Notas iniciais
Olá, gente! Que saudades eu estava de vocês! Não vou ficar enchendo muita linguiça aqui nas notas iniciais pois sei que vocês querem mesmo é ler o capítulo. Mas, por favor, leiam as notas finais que tenho muita coisa a contar! *-*

Becca

Abrir as portas daquele pequeno prédio nunca havia sido tão reconfortante. Nunca achei que eu fosse sentir falta de dar aula tanto assim, mas depois de minha prolongada abstinência, percebi que eu realmente gostava do que fazia, e não somente o fazia para conseguir pagar as contas no final do mês, mesmo o salário mal conseguindo cobri-las. Com um humor muito melhor do que o habitual, e muito melhor do que meus colegas estavam acostumados, atravessei a recepção e os corredores até a sala que eu ocupava distribuindo sorrisos e bom-dias.

Eu não costumava bater muito papo com nenhum dos outros professores, mas hoje eu estava até que com vontade de fazer uma exceção.

Sorri ao sentar no meu banco na frente da sala e afinar meu violão, enquanto esperava meus antigos alunos chegarem. Aos poucos fui percebendo que absolutamente todos os meus alunos estavam entrando e soltei um suspiro aliviado. Estava com medo de que eu tivesse perdido alguns desde que sumi, talvez por transferência para outra turma ou qualquer outro motivo. Mas não, todos estavam aqui, e todos sorriam para mim, obviamente tendo sentido tanto a minha falta quando eu sentira deles.

Decidi voltar às aulas com uma música animada para levantar tanto os espíritos deles quanto o meu. Primeiro eu demonstrei os acordes e depois percorri a sala observando cada um tentando repetir o processo. Alguns estavam com mais dificuldade do que antes e não pude deixar de pensar em quem David tinha conseguido para me substituir e se, realmente, tinha sido um professor decente. Fiz um lembrete mental para passar um pouco de lição de casa para eles, um pouco de teoria musical não machucava ninguém.

Elijah, a estrela de minha sala, apesar de tão novo, estava se sobressaindo dos demais, como sempre. Dei apenas um tapinha nas costas dele, dando mais atenção àqueles com mais dificuldades, mas ele sabia que esse era meu jeito de demonstrar meu orgulho.

Após a aula, absolutamente todos os meus alunos vieram falar comigo em particular por um tempinho, dizendo como estavam com saudades e perguntando se estava tudo bem comigo agora. Aparentemente a desculpa médica que Aidan tinha inventado para David não pegar no meu pé era que tínhamos ido aos Alpes esquiar e eu tinha quebrado as duas pernas. Apropriado, tendo em vista que eu já tinha mesmo quebrado ambas as pernas por causa de Aidan certa vez. Depois de eu agradecer a cada um e certificá-los de que tudo estava bem comigo, alguns até me parabenizaram por meu casamento. Foi difícil eu conseguir manter meu rosto inexpressivo enquanto explicava para eles que eu acabei não me casando no final das contas. Eu não queria mais manter aquela charada, não agora que não era mais necessário.

Enquanto Elijah partia, o último a ir embora, pois conversamos um monte sobre diversos outros assuntos (eu adorava aquele moleque) percebi que David esperava encostado na soleira da porta. Fazia tanto tempo que eu não via ele que seu charme me pegou desprevenida.

— Bem-vinda de volta, Rebecca — falou sorrindo, dando tchau para Elijah e entrando na sala enquanto o garoto saía.

— Ah, obrigada, David — respondi com um sorriso educado.

— É bom ver que você não ficou com nenhuma sequela de seu acidente. Esquiar é uma coisa muito perigosa.

— Tem razão — respondi, sem saber o que mais falar. Estava só esperando o motivo por trás de ele vir puxar justo esse assunto comigo.

— Mas aposto que você deve ter achado que valeu a pena. Fui uma vez aos Alpes suíços e é maravilhoso, não é? — É claro que ele já tinha ido.

— Ahn, sim, foi uma experiência única. — Não pude deixar de pensar no real motivo por trás de meu afastamento: a separação completa de minha loba por meses. Bexi estremeceu em minha mente. — Mas não sei se é algo que vou querer um dia repetir.

— Realmente, esquiar não é para qualquer um — mencionou de forma arrogante, mas sem perceber que tinha sido um tanto rude. — Mas e o resto de sua lua de mel? Divertiu-se? — Seu tom era insinuante.

— Sim, correu tudo bem. — Pigarreei, sem jeito, e percebi que ele notou como eu estava pouco à vontade.

Após uma breve pausa, como se ele estivesse remoendo com si mesmo se deveria ou não falar o que falaria a seguir, olhou para mim com preocupação.

— Rebecca, está tudo bem? Você sabe… entre vocês?

Para minha surpresa, ele parecia, de fato, preocupado, não apenas buscando informações para saber se ainda tinha alguma chance de jogar o “jogo”.

— Sim! — exclamei, talvez um pouco defensiva demais. — Quer dizer, passamos esse tempo todo juntos mas acabamos não oficializando nada. — Encontrei seu olhar tanto para ver sua reação quanto para ver se ele estava entendendo. — Mas continuamos bem. Quer dizer, somos amigos.

— Hm — falou apenas, sem dúvidas achando tudo isso muito estranho. Mas eu não poderia deixar de contá-lo a verdade, era meu chefe! Uma hora iria descobrir que eu não havia me casado com ninguém. — Rebecca, se ele estiver te incomodando, ou não era quem você pensou que fosse… Por favor, você sabe que eu te ajudaria, não é?

— Ah, David, não é assim! — apressei-me em dizer. — Nós apenas não demos certo, nada demais. Aidan nunca faria nada de ruim a ninguém.

‘Bem, a menos que a pessoa mereça.’

David suspirou, mas balançou a cabeça afirmativamente, como quem compreendia a situação.

— Sinto muito, então. Vocês pareciam bastante íntimos.

— Ainda somos, de certa forma. Mas não mais desse jeito — assegurei-lhe.

De repente, David pareceu mudar completamente de humor. Sua preocupação anterior se dissipou e ele juntou as mãos de forma animada.

— Bem, então acredito que não tem problema algum se eu quiser repetir aquele jantar que foi abruptamente interrompido.

Senti, quase que no mesmo segundo, meu rosto ferver e tinha certeza de que estaria da cor de um pimentão. Havia sido culpa minha, afinal. Havia fugido em desespero porque ainda estava evitando Aidan e o maldito estava justamente no mesmo recinto que eu. E o coitado do David nunca, na verdade, tinha recebido um pedido de desculpas, apenas uma desculpa esfarrapada que eu, do nada, havia tido uma indigestão e corrido para casa com vergonha de que pudesse acontecer alguma coisa terrível...

É, crianças, a vida de um lobisomem não é só ação. Inclusive é mais humilhação do que outra coisa.

— Eu sinto muito por aquilo, David — admiti na maior sinceridade.

Eu poderia nunca querer ter um relacionamento com ele, mas ele não havia feito nada de errado. Sim, era irritante quase todo dia, mas merecia uma espécie de reconciliação.

— Honestamente, eu gostaria muito de oferecer-lhe um jantar. — Peguei-me falando, mas percebi que era verdade. Era uma ótimo jeito de mostrar que estava arrependida e também que poderíamos continuar a nossa rotina, mas sem mais momentos embaraçosos e constrangimentos. — Não sou nenhuma chef cinco estrelas, até porque, se fosse, não estaria aqui — brinquei. — Mas sei fazer um escondidinho de carne que é de matar.

— Está sugerindo que eu vá para sua casa essa noite?

— Sim.

— E que vai fazer um jantar para mim?

— Sim, ué. O que há de errado com isso?

— Nada — respondeu com um sorriso. — Apenas nunca pensei que isso fosse acontecer.

Dei uma risada e levantei-me da cadeira, pegando minhas coisas e deixando claro que já queria partir. Afinal de contas, se eu ia cozinhar um jantar decente, teria que passar no mercado.

— E o vinho, eu que levo? Tenho um Chardonnay de 66 que é espetacular.

—x-

Estava agradável, tenho de admitir.

Havíamos ido ao seu gigantesco apartamento para buscar seu maldito vinho, mas não demoramos muito. Ele insistiu que eu entrasse e foi ali, fuçando seus pertences nas paredes e nas prateleiras enquanto ele procurava a bebida, que eu descobri que seu pai era dono de um banco. Isso explicava a fortuna dos Williams. Após inquirir, pois minha curiosidade beira à inconveniência, descobri que o próprio David era formado e completamente apto a assumir as funções do pai, mas enquanto esse dia não chegava, administrava a escola de música que seu pai havia lhe dado, sua real paixão.

Demos um rápido pulo ao meu mercado de bairro preferido e fingi não notar David franzindo o nariz para as marcas de ingredientes que eu jogava no carrinho por serem mais em conta. No fim, porém, ele me ajudou um monte enquanto cozinhava e até ajudou a limpar a bagunça.

Era a primeira vez que David era convidado para dentro de minha casa e, justamente por isso, achei que ele fosse ficar incomodado com a imensa diferença de ambientes. Minha casa inteira era menor do que a sala de televisão do indivíduo. Contudo, David continuava a me surpreender, tirando o blazer, afrouxando a gravata e deitando-se bastante à vontade no sofá após termos terminado a refeição.

— Como assim você não gosta de Motley Crue? Eu jurava de pé junto que você era fã de Motley Crue. Você tem cara de quem gosta de Motley Crue, inclusive.

David tagarelava após algumas, várias, taças de vinho. Aparentemente a garrafa era para ser detonada naquela mesma noite e, apesar de eu não sentir o efeito do álcool, ainda apreciava o doce gosto de um Chardonnay, então certamente não era uma para reclamar. Havíamos acabado de entrar no assunto musical, com ele tendo visto minha modesta coleção de CDs, e acabado de terminar a discussão idiota dos porquês de eu não me aventurar mais na cozinha.

Na opinião dele, eu deveria me esforçar mais, pois certamente meu escondidinho tinha ficado “divino” — não sei se era verdade ou se era apenas o efeito do vinho na mente do frágil humano. Mas eu rebatia insistindo que tinha preguiça demais de cozinhar, seja por sempre ter que estar com a geladeira cheia de ingredientes, seja por ter de esperar horas até os pratos mais gostosos ficarem prontos. E cem por cento das vezes em que eu cozinhava era porque estava com fome imediata.

— Não, David, me deixa. — Ri. — E eu não entendo como você não gosta de Black Sabbath na era Ozzy.

— Ozzy Osbourne não sabe cantar, Rebecca. Dio era o cara. Fim de papo.

Eu estava prestes a contestar quando uma forte batida na porta nos interrompeu. Eu não estava esperando ninguém e acho que David percebeu isso em minha expressão, pois foi mais rápido e levantou-se do sofá para abrir a porta, de forma protetora.

Quem ele encontrou lá sem dúvidas não estava nada contente, isso era perceptível tanto pelas batidas impacientes, quanto pela respiração pesada.

— Ah, é você — David falou, aparentando ter esquecido o nome dele ou, ao menos, fingindo ter esquecido. — Becca, seu ex-noivo está na porta. Quer que o deixe entrar?

‘Quer que o deixe entrar? Aidan deve estar adorando isso…’

— Pode deixá-lo, David. Obrigada.

Apreensiva, observei Aidan atentamente enquanto ele entrava na minha casa sem, em nenhum momento, dar as costas a David. Seus olhos castanho-escuros estavam pincelados levemente de vermelho, o que obviamente significava que Aidan estava tendo dificuldades para manter seu lobo sob controle.

Era óbvio que um Alpha nunca precisa de permissão para entrar na casa de um lobo. Nossas casas eram tanto dele quanto a dele era nossa. Mas David jamais poderia imaginar que eu e Aidan estávamos ligados de tal forma, e para mim não fazia sentido algum Aidan estar reagindo de forma tão exagerada perante a situação. Por isso presumi que outra coisa tivesse acontecido e imediatamente comecei a revirar minha mente para certificar-me de que não havia feito nenhuma cagada recentemente que ele poderia ter descoberto. Não lembrava-me de ter feito nada...

Eu não havia me levantado da cadeira que eu ainda ocupava desde o jantar e havia apenas inclinado para poder conversar com David no sofá. Por mais nervosa que eu estivesse por dentro, com certeza não estava demonstrando. Os olhos de Aidan percorreram-me, depois a mesa cheia de pratos e talheres usados, taças e a garrafa de vinho. Após essa inspeção, que foi tão rápida que certamente apenas eu percebi, Aidan virou-se para David. Olhou-o de cima a baixo, sem dúvidas notando sua postura informal e o cheiro de álcool que dele emanava.

— Rebecca, preciso falar com você. — A frase demorou para sair por inteiro de seus lábios, pois as palavras saíam uma de cada vez em uma tentativa de conter sua fúria e não assustar demais o humano.

— Tudo bem — respondi cautelosamente, ainda incerta sobre o que o levaria a vir na minha casa em pleno dia de semana à noite. Sem aviso prévio. Chequei meu celular rapidamente só para confirmar que, de fato, Aidan não havia tentado ligar ou mandado mensagem.

— Em particular… — seu lobo ressaltou e eu suspirei.

David encarava Aidan com mais cautela ainda do que eu, provavelmente tendo algum instinto protetor que o alertava sobre o real predador que o Alpha era e a ameaça que representava. Mesmo assim, encontrou meu olhar com preocupação, fazendo-me sorrir para ele de forma reconfortante.

— Só levará alguns minutinhos, David. Se quiser abrir aquela caixa de bombons e ir comendo na minha frente, prometo que não ficarei brava.

Aidan me encarou com um olhar severo e seguiu-me para meu quarto. Fechei e tranquei a porta.

— Aidan, por favor, me diga o que foi que está te deixando tão irritado e o que eu tenho a ver com isso.

Confesso que quem estava começando a se irritar agora era eu. Ele poderia, ao menos, ter sido cordial com David. Ao invés disso, parecia uma besta animalesca, quase um homem das cavernas.

— Bombons? Bombons?! — indagou com um rugido, não necessariamente alto, mas que fazia da voz dele mais rouca.

— É uma sobremesa comum e um ótimo complemento para um jantar — acrescentei simplesmente, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

— Você jantou com ele. Em sua própria casa. Preparou uma refeição para ele. — Não eram perguntas, pois ele claramente havia estudado a cena muito bem.

— Sim, sim e sim.

Ele ficou quieto, apenas tentando controlar sua respiração. Desconfortável por causa do silêncio, decidi acrescentar:

— Já tratei David como lixo por tempo demais em minha vida. Senti-me mal por causa disso e percebi que ele não é de todo ruim. Na verdade, estávamos tendo uma noite ótima.

— Uma noite ótima? Com David. Com. Vinho.

— Tinha vinho, e daí? Não é como se eu fosse ficar bêbada e fazer loucuras.

— Ele está visivelmente bêbado.

— Okay.

— Com certeza deve achar que você está, ou então esperava que ficasse.

— O problema é dele, não é mesmo? Pois não vou ficar. E realmente não acho que ele tenha vindo aqui com esse propósito. David mudou, assim como eu. Queria dar uma chance à amizade dele.

— Mas, para ele, nós estamos casados. E mesmo assim o cara veio para sua casa beber vinho e comer sua comida. Sozinhos. Por que, inferno, ele me chamou de seu ex—noivo, Rebecca? Não estou entendendo nada.

— Na verdade, eu já desmenti essa história para todo mundo — confessei cautelosamente, não sabendo ao certo como Aidan reagiria a isso sem eu ter avisado a ele primeiro. — Falei que acabamos optando por terminar e nem casamos. Uma hora ou outra isso seria evidente, Aidan. Não é como se eu gostasse de mentir para meu próprio chefe!

— Mas oferecer um jantar romântico parece estar na sua lista de afazeres com seus chefes.

— Não tem nada de romântico no que estamos fazendo, Aidan! — contive-me para não erguer a voz demais, apesar de minha vontade de mandar Aidar para aquele lugar. David não precisava saber em detalhes todos os nossos problemas. — E, afinal, o que você tem a ver com o que eu faço e com quem faço? Você é meu Alpha, não meu conselheiro amoroso! O que, afinal, está fazendo aqui?

— O que estou fazendo aqui? Certamente não o que eu tinha em mente quando dei os primeiros passos até sua porta e ouvi o som de você rindo com outro cara. — Bufou. — Quer mesmo saber o que vim fazer?

— Por favor, escalareça—me.

Aidan, com os punhos fechados e os nós dos dedos brancos, apenas me encarou por um momento. Depois de um silêncio ensurdecedor, e de eu achar que ele iria embora sem nem se dar ao trabalho de responder, o lobo encurtou a distância entre nós em apenas alguns passos e, puxando-me pelo pescoço, beijou-me.

Um beijo de tirar o fôlego e fazer os joelhos fraquejarem.

Um beijo que terminou tão rápido quanto havia começado.

— Eu vim, Rebecca, pois não consigo parar de pensar em você por um só minuto. Penso em você quando você está perto, penso quando está longe. Pergunto-me se está feliz quando está comigo, e quando não está comigo, pergunto-me com quem está e se está segura. Você está comigo, em meus pensamentos, em todos os momentos. Você se tornou tudo.

Ele soltou tudo tão rápido que eu nem tive tempo de processar suas palavras. Talvez, se ele pensasse demais antes de falar, decidiria por não me revelar tudo aquilo. Mas havia, e ao que parecia ainda tinha mais a dizer.

— E justamente por tudo isso, esses sentimentos que eu divido com meu lobo, decidi que está mais do que na hora de eu reivindicá-la, mesmo sabendo que você tem alguma aversão irracional por mim em momentos específicos, e em outros eu sinto -- e sei que não é só minha imaginação -- que você quer se agarrar a mim tanto quanto eu a você, em todos os sentidos possíveis.

Era impossível não corar. Até mesmo minha loba, escondida dentro das quatro paredes de meu subconsciente, estava envergonhada.

— D-do que você está falando? O que você quer dizer com reivindicar?

Minha loba estava chocada demais para fazer qualquer comentário sobre o quão estranho aquele assunto era e eu mesma estava bastante atordoada.

— Significa, simplesmente, que todos os outros lobos do território saberão que eu estou interessado em você e, portanto, não irão dar em cima de você de qualquer maneira a menos que estejam procurando uma sentença de morte. — Suas palavras fizeram um calafrio percorrer meu corpo. No bom e no mau sentido. — Se você aceitar ser reivindicada, outros lobos, caso nos encontrem, perceberão que eu e você temos essa ligação -- eu reivindicado por você e você por mim -- assim como percebem quando dois lobos são acasalados, e nos deixarão em paz.

— A-aceitar ser reivindicada?

— Você tem todo o direito de recusar e, caso queira, não posso fazer nada. Mas enquanto você não explicitamente me rejeitar, tenho todo o direito de ficar extremamente territorial em relação a você, e você também tem esse direito, é claro. E, por mais que David seja humano, eu não quero ele aqui dividindo algum vinho estupidamente caro com você enquanto você serve para ele um jantar delicioso. Você nem cozinha!

— V-você não tem o direito de achar ruim! E como você pode saber se estava delicioso? N-nunca provou minha comida!

— Rebecca, se você servisse uma mortadela esquentada no micro-ondas para mim, eu iria achar delicioso.

— Ah, cale a boca! — explodi. — Você não tem o direito de entrar assim no meio de uma noite completamente agradável e estragar tudo! De achar que pode simplesmente jogar essa bomba em cima de mim, do nada, e ainda esperar que tudo ficasse bem! Não tem o direito de falar coisas bonitas ao mesmo tempo em que cobra tamanhas respostas de mim!

— Não estou cobrando, Rebecca. Estou apenas avisando que, para mim, você é mais do que uma loba da qual eu sou responsável. Gostaria de namorar com você do jeito que lobos fazem, pois somos lobos afinal, não podemos ignorar isso.

— Pare! Não é só isso que está fazendo e você bem sabe. David está lá, me esperando, e você só pôde agir como um bruto na frente dele, fingindo que ele nem estava lá!

— Rebecca, isso é muito mais difícil para mim do que você pensa! Ou você acha que estou aqui só para estragar sua merda de jantar e te envergonhar? — Passou a mão pelos cabelos castanhos. — Meu lobo te quer há tanto tempo, eu te quero há tanto tempo. É uma tortura vê-la com outro cara, divertindo-se com outro cara. Principalmente quando esse cara é seu chefe, que você vê todo dia, e que, por mais que você acredite no contrário agora, já passou muito tempo querendo justamente sair com você.

— Não tem nada diss-

— Um jantar romântico, sozinhos, na casa de um de vocês onde tudo é mais cômodo e, olha só, tem uma cama de casal logo ao lado! — interrompeu-me. — Rebecca, esse é o sonho dele. E o pior é que, segundo você, ele acabou de receber a notícia de que eu e você não somos mais noivos! O cara nem te deu espaço!

— Mas ele não está querendo nada! Ele não deu uma investida sequer essa noite, não foi nada além de completamente gentil.

— Rebecca-

— Pare, Aidan. Apenas pare! Não me importa o que você veio fazer aqui. Não me importa se isso tudo é completamente normal para você ou para os outros lobisomens idiotas que vagam o mundo. A vida é minha e você não pode simplesmente achar ruim que eu estou desenvolvendo uma amizade com o David, com o Christian Bale ou com quem quer que seja.

— Não é bem assim. É só no começo, principalmente porque você ainda não me deu uma resposta. E principalmente porque eu tenho certeza de que esse cara quer algo a mais do que sua amizade.

— Saia, Aidan — falei de repente, meu tom de voz tão firme que até eu fiquei impressionada. — Você é meu Alpha, mas eu não vou aceitar isso. Se achar ruim, tudo bem, eu me mudo de novo. Não vai ser a primeira vez. Mas a vida é minha. David não fez nada de errado e eu até diria pra você não se preocupar, porque nada nunca irá acontecer entre ele e eu, mas acontece que você realmente não tem nada a ver com isso.

O silêncio voltou a cair logo após e, quase que imediatamente, arrependi-me de quase todas minhas últimas palavras. Até mesmo Bexi, que estava estranhamente quieta durante tudo isso, sentia que estava tudo errado, que essa discussão não deveria ter acabado desse jeito.

Mas estava feito, e Aidan respirou fundo e deu as costas para mim. Destrancou a porta do quarto virando sua cabeça para olhar-me apenas uma vez antes de sair e, provavelmente, marchar para fora da casa sem direcionar a David sequer mais um relance.

Caí sentada na cama e fiquei paralisada por uns cinco minutos. Graças a Deus David teve o bom senso de me dar espaço e não entrar ou me chamar. Eu precisava me acalmar, eu precisava me recompor.

‘Como é possível se recompor depois disso?’

— Eu não sei. Eu- Eu não sei — sussurrei para Bexi enquanto nós duas repetimos a cena várias e várias vezes em nossas cabeças.

Você está comigo,

em meus pensamentos,

em todos os momentos.

Você se tornou tudo.

Depois de mais uns dez minutos consegui levantar e lavar o rosto no banheiro, para tirar aquela expressão de puro choque do meu rosto.

Voltei para a sala e encontrei David novamente deitado no sofá, mastigando um peanut butter cup. Ao me ver, automaticamente levantou-se com a caixa de bombons na mão.

— Deixei metade para você. — Estendeu-me, gentil, a caixa, o que me fez sorrir.

— Agradeço por ter lembrado de mim — brinquei e, apesar do sorriso que ele retribuiu, ficou bastante sério.

— Está tudo bem com você? — questionou, sincero. — Ele não- Ele não fez nada com você, certo?

Arregalei meus olhos por um momento, assustada por ele pensar em algo assim. Mas, realmente, para alguém de fora e alguém que não conhecesse o temperamento dos lobisomens em geral, algo assim poderia parecer suspeito.

— Não, fique tranquilo. Aidan não é assim.

Refleti enquanto defendia meu Alpha e percebi que, realmente, Aidan não faria nada por mal. Fazia tudo o que fazia por ser de sua natureza. O que um lobo selvagem faria na situação dele? Era difícil conseguirmos separar a parte civilizada da selvagem em boa parte das vezes. Realmente, talvez no meio de uma situação inteiramente da cultura lobisomem, como aparentava ser esse negócio de reivindicação, fosse ainda mais difícil controlar os instintos.

— Becca, você sabe que sempre pode contar comigo. Se você precisar de alguém para conversar, ou mesmo para ajudar você com ele...

— Eu sei, David, e realmente agradeço.

Após mais uma meia hora de conversa cordial -- eu já não estava mais com cabeça para papo furado e ele já estava voltando à sobriedade -- despedimo-nos e deixei-o em sua casa, eu e Bexi destinadas a enfrentar tudo o que havia acontecido completamente sozinhas.

Notas finais
Peço realmente muitas desculpas pela demora. Há vários motivos por trás, mas os principais são o de que eu mudei de emprego e agora estou numa empresa bem maior que demanda muita mais tempo e conhecimentos meus, e também porque eu estava preparando tudo para o livro! SIM O LIVRO. Assinei contrato já, amores, e logo Dominante vai começar a ser revisado, juntamente a mim, e vamos fazer um livro bem legal para vocês terem aí na casinha de vocês ♥ Nem preciso dizer que estou emocionada, né? Por isso, se eu demorar mais daqui pra frente, não fiquem chateados ou preocupados. Provavelmente é por um desses dois motivos citados acima. E, bem, é impossível eu abandonar a série agora, já que tem minha assinatura num contrato por aí e sou meio que obrigada agora a terminar tudo hehehe Não que fosse abandonar antes, sempre fui apaixonada por essa história, mas só para deixar os mais aflitos reconfortados. hehe Obrigada!!