Valente
19 XVIII
Notas iniciais

Aidan
As palavras de Rebecca ficavam ecoando em minha mente enquanto eu dirigia, sua voz carregada tanto de dor quanto de ira pela minha reação.
“Eu confio cegamente em você. Se eu estivesse em uma situação em que tinha que deixar minha vida nas mãos de alguém e pudesse escolher, deixaria nas suas em um piscar de olhos.”
“Apesar do romantismo que existia entre eu e Mathias ter morrido, eu ainda possuo sentimentos muito fortes por ele.”
Meus pelos ainda se arrepiavam, não de uma forma boa, em resposta à sua última declaração, e ela já não olhava mais para mim, apenas fitava a paisagem pela janela da porta. Esticando seu braço lentamente, Rebecca deslizou seu dedo pelo botão de volume, abaixando os sons das guitarras até parecerem apenas um sussurro.
— Eu- Você sabe o quanto é difícil para mim. Me abrir desse jeito, quero dizer — começou. — Mas sinto que não devo ficar brava com você, principalmente não agora. Seria injusto, depois de tudo que tem feito por mim e por meus amigos.
Suas palavras me pegaram completamente de surpresa, fazendo-me ficar calado sem saber nem como começar a respondê-la. Não era problema, porém, pois parecia que ela ainda não tinha terminado.
— Não posso ficar irritada com você por tudo, mesmo que você me irrite e esteja errado. Não, Aidan, você não está certo o tempo todo, não é o dono da razão, por mais que você ache que é.
Não consegui prevenir um dos cantos de minha boca de subir um pouquinho com o comentário.
— Eu consigo entender que um pouco disso tudo é por causa de quem você é. Do seu passado e do seu posto. Não tenho esse desgosto por solitários como você tem, mas compreendo os seus motivos. Você é um Alpha, está acima de você não querer permitir que outros vagueiem por aí, comprometendo a ordem que os lobisomens tentam manter. E, bem, você foi transformado por eles, vivenciou coisas indizíveis por culpa deles.
Não consegui reagir às suas palavras naquele momento, tendo sido transportado de volta para aquele dia, naquela casa em chamas. Os gritos. O cheiro de carne queimando. A vida que fui forçado a abandonar por causa do que se desenrolou ali. A vida que eu poderia ter vivido. Apenas permaneci com os olhos colados na estrada, ciente de que não demoraria mais que dez minutos para chegarmos ao dojô.
— Entendo esses motivos e sei que não poderei fazer nada para mudá-los. Mas Mathias, apesar de nossas desavenças e apesar de ele, talvez, escolher más companhias, continua sendo meu amigo. E, se ele decidir que quer que eu saiba à respeito dele, onde está e como está, eu vou sim querer revê-lo.
Aquilo ardeu em mim como uma marca de fogo.
Ela, talvez percebendo como suas palavras me deixaram um tanto desnorteado, resolveu repetir:
— Como disse, entendo e respeito quem você é, o que pensa sobre eles. Mas não entendo o porquê de você não perceber que Mathias é diferente, igual você disse que eu sou.
O carro ficou em total silêncio, apenas o barulho do motor e a suave melodia das guitarras ao fundo eram escutados. Rebecca não tinha mais o que falar, e esperava algum tipo de reação minha. Alguma resposta. E tanto pela minha decisão de reivindicá-la, quanto por simplesmente estar de saco cheio de ouvir o nome daquele cara saindo dos lábios dela, resolvi revelar o que sentia para ela. Sem explicações, apenas a pura e simples palavra.
— Ciúmes.
Se o carro antes estava em silêncio, após minha revelação, parecia que tinha sido invadido pelo vácuo, onde nenhum som conseguia se propagar.
Seus olhos castanho claros se arregalaram e não conseguiam se desgrudar de mim. Gargalhei por dentro, por vê-la pega tão de surpresa, enquanto estacionava o carro no estacionamento vazio do dojô. Melhor para nós que ele estivesse vazio, pois mesmo com as paredes reforçadas, os outros clientes poderiam se perguntar o porquê de parecer que o incrível Hulk estava treinando naquela tarde.
Desliguei o motor e tirei o cinto, virando-me enfim para ela, que ainda me fitava. Suavemente coloquei o indicador embaixo de seu queixo e o empurrei para cima, fechando sua boca que ainda estava aberta. Ao fazer isso, Rebecca pareceu ter saído de seu transe e, toda encabulada, desfez seu cinto de segurança e bateu a porta com força da SUV, descontando sua raiva pela minha audácia em debochar dela.
Sem me esperar, foi entrando no dojô, apesar de não conhecer nenhum dos funcionários e muito menos o dono. Com ela longe, permiti-me rir da situação enquanto trancava o carro e seguia meu caminho pelo estacionamento, sem nenhuma pressa.
Ao abrir as portas do estabelecimento e ser cumprimentado pelos sininhos de aviso de clientes, avistei Rebecca, ainda um pouco corada pelo acontecido, falando com Cassidy, a sobrinha do dono que trabalhava como recepcionista. Ela tinha apenas dezesseis anos e trabalhava aqui depois da escola. Obviamente, pela idade, seu tio a achava muito nova para saber da existência de lobisomens. Mas, se ela fosse querer trabalhar no estabelecimento como um emprego integral, ele provavelmente teria de contar a ela logo. O que eu achava que era muito provável, tendo em vista que ele me contara uma vez que ela queria cursar educação física na faculdade.
Era óbvio que Cassidy era atraída por mim. Eu sabia, seu tio sabia, qualquer um com olhos e que visse nós dois interagindo saberia. Mas Rebecca não sabia, e estava na hora de ela descobrir.
— Ah, Cassidy, querida, quanto tempo. — Ela estava em pé ao lado de sua mesa, Rebecca provavelmente tendo acabado de pegá-la voltando do banheiro ou buscando um café. Aproveitei para cumprimentá-la com um abraço, nada fora do normal, nada que eu já não fazia quando vinha sozinho, mas deixei minha mão encostada em seu braço por um tempo um pouco mais longo do que eu teria normalmente. — Infelizmente ando um tanto ocupado e não tive muito tempo para vir praticar nos últimos meses.
E, infelizmente, era verdade. Cassidy parecia concordar comigo, que era uma pena eu não ter aparecido no dojô nesses últimos tempos.
— Aidan, como é bom te ver! Pois é, achei estranho esse seu sumiço de repente. — Ela sorriu, virando-se para mim e esquecendo-se completamente da existência de Rebecca. — Espero que agora tudo tenha se acalmado e você possa voltar a treinar. Titio também notou sua ausência, hein — brincou, tendo ficado um pouco mais faladeira do que o habitual, talvez impulsionada pela minha mão que ainda repousava em seu braço.
Rebecca parecia completamente perplexa com aquela cena, percebendo, sem dúvidas, o que eu estava fazendo e sentindo como era ser invisível enquanto eu puxava assuntos banais com Cassidy. Finalmente, após uns cinco minutos de intenso contato visual, apesar dos assuntos variarem entre os exames finais de Cassidy e a temporada de chuva, Rebecca bufou tão alto que a jovem deu um pulo. A lobisomem apenas deu um sorrisinho falso e pediu desculpas.
— Vejo que vocês já se conheceram — falei, franzindo o olhar para Rebecca, que me respondeu apenas com um revirar de olhos. — Cassidy, Rebecca é uma nova- erm, vizinha minha que queria começar a aprender alguma luta marcial.
— Entendo — Cassidy murmurou, parecendo contrariada por Rebecca ter interrompido os momentos que, com certeza, ela iria repetir detalhe por detalhe para suas amigas via algum aplicativo de bate-papo. E talvez escrever em seu diário. — Bem, creio que você irá querer a sala de sempre então, Aidan?
Assenti. Cassidy sabia que eu sempre treinava na última sala do dojô, sem janelas, sem objetos facilmente destrutíveis e mais afastada. O que ela não sabia era que eu escolhia aquela sala por ela ser praticamente a prova de lobisomens. E, bem, que eu era um.
Seguimos Cassidy com um silêncio constrangedor. Eu conseguia sentir o olhar de Becca queimando minhas costas. Ela queria me esfolar vivo, disso eu não tinha dúvidas.
— Desejo a você um bom treino, Aidan — a jovem murmurou, com um sorriso encantador e a voz doce, provavelmente bolando algum jeito de me ver suado após o treino e antes de eu ter chance de fugir para o vestuário. — Pra você também, Rebecca. — Ela estava sendo sincera, não desejava mal à loba, até porque, se Becca gostasse, seria mais uma cliente para ela e seu tio. Porém, era visível como sua doçura não se estendeu a minha companheira de luta.
Fechei a porta da sala assim que Cassidy saiu. O tapete bege que cobria toda a sala sinalizava que deveríamos retirar os sapatos, e os equipamentos de treino, desde sacos de pancadas até estacas de madeira que simulavam um oponente, apenas esperavam para serem usados.
Rebecca, porém, esperava de braços cruzados, sem se mexer, enquanto eu tirava o tênis e as meias.
— O que foi? — provoquei. — Não vai treinar? Descontar sua raiva? Extravasar?
— Eu vou é descontar em você. — Veio a retaliação dela.
— Ué, por quê? — fingi desentendimento.
— O que foi isso? — perguntou, referindo-se as minhas interações com Cassidy, ao flerte descarado. — Você não tem vergonha de usar uma menina dessa forma?
— Eu não sei do que você está falando — respondi, levantando-me do chão e enchendo uma garrafinha de água que havia trazido.
— Por que você a provocou daquele jeito? Achei que você não fizesse essas coisas, brincasse com os outros assim. Ela obviamente tem sentimentos por você, algum amor platônico.
Sorri ao encher a garrafinha, ela não conseguindo ver minha expressão. Talvez eu tivesse feito algo de errado usando Cassidy daquele jeito, mas eu sabia que ela não sentia amor verdadeiro por mim, caso contrário nunca teria feito o que fiz. Além do mais, esse jogo que eu estava jogando com Rebecca era apenas… divertido demais para eu poder me controlar.
— Eu posso muito bem ter sentimentos por ela — retruquei, querendo ver Rebecca se contorcer para acompanhar esse joguinho.
— Ela deve ter uns quinze anos. — Bufou.
— Na verdade tem dezesseis.
— Dezesseis anos — enfatizou.
— Você tem vinte.
Ela não respondeu, não tendo como contrariar o fato de que era poucos anos mais velha do que a menina. Terminei de encher a garrafa e joguei-a para a loba, sabendo que seus reflexos iam permitir que ela pegasse a garrafa antes de ela bater em seu rosto.
— É bom se manter hidratada — falei apenas.
Após uns cinco minutos de silêncio entre nós, e depois de Rebecca ter tirado seus calçados, ela murmurou:
— Então sou sua vizinha, agora?
— O que você queria que eu falasse? — perguntei, alongando-me em uma das paredes da sala. — Queria que eu contasse à menina que eu sou um Alpha e você uma loba da minha alcateia?
— Achei que para os humanos éramos noivos.
Quase perdi o equilíbrio enquanto alongava uma das pernas por trás. Virei-me para ela apenas para encontrar seus olhos brilhando, revelando que ela também sabia brincar.
— Afinal, — insistiu. — Meu chefe acredita que sejamos. Acho que, se continuar a me apresentar como vizinha, ele vai perceber logo que foi feito de trouxa por nós, e que eu deveria estar trabalhando há muito tempo.
— E daí você terá um problema.
— E daí eu terei um problema. Talvez seja mandada embora e, infelizmente, a única coisa que sei fazer é tocar violão e cantar mal.
— Então acredito que eu terei que começar a te apresentar por aí como Sra. Aidan Rucker. — Dei de ombros e vi novamente seus olhos brilharem.
— Ou então… — Sorriu, começando a imitar os alongamentos que eu já havia terminado. Esticando suas pernas, uma de cada vez, de forma que sua calça legging deixasse pouco para a imaginação. — Ou então a história contada pode ser de que eu te dei um pé na bunda durante a lua de mel. Te troquei por um havaiano bronzeado e musculoso, cheio de tatuagens tribais misteriosas e um sotaque sedutor.
Era impossível conter a onda de riso que tomou conta de mim.
— Chega dessas besteiras e termine de alongar. Você vai descontar toda a sua força, e eu quero dizer toda ela, naquele saco de pancadas. — Ela olhou, curiosa, para a saco azul que estava mais próximo dela. — Não mereço ficar aqui ouvindo sobre seu homem dos sonhos e como você me traiu com ele — murmurei, fingindo aborrecimento.
Rebecca ecoou minha risada, mas terminou seus alongamentos e se posicionou em frente ao saco azul. Primeiramente ela hesitou, mas me aproximei dela e pedi que se concentrasse. Ela fechou os olhos, respirando fundo, e começou a dar socos desajeitados contra o objeto.
À medida que ela ia se exercitando e se esquentando, eu ia corrigindo seus movimentos. Comecei corrigindo sua postura, o movimento de suas costas e como ela estava pisando e posicionando os joelhos. Ela não sabia nada sobre lutas corporais, então tivemos de começar do zero. Ao menos ela estava bastante focada, empolgada até. Eu só não gostava de pensar sobre o que a incentivava a bater com tanta força contra o saco de pancadas.
Corrigia os movimentos de seus braços, como ela fechava o punho. Não usávamos luvas, apenas uma faixa protetora para as mãos. Corrigia quando ela levantava os cotovelos demais, quando não usava o tronco para dar o impulso. Corrigia sua respiração. E ela aprendia, aos poucos. Esquecia algumas coisas, mas eu não me importava em relembrá-la porque era muito satisfatório ver o saco, extremamente reforçado para aguentar nossos socos, quase se soltar de suas correntes e sair voando pelo dojô.
Quando achei que Rebecca já havia captado o básico para treinar sozinha, peguei minhas próprias faixas protetoras e fui para um outro equipamento. Minha concentração, ao contrário da dela, não veio. Se veio, não durou cinco minutos, pois eu simplesmente não conseguia parar de olhar para ela, de observá-la.
Eu não podia dizer que seus movimentos eram graciosos. Uma que Rebecca não era uma pessoa graciosa, em primeiro lugar, e outra que ela não sabia muito bem o que estava fazendo. Porém, algo nela não me permitia desviar o olhar e, portanto, não me permitia treinar. Eu dava uns golpes aqui e ali só para ela não perceber que eu estava parado assistindo a ela, para aquela fêmea maravilhosa não perder sua bendita concentração e sua válvula de escape.
Mas era inspirador vê-la, golpeando o saco sem dó nem piedade, com uma ferocidade que só um ser naturalmente sedento por violência conseguiria compreender. E ela inspirava pelo nariz, e expirava pela boca, assim como eu havia lhe instruído. Seu peito subindo e descendo com uma harmonia sem igual. Subindo e descendo, naquela regata roxa que ela havia vestido para treinar. Subindo e descendo, seu suor escorrendo por seu pescoço até lá embaixo.
Balancei minha cabeça como um cachorro molhado, na vã tentativa de tirar aqueles pensamentos de minha cabeça e voltar a fazer o que, de fato, eu tinha vindo aqui fazer: treinar. Mas Rebecca estava treinando e essa, de fato, tinha sido a prioridade. Então que mal faria, olhá-la dessa forma?
Murmurei alguma desculpa sobre ir beber água, que eu sei que ela nem ouviu, e me apoiei na parede em que nossas coisas estavam amontoadas. De fato, bebi a água, mas em goles lentos e intercalados por longos momentos de pura admiração. A água, percebi, também servia para tentar impedir a sensação… quente que eu estava sentindo de me consumir.
Tinha de admitir que eu estava em uma posição que pouco me ajudava. Rebecca de costas, rebolando involuntariamente o quadril, tentando imitar a posição certa que eu havia lhe ensinado já mais de uma hora atrás. Suas roupas eram justas, acentuando sua cintura e, de certa forma, permitindo conforto para ela enquanto treinava. A regata permitia que eu visse seus ombros delicados, mas também os músculos de seus braços agora em uso.
‘Se nós realmente a reivindicamos, ela tem de saber que nós a reivindicamos.’ Meu lobo argumentou em meu subconsciente, admirando ela tanto quanto eu. ‘Ela tem de saber nossas intenções.’
No fundo eu queria obedecê-lo, fazer o que ele tanto ansiava por fazer. Mas eu insistia contra ele, afirmando que não era a hora certa ainda, não para uma investida física. Uma coisa era fazer brincadeiras e flertar, outra era eu me jogar em cima dela, como queria muito fazer.
E eu estava conseguindo convencê-lo, ao menos até ela parar bruscamente o exercício e se virar, corada e suada do esforço, e andar até mim. Até ela pedir, com a voz fraca por ficar tanto tempo sem falar, a garrafa de água. Até eu entregar a ela a garrafa e ela beber, o líquido escorrendo pelo canto de sua boca e fazendo seu lento caminho para baixo, mais baixo… Seus olhos se fecharam, a expressão no seu rosto de puro prazer, o prazer de alguém que se esgotou fisicamente e estava aliviando a sede com o líquido gelado. E ela estava a apenas um passo de distância. Era só eu esticar o braço que conseguiria encostar nela.
E eu não fui forte o bastante.
~x~
Rebecca
Eu estava esgotada, completa e plenamente esgotada. Mas era bom, essa fadiga era bem-vinda. Durante todo o tempo, imaginei diversos rostos estampados naquele saco de pancadas. Elizabeth Roman, os caçadores dela, os amigos traidores de Mathias, os amigos de Maxwell. Mas quem com certeza passou mais tempo estampando o saco para mim foi Maxwell Kentner. O imbecil que eu já sabia que estava em pedaços e em decomposição em algum lugar, mas que eu ainda tinha o prazer de imaginar apanhando de mim. E como era infinitamente prazeroso socar a cara daquele filho da puta, mesmo que fosse apenas minha imaginação.
Como lobisomem, eram raras as vezes em que sentíamos essa fadiga, em que nos esgotávamos plenamente. Porém, com um lugar especial como esse, construído para conseguir nos atender, era possível. E era maravilhoso. Não me surpreendia que Aidan gostasse daqui. Quando uma corrida e uma caçada não eram o suficiente para cessar aquela vontade de descontar sua raiva, sua energia, esse lugar era uma ótima terceira opção.
Aproximei-me dele, encostado na parede bebendo água, eu querendo muito beber um pouco daquela garrafa também. Eu sentia minhas roupas molhadas de suor. Eu estava encharcada. Mas estranhei ao olhar para Aidan e ver que ele não estava nem de longe tão suado quanto eu. Estaria eu tão fora de forma assim? Ou teria ele não se exercitado? Mas eu tinha o visto treinar.
— A garrafa, por favor — pedi, as palavras saíram interrompidas e minha voz falhando pelo cansaço e pela falta de uso. Pigarreei antes de começar a beber e saciar minha sede sem tamanho.
Uma hora eu estava apreciando o delicioso líquido descendo por minha garganta, a água gelada bem na temperatura certa. Na outra eu estava sendo amassada pelo que parecia ser um trem.
Abri meus olhos e soltei a garrafa, que caiu no chão molhando tudo ao redor, e percebi que não era trem algum. Era meu Alpha, que colou seu corpo ao meu e segurava meu rosto entre as duas mãos. Agora que eu já não mais bebia água, ele colou seus lábios contra os meus, feroz e ligeiro, empurrando-me para trás o suficiente para ele conseguir me prensar contra a parede que ele a pouco se apoiava.
Deixei.
Ele retirou as mãos do meu rosto, colocando uma na parede do lado esquerdo da minha cabeça, e a outra se aventurando por minha cintura, repousando lá e querendo, apesar de se controlando, levantar um pouco minha regata e deixar minha barriga à mostra. Senti sua língua acariciar devagar meu lábio inferior, não necessariamente pedindo permissão, mas mais me avisando que ele agora me tomaria por inteiro. Ouvi um gemido enquanto nossas línguas se encontravam e percebi, um pouco horrorizada, que o gemido tinha sido meu. Passei uma das minhas mãos pelas costas dele, e a outra se fincou em seus cabelos.
Ele queria levantar minha regata? Pois eu queria levantar sua blusa.
Deslizei a mão que estava em suas costas para debaixo de sua blusa, forçando a para cima e deixando claro o que eu queria. Ele soltou um barulho em protesto por ter de parar de me beijar, mas fui insistente e consegui fazê-lo tirar a camiseta. Ele jogou a peça de roupa em cima das mochilas que havíamos trazido e me estudou. Eu aproveitei para estudar ele também, mas não era exatamente para seu rosto que eu estava olhando.
Percebendo onde estava minha atenção, ele soltou uma risada que fez seu peitoral tremer, e me fez perceber que ele estava rindo de mim. Fiz uma cara feia para ele, mas Aidan apenas voltou a puxar meu rosto contra o seu, e enquanto nossas bocas se conheciam, minhas mãos conheciam cada centímetro daquela parte de seu corpo.
Tempo era uma coisa desconhecida para nós, naquele momento. Não sei quanto tempo passou. Poderia ter sido meia hora, como poderia ter sido trinta segundos. Mas em meio ao amasso, Aidan quis se afastar. Parou de me beijar para encostar sua testa na minha, seus olhos pegando fogo, olhando fundo para dentro dos meus.
‘Ele está me chamando’ Bexi sussurrou tão baixo em minha mente que quase não a escutei. ‘Eu quero, Becca. Eu quero vê-lo.’ Esse pedido não foi sussurrado, foi quase uma ordem para mim.
Cedi minha mente para Bexi tomar o controle, e vi no reflexo do olhar do lobo de Aidan que meus olhos estavam azuis.
Nós os deixamos, nossos lobos, ficarem se encarando por tempo indeterminado. O lobo de Aidan tinha no canto de sua boca um sorriso, mas Bexi apenas o encarava com curiosidade, seriedade, até. Como se ela estivesse procurando algum tipo de resposta. Os olhos de Aidan eram intensos, dentro deles parecia que havia um tornado de chamas.
— O que você está fazendo?— Bexi perguntou, após um longo tempo dos dois apenas se observando.
— Nada que eu já não queria ter feito muito tempo atrás.— Era seu lobo que respondeu, e a resposta parecia ter satisfeito Bexi.
Como se o que ele disse tivesse sido mais do que suficiente, Aidan voltou a tomar nossa boca, a explorar nosso corpo e a nos permitir explorar o dele. Seus olhos se fecharam, aproveitando as sensações, e Bexi também fechou os seus, voltando ao seu lugar em meu subconsciente.
E aquele cheiro… Aquele cheiro de pinho misturado com flores silvestres. Estava por tudo, estava me envolvendo. Entrava e saía de meu nariz, esvoaçava por meus cabelos, colava em meu corpo como uma tatuagem. Era delicioso. Com aquele cheiro me envolvendo — o cheiro dele — eu sentia como se absolutamente nada pudesse me fazer mal. Como se nada pudesse nos interromper, nunca.
A menos, é claro, a recepcionista que tinha uma quedinha pelo meu Alpha. Eu deveria saber.
Cassidy literalmente se engasgou ao abrir a porta da sala e nos encontrar daquele jeito, suados e interligados. Nem eu nem Aidan tínhamos ouvido a porta se abrindo, tão envolvidos com nós dois como estávamos. Mas era impossível não se virar para ver a pobre adolescente passando mal ao entrar, ajoelhando-se no chão e tossindo feito louca.
Aidan imediatamente se afastou e foi socorrê-la, sempre o cavalheiro. Eu apenas me endireitei e desamassei a blusa, arrumei um pouco o cabelo. Mas permaneci parada onde estava, tanto por não ligar muito para o bem-estar dela, por mais egoísta que possa parecer, quanto por estar bastante chocada pelo que estava acontecendo. Até onde iríamos? Quando iríamos parar?
‘Ele não faria isso aqui’ Foi Bexi quem me garantia isso, parecendo agora ter conhecido, de verdade, quem era o lobo por trás do Alpha. ‘Nunca em um lugar público. E não sem uma declaração clara de que nós também queríamos, ao menos não tão pouco tempo depois de Maxwell.’
— Desculpa, oh Deus. Me desculpem. Eu- Nossa. Desculpa.
Cassidy estava frenética, tentando se levantar sem se apoiar ou encostar muito em Aidan. Coitada, estava bastante atordoada e completamente sem jeito.
— Cassidy, você está bem? Quer um pouco d’agua? — Aidan parecia seriamente preocupado com ela. — Deveria se sentar. Sua bombinha de asma está contigo?
A menina tinha asma, pelo amor de Deus! Ainda bem que ela era esperta e estava sim com a bombinha no bolso. Aidan a ajudou a se sentar e a respirar fundo, com a ajuda da bombinha. Eu não sabia o que diabos ela tinha vindo fazer aqui, mas certamente era apenas algum pretexto para ver meu Alpha no auge de seu exercício. Ou então, no auge de outra coisa. Bem, ao menos ela agora teria o que queria, Aidan babando em cima dela e sem camisa.
Murmurei para eles que estava indo tomar meu banho. Joguei a blusa de Aidan diretamente na cara dele, que estava em cima de minha mochila, pra ele ver se ele a vestia de uma vez, e fui em rumo ao vestuário.
—x-
Já estávamos em casa, o caminho desde o dojô até aqui tendo sido acompanhado apenas de silêncio e nada mais. Nem o rádio eu tive coragem de ligar. Cassidy, aparentemente, tinha pedido ainda mais desculpas para Aidan depois que eu saí, mas após alguns minutos de ele a acalmando, ela tinha melhorado. Eu tinha certeza de que ou ela agora iria querer se jogar em cima dele a próxima vez que o visse, para ver se ele fazia com ela o que fizera comigo, ou nunca mais iria conseguir olhar diretamente nos olhos dele.
De qualquer forma eu fiquei com pena da garota. Tinha sido uma situação muito constrangedora de se presenciar, pior ainda de interromper. Qualquer um se sentiria envergonhado naquela situação. Talvez não alguém tão antigo como o Letum, mas uma menina de dezesseis anos provavelmente não iria querer sair do quarto por uma semana. Deus, eu não iria querer sair do quarto por uma semana.
Enquanto eu subia as escadas até o andar de cima, sozinha pois, por algum motivo, nenhum dos lobos estava mais em casa, percebi que tinha ido parar não no meu quarto emprestado, mas no dele.
Apenas me dei conta do que estava fazendo quando já estava sentada em sua cama, no mesmo lugar que eu estivera quando Mathias quis me mostrar parte do passado do Aidan. Me mostrar quem fizera parte de seu passado.
Talvez eu estivesse aqui porque também queria minhas próprias respostas, agora que minha loba parecia ter achado as dela. Ou talvez estivesse aqui porque queria ver como o quarto dele tinha sido destruído após a invasão, se já haviam conseguido arrumar as coisas. De fato, não havia mais bagunça, mas alguns móveis estavam quebrados, incluindo uma das portas de seu armário. A cama, felizmente para ele, estava intacta. Percebi que o jogo de cama não era mais aquele verde, mas tinha sido trocado por um cinza claro. Depois de tudo que passou nesse quarto naqueles dias, não me surpreenderia se Aidan tivesse jogado fora o antigo jogo de cama.
— Está tudo bem? — sua voz era suave e veio da soleira da porta. Sua cabeça espiava para dentro do quarto que era dele.
Corei um pouco ao responder.
— Está. — Não era mentira. Eu estava confusa, estava brava pelas lembranças do que aconteceu nesse quarto, nessa casa, mas estava bem.
— Não parece.
Deu um sorrisinho tímido e fez menção de se sentar ao meu lado. Assenti de leve, surpresa por ele pedir permissão para se sentar comigo.
— Deu muito trabalho? Arrumar a casa, quero dizer.
— Bem, deu. Mas todos ajudamos um pouco, não é, então ficou mais fácil. Está quase tudo no lugar, apenas as coisas que nenhum de nós sabe arrumar é que restam. E, bem, terei de pedir uma contribuição extra de todos para comprar novos móveis e eletrodomésticos. Principalmente a televisão. — Eu ri com ele. — Mas aqui e no escritório eu é que vou pagar. Não é justo eu pedir que eles contribuam com cômodos que eles não utilizam.
Concordei com um aceno de cabeça e o silêncio nos rodeou novamente. Dessa vez, talvez por estarmos na nossa casa, na casa da alcateia, o silêncio não era constrangedor, mas reconfortante. Antes silêncio do que o som de um bando de lobos destruindo seu lar, destruindo você.
— Eu vi, sabia? Algumas, erm, coisas — falei antes que eu pudesse pensar melhor, mas ele apenas inclinou a cabeça para o lado, um tanto confuso. — Vi algumas lembranças suas, esparramadas pelo chão. Algumas… fotos. — Não tive coragem de contar para ele que tinha sido Mathias que tinha me mostrado, e também não via necessidade de aumentar ainda mais o desgosto que Aidan já nutria pelo solitário.
Aidan abaixou a cabeça, provavelmente sentindo raiva pelos lobos que haviam comprometido seus pertences e invadido sua privacidade. Mas ele levantou, depois, o olhar para mim, sério.
— São as únicas fotos que eu tenho dela — começou e eu já me preparei para o golpe que sua revelação seria para meu coração, mesmo não sabendo ao certo o que eu estava sentindo por ele. — Ela era tão preciosa… Essas fotos são umas das coisas que eu mais aprecio no mundo. Acho que, se tivesse um incêndio aqui nessa casa, eu com certeza voltaria para salvá-las.
Achei que ele fosse pegar as fotos de seu passado na gaveta, mas ele apenas ficou onde estava. Melhor, até, pois assim eu não teria de encará-las novamente. Encarar aquela linda mulher de cabelos loiros.
— Ela era o sol de nossas vidas, minha e dos meus pais. Não tínhamos amado ninguém como ela. Tão delicada, o cabelo tão brilhante e dourado. — Engoli em seco. — E ela era tão pequena…
Quando percebi que havia uma lágrima cintilando no canto de um de seus olhos eu tive que me esforçar para não arregalar os meus como uma coruja surpresa. Eu nunca tinha visto Aidan assim e achei que nunca veria.
— Aquela foto dela sentada na grama… Aquela dela no colo de minha mãe, tão pequena… — Percebi, então, que ele falava de outra foto, e não a que eu tinha visto. Falava de outra pessoa.
Aidan levantou seu olhar, os olhos marejados, mas sem vergonha alguma de mostrar esse seu lado para mim.
— Seu nome era Athena, — contou, e eu simplesmente tive que pegar suas mãos nas minhas. Foi mais forte do que eu, mas eu não ligava, eu sabia que ele precisava desse apoio, ainda mais sendo eu quem tinha aberto a ferida. — Batizada em homenagem à deusa grega das artes, da civilização, da sabedoria e da justiça. Meus pais tinham tantos sonhos para ela… Meus pais sempre me amaram muito e eu sei disso, por isso me doeu demais ter de deixá-los para trás quando fui… atacado por aqueles lobos selvagens. Mas Athena era a luz dos olhos deles, ela iluminava todos nós. Era muito esperta, esperta demais para a idade dela, até. Ela era tudo.
Fez uma pausa e eu honestamente não sabia se ele iria conseguir continuar. Mas conseguiu.
— Pegou todos de surpresa, a doença dela. Um dia ela estava bem, no outro estava tossindo e com muito catarro. Dois dias depois já estava internada com pneumonia. Não importou quantos raios-x tiramos, quanto remédios ela tomou. — Suas mãos apertaram as minhas, e eu apertei de volta, sinalizando que, por mais que eu nunca pudesse ter feito nada pela irmã dele, eu estava aqui e ofereceria a ele qualquer conforto agora. — Ela tinha apenas quatro anos. Seu pequeno pulmão não aguentou.
Athena, a pequena e injustiçada irmã de Aidan. Quanto anos teria ela agora, se fosse viva? Quarenta? Mais?
— Não soubemos muito bem como lidar com a morte dela, e eu mesmo era apenas uma criança. — Sua voz era pouco mais que um sussurro. — Meus pais principalmente. Não conseguiam encarar a lembrança dela, então retiraram os porta retratos em que ela estava, se desfizeram de todas as suas coisas. Apagaram ela da memória, ao menos tanto quanto conseguiam. Meus pais não são más pessoas, eles apenas não souberam lidar com a dor, ter de senti-la todo dia. Já eu- Nunca consegui esquecê-la, e nunca vou. Por isso guardo essas poucas fotos que ainda tenho dela como tesouros.
Sem saber muito bem o que estava fazendo, decidi afagar seu cabelo e fazer algum carinho em suas costas. Eu não tinha palavras, nenhuma palavra seria o suficiente para ajudá-lo. Eu jamais conseguiria sequer imaginar a dor que ele sentia pela irmã perdida. Presenteada e pouco tempo depois tirada dele. Para um Alpha, para o quinto lobisomem mais dominante do continente estar chorando em meus braços… Deveria ser uma dor do tamanho do mundo.
Percebi então que eu não queria saber mais. Não queria saber sobre a mulher misteriosa que acompanhou a adolescência de Aidan. Não queria saber quem era aquela que crescera com ele, que apertava a mão dele com tanto carinho quanto eu nesse momento apertava. Eu não precisava saber quem era ela, apenas precisava saber quem era ele, meu Alpha, meu Aidan. Meu alguma coisa que eu não sabia ao certo o que era. Mas era meu, e me partia o coração vê-lo sofrer.
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