Valente
22 XXI
Notas iniciais

Scarlet
O sol do interior mexicano batia em minha pele dourada. Após tanto tempo já longe de casa – e mesmo assim não completamente acostumada com o calor – a Scarlet branquela de antes se tornara uma Scarlet bronzeada. Até mesmo meu cabelo havia dado uma clareada, após tanto tempo à mercê do sol escaldante. Meus cabelos, que alguns descreveriam como castanho avermelhado, antes, na sombra, poderia ser confundido realmente com castanho. Agora, porém, não era apenas no sol que meu cabelo brilhava com uma cor viva, tudo graças ao grande astro que iluminava-nos de dia, e fazia as noites igualmente acaloradas. Bem mais próximos da linha do Equador do que em Ohio, era incabível você sair de casa em algo mais que uma regata.
Sempre vínhamos para o interior quando queríamos sair um pouco da teoria e ir à prática. Os outros estavam acostumados, mas levou algumas vindas para eu conseguir me adequar completamente. Era ainda mais quente do que a grande cidade, pelo simples fato de que aqui não havia um lugar sequer que tivesse acesso ao ar condicionado. Tínhamos de nos contentar com ventiladores, sem falar que passávamos praticamente todo o tempo à céu aberto.
Mesmo assim era maravilhoso. Não havia jeito melhor de desligar-se de todo o resto e conseguir respirar fundo, livrar a mente, e apenas absorver os sons e cheiros da natureza ao nosso redor. A natureza pura e não tocada pelo homem. Precisávamos, mais do que qualquer outra espécie de sobrenatural, desse contato frequente com os quatro elementos e com completa paz de espírito.
Percebi, em pouco tempo, que se eu tivesse permanecido em Columbus, por mais áreas verdes que tivesse, não iria nunca conseguir amadurecer como alguém de minha espécie deveria. Precisaria, no mínimo, mudar-me para o interior do estado, algum lugar em que eu pudesse estar em paz e sem resquícios negativos da humanidade e em que, portanto, eu conseguiria entrar em harmonia com os espíritos da natureza locais.
Justamente por conta disso o senhor Gutierrez era dono de uma vasta fazenda. O intuito da fazenda não era, por si só, a agropecuária ou lucros de qualquer maneira. Porém, era uma consequência que ajudava a beneficiar a tribo de Selvagens da região. O real motivo por trás da fazendo de Gutierrez, era ter um vasto espaço em que toda a tribo poderia se reunir, quando quisesse, para explorarem os limites de suas capacidades e de suas experiências espirituais. Tanto pela questão do afastamento do barulho, da poluição e da correria, quanto de olhos curiosos e publicidade não desejada.
Já era minha quarta visita, mas, como nas outras, minha tarefa era ficar mais isolada para conseguir meditar melhor e tentar estabelecer uma conexão com algum novo espírito da natureza que achasse que eu estivesse preparada para assumir uma nova forma. Falavam para mim que, depois que o Selvagem ficava mais habituado a visitar o mundo espiritual e interagia com os espíritos lá, e também quando conseguia submergir-se no mundo espiritual sem a ajuda das ervas especiais, o processo de se encontrar em outro ser vivo – como chamavam a obtenção de uma nova forma física – ficava mais acelerado e mais recorrente. Sim, havia um limite para quantas formas conseguia-se, mas esse limite, comumente, era alcançado apenas após o quinto animal. Algumas pessoas conseguiam passar de cinco, mas essa era a média e, de acordo com eles, eu deveria estar próxima de conseguir o meu segundo.
Mas eu estava ficando impaciente. Fazia cerca de um mês que eu havia me mudado para o apartamento de Gabriela, que por enquanto não morava com Fernando, apesar do relacionamento deles estar ficando cada dia mais sério. Não se passava um dia sequer em que eu não me dedicava, ao menos três horas por dia, à meditação e estudos em conjunto.
Para conseguir me sustentar e ajudar Gabriela com os gastos, afinal, só com o fato de ela ter oferecido seu lar para mim eu estava economizando muito se comparado ao hotel em que eu estava hospedada, eu estava oferecendo meus serviços de restauração de motos, mas não da mesma maneira. Poucas pessoas me procuravam em busca de serviços de estética, mas muitas sim de mecânica. Por mais que eu não estivesse habituada a mexer diretamente com a mecânica das motocicletas – eu não era mecânica, afinal – algumas coisas eu havia aprendido apenas observando os meus colegas em Columbus, e as que eu não conseguia fazer pedia ajuda a outro Selvagem da tribo que era mecânico, portanto dividíamos os lucros.
Minha mão de obra aqui era um tanto mais desvalorizada, mas eu não podia mais ficar vivendo às custas de minhas poupanças, afinal não eram infinitas, e com certeza não queria ter de recorrer aos Selvagens mais do que o necessário. Querendo ou não eu não tinha uma tribo, não poderia desfrutar dessas vantagens, e achava injusto me aproveitar da boa vontade deles sendo que eu não pretendia passar o resto de minha vida aqui, mesmo que eu não tivesse previsão para ir embora.
O espanhol eu estava aperfeiçoando na marra, até porque havia alguns de meus amigos Selvagens que não falavam muito o inglês, e eu queria fazer o possível para conseguir, ao menos, ter a chance de conhecer, nem que fosse superficialmente, cada um deles. Minha espécie, gente como eu. Teria de lembrar de ensinar à Becca quando voltasse, pois ela realmente não entendia praticamente nada da língua, como ela havia se queixado quando veio aqui com Aidan e Riley há uma semana.
Uma brisa forte começou de repente, algo inesperado, mas muito bem-vindo. Eu já não me incomodava tanto com o calor do sol direto sobre mim quanto no começo, porém, mesmo assim, um frescor era sempre apreciado. Fez eu me arrepiar inteira e, por mais que eu achasse que essa mudança brusca no clima fosse me distrair de minha meditação isolada, estranhamente pareceu levar-me a outro plano.
A imagem em minha mente, antes, era de um gramado verde, calmo e reluzente de orvalho, imagem que eu normalmente recorria quando queria ficar em paz. Porém, com a vinda da brisa, era como se eu estivesse caminhando em frente nesse gramado, quase em uma corrida. Corri por quilômetros em questão de minutos, até a grama começar a ficar mais rala e eu chegar repentinamente a um desfiladeiro.
Mas não parei.
E não caí.
A brisa parecia sustentar meu peso e eu estava flutuando por cima da grande depressão que vinha após o imponente desfiladeiro. Por tamanha altitude, o vento parecia mais forte e o ar mais frio. Senti um frio na barriga, pois não consegui deixar de olhar para a morte certa que me esperava, centenas de metros para baixo. E mesmo com essa tremenda sensação de perigo, era impossível não se perder na beleza infindável que havia aos meus pés. Era um ângulo completamente novo, meus olhos conseguindo captar uma área imensamente maior do que nunca. E como era lindo! Um riacho fluía e bifurcava por entre rochedos no fundo do vale e, eu sabia, se eu não parasse logo o que quer que eu estivesse fazendo, iria desembocar, junto com o riacho, no mar.
Mas não foi o que aconteceu. Senti meu ritmo se desacelerando e, mesmo com o vento forte daquela altitude, consegui manter-me seguindo em frente mesmo com menor velocidade. Meu subconsciente achou uma pedra grande no meio do riacho e mergulhou até ela, a repentina mudança de altitude deixando-me momentaneamente desnorteada. Mas consegui pousar com perfeição na rocha, o som da água corrente acalmando meu coração pulsante de uma forma única.
E meus olhos se abriram. Eu continuava no mesmo lugar, sentada no gramado atrás da casa do senhor Gutierrez, bem mais afastada das atividades que meus amigos estariam fazendo. Porém, eu nunca havia, em todo esse tempo, tido uma experiência como essa enquanto eu meditava. Foi algo de outro mundo e eu sentia, bem dentro de mim, uma espécie de comando, uma necessidade.
Em parte, eu sabia o que eu tinha que fazer, ou ao menos tinha um forte palpite. Por outro lado, eu também não queria me decepcionar e acabar me iludindo quando, visivelmente, ainda não era hora.
Mas a verdade era que eu estava muito empolgada, estava inquieta, então decidi jogar tudo para o ar e ver no que iria dar. Talvez literalmente. Levantei-me da grama e comecei a correr na direção em que eu sabia que meus amigos estariam pois, se tudo desse certo, queria que eles fossem os primeiros a ver.
Fui aumentando minha velocidade o mais rápido que podia, correndo como se minha vida dependesse disso. Senti um pequeno formigamento começar na região do meu peito e lentamente se espalhar. Lutei fortemente contra meu impulso de chamar minha forma de raposa, o que foi mesmo um esforço descomunal. Eu nunca, em toda minha vida, tinha induzido minha raposa a sair sem, efetivamente, deixá-la sair. Contudo, dessa vez, era outra forma que eu buscava e por isso precisava fazer esse sacrifício.
Vi um pequeno morro que eu poderia usar para conseguir um pouco de impulso para um salto e mudei meu curso para ele. Abaixei levemente a cabeça, numa tentativa talvez cômica de ficar mais aerodinâmica, e subi a elevação correndo. Respirei fundo segundos antes do salto, e soltei todo o ar pela boca, assim como a força que estava fazendo para me transformar, no momento em que soltei meus pés do chão e saltei.
A primeira coisa que notei foi como o ar não parecia resistir a mim, mas sim moldar-me. Eu cortava o ar. Deslizei pelo ar, mas logo percebi que iria cair no chão se não fizesse nada. Pensando rápido, movimentei o que antes eram meus braços para cima e para baixo, um tanto desesperada para não dar de cara com a terra. Felizmente, pareceu funcionar, e ao invés de estar caindo, comecei a ascender! Subi, subi e subi, até sentir que se eu subisse mais estaria em perigo, e relaxei meus braços, deixando-os esticados, mas parados, para poder continuar a planar.
Tão alto, consegui avistar meus amigos em um aglomerado. Alguns estavam meditando em um círculo à parte, outros correndo pelas redondezas em suas formas animais e outros ainda conversavam e faziam um piquenique. Uma grande águia dourada de peito branco se aproximou de mim, seu tamanho amedrontador, a largura de suas asas facilmente chegando a dois metros e meio. Mas medo era a última coisa que eu senti, pois sabia muito bem de quem se tratava.
A águia me circulou, posicionando-se atrás de mim, guiando-me para baixo de forma segura. Segui suas instruções e fomos diminuindo de altitude devagar. À medida que íamos chegando mais perto, os outros Selvagens percebiam nossa presença. A maioria apenas reconhecendo a grande águia, mas outros também espantados e surpresos comigo.
Pousamos na grama, um ao lado do outro, e foi quando eu realmente me dei conta de que eu era bem menor do que a águia dourada ao meu lado, que parecia chegar a um metro de altura. Olhei para baixo, tentando observar um pouco mais sobre quem eu era naquele momento, mas tudo que pude ver foram minhas garras amareladas de ave.
Fernando e Gabriela logo chegaram junto com outros Selvagens. Gabriela parecia completamente surpresa e Fernando apenas sorria com os braços na cintura.
— Eu sabia que não iria demorar muito para você conseguir sua segunda forma, Scar – ele falou. – Você estava muito concentrada e muito dedicada.
Vi, pelo canto do olho, a águia ao meu lado transformar-se no ancião que eu passei a tão bem conhecer. Em poucos segundos, quem sentava ao meu lado era Miguel Gutierrez, que sorria para mim como um Alpha sorriria para um lobo novato que acabava de tomar os primeiros passos.
Imitei-o, apesar de não querer me separar desse meu novo lado tão rapidamente. Porém, eu sabia que ainda ficaríamos no interior por mais vários dias antes de voltar à cidade, bastante tempo para eu me acostumar melhor com a ave que eu havia descoberto fazer parte de mim.
— Parabéns, Scarlet! Estou muito feliz em ver que você conseguiu desbloquear essa nova habilidade. Daqui para frente os próximos ficarão mais fáceis de atingir, mas você irá sentir que o seu primeiro animal, querendo ou não, possui uma ligação maior com você e você vai acabar usando-o mais.
— Obrigada – falei, sabendo que o sorriso no meu rosto conseguia demonstrar muito bem como eu estava me sentindo. Completamente orgulhosa e até um tanto eufórica. – No que, exatamente, eu me transformei? – perguntei, curiosa, sem conseguir controlar minha mente de viajar para longe, para as várias aventuras aéreas que eu conseguira ter a partir de agora.
— É claro que ela quer saber disso – Gabriel brincou e eu mostrei a língua para ela.
— Suas penas são escuras, pretas e cinzentas. O peito é bege, mas o bico e as patas são amarelados, sendo a pontinha do bico, preta. – Fernando decidiu ignorar a provocação da namorada e me responder. – Não é muito grande, parece ter uns cinquenta centímetros. Seu bico é afiado, com certeza feito para caçar. – Soltou uma pequena risada.
— És um falcão, Scarlet – O senhor Gutierrez explicou. – Um falcão peregrino, feito para voar por entre as árvores a altas velocidades.
— Um... falcão – sussurrei, maravilhada, para mim mesma.
Desde que fiquei sabendo que era possível ter mais de uma forma, eu sonhava com isso. Agora, finalmente tinha conseguido, mesmo que apenas uma a mais. E, além disso, proporcionava-me uma nova habilidade que eu jamais sequer sonhei em ter, mas que já havia me encantado com apenas alguns minutos de prática: o voo.
— Eu- Muito obrigada!
Não me contive e abracei aquele que era quem o Letum sempre deveria ter sido para mim. O senhor Gutierrez, pego de surpresa, cambaleou um pouco para trás, mas já recuperou o equilíbrio e passou os braços por mim com um sorriso carinhoso.
— Não tem que me agradecer, Scarlet. O mérito é todo seu.
— Não. Preciso agradecer e muito, não só a você, mas principalmente Gabriela e Fernando – falei, olhando para meus dois amigos e passando o olhar por toda a multidão. – Se não fossem por todos vocês, na verdade, me aceitarem de braços abertos e se disporem a parar tudo o que faziam para me ensinar tudo aquilo que eu já deveria saber desde pequena, eu jamais teria descoberto até que ponto podem chegar meus poderes. Não saberia minha história, não saberia quem eu sou ou quem posso ser. Então, realmente, muito obrigada!
Fernando veio até mim me envolver em um caloroso abraço assim que o que eu dividia com Gutierrez chegou ao fim. Sussurrou um “esse é apenas o começo” no meu ouvido que fez eu me arrepiar inteira, pois era verdade. Eu ainda tinha muito trabalho pela frente, e muita coisa para aprender.
Gabriela apareceu no meu campo de visão, após meu abraço com Fernando. Achei que ela fosse me abraçar e me dar os parabéns também, mas apenas revelou a garrafa de cerveja que escondia atrás das costas e a estendeu para mim.
— Precisamos comemorar! Vamos, passarinho, use seu bico para abrir as garrafas fazendo o favor.
~x~
Aidan
Merda. Era isso que eu havia feito. A mais pura e idiota merda da minha vida.
Eu poderia ter feito aquilo de tantas formas diferente. De mil maneiras diferentes. E eu escolhi o pior caminho possível. Bem, escolher talvez não seja a palavra certa, pois estava tão cego que escolher era um luxo que eu não possuía. Mas eu já havia feito o estrago e mesmo agora, três semanas depois, ainda sofria com as consequências.
Rebecca fugia de mim como um ladrão fugia da forca. Eu entrava em um recinto e ela saía. A última pessoa saía da casa e ela saía também, só para não ficar sozinha comigo de jeito nenhum. Eu havia causado uma aversão tão grande nela que, duas semanas depois de eu reivindicá-la e ela me dar o fora, quando Scarlet a convidou para passar o aniversário com ela, achei que ela fosse recusar.
Eu deveria saber já que Rebecca jamais teria aberto mão de sua amiga por causa de mim, mas realmente em um primeiro momento achei que ela fosse dar para trás. Afinal, seriam só eu, ela e Riley durante a semana inteira no México. Porém, Rebecca conseguiu dar um jeito de se esquivar de situações em que ela ficasse a sós comigo por toda a duração da viagem. Ela parecia até uma profissional, fugindo de mim daquele jeito. Só não conseguiu fugir uma única noite, por um curto período de tempo.
Na balada.
Não que fosse muito preocupante. Eu não conseguiria conversar com ela em uma balada, com tanto som e tantas pessoas esbarrando na gente. E só Deus sabe o quanto eu estava tentando conversar com ela, por isso ficava correndo atrás dela tentando conseguir um momento a sós. Queria pedir desculpas, não por reivindica-la, jamais pediria desculpas por isso, mas admitir que eu não precisava ter sido tão grosso, tão... primitivo. Mas a balada certamente não seria o lugar ideal e, para minha infelicidade, foi o único momento em que conseguimos, de fato, ficar relativamente sozinhos.
‘Não completa infelicidade.’
Meu lobo tinha razão. Se eu falasse que não gostei de ficar a sós com Becca na balada eu estaria mentindo. Foram um dos cinco minutos mais memoráveis da minha vida. Ela decidindo esquecer tudo o que nos afligia por aquele breve momento, eu incitando-a a continuar. Deu para esquecer nossos problemas e o clima estranho que parecia sempre rondar a nós dois.
‘Só precisávamos fazer disso uma situação permanente, e não uma ocorrência rara de cinco minutos.’
Meu lobo estava furioso com ela? Sim. Perdoaria ela na primeira oportunidade? É óbvio.
Não poderíamos forçar Rebecca a nada e, querendo ou não, havíamos sido rejeitados de certa forma, mesmo que ela não tivesse dito com todas as palavras, como manda o protocolo, que nos rejeitava. Meu lobo sentiu a ferida de ser rejeitado, mas ainda tínhamos exclusividade, o que o deixava mais apaziguado. Mas o que ele, e eu também, mais queria mesmo era dizer a ela que sentíamos muito, que não deveríamos ter descontado nela o ciúme que sentíamos.
Mas para isso ainda precisávamos de um momento com Rebecca sozinhos, e isso era algo que ela certamente não queria e para o qual não estava preparada.
Suspirei enquanto trocava o canal da televisão pela centésima vez em um minuto. Nada me prendia a atenção, nada me causava interesse. Connor e Spencer riam juntos na sala de jantar enquanto falavam com Riley via Skype. Riley ainda estava no México, aproveitando o máximo da namorada que podia. Kenna veio até o sofá onde eu estava com um prato de batatas fritas que Trevor havia acabado de fazer. Era sábado à noite, não era o dia em que todos nos reuníamos, mesmo assim era um dia movimentado na casa.
— Acabaram de sair, Aidan. É uma nova receita que Trevor aprendeu no bistrô. Batata frita feita de batata doce.
— Puxa, e são boas? – Não sabia o que mais dizer, pois realmente falar sobre a nova técnica de fritar batatas do Trevor não me parecia o assunto mais interessante do mundo, ainda mais naquele momento.
— Não tanto quanto os originais. – Ela riu. – Ao menos não em minha opinião. Mas não são inteiramente ruins.
— Eu ouvi isso! – gritou Trevor da cozinha, de forma ameaçadora.
— Ah, fica quieto, Trevor! – reclamou Kenna, arrancando uma gargalhada de mim. – Quer o quê, que eu admita que batata doce é melhor do que batata inglesa? Bebeu, foi?
Riley, que deve ter ouvido a discussão por Skype, retrucava alguma coisa em favor de Trevor, mas minha atenção não estava mais na interação deles, e sim no barulho do motor diferente que estacionava no meio-fio em frente à minha casa. Fiquei em alerta, mesmo sem querer chamar a atenção dos outros. Talvez um dos lobos tivesse apenas trocado de carro, ou então pego um táxi.
Decidi experimentar uma das batatas novas de Trevor. Tive de concordar com Kenna. Apesar de possivelmente mais saudáveis, não pareciam nem um pouco tão gostosas quanto as tradicionais. Porém, quase cuspi a batata inteira da boca quando, ao bater na porta, Connor a abriu e entraram em minha sala três lobos não totalmente desconhecidos.
Eu havia esquecido o quão alto ele era. Mais alto do que eu, com cabelos negros compridos e ondulados e uma carranca que faria qualquer lutador de luta livre sair correndo. Mas eu não tinha medo dele, apenas não esperava vê-lo aqui de forma alguma. Levantei-me do sofá e fui até ele, mais por educação do que outra coisa porque, se eu quisesse, poderia cumprimentá-lo deitado no sofá e de pernas pro ar. Afinal, era ele quem vinha em meu território sem permissão ou aviso prévio, e era ele quem tinha dominância inferior.
Connor imediatamente ficou em alerta, sentindo a tensão que eu comecei a emanar pela pura falta de conduta que os três lobos demonstravam. Spencer desligou a ligação com Riley e se aprontou também. Trevor, sentindo o silêncio repentino, largou a cozinha e o avental e postou-se ao lado de Spencer. Puxei Kenna levemente para trás de mim, de forma protetora e para demonstrar para eles que ela agora pertencia a mim e eu iria defendê-la a qualquer custo.
Joseph Beitman e seus dois em comando permaneceram onde estavam, um ao lado do outro como se fossem um lobo só.
— Rucker.
— Beitman.
Eu não lembrava o nome de seu primeiro e segundo em comando, mas também não vinha ao caso. O que importava era que os dois estavam com a expressão fechada de quem estava acostumado a receber ordens e não as questionar de forma alguma. Um deles estreitou os olhos para Kenna, e eu a empurrei mais atrás ainda, onde seu corpo estaria completamente escondido do meu.
— Não precisa, Aidan – ela reclamou. – Não se dê ao trabalho de me esconder deles. Eles sabem que não são páreos para mim na hora H.
— Não somos páreos? – O lobo da esquerda respondeu com escárnio. – Conseguimos dominá-la sem esforço algum, ou quer que eu demonstre?
— É fácil falar em dominância, Oliver. Mas queria ver você ganhar uma luta sem chamar seu poder de dominar. Eu e você, só na base da força e habilidade. Eu daria um cacete em você em dois tempos.
— Kenna – reprendi-a, no mesmo momento em que Joseph empurrava Oliver para trás para impedi-lo de fazer alguma besteira.
— Fique quieta, Kenna. É inegável sua traição, mas não precisa ficar comprando briga com seu ex-irmão de alcateia.
Senti os pêlos de minha nuca se eriçarem ao ouvi-lo falando assim tanto de uma loba minha, como da situação em que estávamos.
‘Quem esse desgraçado pensa que é, Aidan? Que tipo de liberdade ele acha que ele tem em chegar aqui assim e falar dessa forma com um dos nossos?’
Meus punhos se fecharam e eu certamente ia falar algo que não acabaria bem, mas a atenção de todos se virou novamente para a porta, em que Rebecca empurrava com as costas pois carregava uma sacola enorme de ingredientes com ambas as mãos.
— Porra, obrigada pela ajuda. Tanto carro lá fora e nenhum dos respectivos donos aptos a ajudar a pobre encarregada de encher a geladeira pra amanhã – ela resmungou, ainda empurrando a porta com as costas e sem ver nada que acontecia.
A sacola de papel era tão grande e alta que cobria o rosto dela, fazendo sua voz ficar abafada e fazendo sua entrada ser incrivelmente cômica. Apenas sua presença fazia-me relaxar um pouco do nervosismo e ser mais cauteloso em minhas atitudes, mesmo eu sabendo que ela não iria querer interagir comigo de forma alguma.
— Você não tem o direito de se referir a nenhum dos meus com tamanho desrespeito, Beitman. Espero que isso esteja claro, senão o relembrarei sem problema algum – retruquei, talvez não da forma mais cautelosa quanto eu gostaria, mas em parte a culpa era de meu lobo, que achou que essa seria uma boa oportunidade para se mostrar para Rebecca.
Percebendo que algo estranho estava acontecendo, Becca decidiu deixar a sacola de compras em cima da mesa de jantar ao invés de levá-los até a cozinha como pretendia antes. Ao virar-se para nós, seu queixo caiu e eu queria poder chamá-la para ficar perto de mim para eu poder servir de escudo para ela, assim como fazia com Kenna. Mas Rebecca certamente me mataria se eu fizesse isso, ou no mínimo começaria uma enorme e infindável discussão.
— Não tratei ninguém com desrespeito, Rucker. Talvez você devesse esfriar essa sua cabeça. Não falei nenhuma mentira.
— Não sou nenhuma traidora! – interveio Kenna.
— Então realmente não entendo seu conceito de traição, querida Kenna. Você abandonou sua alcateia sem sequer pedir permissão. Ajudou a matar quem antes eram seus irmãos, seus amigos. Ajudou a matar aquele do qual você esquentava a cama. – Kenna rosnou. – Inclusive, parece que esse é um pré-requisito para as fêmeas aqui nessa alcateia de vocês, não é mesmo?
Rebecca e eu rosnamos ao mesmo tempo, mas o rosando dela foi bastante abafado pelo meu próprio.
— Você não fale daquilo que não sabe, Beitman. – Grunhi.
— Que eu não sei? Ah, Aidan, eu sei muito bem o que aconteceu. Vocês assassinaram cerca de vinte de meus lobos, um deles sendo um dos meus melhores lutadores. E a outra decidiu, ainda por cima, tramar contra seu namorado e depois fugir da alcateia dela.
— O desprezível do Maxwell recebeu foi pouco por tudo o que fez – Rebecca respondeu, interrompendo Kenna, mas certamente transmitindo a mesma mensagem. – Maxwell foi quem causou tudo isso. Nada que fizemos foi por puro capricho. Os seus lobos causaram isso neles mesmos, principalmente Maxwell Kentner.
— Não me admira Kenna querer sair de sua alcateia, Beitman – falei, provocativamente. – Após ela ter sido por tanto tempo manipulada por Maxwell e ele ser glorificado por você e pelos seus. Maxwell era um cara nojento, um cara arrogante e errado que vocês colocavam sob um pedestal. Não entendo como um Alpha que se preze consiga se manter digno enquanto aplaude atitudes como as dele. A menos que o Alpha em questão seja igual.
— Não sei do que está me acusando, Aidan, mas é melhor parar. Maxwell era um bom lutador e um bom seguidor de ordens, muito mais do que eu posso falar sobre essas duas cadelas que decidiram deitar e rolar aos seus pés. Sobre o resto da vida dele, isso não me interessava e eu não interferia. Ele ajudava a manter a ordem.
— A “ordem” na sua alcateia é uma coisa doentia – Kenna retorquiu. – É mais acentuado do que em qualquer outra! A necessidade de enaltecer um macho dominante é tão grande que as fêmeas já aprendem, desde cedo, a procurar por um homem dominante para acasalar. Nem sequer olham para os submissos, nem sequer ligam para compatibilidade. E até mesmo eu, infelizmente, fui contaminada por esse vírus. Suas fêmeas não merecem atenção alguma a menos que estejam vinculadas a um macho influente. Você trata suas fêmeas e seus submissos como se não fossem nada!
— É incrível como diz merda, Kenna! Será que sua sem-vergonhice não tem limites? Veja Nora, minha companheira. É das mais submissas possíveis e, te garanto, não tem do que reclamar.
— Nora é um caso à parte. – Rebecca parecia cada segundo mais indignada com a presença de Joseph. – Você idolatra Nora como se ela fosse o Sol e a Lua e você o Céu. Mas é em Nora que sua bondade começa, e também nela que ela acaba.
— Chega! Não vim aqui para discutir isso. – O Alpha estreitou seus olhos, seus cabelos longos esvoaçando à medida que ele virava a cabeça para verificar se seus dois lobos estavam atentos. – Vim aqui pois demando um formal pedido de desculpas da Alcateia de Columbus para a de Seattle.
— O quê? – Trevor e Rebecca falaram ao mesmo tempo.
— Você só pode estar brincando – Spencer rosnou, indignado. – Você tem alguma noção do que nós passamos aqui por sua causa?
— Minha causa? Vocês dizimaram os meus lobos!
— E quase às custas dos nossos! – continuou a argumentar Spencer.
— Eles é que vieram até aqui, para começo de conversa – adicionou Connor.
— Eu os cedi para ajudar vocês! Pois vocês estavam vulneráveis tentando salvar a pele dessa ingrata! – Beitman novamente atacou Rebecca, fazendo meu lobo formigar de raiva por dentro.
— Eles vieram com o intuito de ajudar, sim. Mas resolveram se aproveitar dessa vulnerabilidade e atacar os poucos lobos que sobraram! – Bradei. – Resolveram, talvez com seu conhecimento, talvez sem ele, tomar o que é meu! Fazer mal àqueles que são meus! Trair a minha confiança!
— Está querendo dizer que eu planejei esse ataque com eles, Rucker? Acha mesmo que se eu fosse tomar seu território o faria de forma tão mal organizada? Dependendo da ajuda de solitários?
— Está querendo dizer que pretende tomar meu território, Beitman?
— Estou dizendo que não tive conhecimento prévio nenhum sobre isso, mas, mesmo se tivesse, não poderia culpá-los por querer fazer o que fizeram. A situação estava favorável demais para uma invasão.
— O quê? Seu filho de um-
— Cale-se, Rebecca. – Joseph virou-se para ela e andou, ameaçadoramente, para a direção dela. Assim que percebi a intenção dele, corri e me posicionei entre os dois, afastando-o pelo ombro.
— Afaste-se. – Ordenou meu lobo.
— Ah, então é verdade. – Joseph soltou uma sonora risada que ecoou pela casa inteira e que foi imitada pelos seu segundo e terceiro em comando. – Há boatos de que você reivindicou a problemática. Achei que não passassem de boatos, afinal, achei que você fosse mais esperto do que se prender a essa daí. Porém, vejo que vocês não exatamente estão se acertando, é isso mesmo? O que foi, Rebecca, o Alpha não é homem o suficiente para você?
Rebecca grunhiu como fazia quando estava prestes a pular em uma presa. Virei-me para ela para tentar acalmá-la, mas vi que seus olhos já estavam completamente azuis e suas garras alongadas.
— Veja bem, Aidan, o que quer fazer com ela. Sabe muito bem que um Alpha rejeitado por uma fêmea é também um sinal de vulnerabilidade muito grande. – Gargalhou. – Não vai querer outra invasão, não é? Não vai querer que sua reputação seja mais manchada do que já está.
— É melhor você parar com as ameaças, Beitman, pois eu não estou levando isso na brincadeira. Espero que você saiba que o Letum já sabe sobre o ocorrido e sabe quais foram os culpados e quais foram os defensores.
— Eu se fosse você, Rucker, não confiava muito mais no Letum. O tempo dele está chegando ao fim e coisas novas virão. Não se sabe o que pode vir a acontecer em apenas alguns meses. Então pare de contar com o Letum sendo o dono da verdade e da sua proteção, lobinho, e pare de fazer besteira. Da próxima vez que você deixar sua alcateia desatendida, pode ser que lobos mais organizados resolvam terminar o trabalho que Maxwell começou.
Um rugido ensurdecedor soou da garganta de Rebecca, e nem eu nem nenhum outro lobo poderia sequer tentar segurá-la. A loba voou contra Joseph, empurrando-o contra a parede do outro lado do recinto, que dava na cozinha. Segurou-o pelo pescoço enquanto dizia com aqueles olhos frios e aquelas garras de lobo a milímetros de perfurar seu antigo Alpha.
— Você veja se me escuta bem, Joseph. Ninguém virá aqui novamente pois, da próxima vez que alguém vier e tentar fazer mal a mim ou a qualquer um de meus irmãos, eu não serei tão facilmente subjugada. Não deixarei que passeiem por aqui e ajam como se tudo que é dos meus e do meu Alpha seja deles.
Apertou mais um pouco sua pegada no pescoço do grande lobo.
— Então, se você está pensando em fazer alguma merda em um futuro próximo, sugiro que pense duas vezes. Muitas pessoas subestimam nossa alcateia por seu pequeno tamanho, mas juntos somos muito mais bem coordenados e conseguimos fazer muito mais do que um grupo de dezenas de lobos juntos, onde cada um age por conta própria. Somos uma equipe completamente eficaz e, ainda por cima, temos o melhor Alpha para nos liderar.
Suas palavras escorriam desgosto e fúria, sem dúvidas causados tanto pelos anos que ficou sob o comando de Joseph, tanto pelos atos horrendos que Maxwell lhe fizera e que Joseph parecia achar aceitável dado as circunstâncias.
— Você fala tão mal de Aidan, mas nunca conseguirá chegar a um porcento do Alpha que ele é. Se Aidan tivesse um camundongo dentro de sua alcateia, iria se preocupar com ele e mover montanhas para ter certeza de que ele estaria bem. Já você, você só dá importância aos seus lobos “campeões”. Então, eu se fosse você, tentava aprender um pouco com Aidan ao invés de vir aqui como um desocupado e tentar causar discórdia. Já tem até sua primeira lição a aprender com Aidan: nunca invada o território de outro lobo sem aviso prévio e autorização. Acredite, eu também tive de aprender essa com ele.
Rebecca soltou-o então, dando suas costas ao lobo que ofegava por ar. Não olhou-me nos olhos enquanto se distanciava de Joseph, mas eu sabia que tudo o que ela falou tinha vindo do coração. Porém, a poucos passos de chegar até onde estava antes, Rebecca caiu de joelhos no chão, a cabeça baixa e as palmas igualmente presas ao piso como se uma enorme força da gravidade a prendesse ali. Sua respiração estava forte devido a sua luta interna contra tamanha força.
Dessa vez, quem voou para cima de Beitman fui eu. Imitei Rebecca, pegando-o pelo pescoço, mas por ser mais alto do que a moça, consegui levantar o maldito Alpha pela garganta e mantê-lo suspenso no ar.
— Solte sua maldita dominância da minha loba, seu desgraçado. Você não apenas está em meu território, está em minha casa, e acha mesmo que eu vou deixar você dominar qualquer um dos meus lobos? Quantos neurônios você tem?
Quando vi que Beitman soltara seu poder de Rebecca, e Kenna já havia ido até ela para ajudá-la, soltei o maldito lobo, fazendo-o cair sentado no chão.
— Já que tem tanta sede por dominância, Beitman, deixe-me dividir um pouco da minha com você.
Observando-o, admito, com muito prazer, vi agora o Alpha de Seattle rastejar pelo chão. Um de seus lobos ficou imóvel, provavelmente amedrontado demais para sequer de tentar ajudar seu Alpha. O outro, Oliver, tentou investir contra mim, só para ser parado pela força bruta de Trevor.
— Saiam os três da minha casa, da minha cidade e do meu território. E saibam que qualquer um dos seus, com exceção apenas daqueles que Rebecca escolher, estão completamente banidos de pisar em terras minhas.
Trevor pegou Oliver pelo colarinho e o jogou porta afora, enquanto Connor apenas se aproximou do outro para ele ir, por pura e espontânea vontade, para fora também. Joseph ainda rastejava e por isso decidi soltar minha dominância. Assim que o Alpha conseguiu, enfim, levantar, aproximei-me dele novamente, seu rosto à meros milímetros do meu, tão perto que era possível enxergar com clareza todos os pingos de suor que escorria-lhe pela face.
— Se um dia você ou um dos seus invadir ou maltratar o que é meu, significará guerra. E se eu ficar sabendo que você está descontando isso nas pessoas que são especiais para Rebecca, ficarei igualmente ofendido.
Joseph Beitman apenas estreitou seus olhos e bufou na minha cara, mas deu as costas para todos e saiu da casa, dando partida em seu carro, no qual seus outros lobos já haviam entrado.
Isso havia sido completamente inesperado, mas muito preocupante. Eu não sabia se Joseph iria ouvir minhas ameaças ou não. De qualquer forma, estava na hora de eu entrar em contato com um dos três filhos do Letum e avisar que o mundo lupino já havia começado a desconfiar, ou então a cansar, de sua liderança.
Voltei-me para Rebecca, que havia sentado em uma das cadeiras de jantar enquanto Kenna fazia um leve cafuné em seus cabelos.
— Está tudo bem? – perguntei, e ela conseguiu encontrar meu olhar, apesar de ter me parecido uma tarefa custosa para ela. Ela apenas assentiu e levantou-se, pegando novamente a sacola de compras nos braços.
— Trevor, me ajude, por favor, a guardar tudo isso.
Trevor e eu nos entreolhamos, mas ele a seguiu para dentro da cozinha. Os outros três lobos e eu suspiramos e começamos a conversar um pouco sobre o acontecido, mas não tinha muito o que falar. O recado tinha sido dado. O que nos restava fazer era entrar em contato com o Letum e ver como as coisas corriam nos meses a seguir.
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