ele estava abatido com essa noção.

De repente, a porta da frente se abriu e vi a moça de cabelos negros procurar por nós. Procurar por ele. Se eu não fosse atenta, pensaria que Lucius não teria nem percebido a aproximação da mulher, pois não olhou para trás, nem sequer se mexeu. Mas eu percebi a leve contração de sua mandíbula, seu ranger de dentes. E percebi como ele não soltou minhas mãos.

— Olá, gente. Como a noite está linda para ficar do lado de fora, não é? Acho que vou me juntar a vocês – Alice falou, vendo nossas mãos, mas fazendo de conta de que não era nada demais.

Sentou-se na frente de Luke, na grama, encostando as costas no banco entre as duas pernas de seu namorado.

— E então, colocaram a conversa em dia? Aidan me disse que vocês, juntamente com Rebecca, eram um trio – ela perguntou, levantando a cabeça para observar as estrelas.

Tirei minhas mãos das do lobo, nossos olhares se cruzando brevemente, mas eu já os desviando com rapidez.

— Éramos sim – respondi, tentando ser simpática ou, pelo menos, amigável depois de ter passado tanto tempo com o namorado dela.

— Que encantador! – Alice sorriu como alguém que realmente tinha achado a notícia agradável. – Uma pena que cada um acabou tomando rumos tão diferentes.

— Uma pena, mas um mal necessário para cada um de nós. – Luke decidiu se pronunciar, ajeitando-se no banco para não mais ficar virado exclusivamente para mim. – Rebecca amadureceu ao longo dessa jornada e Scarlet só tem aprendido mais e mais. – Sorriu para mim e não consegui impedir meus lábios de retribuírem.

— E você me conheceu! – Alice falou com deleite. – Bem, conhecer já conhecia, não é seu tolinho? – Olhou para ele e sorriu, vendo o sorriso que ele havia me dado ainda em seus lábios e pensando que fosse para ela. – E de pensar o tempo que perdemos! Poderíamos estar tentando embalar um filhote já a essa altura se você tivesse me enxergado antes.

Engoli em seco e desviei meu olhar dos dois desconfortavelmente. Lucius teve um acesso de tosse, tão incomodado quanto eu. Ou mais.

Ele não respondeu. Com o silêncio que se seguiu, Alice continuou a conversa.

— Estranho a Rebecca não ter voltado ainda. Não sei se vocês estavam contando, mas já faz dez horas que ela irrompeu porta afora.

— É preocupante, sim, mas Aidan tem razão em decidir esperá-la aqui. – Suspirei. Eu estava, de fato, preocupada com ela. E preocupada que eu talvez não tivesse lhe dado a notícia de que sua mãe era viciada em drogas, corria perigo de um clã vampírico, e que eu tinha aprendido tudo isso falando com o espírito de seu “falecido há vinte anos” pai da melhor maneira possível. – Ela tem muito o que digerir.

— Eu fico surpreso é com Aidan – Luke adicionou. – O cara está muito calmo. Deve estar no quarto arranhando as paredes há uma hora dessas para conseguir se conter.

— O que quer dizer? – perguntei.

— Você sabe que os dois se reivindicaram, né? – Luke perguntou-me com um sorriso brincalhão.

Assenti. Eu sabia desse detalhe extremamente gigantesco na vida da minha melhor amiga. Infelizmente ainda não tive a oportunidade de falar com ela sobre isso – e talvez demorasse um pouco para a situação surgir – mas esse tipo de notícia era uma das primeiras coisas que se espalhava no mundo lupino. Principalmente quando seu namorado faz parte da mesma alcateia deles.

— Pois então. Rebecca é a fêmea dele e está a tanto tempo sem dar sinal de vida. Céus ele não sabe nem onde ela está. Até aí tudo bem, mas acontece que ela acabou de passar por uma situação incrivelmente traumática. – Ele me encarou então, dividindo um olhar de quem passou por muita coisa juntos. – Sabe Deus no que Rebecca pode estar se metendo.

— Ou ela está apenas tentando lidar com seus sentimentos – Alice sugeriu e concordei com ela. Não achava que Rebecca fosse fazer um estardalhaço, não depois de tudo que passou.

— Também é plausível – Luke admitiu. – Mas o cerne da questão é que ela é a fêmea dele, momentaneamente abalada, e ele não sabe sequer onde ela está. A reivindicação mexe com a cabeça dos lobos de um jeito muito forte. Ele deve estar enlouquecendo.

— Tenho certeza de que Becca estaria ainda mais enlouquecida se os papéis fossem invertidos – murmurei.

Eu poderia não saber o quão sério os dois estavam – em termos de compromisso humanos, quero dizer – mas eu sabia muito bem como Becca é apegada aqueles que lhe são próximos. E como eu sempre havia percebido a conexão especial que os dois pareciam dividir desde o começo, eu realmente achava que se Aidan sumisse, e ela estivesse tão afetada por essa reivindicação, ela já teria matado metade da cidade.

— É – Luke refletiu. – A reivindicação é uma das maiores manifestações de nosso lado animal, com o intuito de fazer o casal passar a maior parte de tempo possível juntos, para tomarem a decisão do acasalamento. Deve estar enlouquecendo Aidan, mas quase sempre dá bons frutos. – Alice encarava o lobo e estava pendurava em cada palavra dele, seu olhar vidrado.

— Ele deve amar muito ela, então – romantizou.

— É bom ele amá-la e muito. Não somente agora, mas por muito, muito tempo. – Luke virou para mim com o cenho franzido, mas um sorriso brincalhão nos lábios. – Senão eu dou um pé na bunda desse vira-lata.

Alice riu, mas suas risadas não foram tão altas quanto as compartilhadas por Luke e eu.

~X~

Aidan

Nunca fechei a porta de casa com tanta satisfação na minha vida. Eram seis horas da manhã, o sol estava nascendo, ainda perdurava uma fina neblina pelas árvores e eu ia atrás de Rebecca.

Após quase vinte e quatro horas de pura agonia – e claramente nenhum sono – eu e meu lobo finalmente achamos prudente ver se Rebecca estava bem. Se ela estava com fome, com frio, se sentindo sozinha. E descobrir onde diabos ela estava.

‘Nós sabemos onde ela está.’ Meu lobo murmurou, contrariado. ‘Ou pelo menos temos quase certeza.’

Se dependesse dele já teríamos ido a seu encontro horas atrás. Mas eu sabia que era indispensável para ela ainda se sentir o mais livre possível e tentar colocar seus pensamentos no lugar sozinha, mesmo estando na minha alcateia.

‘Mesmo sendo nossa. Precisamos saber que ela está em segurança, Aidan!’

— Ela está em segurança, droga – refutei-o, abrindo a porta da SUV e metendo o pé no acelerador.

Eu tinha fé de que Rebecca não tinha se metido em encrenca, ou então que se estivesse, conseguiria se virar sozinha. Ou teria tido o bom senso de me ligar.

Passei pelos bairros beirando o limite de velocidade, vendo as casas passarem, as panificadoras abrindo e os primeiros sinais do começo de mais um dia. Em parte, eu até agradecia Rebecca por ter sumido, dando-me uma desculpa para sair de casa, finalmente.

Eu temia aquele clima estranho que pairava entre meus atuais quatro hóspedes. Eu sabia que não era culpa deles, não é como se eles quisessem que todas as conversas fossem desconfortáveis, mas não tinha muito como fugir dessa situação quando duas pessoas que se amavam – e que se separaram de um jeito não muito amistoso – se reencontram com seus novos parceiros. Bem, pelo menos eu achava que Scarlet e Lucius se amavam, mas também não sei nem metade do que se passou entre eles.

E, se quer saber, não me diz respeito.

‘O que nos diz respeito é o bem-estar de Rebecca.’ Meu lobo interrompeu meus pensamentos e não pude nem ficar irritado com ele. Ele tinha completa razão.

Paramos o carro no estacionamento da floresta da alcateia e quase pulamos para fora dele. Adentrei a trilha principal para começar a farejar, torcendo para estarmos certos de que Rebecca voltaria para o seu esconderijo habitual de quando precisava pensar. Devido a quanto tempo atrás ela tinha passado por aqui, tive que caminhar por uns cinco minutos floresta adentro para conseguir pegar um mínimo rastro de seu aroma de chuva e camélias, tão fraco que já parecia espairecer ao vento. Decidi persegui-la como humano, aproveitando a caminhada para me acalmar também. Esquecer a preocupação que me inundou esse tempo todo, esquecer o maldito clã vampírico que queria tomar a cidade de Detroit através do tráfico, esquecer a desnaturada da mãe dela. Ela precisava que eu estivesse sereno, caso contrário só pioraria seus próprios sentimentos. Minha única função, naquele momento, era acalentá-la.

Segui seu aroma por cerca de meia-hora, caminhando a um passo acelerado. Quanto mais perto eu chegava, mais perceptível eram os cheiros das emoções que ela havia sentido nessas últimas horas: raiva, tristeza, preocupação. Finalmente encontrei-a, escondida pelas sombras de uma grande árvore, fazendo ela, mesmo com sua pelagem clara, ficar quase completamente invisível. Estava embrulhada em si mesma.

Aproximei-me devagar para não a assustar, mas quando sentei ao seu lado, percebi que ela estava dormindo. Coloquei a mão direita em suas costas, levemente pousando-a ali para lhe afagar. Imaginei que ela deveria ter passado a noite em claro, pois para não ter acordado com meu toque, em sua forma lupina, ela só poderia estar exausta. Permaneci ali, ocasionalmente cochilando também, esperando-a despertar sozinha.

Após algumas horas, vi seu nariz começar a farejar, percebendo que não estava mais sozinha, e suas pálpebras finalmente começaram a se agitar. Ela levantou a cabeça das patas, onde descansava, e me fitou com seus olhos azuis ainda sonolentos.

— Bom dia, dorminhoca.

Bufou em mim, jogando o ar no meu rosto e fiz uma careta em resposta. Ela então ficou de pé, alongando seu tronco e depois cada uma de suas patas. Em seguida, agitou-se, como se estivesse molhada, passando um tremor por seu corpo até a ponta de seu rabo. Sorriu um sorriso lupino e então sentou-se, para iniciar sua transformação.

Virei meu rosto então, para não ter de ver seu corpo se rearranjando ou suas expressões de dor. Aproveitei para alcançar o vestido que eu havia pegado antes de sair para ela usar.

— Bom dia – respondeu com a voz fraca, o bom humor de sua loba, que antes estava mais predominante, havia se dissipado com sua volta à forma humana, sendo substituído por uma filha que lamentava a mãe. Passei o vestido para ela, arrancando um sorriso superficial em agradecimento, mas ela apenas o segurou no colo.

— Vista-se – insisti. – Não está mais protegida com sua pelagem, pode pegar um resfriado. – Com um suspiro, ela revirou seus olhos e vestiu a peça. – Está com fome?

— Não – respondeu. – De madrugada me deu fome e cacei um guaxinim.

— Um guaxinim? – brinquei, tentando melhorar o humor dela.

— Não é como se eu estivesse com humor ou empenho para emboscar um cervo. – Deu de ombros. – E o bicho estava desfilando na minha frente, pedindo para ser morto. Fiz um serviço para a fauna local.

Dei uma curta risada em resposta, feliz por ela estar fazendo pequenas tiradas como aquela. Era um bom sinal.

— Passou esse tempo todo como loba? – perguntei por curiosidade. Eu sabia que era perigoso um lobisomem passar muito tempo em sua forma lupina, começava a perder a humanidade e podia levar à insanidade, mas vinte e quatro horas não era preocupante. Mesmo assim, quis saber.

— Passei. Precisei que Bexi tomasse um pouco o comando para eu poder desligar totalmente por um tempo. As primeiras horas eu nem vi passar, meu lado humano ficou totalmente dormente.

Assenti. Eu não gostava de lobisomens que costumavam apagar para deixar seu lobo comandar, mas entendia como era um alívio para muitos. E se alguém tinha o direito de fazer isso por um curto período, era Rebecca.

— Obrigada por ter esperado. – Pegou uma das minhas mãos na sua, apertando como carinho. – Confesso que achava que você teria vindo atrás de mim de imediato, ou então em umas duas horas. Mas não, você me deu espaço.

— Achei que você precisasse.

— Não vou mentir, tiveram momentos que eu queria que você estivesse aqui. Nos momentos em que eu não conseguia parar o rio de lágrimas ou os uivos de dor, achei que ter você junto teria sido mais fácil. Mas esse é o problema, Aidan. Algumas coisas não são feitas para serem fáceis. Se você estivesse aqui, seu afeto e sua proteção seriam uma distração. – Sua voz falhou e por um momento achei que ela talvez voltasse novamente a chorar, mas Rebecca logo conseguiu se recompor. – Consegui refletir muito sobre tudo isso. Preferi resolver dessa maneira, apenas eu e Bexi. Obrigada.

Não respondi, apenas concordei com a cabeça e a envolvi em meus braços. A loba deu uma respiração profunda como quem estava precisando de consolo há muito tempo.

— Passei tanto tempo com raiva, Aidan. Chorei muito e me senti desolada, mas acho que a maior parte do tempo eu queria descontar minha raiva em alguém. Não me permiti atacar os animais somente por sede de sangue, mas pode ter certeza de que há várias árvores por aí quase sem suas cascas.

Tentei enxergar seu rosto, mas ela se encolheu mais em meu abraço, protegendo-se dentro de mim.

— É compreensível que você esteja assim. – Fiz uma pausa antes de continuar. – Aquela hora no escritório não quis te ofender de forma alguma. Quando disse que você podia estar exagerando era porque-

— Porque eu não deveria estar descontando em Scarlet, ela era apenas a mensageira, eu sei. Por mais que ela esteja acostumada comigo explodindo na cara dela, sei que eu estava errada e vou conversar com ela quando voltar.

— Não é só isso, Rebecca, mas-

— Eu sei, eu sei! – interrompeu-me, irritando-se. No segundo seguinte, porém, ela pareceu ter percebido como seu humor ainda estava frágil e apertou ainda mais nosso abraço como forma de pedir desculpas. – É porque é de Melissa que estamos falando, teoricamente minha mãe. E eu sei o que você pensa, lá no fundo. Sei como você valoriza os laços familiares, mas minha família não foi como a sua, Aidan. Não preciso me esforçar muito para saber que você acha, e talvez até torça, para que eu seja uma pessoa melhor do que minha mãe e salve ela de sua perdição.

Eu ia abrir a boca para protestar, mas ela não permitiu.

— Mas Aidan, se não for dessa vez, pode ser em outra. Posso até salvá-la agora, mas o que me garante que ela não vai colocar a própria vida em risco novamente?

— Parece até alguém que eu conheço – mencionei, tentando alegrar os ânimos. Isso fez Rebecca se afastar do abraço e me encarar com uma sobrancelha arqueada.

— Obrigada por me comparar a uma alcoólatra e viciada. – Por sorte seu tom era sarcástico e eu soube que não tinha pisado na bola. Não totalmente, ao menos.

— Talvez, em uma segunda vez, eu não consiga salvá-la. Talvez, numa segunda vez, eu nem queira – continuou. – Além disso, ainda me sinto injustiçada pelo que passei minha vida inteira. E nada me garante que ela sequer se sinta agradecida por tudo que fiz. Provavelmente ela não estará nem lúcida o suficiente para compreender.

Deu de ombros, mas percebi seus olhos voltarem a marejar e fiz menção de abraçá-la novamente. Ela me impediu.

— Eu não tenho certeza de como isso tudo vai acontecer. A única coisa de que tenho certeza é de que ela não merece meu esforço.

— Mas você merece – falei então. – Você pode não sentir isso agora, mas tenho certeza de que daqui alguns meses, anos, você vai se arrepender. No começo pode ser que você não sinta nenhum remorso que seja, mas uma hora, nessa longa vida lupina que tem pela frente, você vai lembrar.

— Eu sei... – ela sussurrou depois de um longo tempo em silêncio. – Foi isso, essa noção, que me prendeu aqui na floresta por tanto tempo. Minha consciência. Eu sei o que preciso fazer Aidan, mas sinto que se o fizer, estarei traindo a Rebecca do passado.

— Mas estará construindo uma Rebecca melhor, para o futuro.

— Espero que você tenha razão. Espero que tudo valha a pena no final. – Suspirou, olhando-me finalmente nos olhos novamente. – Você se importaria se eu... se eu me abrisse com você?

Surpreendeu-me então, e num pulo foi até ela, pegando-a pelos cotovelos para ela se sentir segura, apoiada. Para ela não conseguir, de jeito nenhum, desviar seus olhos castanhos tigrados de azul.

— Rebecca, nunca mais me faça essa pergunta. Somente o fato de você se sentir na obrigação de perguntar, como se isso fosse um incômodo para mim, mostra que eu não devo ter sido um namorado muito bom ultimamente. Nem um Alpha.

— Aidan, não é nada disso, você é ótimo. É só que-

— Sempre estarei aqui por você. Por qualquer coisa. A hora que precisar— meu lobo interrompeu-a, desesperado para fazê-la compreender que, se não fosse para estar ao lado dela não somente como um namorado, mas como um amigo, não serviríamos para nada.

O sorriso doce que surgiu em seus lábios, apesar da tristeza, foi a coisa mais linda que eu já vira.

— Obrigada. É que eu... Aidan, eu nunca me abri com ninguém. Não dessa forma. Não com Luke, não com Scar. Um pouco com Corrie, mas havia coisas que eu não me sentia confortável revelando nem para ela. – Ouvi-a atentamente, ainda segurando seus braços como se fossem a coisa mais preciosa do mundo. – Mas com você- Com vocês, eu me sinto à vontade. E bem, — ela riu. – acho que agora é um dos momentos que eu mais preciso desabafar.

Assenti, puxando-a para debaixo da mesma árvore em que ela adormeceu, e sentamos. Eu com as costas encostadas no tronco e ela com as costas apoiadas em mim. Achei que as palavras fossem fluir mais facilmente se ela não precisasse me encarar. Assim ela não conteria nada, deixaria todas as suas barreiras se abrirem.

Ela começou com suas memórias mais antigas, as mais turvas de quando ela era pequena. Progrediu para sua época na escola e mais tarde para a adolescência. Ela contava cada parte de sua vida devagar e eu em nenhum momento a apressei. Acariciava suas mãos e seus braços, principalmente nos momentos que eu percebia que ela chorava. Era evidente a importância de Corrie em sua vida, alguém com quem compartilhar dores, sonhos. Quanto mais velha Rebecca ficava, mais sua mãe piorava. Mas a essa altura ela já tinha ficado mais resistente, mais valente. Percebi que boa parte da personalidade de Rebecca era devido a sua criação. Seu temperamento curto, sua desconfiança, sua mania de resolver tudo sozinha.

Quando Rebecca terminou suas recordações dolorosas, pouco tempo depois de ter entrado para a Alcateia de Seattle, ela chorou mais. Chorou pela dor das lembranças, mas chorou por ter, finalmente, tirado todo esse peso de suas costas. Peso que carregava sozinha. Esperei ela terminar de chorar e virei-a para mim.

— Você nunca mais vai passar por nada nem remotamente parecido com isso, entendeu? Não enquanto eu estiver vivo. – Olhei fundo em seus olhos. – Isso é uma promessa.

Ela assentiu, tomando força para se levantar e segurar minhas mãos nas dela. Seu rosto ainda estava inchado do choro, mas sua expressão era resoluta. Ela não ia mais chorar, não por isso.

— Você... você decidiu alguma coisa? – perguntei com receio depois de um tempo juntos e em silêncio. Não queria pressioná-la, mas ao mesmo tempo precisava saber qual seria o próximo passo, se é que haveria algum passo a dar.

— Acho- acho que sim. – Suspirou – E é melhor eu te contar antes que eu me arrependa da conclusão que tirei depois de um dia inteiro de isolamento e repense minha decisão. – Deu um sorriso fraco que sumiu em um piscar de olhos. – Scarlet falou com meu pai. E se meu pai está aqui, perambulando por aí como um fantasma, o que não deve ser lá muito confortável, por causa das péssimas decisões de vida de Melissa, ele só pode ser uma alma abençoada.

Segurei uma risada, apertando-a ainda mais contra mim.

— E justamente por isso, por ele ser uma alma abençoada e ainda se dar ao trabalho de ter fé em Melissa, é que ele merece ter algum descanso, algum consolo.

Concordei com a cabeça, afagando seu ombro carinhosamente.

— Você sabe que eu apoiaria qualquer decisão sua, não é mesmo? Qualquer coisa que você decidisse fazer, mesmo que decidisse ignorar tudo e fingir que nada aconteceu, eu apoiaria você. Talvez eu não concordasse, mas apoiaria. Melissa escolheu o caminho dela, portanto você tem o direito de escolher como, ou se, irá interferir. – Ela apertou-se ainda mais contra mim. – Mas saiba que eu estou muito orgulhoso de você. Não é porque estou falando com você que digo isso. Qualquer um que tenha tido uma infância como a sua tem boas chances de ter escolhido deixar a mãe a mercê do destino. Então, de verdade, estou orgulhoso de você.

Ela se levantou então, puxando-me junto com ela.

— Obrigada, Aidan. Acho que nunca deixei ninguém orgulhoso antes – ela falou com uma risada cortada, mas eu sabia que por trás de seu falso humor, havia seriedade.

— Não seja boba, Rebecca. Você é espetacular.

Pegou minha mão, incitando-nos a fazermos nosso caminho de volta para o carro.

— É verdade, nunca orgulhei ninguém. – Virou-se para mim. – E não vá se acostumando. Saiba que não vou botar meu traseiro num avião e ir até Detroit por causa de Melissa. Vou por Samuel e por minha consciência.

— Não vou me acostumar, prometo – brinquei.

— Agora apresse o passo, por favor. Posso não estar com fome, mas sei que Luke e Scarlet estão dividindo o mesmo teto no momento. Preciso voltar antes que eles quebrem seu lindíssimo conjunto de porcelanas, ou então que Scarlet venha pessoalmente me arrastar para casa para eu desembuchar sobre o que tem acontecido entre nós dois.

Caminhamos até o estacionamento, mas pude perceber que ao longo do caminho ela juntava e quebrava inúmeros gravetos. Como se fossem ossos.

Notas finais
Obrigada por me acompanharem até agora! 2019, pessoal! E de pensar que muitos de vocês aí eu conheço desde 2013, quando tudo começou. Sou incrivelmente grata a cada um de vocês, de verdade! Como prometido, tenho algumas novidades: — Além da página oficial do facebook, agora também tenho uma conta no Instagram reservada apenas a meu hobby de escrever! Quem se interessar, procure por @aellatherion :} — O livro Dominante agora já foi adicionado ao site Goodreads e Skoob! Por favor, incentivo de coração para que todos que já leram Dominante (presumo que todos aqui presentes no capítulo 26 de Valente kkk) marquem como lida a história, pois ajuda muito na imagem da história para outras pessoas. :) E para aquelas almas iluminadas, anjos na terra, que decidirem resenhar a história no Skoob ou Goodreads, estarei eternamente grata a vocês, seus lindos. Quem quiser me adicionar no Skoob também é só me mandar uma mensagem aqui no spirit! Aqui está o link do GoodReads: https://www.goodreads.com/book/show/43324197-dominante Aqui o link do Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/838559ED843615 Obrigada amores e até o próximo!