Notas iniciais
Olá! Como vocês estão? Aproveitando o fim de semana estendido, espero. :) Aqui chegamos a um capítulo muito importante, uma fase nova na história como um todo, mas também para alguns dos nossos personagens favoritos! À partir do capítulo que vem, começamos com a terceira e última parte de Valente, para depois, começarmos o terceiro livro que ainda preciso pensar em um nome (lê-se: aceito sugestões HAHAHA) Apreciem a leitura!

Becca

Eu não aguentava mais aquela situação. Estava com uma sensação de que tudo estava errado, além de me sentir péssima pelo modo como reagíramos e o que havíamos feito desde então.

Corríamos pela nossa floresta, que a cada vez se tornava mais um santuário para nosso pensamento e reflexão. Becca havia decidido se retrair e deixar-me no controle, mas ela conseguia ouvir muito bem meus pensamento e sentimentos. Ela sabia como eu me sentia, e sabia que eu ia forçá-la a fazer algo a respeito.

Eu tinha completa ciência de que ela não estava feliz com a situação do jeito que havia se desenrolado, também queria arrumar as coisas, no mínimo não deixar do jeito desconfortável em que estavam. Mas Becca, ao contrário de mim, estava com receio de dar o passo além e ver no que iria dar se ela tentasse arrumar. Estava com medo do resultado.

Ela se agitou em minha mente, brava por eu estar pensando isso dela. Mas era a verdade. Dessa vez, quem estava sendo orgulhosa era ela. Ou, no mínimo, medrosa.

Já fazia quatro semanas desde que o “incidente” com Aidan havia acontecido. Duas semanas depois de ele transgredir nossa privacidade, interrompendo nosso jantar com David, Scarlet nos convidou para ir para o México comemorar seu aniversário com ela. E, por mais que nós dois tenhamos passado todo aquele tempo, tanto aqui em Columbus quanto no México, tentando ignorar tudo que havia acontecido, as baladas mexicanas nos forçaram a relembrar.

E me fez relembrar um dos motivos pelo qual a gente não foi embora. O motivo pelo qual nós sabíamos, no momento em que aquelas palavras saíram de nossa boca, de que não passava de um blefe descarado. O motivo era a irritante necessidade de voltar para Aidan, como se ele fosse um imã e nós o metal.

Becca podia estar orgulhosa o quanto quisesse, mas não podia negar. Quem estava no controle durante aquele momento de “fraqueza” durante a viagem tinha sido ela. Quem havia sentido de primeira mão os choques que o toque de Aidan causava, e decidira corresponder, era ela.

Então agora, finalmente tendo terminado a caminhada até o topo da montanha que normalmente subíamos em alcateia, forcei a transformação de volta à humana, para ver se Becca concordava e compreendia o que a gente precisava fazer, para ver se ela, de uma vez por todas, parava de ignorar tudo que acontecia. Antes quem ignorava era eu, mas agora estava na vez de ela enxergar e de ela fazer o que era melhor para nós duas.

A familiar dor veio, mas ambas nossas mentes estavam ocupadas demais em assuntos maiores para notar muito a dor da transformação, já amenizada desde que entramos para a alcateia. Após nossos pêlos terem sido substituídos por pele, e nossos olhos mudarem de cor, trocamos o controle.

— Você não vai me deixar em paz, vai? – perguntei à loba, suspirando e deitando na grama úmida da madrugada.

‘Não é uma questão de te deixar em paz. As coisas não podem ficar assim.’

— Mas estava correndo tudo bem até agora. Até eu infelizmente concordar em ir naquela balada com Scar.

‘Não estavam indo bem e você sabe. Parecia que estava porque todos estavam fingindo, junto com você, que tudo estava bem. Não iam conseguir fingir por muito mais tempo.’ Bexi refutava-me. ‘Aidan me surpreendeu tendo guardado segredo por tanto tempo. Você sabe que ele não contou nada a ninguém, não é? Sobre nossa quase rejeição. Não quer nos expor. Mas os lobos estão percebendo que estamos nos evitando, e sem dúvidas sabem da reivindicação. Se ficarmos muito tempo assim, vão perceber que nós queremos rejeitar Aidan, mas ainda não o fizemos, e isso pode causar uma grande instabilidade na alcateia como um todo, Rebecca. Até mesmo Joseph já destacou isso, será que não percebe o quanto é importante?’

— Maldição! Eu sei que tudo isso é verdade... Por que você tem que me doutrinar sempre?

‘É para isso que estou aqui, e por isso que você está aí. Eu faço isso por você quando preciso, e você faz por mim.’

Grunhi, fixando meu olhar na lua brilhante no alto do céu, ascendendo até chegar ao seu pico. Minutos se passaram até a presença de Bexi sussurrar novamente em minha cabeça.

‘O principal motivo, porém, não é esse. Não é por isso que precisamos consertar essa situação.’

— Eu sei que não – admiti.

‘E ele também tem coisas parar consertar com a gente, mas cada coisa em seu tempo. É a nossa vez de jogar, está no nosso turno. E se não fizermos algo rapidamente, vamos perder a vez, Rebecca.’

— Eu só- É que- Ele... – lutei com as palavras. – Ele me irrita.

‘Sim, mas e o que mais? Você sabe que não é só isso.’

— E ele é bom, e ele é justo, e ele foi a pessoa que mais me ajudou nessa vida.

Bexi ficou muda em minha mente, mas eu sabia que era porque ela sabia que eu ainda não tinha terminado.

— E já faz tempo que eu o amo.

‘Sim. E sinto muito. Eu fui, por muito tempo, a razão por ter segurado tudo isso e impedido de acontecer antes. Mas agora a única pessoa impedindo qualquer coisa é você, Becca.’ Bexi pedindo desculpas, ainda mais para mim, era algo novo, mas ela percebia a importância dessa situação mais até do que eu. Ela percebia o que isso significava para o lado animal de todos os envolvidos. ‘E por que Aidan te irrita?’

— Por vários motivos. – Bufei, mas depois admiti: — Mas principalmente por ser quem ele é, um Alpha diferente de todos que já conheci, o que por sua vez faz dele uma pessoa muito difícil de desgostar.

‘E você já está a um mês sem olhar na cara dele por que, mesmo?’

— Porque eu sou uma pessoa muito, mas muito masoquista. – Ri alto e Bexi riu comigo, nosso riso ecoando pela noite escura do alto da montanha.

Imediatamente transformei-me com o único intuito de descer a montanha o mais rápido possível. Bexi, completamente alegre com o fato de que os esforços dela ao longo de todo esse tempo para me fazer perceber quais eram minhas obrigações haviam finalmente dado certo, correu mais rápido do que o vento até chegar ao nosso carro.

Ao chegar em casa, preparei uma pequena mochila com apenas alguns pertences. Eu sabia que era tarde para ir até lá, mas era um peso que eu não havia percebido que tinha nas costas e, agora, notei que precisava me livrar dele com urgência. Eu não sabia onde isso tudo ia dar, como ia acabar no final, mas isso era apenas uma consequência. No mínimo eu precisava livrar minha consciência e, bem, meu coração. Se nada desse certo, teria apenas que viver com isso sabendo que possivelmente havia acabado do jeito que acabou por culpa inteiramente minha.

Corri novamente para o carro e pisei fundo no acelerador para chegar até meu fatídico destino. Eu temia que, se eu demorasse demais, poderia acabar voltando atrás em minha decisão, que demorou tanto tempo para eu enxergar e, ainda por cima, demorei para ter coragem para executar.

Como estava de madrugada, não havia movimento algum nas ruas. Era plena sexta-feira, mas os bares e baladas de Columbus ficavam do lado oposto da cidade ao qual Aidan morava. A garagem estava fechada, a SUV de Aidan certamente dentro dela, mas estacionei meu carro na entrada dela, ao lado de um carro branco que reconheci como sendo o de Trevor.

Era comum sempre ter alguém na casa do Aidan. Antes era Kenna quem estava lá, principalmente porque ela estava sem um lugar para morar. Porém, após quase um mês de procura, Kenna finalmente conseguiu um emprego que pagasse suficientemente bem – ela era, curiosamente, veterinária – e, portanto, conseguiu alugar um apartamento para si mesma.

Entrei, esperando não encontrar ninguém acordado já àquela hora. Porém, Trevor me surpreendeu ao sair da cozinha todo sujo de farinha. Tão surpreso quanto eu, limpou as mãos no avental e me olhou de cima à baixo, sem dúvidas vendo que eu estava com uma mochila nas costas e o cabelo molhado.

— O que faz aqui? – perguntou com o cenho franzido, mas era muito difícil levá-lo à sério quando ele estava com manchas de farinha pelo rosto inteiro.

— Precisava vir – murmurei simplesmente, desesperada para trocar de assunto. Achei que não teria que interagir com uma terceira pessoa. Esperava que quem quer que fosse que estivesse aqui já estivesse no oitavo sono. – E você, está fazendo o quê? Isso é hora de cozinhar?

— Amanhã é sábado e vou sair. Queria adiantar algumas coisas pra domingo. – Deu de ombros. – Quer me ajudar?

— Desculpa, Trev, mas não posso.

Ele deu um meio sorriso enquanto, novamente, limpava as mãos no avental após ver que elas continuavam sujas.

— E por que não?

— Se você quer mesmo saber, – revirei meus olhos, decidindo mandar minha vergonha à merda. – Preciso ter uma conversa com Aidan. Por isso vim aqui e queria fazer isso o mais rapidamente possível antes que eu mude de ideia.

Para minha surpresa, Trevor jogou a cabeça para trás e riu.

— Isso vai ser bom. Obrigado, Becca, você me rendeu quinze pratas.

— O quê? – perguntei, não entendendo absolutamente nada e bastante apreensiva pois suspeitava que a risada de Trevor pudesse ter acordado Aidan e o fizesse descer até aqui. Não era esse o plano. O plano era ir até ele, abordá-lo sozinho, e não ele vir até mim com Trevor rindo da minha cara.

— A alcateia inteira tá nessa, Becca. Alguns apostaram que o primeiro a ceder ia ser o Aidan, mas eu fui um dos poucos que apostou que você não ia aguentar muito mais e ia dar o primeiro passo.

— Você só pode estar brincando com a minha cara – rosnei.

— Calma, lobinha. – Riu novamente. – No fundo todos nós só queremos uma coisa, e você sabe bem qual é.

— Eu-

— Sh. Escute – interrompeu-me e, por ser Trevor, um amigo inesperado que eu recentemente havia conquistado, não fiquei brava por seu jeito de falar. – Fique calma. Pense antes de falar. Pense bem nas consequências de tudo o que você fizer, principalmente se você acabar perdendo a paciência. Não se esqueça de que Aidan, assim como eu, assim como você, tem sua própria luta interna a travar a todo instante. Tente enxergar as coisas pelos olhos dele. Só Deus sabe o quanto ele faz isso com você.

— Eu... eu sei. Vou fazer o meu melhor.

— E se anime. Você está com uma cara de quem está indo para um funeral.

Tive que rir com seu comentário.

— Você está fazendo a coisa certa, Becca – continuou. – Só precisa aprender a executá-la direito.

— Sim, preciso dar uma chance.

— Pois bem – falou com um sorriso. – Vou embora.

— O quê? Por quê? São quase três da manhã.

Trevor olhou para mim com uma expressão sugestiva e sumiu cozinha adentro. Decidi segui-lo, já que estava perdidamente curiosa. Começou a arrumar e a limpar a cozinha e, chamando-me para ajudar, terminou seu raciocínio:

— Becca, se tudo der certo, acredite, vocês não vão me querer aqui. E eu não vou querer estar aqui.

Corei imediatamente, mas tive de concordar. Eu não havia pensado na questão de um dos lobos estar acordado. Se estivessem dormindo, tudo bem. Mas se estivessem acordados e em seus quartos, como Trevor... Iriam conseguir escutar absolutamente tudo.

— Na verdade, posso te confessar uma coisa? – indaguei.

— Depende – falou sorrindo, olhando-me de soslaio, enquanto guardava os ingredientes.

— Eu realmente prefiro que você suma.

Sorri marota, observando o rosto de Trevor passar por mil expressões diferentes em questão de um segundo. Por fim, ele soltou mais uma alta gargalhada, que novamente me fez ter medo de ele chamar a atenção de Aidan.

— Esperava que você, ou qualquer outro lobo que estivesse aqui, estivesse dormindo quando eu chegasse. Ou então que não tivesse ninguém aqui por algum milagre.

— Entendi tudo. – Segurava a barriga de tanto rir, enquanto tirava seu avental e o dobrava para lavar posteriormente. – Fique tranquila, não vou querer ficar aqui ouvindo o Aidan recitar os poemas melosos de amor que ele com certeza deve ter escrito pra você durante esse tempo todo.

— Não necessariamente quero ouvir poemas vindo do Aidan – confessei, rindo um pouco, mas também voltando a sentir o nervosismo se instalando. – Apenas quero tentar explicar para ele o que eu sinto e ver se, fazendo isso da forma mais sincera possível, eu consigo tomar uma decisão. E, claro, ele tomar a dele baseado no que eu revelar. Acha que pode dar certo?

— Sabendo que o Aidan está do jeito que está, praticamente desde o dia em que você pisou nessa casa? – Corei mais uma vez, apesar de minha confiança. – Acho que nada vai mudar a opinião dele sobre você, a menos que você revele que já matou uma pessoa a sangue frio. Ah, espera, você já fez isso não é mesmo? Então deixa, realmente não tem nada que você possa dizer que vai fazer Aidan mudar de opinião.

Tendo recebido a resposta que desejava, terminei de ajudá-lo a limpar tudo e praticamente o enxotei da casa. Apenas quando vi os faróis do carro dele sumindo rua acima é que peguei minha mochila e subi as escadas até o primeiro dos banheiros.

Lá, decidi passar uma água no rosto para tentar me acalmar. Era uma sensação estranha, pois eu estava ao mesmo tempo muito confiante, mas também um tanto insegura. Eu raramente tinha esse tipo de conflito de emoções, um paradoxo imenso. Respirei fundo e encarei meu reflexo. Podia ser o último dia em que eu era aquela pessoa no espelho: uma loba sozinha, inconsequente e, por vezes, egoísta. Talvez, se tudo desse errado da pior forma possível, poderia ser a última vez que eu me via no espelho como sendo parte dessa família que adquiri. Eu havia ameaçado, afinal, em um momento de fúria, deixá-la.

Contudo, independente das mudanças que poderiam ocorrer – e eu tinha a certeza de que alguma ocorreria depois desse momento – era algo que eu simplesmente precisava fazer, precisava seguir em frente, tanto pela sanidade minha e de Aidan, quanto pelo bem maior dos meus irmãos. Rebecca Elise Young precisava mudar, e iria. A forma como essa mudança ocorreria, porém, dependeria do meu Alpha.

‘Está pronta?’

— É isso que eu quero. Quero muito.

‘Eu também.’

E com isso, saí do banheiro e me aproximei da porta de Aidan a passos lentos.

~x~

Aidan

Meu quarto estava escuro e a casa silenciosa. A única luz que havia no recinto vinha da tela do meu notebook, o qual estava no meu colo.

Eu não conseguia dormir. Fazia dias que eu estava simplesmente inquieto demais para dormir. Então o que eu fazia? Bem, minha primeira opção era correr até o ponto da fadiga. Porém, nessa noite em específico, eu cheguei à floresta apenas para encontrar um carro já no estacionamento, tão tarde à noite. Mas não qualquer carro, o carro de Rebecca.

Eu até poderia ter corrido lá também e me encontrado com ela. Mas tendo em vista nossa relação atual – ou a falta dela – decidi que seria muito mais sábio dar a ela seu espaço. Mesmo que já tivesse se passado quase um mês. Também poderia ter ido para outra floresta qualquer, não é como se Columbus só tivesse uma. Porém, depois de saber que ela provavelmente também estava com problemas de sono, tirou-me toda a vontade de apreciar a natureza.

Sentia-me mal, sabe-se lá por quê.

Sentia como se fosse culpa minha que ela estava daquele jeito. Ela estava apática desde o dia em que fui reivindicá-la e acabei por fazê-lo da pior forma possível. E, por isso, eu não merecia então sentir o prazer que o mundo selvagem nos proporcionava. Não nessa noite pelo menos, em que eu sabia que ela estava sofrendo.

Então condenei-me a atualizar o controle financeiro da alcateia, uma tarefa sofrida que cabia somente a mim. Com Rebecca novamente trabalhando e Kenna tendo conseguido um emprego, havia sim algumas alterações a serem feitas, como o montante disponível para ser gasto com coisas referentes à alcateia como um todo e o quanto solicitar a todos contribuir de agora em diante. Calcular nosso próprio imposto progressivo não era uma tarefa que eu considerava divertida.

A verdade, nua e crua, era que eu não deveria ter entrado na casa dela, para início de conversa. Assim que eu a ouvi conversando com alguém deveria ter dado meia volta e voltado para casa. Poderia muito bem conversar com ela sobre a reivindicação no dia seguinte. Mas meu lobo estava segurando isso por tempo demais e, quando ouviu a voz masculina e a risada que tanto amávamos logo em seguida, ele tomou o controle.

Por pouco consegui contê-lo o suficiente para ele não derrubar a porta. E quando David foi quem abriu a porta e ainda por cima não queria nos deixar entrar foi quando percebi que seria mais seguro para o humano se eu ignorasse sua presença. Meu lobo sofreria muito mais tendo que interagir com David, e eu já estava tendo conflitos internos o suficiente.

Eu não deveria ter sido tão grosso com ambos, não deveria ter parecido tão indignado com Rebecca. Mas a verdade era que eu estava sim indignado. Indignado e completamente enciumado. Depois de tudo o que passamos, Rebecca nunca fez um gesto tão grandioso para mim. Eu, com toda a sinceridade, queria ser David naquele momento. Eu sabia que Rebecca nunca teria feito aquilo tudo com uma intenção que não fosse de pura bondade e amizade, mas eu podia muito bem fantasiar que ela fizesse algo assim por mim – e por muito mais que amizade.

E David. David não me enganava. Depois de tanto tempo vendo que estava sendo malsucedido com Rebecca, certamente mudou de estratégia. Primeiro virar o amigo, depois virar o algo mais.

E, mesmo assim, eu sabia que não passava de egoísmo. Eu queria Rebecca só para mim, e já fazia tempo. Queria que ela entendesse de uma vez por todas que era só isso que eu queria, e que ela aceitasse e me quisesse de igual maneira. Mas ela não aceitou. Ameaçou ir embora. E eu nem sequer tive a oportunidade de me desculpar, pois ela se recusava a ficar sozinha em minha presença desde então.

Tudo bem, ela me defendeu – e fiquei muito lisonjeado na hora – quando Joseph decidiu mostrar aquela sua cara irritante na minha casa, mas talvez suas palavras tivessem surgido em sua boca apenas por questões de honra pela alcateia. Não necessariamente ela falou aquilo como sendo uma forma de desabafar o que pensava especificamente sobre mim. Não necessariamente era para eu ter escutado aquilo. E, mesmo após aquela noite estranha com o “ex-Alpha” dela, continuávamos separados.

A única interação que havíamos tido sozinhos tinha sido por acaso, em uma balada, em que, aparentemente, eu e ela havíamos nos cansado momentaneamente da situação. Fingimos ser outras pessoas, com outros passados e outros problemas. Mas só havia durado por aqueles cinco minutos. Ela continuava abalada, e eu continuava a me castigar.

O silêncio da casa foi interrompido pela porta da frente se abrindo. Alguém entrou e Trevor, que sabia cozinhar de forma muito silenciosa, foi ver quem era. A voz era feminina e era da Rebecca, o que me deixou imediatamente em alerta. O que ela estaria fazendo aqui há uma hora dessas? Perguntei-me o que poderia ter ocasionado uma visita daquelas, se estava tudo bem com ela.

Segurei a vontade de colocar uma roupa e sair do quarto para ver o que estava acontecendo. Não era de minha conta e eu não deveria ficar tentando escutar a conversa deles. Para meu alívio, ouvi a estrondosa risada de Trevor poucos minutos depois, o que obviamente sinalizava que nada grave tinha acontecido.

Voltei, o máximo que pude, a minha atenção ao computador. Porém, minha cabeça e meu lobo não me deixavam em paz. O que Rebecca estaria fazendo aqui? Ela nunca viria aqui de madrugada sem um bom motivo. Não tinha como ela saber que Trevor estaria aqui, ou qualquer outro lobo. Eu poderia, muito bem, estar sozinho. Então, provavelmente, ela veio ou buscar alguma coisa aqui, ou então falar comigo. Mas de madrugada? O que poderia ser tão urgente? O que poderia ser tão importante que ela arriscaria quebrar esse gelo que impedia eu e ela de nos encontrarmos a sós?

Os dois conversaram por mais algum tempo e Trevor soltou mais algumas altas risadas. Pouco depois, a porta da frente bateu, sinalizando que um dos dois saiu. Contudo, alguém subiu as escadas alguns minutos depois.

Um silêncio agonizante se seguiu, ao ponto de eu desistir e achar que Rebecca tinha ido embora e Trevor voltado a dormir. Porém, finalmente ouvi passos crescendo pelo corredor, fazendo seu caminho até o final, onde ficava minha porta.

Os passos, leves, cessaram, e a pessoa hesitou na frente de minha porta. Abaixei a tela do notebook e deixei-o na minha mesinha de cabeceira. O que estaria acontecendo? Por que alguém viria ao meu quarto de madrugada? Se fosse uma emergência ou algo de real importância, o lobo em questão viria correndo me chamar, e não o faria lentamente como se tivesse todo o tempo do mundo.

‘Ou então como se estivesse repensando sua decisão de nos visitar.’

Enquanto eu imaginava os milhões de motivos, a porta finalmente se abriu e a luz do corredor iluminou a figura que entrava, ao menos até ela fechar a porta atrás de si. Nesse pouco tempo, vi a maravilhosa silhueta de Rebecca, contudo, com algo nas costas que eu imaginei que pudesse ser uma mochila. Desesperei-me.

Ainda sentado na cama e apenas de cueca, liguei o abajur que estava ao lado do meu notebook após este ter sido descartado. E o esforço para eu conter meu medo foi enorme.

Rebecca continuava onde estava, na frente da porta, como que pronta para sair correndo se mudasse de ideia e, de fato, aquilo nas costas dela era uma mochila – não muito grande, mas ainda assim uma mochila. Seu cabelo estava solto e ainda úmido, deveria ter acabado de tomar banho, mas não pingava.

Ela estava um tanto apreensiva, isso era evidente, mas também detectei determinação em seu olhar. Ela parecia convicta de que ela precisava seguir em frente com o que estava prestes a fazer, mesmo com o fato de suas mãos estarem tremendo levemente.

Levantei-me da cama para ir até ela, na mesma hora em que ela começou a querer adentrar mais ainda o meu quarto. Encontramo-nos na metade do caminho.

‘Pelo amor de Deus, Aidan, pergunte a ela logo o que está acontecendo. Não aguento mais.’

Por mais que meu lobo insistisse e minhas mãos estivessem coçando de vontade de arrancar aquela maldita mochila de suas costas, tentei deixá-la fazer tudo em seu próprio tempo, ao menos começar a se explicar na medida do possível.

— Oi – falou ela, timidamente.

— Oi – respondi, achando graça do jeito dela, mas também me segurando para não parecer grosso novamente devido a meu nervosismo.

— Eu- Desculpe vir aqui a uma hora dessas e-

— Não precisa se desculpar – respondi, sincero, incomodado com o fato de ela achar que estava me incomodando. – Mas, inferno, não me diga que está partindo. – Não consegui me segurar.

— Uhn? O quê? – Ela havia sido pega completamente de surpresa e estava com uma expressão muito confusa.

— Não está indo embora, está? Você falou... aquele dia. Achei que talvez...

— Não, não estou indo embora pra lugar algum. Não é por isso que estou aqui. – Franziu o cenho. – Por que você pensou isso?

— Não sei. – Depois de ouvir sua resposta consegui respirar aliviado. – Você está há semanas sem falar comigo e aparece do nada. Ainda por cima com uma mochila nas costas. Achei que talvez você fosse pedir para vagar como solitária novamente, ou então ir atrás de Mathias...

Rebecca bufou, evidentemente incomodada com a ideia.

— Foi Mathias quem decidiu que nunca mais queria me ver. Eu não iria atrás dele. – Fez uma breve pausa, na qual fez questão de sustentar meu olhar. – Eu não iria atrás dele principalmente durante esse momento que estamos vivendo – falou, com olhos tigrados de azul.

Soltei o ar que eu nem sabia que estava segurando, ao mesmo tempo em que a apreciava, percebendo o quão bonita ela ficava enquanto sua loba interior lutava para demonstrar suas vontades acima da dela.

— Quando falei que eu talvez fosse embora eu estava sendo exagerada. Fiz uma tempestade em copo d’agua, apesar de ainda não concordar com muitas de suas atitudes. Na verdade quase todas elas.

— Eu sei. Rebecca, desde o dia seguinte daquela briga idiota eu venho querendo conversar com você, a me desculpar com você. Mas você não deixou. Nunca me deu uma oportunidade.

— Eu sabia que ia ficar aqui por um tempo, por isso trouxe a mochila. – Foi a vez dela de suspirar, e passou a mão pelos cabelos. Pegou a mochila e jogou-a no chão contra a parede. – Eu tenho que admitir, Aidan, que fui infantil. Pensei que pudesse fugir dessa situação, apenas porque, para mim, é difícil. Não quis enxergar o seu lado, e consegui permanecer sem levar seus sentimentos em conta até que os meus próprios não aguentaram mais.

Engoli em seco. Eu estava completamente apreensivo para ouvir o que ela tinha a dizer, pois ainda não havia conseguido entender se ela iria revelar algo que eu gostaria de ouvir, ou algo que eu fosse completamente detestar. Mas de uma coisa eu sabia: aquela seria a hora em que ela definitivamente me aceitava ou rejeitava.

— Eu estive sofrendo, Aidan, esses dias, e foi por pura besteira minha. No começo eu me controlei por achar que, simplesmente, seria uma situação desconfortável a de eu me envolver com um Alpha. Depois acredito que deve ter se transformado em birra, pois eu ainda sou completamente contra o sistema hierárquico do nosso mundo. Apesar de vocês todos me tratarem como igual, se o Letum vier aqui e vocês tiverem que se apresentar, eu serei apresentada como a penúltima. Não é levado em conta nosso mérito, mas sim o nosso sexo. Talvez inconscientemente eu tenha achado que, se eu cedesse às minhas mais profundas vontades, eu estaria conformando com o sistema. Ou então um medo de que, no mínimo, o meu interesse por você fosse apenas por você ser quem você é, um Alpha, uma espécie de forma que me permitisse subir nessa escada hierárquica idiota.

Rebecca suspirou novamente, seus olhos aflitos pelo quarto. Estava evidentemente desconfortável com essas confissões, nervosa, mas queria continuar pois, eu apostaria, que ao mesmo tempo em que ela se sentia vulnerável mostrando para mim essas fraquezas, estaria sentindo-se mais leve, mais resolvida. E eu ficaria a noite inteira acordado se isso pudesse a ajudar de qualquer maneira, mesmo que a resposta à pergunta mais importante de todas não fosse me agradar.

— Aidan, eu...

Seus olhos começaram, de repente, a querer marejar, mas a observei lutando contra a vontade de chorar. Ela já estava se expondo o suficiente, não deixaria a si mesma, na opinião dela, fazer-se parecer mais fraca ainda.

— Desde que eu era pequena eu sempre tive sede por ter alguém confiável em minha vida. Sempre tive a esperança de que a minha mãe pudesse, um dia, ser essa pessoa. Porém, sempre que eu começava a achar que ela ainda tinha algo que valesse a pena salvar, ela me decepcionava mais. Corrie foi meu único porto seguro. Nem mesmo em Bernard eu pude confiar. – Fez uma breve pausa para respirar, numa tentativa de se acalmar. – Talvez eu só tenha insistido em Mathias por tanto tempo porque, no final, eu sabia que não ia durar o suficiente para eu me apegar. Mas a você eu já me apeguei. Desde o dia em que você quebrou minhas pernas, mas me olhou com aqueles olhos cheios de remorso, apeguei-me a você. Acho que eu apenas tinha medo de que eu fosse sofrer outra decepção e, se te mantivesse apenas como meu Alpha, essa decepção nunca chegaria, ou ao menos não a proporções tão grandes. Eu não quero sofrer nenhuma decepção, Aidan, principalmente não de você. Não quero macular a imagem que tenho de você.

— Isso jamais irá acontecer. Você tem a minha palavra. Não apenas como Alpha, mas como homem.

Ela soltou o ar que havia dentro dela como se fosse o peso do mundo escorrendo por suas costas. Abaixou o olhar para o tapete e ficou o encarando por alguns minutos, nós dois em silêncio.

— Sabe o que é pior? Acho que eu sempre soube que você me falaria isso e, não só isso, mas muito provavelmente o cumpriria.

— Tenho tanta certeza de que o cumprirei quanto tenho certeza de que farei o possível e o impossível, sempre, para manter meus lobos seguros – respondi com nada além de sinceridade em minha voz.

Ela acenou com a cabeça e entrelaçou as mãos na frente do corpo, parecendo muito uma pequena menina envergonhada. De repente, porém, desenlaçou as mãos e fechou-as em punho.

— E você me perdoaria? Como que você conseguiria simplesmente esquecer todas as coisas que eu fiz, ou tudo que eu e você deixamos de fazer por teimosia?

— É claro que sim. – Não pude deixar de sorrir. – É isso que pessoas fazem quando se importam umas com as outras. – Rebecca riu, um pouco sem graça. – Rebecca, desde o dia em que nos encontramos, e nos caçamos, na floresta, eu fui completamente enfeitiçado pelo cheiro de chuva e camélias. Desde aquele dia, há poucas coisas que me prendem que não seja esse cheiro. E também, desde aquele dia, eu soube que eu iria ou ter, somente para mim, a pessoa por trás daquele cheiro, ou sofrer e aprender a viver sem ela.

— Você- Mas esse é meu cheiro específico!

— É. Como que você sabe que este é o seu cheiro? – indaguei, franzindo o cenho. A menos que alguém tenha falado para ela sobre o assunto, alguém que também o sentisse, ela não teria como sabê-lo...

— Quer dizer que você o sente? – Ela olhou para mim, engolindo em seco. – Mathias me falou, certa vez.

— Mathias? – falei pausadamente, respirando com dificuldade. Eu precisava, afinal, controlar melhor meus sentimentos mais sombrios.

‘Mathias sentia o cheiro específico dela?’

— Sim, eu e Mathias compartilhávamos isso – confessou receosa, certamente, de me aborrecer. – Sentíamos o cheiro um do outro e foi ele que me contou que eu cheiro à camélias e chuva.

— Entendi. – Mentalmente lembrei-me e ao meu lobo de que Mathias estava, muito provavelmente, bem longe daqui e, além disso, que Rebecca tinha terminado as coisas com ele, e ele com ela. Tínhamos que confiar mais nela.

— Mas, Aidan, eu e você... nós também compartilhamos isso. Você sente o meu, e eu sinto o seu.

Congelei. Uma parte de mim, talvez a parte mais insegura, achava que talvez fosse um engano. Talvez só eu sentisse o cheiro dela e, assim, toda a teoria por trás dos cheiros específicos não valeria. Eu não sabia se isso era possível, somente uma parte de uma relação sentir o cheiro específico da outra, mas havia esse medo irracional dentro de mim. Com essa fala dela, eu finalmente soube que não, que a teoria realmente valia. E ela sentia meu cheiro.

Como que pressentindo meus sentimentos, Rebecca adicionou:

— Eu sinto seu cheiro de pinho e flores silvestres desde o dia da floresta, em que você me caçou – enfatizou, brincando.

Senti meu lobo ficar radiante e a vontade de pegá-la em meus braços e a abraçar forte, como nunca fiz antes, quase me destruiu de dentro para fora. Ela admitiu sentir o meu cheiro, a primeira pessoa a senti-lo em meus quarenta e oito anos de vida. E agora estava aqui, em meu quarto, confessando coisas a mim que nunca confessou a ninguém, e com uma mochila com seus pertences não porque iria partir, mas porque acreditava que passaria a noite aqui.

‘Conosco.’

Só nos faltava saber uma coisa.

— Rebecca, eu preciso saber. Eu preciso de uma resposta clara e que não seja ambígua. Preciso saber se você consegue se enxergar comigo ou, ao menos, dar uma chance para que isso possa acontecer. Se não der certo, veremos o que fazer mais tarde, mas você deixará que tenhamos uma chance?

Rebecca puxou-me até ela pelo braço e enlaçou seus próprios braços pelo meu pescoço. Seus lábios juntaram-se aos meus da melhor forma possível, um beijo lento e gentil, e ficamos grudados por tempo curto demais. Consegui ter força suficiente para perguntar a ela novamente, ou ao menos tentar:

— Rebecca-

— Shh. – Beijou-me novamente.

— Mas, Rebecca voc-

— Shh. Você está estragando o momento.

Eu odiava ter que apartar-nos daquele instante, mas eu simplesmente precisava saber, precisava ouvir as palavras saírem dos lábios dela. Empurrei-a levemente para trás, tirando as delicadas mãos dela de mim.

— Rebecca, você aceita ser reivindicada por mim? – Encarei seus olhos azuis, sem dúvida alguma com os meus flamejantes.

— Sim, Aidan. – Com um sorriso tímido, olhou-me igualmente nos olhos, fundo, como se enxergasse realmente a figura de meu lobo por trás. – Aceito.

‘Oh, Céus.’

— Não estou fazendo isso porque me sinto obrigada. Não estou porque acho que preciso. Não estou porque acho que é uma forma de fazer as pazes com você. – Sua linda voz falou, seus olhos sempre grudados nos meus. – Basta saber que estou fazendo isso porque, já faz algum tempo, não há nada que eu queira mais.

Após aquele momento, após aquelas palavras, nada mais me impediria. Nunca mais.

Minhas mãos começaram a explorar livremente o corpo de Rebecca e ela passava uma por minhas costas e uma por meus cabelos. Seus lábios estavam ferozes com uma fome que eu nunca havia visto nela antes, mas que eu estava apreciando e muito. Seu corpo e o meu se encaixavam como um quebra-cabeças. Uma peça que havia sido perdida, mas que, depois de tanto tempo, finalmente foi achada e finalmente completava a grande imagem do conjunto.

Um conjunto formado por eu e ela.

Notas finais
Espero muito que tenham gostado e quero muito que vocês me deem suas opiniões! Estou muito curiosa. Pra quem ainda não sabe, Dominante será publicado pela editora Constelação Editorial. Quem quiser segui-los no facebook, aqui está o link! Assim que Dominante sair da fase de revisão vão começar a aparecer coisas relacionadas à publicação por lá, recomendo que acompanhem a editora! ♥ https://www.facebook.com/EditConstelacao/