Notas iniciais
Olá a todos! Sei que esse capítulo é um pouco mais curto, mas acredito que vocês vão amar mesmo assim ♥ Espero que gostem e, por favor, leiam as notas finais. Vai ter muita coisa lá para vocês verem!!!

Aidan

Eu não queria abrir meus olhos por medo de ser um sonho. Eu já tinha acordado, mas não queria correr esse risco. Lembrava dos dias passados e de tudo que Rebecca tinha aturado, mas lembrava mais vividamente ainda da noite passada, nas palavras que ela proferiu e o que elas significavam. Lembrava — na verdade ainda sentia — o calor de seu corpo e sua pele macia sobre a minha. Mas seria mesmo real? Teria eu dormido com ela?

‘Não com ela. Ao lado dela.’ Meu lobo corrigiu, contrariado.

Silenciei-o mentalmente, não querendo ouvi-lo reclamando de algo que ele queria ter feito -- que meu lado animal teria feito -- mas que eu consegui, a muito custo, reprimir.

Após eu me concentrar e ficar cada vez mais desperto, percebi a respiração suave dela ao meu lado e tomei isso como prova de que não tinha sonhado tudo aquilo. Relutante, abri meus olhos lentamente, absorvendo a visão de Rebecca deitada ao meu lado. Seus cabelos estavam selvagens, nem um pouco como alguém que teria tido um sono pacífico. Sem dúvidas ela deve ter se revirado durante o sono, ainda inquieta e talvez com lembranças do que havia lhe acontecido.

Deveria ser tarde da manhã, já, tendo em vista a quantidade de sol que conseguia entrar no quarto mesmo através das cortinas. O cenho dela estava franzido, seu rosto estando virado em direção à janela, por causa da claridade que a banhava. Eu teria que me lembrar de colocar cortinas de blackout futuramente nos quartos.

Ela estava se remexendo, deixando evidente de que logo acordaria. Portanto, decidi que iria apenas ficar observando seu sono, apesar de não tão sereno quanto eu gostaria que fosse, até esse momento chegar.

Depois do que pareceu ter sido quase meia hora, os olhos apertados de Rebecca começaram a tremer, até que se abriram lentamente. Encarou a parede, primeiramente, e aos poucos foi fazendo seu caminho pelo resto do quarto até virar seu corpo e me ver.

— Bom dia — falei com a voz baixa, não querendo alarmá-la logo após acordar.

— Bom dia… — ela respondeu, arrastado, passando as mãos pelo rosto e esfregando os olhos.

Sentou-se na cama preguiçosamente, ainda recuperando a lucidez e se virou para mim, ainda deitado. Abriu a boca para falar alguma coisa, mas logo a fechou e dirigiu-se até o banheiro. Eu tinha quase certeza de que ela queria esclarecer alguma coisa sobre seu pedido na noite passada, mas se ela havia achado melhor a ideia de deixar as coisas como estavam, como se ela nunca tivesse feito aquele pedido naquelas condições — e ela provavelmente se sentia envergonhada com toda aquela situação — eu a imitaria. Faria a vontade dela.

Fiquei deitado na cama esperando ela usar o banheiro e se arrumar. Ela se lembrava de nossos planos para hoje, pude ver em seu olhar como estava empolgada. Quando ela saiu, aproveitei para eu mesmo me arrumar.

Descemos as escadas após nós dois estarmos prontos e encontramos a casa relativamente cheia. Alguém tinha trazido umas cadeiras de plástico para fazer uma sala improvisada e, como toda a sala de jantar também tinha sido destruída, os que estavam famintos comiam sentados nas cadeiras na própria sala de TV. Como a televisão também já não estava mais entre nós, um dos lobos havia levado seu notebook e assim assistiam a alguma série.

Ao nos ver na escada, a atenção de todos se voltou contra nós, Kenna até se inclinando para a frente para pausar o notebook. Senti Rebecca ficar tensa com toda a atenção nela, e logicamente com tantos machos com seus olhos nela, mesmo eles não oferecendo nenhuma ameaça para ela. Eles jamais fariam isso, e eu jamais permitiria. Passei um braço ao redor dela para lhe dar apoio e ela o apertou mais ainda contra si.

‘Ela aceita nossa proteção’ Meu lobo percebeu, fazendo um sentimento caloroso se espalhar por dentro de nós. ‘Ela a quer.’

— Bom dia a todos — cumprimentei-os, a visão de Kenna toda enfaixada ainda me deixando inquieto. Eu já havia a reivindicado como minha, ela era parte da alcateia já, mesmo não tendo sido feita sua indução. Sua dor era minha dor.

— Kenna… — Rebecca sussurrou, também esquecendo temporariamente de seus próprios medos para demonstrar compaixão. — Você… Como está? — Senti que Rebecca quis dar alguns passos a frente e se aproximar da outra, mas o mal-estar que ainda sentia com outros lobos a impediu, como se uma corda a puxasse de volta aos meus braços.

— Estou bem. — Qualquer um percebia como ela mentia, mas ao mesmo tempo dizia a verdade. Certamente amenizava a situação pois não queria ver sua nova conhecida se preocupando com ela, quando sem dúvidas tinha seus próprios obstáculos para superar. — Dói um pouco, mas bem menos do que antes. — Sua voz ainda era pouco compreensível. — Acredito que em uma semana mais ou menos devo poder tirar essa porcaria dessa atadura que está cobrindo metade da minha cara.

Alguns dos lobos sorriram em simpatia com a situação dela, também já tendo quebrado suas mandíbulas antes. Rebecca ainda mantinha a expressão preocupada, mas sabia como lobos dominantes não gostavam de demonstrar fraqueza na presença de outros lobos, portanto não insistiu.

Grudada em mim ainda, saímos pelo que havia sido a porta da frente, após eu pedir para Trevor supervisionar os trabalhadores que eu havia chamado para arrumar as coisas mais urgentes, como a falta de uma porta. Desliguei o alarme da minha SUV preta e a ajudei a entrar no banco do passageiro.

Ela parecia melhor, levando em conta que conseguiu cumprimentar e se despedir dos lobos sem muita dificuldade. Sim, ela precisou se certificar de estar perto de mim, e fazer com que eu notasse que eu teria que protegê-la caso algo acontecesse, mas levando em conta que só haviam se passado três dias desde o… incidente, ela estava se recuperando de forma bastante rápida para seu psicológico.

Eu conseguia sentir, pelo cheiro que suas emoções emanavam dentro do carro, que seu desassossego dava lugar a empolgação. Isso me deixava muito satisfeito, pois, apesar de ela estar empolgada com o fato de descontar suas frustrações em um saco de pancadas, quem iria levá-la e, de certa forma, proporcionar esse alívio para ela era eu.

Essa satisfação que crescia dentro de mim ao continuar sentindo Rebecca relaxando e apenas apreciando a vista ao meu lado lembrou-me de algo muito importante. Eu sabia o que eu faria em breve, uma coisa que eu ao mesmo tempo queria fazer, mas também era forçado a fazer, tanto pelos costumes dos lobos, tanto pela vontade inegável que se manifestava em minha própria alma lupina.

Eu iria reivindicar meu direito sobre Rebecca.

Sendo uma loba tão jovem, ela provavelmente nem sabia o que isso significava. A maioria dos lobos não eram, de fato, ensinados sobre isso, mas aprendia-se à medida que acontecesse com eles próprios. O mais comum era um macho reivindicar uma fêmea, mas poderia ocorrer de outras formas. Acontecia quando o lobo do macho tinha absoluta certeza de que queria a loba da fêmea em questão e, portanto, teria o intuito de cortejá-la. Não havia nenhum acordo escrito, obviamente, mas instantaneamente os outros lobos ao redor sabiam do que havia acontecido, mediante a postura nova adquirida pelo macho que tinha o interesse. Assim, a fêmea somente seria cortejada pelo macho que a reivindicar, a menos que outros lobos estivessem dispostos a lutar contra o macho pelo direito de cortejá-la.

Não é preciso dizer que os lobos mais dominantes não sofriam quase ameaça nesse quesito.

Agora, a fêmea não precisava ficar presa aos cortejos desse macho para o resto da vida. Caso ela não estivesse interessada, e apenas se recusasse irrefutavelmente e diretamente o macho, ela poderia se ver livre das investidas dele e abrir caminho para outros lobos.

Mas se ela aceitasse os cortejos… normalmente esse é o caminho para o acasalamento.

E desde o momento em que eu sentia a carne de Maxwell sob minhas unhas, que eu sentia a vida daquele infeliz se esvaindo, eu não tive mais dúvidas. Eu não apenas precisava protegê-la, por ser seu Alpha, mas ansiava por protegê-la. Não é como se eu já não fosse atraído por Rebecca, já estava enfeitiçado por ela desde aquele primeiro beijo idiota com o pretexto de que queria fazê-la calar a boca. No entanto, agora eu não era apenas atraído por ela, mas sabia que faria tudo em meu poder, e até aonde ela me deixasse, para torná-la minha.

A paisagem corria ao nosso redor enquanto eu dirigia até o dojô, e Rebecca, provavelmente entediada pela falta de conversa -- motivada pelo oceano de pensamentos que me rodeavam -- decidiu ligar o som do meu carro.

Algum álbum antigo do Judas Priest começou a tocar e vi os cantos de sua boca se curvarem para cima. Ela batia o dedo indicador e o do meio no ritmo da música contra o encosto de braço. Mesmo com os olhos na estrada, conseguia perceber ela me fitando, procurando alguma indicação de que eu estava curtindo o som. Decidi me entregar aos desejos dela e comecei a assobiar no ritmo do refrão. Sim, ela seria minha, mas nem por isso iria me ver cantando.

O dojô, apesar de muito bom, espaçoso e estar acostumado com a força de seres sobrenaturais, era muito longe. Portanto, mesmo após umas três faixas do álbum, ainda havia tempo para se ter uma boa conversa, e foi isso que Rebecca fez.

Entretanto, o assunto da conversa certamente não me agradava.

— Aidan — ela começou, hesitante. — Você sabe alguma coisa sobre… Mathias?

Eu senti meu sangue começar a subir. Respirei fundo.

— Se eu sei o que sobre ele?

— Onde ele está, se ele está bem...

A preocupação em sua voz me deixava irritado. Depois de tudo que aconteceu, por que ela continuava a dar importância para aquele canalha? Eu tinha certeza de que ela conseguiria sentir o cheiro da minha raiva, ainda mais no espaço confinado que era o carro, mas eu não ligava. Ela também deveria passar a desgostar do solitário!

— Não sei onde ele está, só sei que não está mais aqui. Parecia-me bem o suficiente na última vez que o vi, que foi logo após a luta no meu quintal. — Cuspi as palavras. — Se você quer saber se ele vai sobreviver? Sim, infelizmente. Mas creio que ninguém nunca mais virá a vê-lo, pois aparentava estar bastante arrependido pelo o que ajudou a causar. Ao menos isso.

Além do cheiro de minha raiva, que não era pouca, a SUV começou a se encher do lamentável cheiro da tristeza de Rebecca. No entanto, eu podia sentir tudo naquele momento, menos compaixão.

Virei o carro bruscamente para a direita, entrando em uma rua residencial e pouco movimentada e parando o carro colado ao meio fio.

— Por que isso? — gritei. — Me explique, porque eu não consigo entender de jeito nenhum! Por que você está se sentindo triste por Mathias?

— Por quê? Por quê?! Aidan, pelo amor de Deus, ele era meu amigo!

Apesar de seu estado fragilizado, Rebecca conseguiu encontrar forças dentro de si para me confrontar. Uma parte de mim ficou muito contente com seu progresso, mas a maior parte de mim ficou ainda mais furiosa porque ela estava defendendo ele.

— Que grande amigo é esse? — retruquei. — Você não percebe que seu “amigo” ajudou a tomar sua própria alcateia? A tomar você como prisioneira? Céus, Rebecca, se não fosse por Mathias e os outros solitários, talvez Maxwell não tivesse lobos o suficiente para lutar e, ao mesmo tempo, segurar você enquanto ele fazia o que bem entendia com o seu corpo!

— Aidan, não! Você não pode culpá-lo pelo que aconteceu, nem eu o culpo!

— Como não? Eram amigos dele, pessoas em que ele confiava e que ele trouxe aqui, para debaixo de nossos narizes.

— Sim, mas ele jamais poderia ter previsto isso. Não podemos sequer começar a imaginar o quanto a ganância corrompe as pessoas, Aidan. Mas ele não foi corrompido.

— De um jeito ou de outro ele é um solitário, Rebecca, e tenho certeza de que não pretende se desfazer desse título tão cedo — continuei a discutir. — Você insiste em se esquecer de que solitários são justamente solitários porque são inconsequentes demais para viver em alcateia. São, em maioria, insanos ou então só não o são por uma questão de tempo.

Após essa minha fala, senti a raiva dela dando lugar a tristeza novamente e indignação. Depois de um longo silêncio, ela continuou a briga.

— Então, usando suas palavras, você me vê como uma insana inconsequente. — Não era uma pergunta. — Para você, eu só tenho valor se comandada por um Alpha e, mesmo assim, devo sempre ser monitorada, pois já vivi como solitária. Tenho data de validade.

Sua voz estava surpreendentemente firme, porém carregada de mágoa. Senti meu lobo querer vir à tona e eu sabia que ele estava furioso comigo. Ele não confiava mais em mim, naquele momento, para falar com ela.

‘Você é um tremendo filho de uma puta!’ bradou em minha mente. ‘Independente se nós temos razão ou não, eu não admitirei que você a trate dessa maneira! A loba dela é minha, e eu não a verei magoada.’

Eu sabia que ele tinha razão e por isso decidi deixar que ele transparecesse, não somente em meus olhos, mas em minha fala.

— Não, Rebecca. Eu não quis dizer isso. Você é diferente. Você é diferente de todas.

Seus olhos brilharam azuis por uma fração de segundo, para depois ela soltar um suspiro longo.

— Eu admiro, respeito e confio muito em você. — Suas palavras saíam espaçadas e ela não me encarava nos olhos, algo que incomodava meu lobo. — Eu confio cegamente em você, na verdade. Se eu estivesse em uma situação em que tinha que deixar minha vida nas mãos de alguém e pudesse escolher, deixaria nas suas em um piscar de olhos. Não nas mãos de Corrie, não nas de Luke, não nas do Letum. Nas suas.

Seus olhos tornaram-se azuis novamente, mas dessa vez ficaram assim por alguns segundos a mais antes de voltarem ao tom habitual.

— Entretanto, apesar do romantismo que existia entre eu e Mathias ter morrido, eu ainda possuo sentimentos muito fortes por ele. Ele sempre será um amigo, Aidan, e não irei deixar de me preocupar com ele.

Fechei meus olhos, absorvendo tanto a parte agradável de sua mensagem, quanto a desagradável. Respirei fundo e esperei alguns minutos até conseguir respondê-la.

— Tentarei ser mais compreensivo — murmurei, dando a seta e retomando o caminho para o dojô.

Ela deveria saber o motivo de ser tão difícil para mim aceitar esses sentimentos. Não era possível que ela não tivesse notado que eu tinha, no mínimo, um leve interesse nela. E se ela ainda não soubesse, eu não deixaria mais dúvidas.

Notas finais
Obrigada a todos pela leitura e eu espero muito, de coração, que esse capítulo tenha sido bom de se ler! TENHO UMA NOVIDADE Pessoal, é com muita alegria que trago para vocês minha primeira tentativa de ser RESENHISTA! Eu e minha amiga @RubyColt criamos um instagram literário, onde postaremos tags e resenhas de livros que a gente leu! Ela provavelmente vai postar mais do que eu (porque eu sou lerda e cheia de tretas na minha vida, vocês sabem), mas eu pretendo aparecer muuuito por lá também! Por favor, quem puder e tiver instagram, nos sigam! Instagram: OsuwariLiterario (Os fãs de Inuyasha dão um toque aqui!) Obrigada novamente e até o próximo! *--*