Valente
17 XVI
Notas iniciais

Mathias
Eu só a vi sendo carregada. Carregada nos braços de Liam, seguida de perto por Kenna, um tanto desfigurada, e por ambos Trevor e Jason, o bruxo, mais à distância. Esses dois serviram de escolta para Becca e, assim que ela foi levada em segurança para o andar de cima da casa, eles ajudaram com o resto dos sobreviventes.
Seus olhos estavam arregalados e seu corpo trêmulo. Só consegui a ver por breves segundos, pois ainda estava ocupado lutando contra aqueles que eu julguei ser meus amigos e contra os lobos de Maxwell. Mesmo com toda aquela turbulência, o ar cheirando a morte, dor e sangue, era possível sentir o rastro de cheiro de puro pavor que Rebecca havia deixado no quintal.
Todos sabíamos o que Maxwell pretendia fazer assim que ela começou a gritar, mas assim que Aidan chegou foi direto ao seu encontro. Seja lá até que ponto Maxwell conseguiu chegar, tinha sido pesadíssimo para Rebecca.
E muito por minha causa.
Eu havia trazido uma boa parte dos lobos para cá, na inocência de que eles, amigos próximos em Vegas e nômades como eu, nunca iriam fazer uma coisa dessas. Mas fizeram, e quase causaram um dano irreversível à Rebecca por causa disso. Até onde eu sabia, podiam mesmo ter causado danos irreversíveis a ela.
Após a luta, enquanto as dezenas de corpos esfriavam no quintal e o bruxo ajudava a ocultá-los de olhos humanos, permaneci no quintal. Não havia lugar para mim dentro da casa. Não havia lugar para mim ao lado de Rebecca. Além do mais, Aidan não estava deixando nenhum lobo dominante chegar perto dela. Apenas os submissos, George e Liam, podiam estar em sua presença.
De qualquer forma, eu duvidava muito que ela iria querer me ver novamente. Ainda mais depois de nosso adeus, depois do que eu trouxe para cá, de como eu ampliei a força de Maxwell sobre todos… depois do que eu ajudei a acontecer.
Ela, certamente, nunca mais iria querer olhar na minha cara. Talvez fosse melhor eu fazer o que prometi para ela. Sumir e nunca mais vir a vê-la. Eu não iria esperar Aidan me expulsar, não poderia dizer um último adeus à Rebecca. Iria apenas partir.
~x~
Aidan
Horas haviam se passado e a fúria ainda me consumia. Eu tremia, como ela, mas por outro motivo. Tremia por sede de violência. Esquartejar Maxwell Kentner e voltar para aniquilar seus colegas não havia sido o suficiente.
Para alimentar minha raiva ainda mais, vi os efeitos posteriores do que ele havia feito com Rebecca. Ela estava toda roxa, arranhada, sangrando de alguns ferimentos e pálida. Sem contar trêmula. Ela se recusava a ver qualquer outro lobo que não fossem George e Liam. Nem mesmo a fêmea ela queria ver. A dominância deles estava a assustando. Entretanto, em minha companhia, ela se sentia confortável. Segura, ela havia dito. George e Liam a faziam se sentir calma, mas eu a fazia se sentir protegida.
Proibi os outros lobos de entrar em contato com ela por alguns dias, para seu próprio bem. Ela estava em um estado psicológico muito frágil e, por isso, nenhum dos lobos se sentiu ofendido. E a presença de lobos dominantes, mesmo que menos do que ela, a deixava tensa e alerta, não permitindo que ela repousasse.
Durante o primeiro meio dia depois do ataque, fiquei ao lado dela no quarto que, agora, já era dela. O quarto em que ela havia ficado antes de Las Vegas. Ela não falara nada e não parecia prestes a acrescentar qualquer coisa. Também não dormira, apenas ficara olhando para o teto sem quase piscar. Finalmente, depois de mais algumas horas, ela pegou no sono, podendo, enfim, descansar. Eu sabia, porém, que ela não queria ficar sozinha, mesmo que adormecida, então chamei Liam para ficar ao lado dela.
Já era noite do dia seguinte e os lobos que não estavam em suas casas descansando estavam ajudando a pôr tudo de volta no lugar. Minha casa havia sido praticamente destruída, com poucas coisas podendo ser salvas. Eu ia ter de chamar alguém para arrumar as portas e os vidros, e também trocar o papel de parede da sala.
Desci para meu escritório, local que eu mesmo teria de arrumar, e disquei o telefone que todo Alpha tinha gravado na memória.
— Aqui é Aidan Rucker, desculpe o horário, mas preciso reportar algo que aconteceu.
Eu não tinha certeza se o Letum já havia sido liberado, mas meu palpite estava certo ao ouvir a voz grave, porém não tão amedrontadora como se esperaria, do meu superior.
— Rucker, meu filho, diga-me o que houve — ele respondeu, parecendo-me completamente normal e recuperado. — Sabe que não tem hora para se ligar para seu Letum.
Respirei fundo antes de começar a lhe contar.
— Tomaram minha alcateia. Mas eu a tomei de volta.
O Letum permaneceu em silêncio, sabendo que não tinha informações o suficiente para comentar. Entretanto, demorei um pouco mais que o necessário para lhe contar. Era óbvio que ele sentiria minha raiva transparecer pelas minhas palavras, pelo meu tom de voz. Era de se esperar que eu ainda estivesse enraivecido. Mas eu queria, ao menos, conter um pouco do sentimento que as consequências que Rebecca sofreu me faziam sentir. Caso contrário, quando fosse explicar essa parte para ele, iria acabar esmagando o telefone fixo nas mãos.
Lentamente, contei tudo a ele, tentando manter minha fúria em níveis controlados. Ele não me apressou. Sabia o quanto era difícil ser tirado tudo — sendo um Alpha, minha alcateia e meus lobos eram tudo que eu tinha, e eu havia tido sorte de que nenhum de meus lobos haviam se ferido fatalmente até eu chegar.
Contei de Maxwell, que ele estava aqui como reforço enquanto eu e alguns outros íamos atrás dos Selvagens no México. Falei sobre os solitários e percebi ele bufar ao telefone enquanto eu contava. O Letum, como era de conhecimento comum, não era amigo de solitários, assim como eu. Contei de Jason, que consegui chamar para me ajudar, era sempre importante avisar ao Letum quando se envolvia bruxas e bruxos nos assuntos lupinos. Contei, por fim, de Rebecca, e com um esforço descomunal, tendo que contar essa parte pausadamente, não destruí mais um aparelho de comunicação.
Ele ouviu tudo atentamente, com toda sua atenção focada somente em minha história. Parecia ter ficado, de fato, preocupado. Fazia alguns anos que a última tentativa de tomada de alcateia havia acontecido. Ele disse que ia mandar uma ajuda financeira para a reforma na casa e para o tratamento dos feridos.
— Pelo o que você me disse, vocês conseguiram matar a maioria dos lobos envolvidos, certo?
— Isso mesmo, Letum — confirmei.
— Entretanto, alguns conseguiram escapar.
— Sim. — Não era uma pergunta, mas mesmo assim respondi.
— Pois fique tranquilo, irei tomar providências assim que raiar o sol. Esse lobos não sobreviverão por muito tempo. Desafiaram a você e ao Alpha original deles. E não vou nem falar sobre os solitários. Serão banidos de qualquer alcateia. Ninguém poderá acolhê-los — confortou-me. — Se algum lobo os avistar, a ordem será matar na hora. Os lobos que já não eram solitários terão que viver como tal até serem achados e mortos. Exceto, é claro, que consigam fugir do continente.
Agradeci pela ajuda e compreensão, grato também pelo meu Letum ter, aparentemente, voltado à sua antiga glória. A troca de um Letum, apesar de eu não conhecer ninguém que já tenha vivenciado isso, era uma situação muito turbulenta para a sociedade lupina. Seria uma época de muita guerrilha entre os Alphas, cada um achando que teria mais direito do que o outro de assumir o posto. Fiquei feliz de não ter que presenciar isso, ao menos não ainda, com minha alcateia fragilizada. Sendo o quinto mais dominante, certamente vários Alphas iriam querer me desafiar, achando que eu iria atrás do título.
— Rucker, fique tranquilo e cuide dos seus. Eu lidarei com esses problemas de agora em diante. Relaxe um pouco, meu filho. Você e os seus já passaram por muito nos últimos tempos.
Esse era o poder de um Letum. Eu, sendo um Alpha, quase nunca era confortado ou me sentia seguro, a menos que quando rodeado por meus lobos, pois sabia que eles lutariam comigo até a morte. Entretanto, o Letum era não somente Alpha da Alcateia do Maine, mas também de uma alcateia invisível, a Alcateia dos Alphas. Ele era meu Alpha direto, meu e de todos os outros Alphas. E só ele poderia me fazer sentir amparado daquela forma.
Desliguei o telefone com o coração mais leve, tendo cumprido minha missão de avisar a ele os ocorridos e, ainda, ter recebido tanto auxílio.
Quando virei-me para sair do escritório, vi Jason parado na soleira da porta. Ele sorriu para mim e, no único momento descontraído que tivemos, abracei-o como não fazia há anos.
— Ô seu filho da mãe, não vá morrer de úlcera qualquer dia desses, viu? Essa maldita alcateia está te deixando velho antes do tempo.
— Cale a boca, Jason — ri. — Eles são meus e eu os amo. Não posso fazer nada se a natureza me escolheu para liderar quando fui atacado. Devo a eles a proteção que eles merecem, mesmo que isso me deixe muitíssimo estressado.
Ele não riu, mas não estava ofendido. Talvez eu tenha imaginado, mas pensei ter visto um lampejo de remorso em seus olhos, uma saudade pelos dias que há muito já passaram. Uma vida diferente, em que eu e ele poderíamos ter continuado sendo melhores amigos, mas que o mundo sobrenatural e nossas tolas diferenças tinham arrancado de nós.
— Eu vou indo, Aidan. Emília e Cassandra estão me esperando. Fiz o possível para proteger sua casa de olhares curiosos, mas não demorem a pôr tudo em ordem. Não sou o melhor nessas coisas, você sabe.
— Sim, vi perfeitamente no quintal ontem. Seu talento é jogar móveis nos outros.
— Precisamente.
Com mais um abraço nos despedimos, um abraço demorado para tentar matar as saudades que os próximos anos teriam que aguentar.
— Vê se não morre nos próximos vinte anos.
— Digo o mesmo, seu bruxo de meia tigela.
E assim, aquele brutamontes, que eu tinha sorte de ainda poder chamar de amigo, saiu de meu escritório, de minha casa, de minha vida. Ao menos pelos próximos vinte anos ou mais.
Para tentar livrar minha cabeça de Jason, decidi ajudar os lobos que estavam ainda acordados tentando arrumar a sala. Trevor e Clayton tentavam parafusar a porta do corredor de volta no lugar, apesar de eu já ter dito a eles que iria chamar alguém para consertar isso. Decidi não me meter. Se eles quisessem tentar arrumar e economizar um dinheiro para nós, eu não iria reclamar.
Como se ouvisse meus pensamentos, Trevor, ao me ver entrar na sala, rapidamente se explicou.
— Não podemos fazer nada a respeito das janelas, isso teremos mesmo que deixar para terceiros. Mas que tipo de homem sou eu que não consigo colocar uma porta de volta no lugar?
— Sozinho não conseguiria mesmo, ô trouxa. Obrigado pelo reconhecimento — Clayton resmungou, arrancando uma risada tanto minha quanto de Trevor.
— Muito bem, podem arrumar então, desde que ela não esteja muito arranhada.
— Não está — Clayton assegurou. – Não essa, pelo menos.
Com um aceno, fui até a cozinha para pegar a vassoura que ficava na dispensa. Vi a fêmea, que eu não conseguia lembrar o nome, apesar de já terem me falado, limpando a geladeira por dentro com um pano. Havia tirado tudo de dentro e jogado fora. Seu rosto estava enfaixado e inchado, mas ela não queria repousar como deveria. Já havia ido ao hospital, acompanhada de Connor e uma desculpa esfarrapada para o acontecido com seu rosto, como era de costume quando precisávamos de tratamento e não tínhamos nenhum médico lobo por perto.
— Achei que você não fosse querer nada que eles tivessem usado ou tocado. Por isso joguei tudo fora. — Sua voz estava muito difícil de entender, mas consegui captar o essencial de sua fala. Não ia, também, pedir para ela ficar se repetindo.
— Tem razão, não ia mesmo. Mas você não precisa fazer isso. — Não é minha loba, quase falei. Mas ao invés disso, acrescentei: — Está ferida, precisa estar descansando, como Rebecca.
— Rebecca pode não estar com a mandíbula fodida, mas sofreu muito mais do que eu. — Estremeci com o palavrão. Por mais que eu tentasse, não conseguia ficar confortável com as jovens de hoje em dia com um linguajar tão chulo. — Ela merece repousar por motivos completamente diferentes.
— Ainda assim, eu ficaria mais tranquilo se você subisse para dormir.
Ela abaixou o olhar e deu um sorriso tímido, ou ao menos o que eu pensei que fosse um sorriso.
— Não estou acostumada a me sentir assim.
Eu não havia entendido.
— Nunca quebrei a mandíbula, mas creio que a dor deva ser excruciante.
— Não é disso que estou falando. — Ela deu uma curta risada, interrompida pela dor que certamente o movimento lhe causava. — Nunca senti que alguém realmente se importava comigo.
Não estava preparado para entrar nesse tipo de discussão, então a única coisa que me veio em mente perguntar era:
— E seu Alpha, Beitman?
— A Alcateia de Seattle é uma das maiores. É muita gente. Às vezes eu me sentia como se Joseph nem lembrasse que eu fazia parte dela, principalmente antes de eu, bem, envolver-me com Maxwell. Acho que um dos motivos pelos quais decidi me envolver com ele, além de sua óbvia beleza e do fato de ele ter me enganado, era que, com ele ao meu lado, de repente todo mundo me notava. Eu era alguém, e as pessoas se importavam comigo e com a opinião que eu tinha delas.
— E quanto à Nora? Ouvi dizer que ela é uma das fêmeas mais bondosas.
— Ainda não sei como ela e Joseph conseguem se dar bem. Ele é tão egoísta se comparado a ela…. Ela era, de fato, bondosa, mas nunca me senti muito à vontade em sua presença. Ela me fazia querer desabafar, e isso me fazia sentir fraca.
— Algo que você evidentemente não é — senti-me obrigado a acrescentar.
— Como?
— Oras, você está com a mandíbula quebrada, apesar de já estar sendo tratada, mas ao invés de estar descansando e dormindo para tentar fazer a dor sumir, ao menos por um breve período, está aqui, esfregando meus eletrodomésticos.
— Eu não conseguiria dormir, de qualquer forma.
— Eu gostaria que você tentasse.
— Está vendo? É disso que estou falando.
— Hm?
Ela levantou-se de onde estava, agachada em frente à minha geladeira, e deixou o pano de lado, passando uma água da torneira sobre suas mãos.
— Você me faz sentir bem. Você se importa comigo, mesmo provavelmente nem sabendo meu nome.
— Alguém me falou, — confessei. — Mas o esqueci.
— Tudo bem — ela riu novamente, apesar da dor. — É um nome um tanto incomum.
A moça estendeu seu braço para um cumprimento.
— Sou Kenna Korte, prazer em te conhecer.
— O prazer é todo meu, Kenna — sorri para ela enquanto apertava sua mão. Não iria mais me esquecer de seu nome. — Sou Aidan Rucker.
— Obviamente o Alpha.
— Obviamente — ri.
— Sabe, eu não sei porque vou te contar isso, mas vou. Faz muito tempo que não falo sobre isso com alguém, e acho que, de tempos em tempos, temos que desabafar esse tipo de coisa, se não enlouquecemos.
— O que há de errado?
— Nada. Não mais, pelo menos. Mas minha vida já esteve muito, muito errada.
Permaneci calado, esperando ela desabafar o que ela precisava. Uma das funções de um Alpha, afinal, era essa também. Ouvir os lobos. Mesmo aqueles que não lhe pertenciam.
— Eu morava em uma cidadezinha de interior, daquelas com pouquíssimos habitantes. Todo mundo conhece todo mundo, aquele tipo de coisa. — Assenti. — Meu sonho era ir para a universidade, eu seria a primeira de minha família a ir. Consegui uma bolsa e me mudei para a cidade da universidade. Não era uma cidade grande, era uma cidade que girava em torno da instituição, mas tinha muito mais gente do que minha cidadezinha natal.
— Foi lá que aconteceu. — Era um palpite, mas quando ela desviou seu olhar do meu, vi que era verdade.
— Sim. Estávamos nas férias de primavera e, como era apenas uma semana de férias, não quis voltar para casa daquela vez. Eu e um grupo de amigos decidimos passar a semana acampando em um parque nacional que havia há alguns quilômetros dali. No penúltimo dia, na calada da noite, fui arrastada de minha tenda aos gritos. E assim aconteceu. Pelo menos fui a única.
— Sinto muito.
— Todos sentimos, pelo menos aqueles de nós que não escolheram ser transformados.
— A maioria de nós.
— Você também? — ela perguntou e eu tive de engolir em seco antes de responder.
— Sim. — Senti que ela queria a história inteira, mas eu não conseguiria contar a ela agora. Sempre doía para mim relembrar minha vida humana, relembrar aquela casa em chamas, aquela menina indefesa, meus colegas…
— Bem, — Tirou-me de minhas memórias, abençoada, e continuou a contar a sua. — depois do ataque, ele me deixou lá, na mata, sangrando e morrendo. Durante as primeiras horas após a transformação eu permaneci na mata, confusa. Quando os policiais chegaram, certamente meus amigos os haviam chamado, eu fugi. Mas eu não sabia das regras, não sabia de nada. Então, voltei para casa.
Respirei fundo, sabendo que isso não acabaria bem. Eu não tinha ouvido uma história sequer que tivesse acabado bem, de lobos que voltavam para sua antiga vida. Justamente por isso era proibido.
— Eu tinha um irmão mais velho, uma mãe e um pai. E a primeira coisa que me veio em mente, depois de perceber que eu havia sido transformada em algo saído diretamente dos filmes de terror, era buscar o amparo deles.
— Mas eles não deram, não é mesmo? — Ela não respondeu diretamente essa pergunta.
— Corri todo o caminho até em casa. Eu não sabia me transformar de volta ainda, então, quando cheguei em casa, entrei como loba. Minha mãe, ao me ver, soltou um grito aterrorizado que até hoje me assombra. Meu irmão pegou uma vassoura que tinha por perto e tentou me bater com ela, mas dela eu consegui desviar. Meu pai… bem, ele já estava com a espingarda. Com a dor dos tiros, consegui o impulso que eu precisava para descobrir como me transformar de volta à forma humana.
Ela deu uma pequena risada que não carregava graça alguma.
— Não preciso nem dizer que eles ficaram mil vezes mais assustados e enojados ao ver a transformação. Sendo a minha primeira, então, foi a mais dolorosa. E junto com os ossos, músculos e pelo se remexendo, tiveram que aguentar meus gritos.
— Sinto muito. — Eu não sabia o que dizer, então pedi desculpas em nome de todos os lobisomens àquela moça.
— Não é culpa sua. Não é culpa de ninguém, exceto do solitário que me atacou.
Suspirou, mas continuou, sua história não estava acabada.
— Vendo-me humana, minha mãe quase desmaiou, sendo segurada por meu irmão que havia largado a vassoura ao ver que era eu. A única pessoa que parecia ter um pouco de compaixão no olhar era meu irmão. Minha mãe, ao se recuperar, silenciou-me em meio às minhas explicações. Mandou-me calar a boca e sumir, afirmando que eu não era mais filha dela, que o diabo havia me tocado e, portanto, eu deveria fugir e deixar o pacato povo daquela cidade em paz, incluindo eles. Chamou-me de monstro, algo que, infelizmente, acho que nunca conseguirei esquecer.
— Todos somos monstros. Mas você, como nós aqui, sabe controlá-lo.
— Sim. O problema é que eles não me deixaram mostrar isso para eles, que era possível controlá-lo, que eu podia aprender. Que eu tinha salvação.
Decidi segurar sua mão, emprestando-lhe forças para concluir sua história.
— Meu pai… ele sempre havia me preferido a meu irmão. Nunca imaginei que eu pudesse ser abandonada por ele. Os tiros… eu nem ligava para os tiros. Ele havia atirado enquanto eu era loba, ele não tinha como saber que era sua filha. Mas, após me ver humana, ele apenas deu as costas para mim. Quando eu comecei a discutir com minha mãe, após ela falar aquelas coisas horríveis, ele apenas se virou e apontou a espingarda em minha direção novamente. Desesperada e aos prantos, foi assim que fugi.
— Algum tempo depois, achei uma alcateia e fiquei alguns anos nela, apenas para aprender a me controlar e aprender as habilidades básicas de lobisomens, — continuou. — Mas não me adaptei. Passei por mais algumas antes de chegar à Seattle e, honestamente, só consegui ficar lá após me relacionar com Maxwell. Eu só consegui me sentir bem, depois de transformada, tendo um homem para fazer os outros me respeitarem. — Fez uma breve pausa. — Aqui, bem, só pelo pouco tempo que estou aqui vejo que é diferente. Não me sinto inferior. Sinto que vocês se importam, sinto que você se importa. Não preciso de homem algum para me sentir bem-vinda.
— Kenna, eu sinto muito por tudo que você passou — falei, sincero. — Você sofreu muito, como muitos lobos sofrem. Entretanto, nenhum lobo deve se sentir assim, principalmente nos seus primeiros anos. Eu tive o Letum e uma boa alcateia para me acolher, tive sorte. Você merece ter esse tipo de experiência também.
— Certamente não a tive ainda — soltou um suspiro. — E não acredito que eu vá voltar para Seattle depois do que aconteceu aqui.
— Kenna, — falei seriamente, estudando sua expressão a cada nova palavra que saía de minha boca. — Você não deseja viver como solitária, não é?
— Depois do que me aconteceu? Jamais. — Eu já sabia que sua resposta seria essa.
— Você iria se opor à ideia de ser minha loba? De fazer parte da Alcateia de Columbus e nos ter como sua família?
Primeiro eu tive a impressão de que ela achou que não tinha ouvido direito. Depois, abriu um sorriso caloroso que causou em mim a mesma sensação que um abraço teria causado.
— Não me oponho. Inclusive, iria gostar muito disso.
Combinei com ela que, assim que ela, Rebecca e os outros se recuperassem, e que a casa estivesse em ordem, nós faríamos sua cerimônia de indução.
Teimosamente, ela continuou a limpar a geladeira, enquanto eu, enfim, peguei a vassoura que queria e varri os vidros do chão da sala. Havia cacos de vidro tanto das janelas, quando de porta-retratos, enfeites e da televisão. Maldição, quebraram a televisão.
Após um tempo que me pareceu ser pouco mais de uma hora, Kenna passou por nós pela sala e se despediu, indo, enfim, descansar. Com um sorriso no rosto, deixei a vassoura de lado e decidi que também deveria subir, para checar Rebecca. Chegando perto de seu quarto, pude ouvir o sussurrar de vozes. Surpreendi-me. Quando eu havia saído de seu quarto, ela estava dormindo e ainda estávamos no meio da madrugada.
Abri a porta devagar, mas, de qualquer forma, chamando a atenção dos dois que estavam conversando.
— Olá — sussurrei para eles. Por algum motivo estar com Rebecca assim me fazia querer falar baixo, talvez para não a assustar.
‘Ela não se assustaria conosco. ’ Por algum motivo, meu lobo estava certo disso, mas eu já não tinha total certeza.
— Olá, Aidan. — Foi Liam quem falou, também em um tom baixo de voz, talvez para não acordar os lobos que dormiam. — Becca acordou faz pouco tempo.
— Conseguiu descansar? — perguntei, sabendo que ela precisaria de muito mais tempo de sono do que ela tinha, de fato, conseguido.
— Consegui. — Eu e Liam captamos a mentira em sua voz, só não entendíamos o motivo dela. — Bom, consegui descansar bastante, mas talvez não o suficiente — corrigiu-se.
— Bem, vou deixá-los então para você descansar. Preciso arrumar muita coisa ainda e-
— Não! — Assustamo-nos com seu protesto. — É, quer dizer, você poderia ficar? — Ela nunca dizia “por favor”, mas nunca precisaria. Era óbvio que eu ficaria.
— É claro.
Liam nos deixou, então, para ele mesmo descansar um pouco.
— Como está se sentindo? — Percebi que eu não deveria ter feito essa pergunta enquanto ela ainda saía de minha boca. Para meu espanto, porém, Rebecca não se encolheu com a pergunta, e sim bufou com uma risada contida.
— Uma merda.
— Rebecca, eu não quis-
— Não, deixe para lá. Não é culpa sua. Estou apenas dizendo, de fato, como estou me sentindo — ela explicou, mas não pude deixar de pensar que tinha sim, em parte, sido culpa minha. — Estou, ao mesmo tempo, com raiva e me sentindo fraca. Quero, ao mesmo tempo, matar alguém, mas estou com medo de que me matem. É uma coisa horrível.
— Não posso nem imaginar como seja — sussurrei, porque era verdade.
— Só consigo pensar nele, nas coisas que ele fez e nas que ele teria feito caso você não chegasse. — Sua voz estava fraquejando e seus olhos brilhando com a ameaça de lágrimas. Forcei-me a andar até ela e sentar ao seu lado na cama. — Não consigo tirá-lo da cabeça, mesmo sabendo que você o destruiu para mim.
— Eu o teria mantido vivo para fazê-lo sofrer mais, se pudesse. Mas estava tão consumido pela raiva que nem sequer me controlei. Deixei meu lobo correr solto quando só estávamos eu e ele no prédio.
— Eu sei, eu entendo. Não o culpo por nada disso, mesmo talvez querendo o fazer sentir o medo que eu senti com minhas próprias mãos. Entretanto, por mais que eu tente, por mais que eu me esfregue no chuveiro, passe creme, passe perfume, passe qualquer coisa… seu cheiro não me deixa. E seu cheiro não me deixa esquecer, não me deixa relaxar, me faz me sentir como se ainda estivesse sendo violada.
Isso me acertou como um raio. Sim, o cheiro dele ainda estava no ar, mas estava por toda a casa, assim como o de seus lobos. Iria demorar para ser substituído. Mas não tinha me passado pela cabeça que o cheiro dele nela ainda permanecia.
— Eu faria qualquer coisa para poder tirar o cheiro dele de mim — ela falou em um tom quase inaudível. — Qualquer coisa.
Seus olhos castanhos, marejados, encaravam os meus sem querer soltá-los. Eu entendi o pedido por trás de suas palavras. Meu lobo entendeu. E por mais que ele estivesse querendo pular para fora, tomar o controle e dar a ela o que ela queria, eu o suprimi. Ela não estava em condições, nem tanto físicas, mas mais psicológicas, para que eu aceitasse seu pedido. Se fosse em qualquer outro momento de nossas vidas, qualquer momento mesmo, eu aceitaria. Mas ela não estava preparada para isso, não tão recentemente após seu ataque. Ela estava apenas desesperada para sentir-se limpa, e confiava em mim o suficiente para que eu fizesse isso por ela.
— Rebecca, você-
— Não comece, Aidan. Por favor. — Ao que parecia, às vezes ela sabia sim dizer “por favor”. — Apenas faça.
— Não — Respondi com mais autocontrole do que eu acreditava que eu tinha. — Existem outras maneiras de tirar o cheiro dele de você. — Eu não tinha coragem de pronunciar o nome dele em sua presença.
— Não de forma tão rápida, não tão definitiva.
— Desculpe, mas eu não farei isso com você, não agora. — Meu lobo, contrariado, forçou-me a adicionar a última parte. — Dormirei ao seu lado, se quiser, mas não dormirei com você.
Ela permaneceu calada, apenas me observando com aqueles olhos machucados.
— Amanhã cedo farei Liam preparar um banho em minha banheira, com espuma, sais e tudo o que você quiser. Poderá ficar horas lá se desejar, até ficar toda enrugada que nem uma velhinha. E depois disso, depois que você se sentir mais disposta para sair do quarto e sair de casa, levarei você a um dojô. Tenho um conhecido que é dono de um e não se surpreenderia com o dano aos seus instrumentos que você causará. Assim você descontará sua raiva e boa parte de seu cheiro será renovado com o cheiro de satisfação e força.
— Nunca haviam me convidado para ir a um dojô — confessou com um sorriso triste, melhorando um pouco seu humor.
— Há uma primeira vez para tudo — sussurrei em seu ouvido, levantando as cobertas e tirando o sapato para entrar debaixo delas com ela. Ela se virou de costas para mim e eu passei meu braço por sua cintura, descansando meu queixo no topo de sua cabeça. — Agora durma, criatura. Você precisa descansar. Estou farto de fêmeas que não obedecem e não repousam.
— Presumo que tenha conhecido Kenna.
— Sim, mas não vem ao caso. Fique quietinha e durma.
— Você é um imbecil — ela sussurrou com um bocejo, o sono vindo ao seu encontro finalmente. — Sempre achei isso, desde o primeiro momento em que te vi.
— O sentimento é mútuo. — Beijei seus cabelos e ouvi, aos poucos, sua respiração se estabilizar.
Fechei meus olhos, satisfeito com a noção de que minha presença a acalmava ao ponto de ela conseguir adormecer tão rapidamente após tudo que lhe acontecera. Em poucos minutos, o véu do sono me alcançou também, fazendo-me ter o sono mais pacífico que já tive em anos.
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