Notas iniciais
Obrigada a todos pela paciência e pelo apoio! Acho que muitos vão querer pular as notas e ir direto ao capítulo, e eu não os culpo! haha Mas queria agradecer pelos comentários no segundo especial. Fazia tempo que eu queria fazer um novo capítulo mais descontraído e fiquei feliz que tenha sido bem recebido ♥ Boa leitura!

Mathias

Rebecca e Kenna estavam sendo arrastadas para o prédio de questionamento. Ambas feridas, mas com os mais graves ferimentos já se cicatrizando. Movi-me silenciosamente para poder mantê-las sob minha visão. Conseguia, agora, ver Connor, que se transformara em humano brevemente para dar instruções. Eu conseguia também ver o bruxo, Jason, que estava pendurado no topo de uma alta árvore no terreno vizinho.

Connor franziu o cenho para mim, vendo que eu queria agir naquele mesmo instante. Fez sinais com a mão que indicavam que podíamos esperar mais, que iam apenas colocá-las nas jaulas. Sem dúvidas ele acreditava que não iriam machucá-las mais e que, portanto, não deveríamos nos arriscar sem os reforços. Se ouvíssemos que elas estavam sendo maltratadas, daí sim partiríamos para a briga.

Voltei a observar os lobos e Rebecca. Ela ainda parecia cansada, apesar de estar se curando de suas marcas de batalha. Andava a passos lentos, fazendo os homens de Maxwell a empurrarem com força.

— Ande logo — resmungou um deles. — Pelo amor de Deus, uma senhorinha de oitenta anos anda mais rapidamente do que você.

Um dos outros homens riu e eu tive uma tremenda vontade de estripá-lo.

— É de se esperar que ela não esteja se aguentando. É só uma mulher, afinal, e sofreu nas mãos de Maxwell na briga deles.

Trinquei meus dentes, sabendo que Rebecca deveria estar se contorcendo muito por dentro após ouvir uma idiotice tremenda como aquela. Ela continuou a andar, mas agora parecia estar se arrastando ainda mais, propositalmente, para irritar os lobos. Ou talvez estivesse, de fato, esgotada.

As mulheres finalmente atravessaram o quintal da casa e Maxwell as esperava, segurando a porta do Prédio de Questionamento. Alguns de seus lobos foram entrando, mas a maioria ficou do lado de fora, ainda fazendo ronda, comendo a comida de Aidan ou observando o quintal.

Percebi a encarada feroz que Kenna deu para Maxwell, mas ele apenas riu, entrando no prédio atrás delas e trancando a porta.

~x~

Rebecca

Fazia tempo que eu não entrava aqui. Eu nunca tivera muitos motivos para utilizar o Prédio de Questionamento e isso era algo pela qual eu era grata. Podia ser dominante, mas não gostava de torturar os outros ou mantê-los prisioneiros. Mesmo se um dia fosse preciso, tenho certeza de que Aidan não me deixaria cumprir essa função, sem dúvidas com o intuito de me proteger dessas tarefas que uma pessoa às vezes tinha que cumprir para com outra.

De qualquer forma, aqui estava eu novamente, passando pelas diversas máquinas e aparelhos que, eu sabia, seriam e já tinham sido o pesadelo de algum ser sobrenatural. Talvez agora fosse minha vez de vivenciar um desses pesadelos.

Respirei fundo ao passar pela primeira grande sala, aliviada pelos lobos que me empurravam não me empurrar para cima de qualquer um daqueles instrumentos de tortura. Eu jamais deixaria Maxwell e seus homens me torturar de olhos fechados, mas sentia que já não tinha muito mais forças em mim. Eu precisava descansar, estava abatida e sem conseguir recuperar minha total potência.

Aliviada, percebi que estavam levando Kenna para o subsolo e, ao pôr meus pés naquela fatídica escada de metal em espiral, não consegui deixar de lado minhas lembranças da primeira vez em que fui enjaulada em Columbus e da minha tentativa de fuga. Fuga essa obviamente malsucedida, a qual resultou em minhas pernas serem quebradas. Eu supunha que, desta vez, eu tinha o mesmo nível de chances de escapar. Ou seja, nenhuma.

Descemos a escada em espiral até chegar no subsolo do prédio, onde havia as tão conhecidas jaulas, o frigobar de Aidan e a mesa onde ele esperava seus prisioneiros cansarem e resolverem colaborar.

Kenna e eu fomos arremessadas, sem nenhum cuidado, para dentro de uma mesma jaula, a mesma que eu havia ficado tanto tempo atrás. Lembrei-me de como Aidan havia trazido uma muda de roupas, cobertas e travesseiro para mim, pois estava frio naquela época do ano. Dessa vez, porém, quem me tinha como prisioneira não podia se importar menos com o bem-estar meu ou de Kenna, sua ex-namorada. Estávamos nuas no chão frio da cela e eu apostava que iríamos ficar assim indefinidamente. Provavelmente gostavam que ficássemos assim.

Aproximei-me da loba, abraçando-a e recebendo seus quentes braços em meu entorno. Não estava particularmente frio naquele dia, mas o subsolo em si era gelado, além do chão frio de metal. Sentamos no chão, ainda abraçadas, tanto para aquecimento corporal, quanto aquecimento espiritual. Estávamos metidas nessa juntas, e juntas iamos sair. Ou ao menos gostaríamos de acreditar que sairíamos.

Eu não sabia onde estava Connor. Não sabia onde estava Clayton, Spencer, e nenhum dos outros. Só rezava para estarem bem. Até onde eu sabia, Max podia ter enviado alguns lobos para caçarem-nos. Max não precisava de mais lobos em sua alcateia, já tinha um número maior do que a antiga Alcateia de Columbus. Portanto, eu não tinha dúvidas de que, se encontrassem algum de meus irmãos, iriam atacar para matar.

Estremeci com o pensamento e Kenna pensou que fosse por frio. Acariciou-me os braços, fazendo fricção para aumentar o calor.

Ela queria me proteger, fazer-me sentir bem. E eu tinha o mesmo desejo. Era totalmente compreensível, tendo em vista que provamos uma para outra, por meio de combate, que tínhamos níveis de dominância parecidos. Era instintivo uma querer proteger a outra. Então nos entregamos ao abraço, uma fincando o rosto nos cabelos da outra, para não ter que encarar os rostos dos homens que nos trancaram e nos observavam, para tentar esquecer, ao menos por alguns momentos, a situação na qual estávamos.

Eu rezava — apesar de já ter perdido minha religiosidade há muito tempo — para Aidan aparecer. Eu sabia que era extremamente improvável. Ele estava em outro país, pelo amor de Deus. Estava preocupado com outras coisas, que também tinham a ver com minha ilustre e problemática pessoa. A menos que alguém tivesse conseguido avisá-lo, nem sequer sabia sobre o que estava acontecendo em seu território.

Território esse que deixei ser invadido. Território que não consegui defender.

Apesar de toda a raiva que eu nutria há anos por Maxwell Kentner, e apesar de já ter ganhado uma luta com ele algumas horas atrás, eu não consegui ganhar dele quando mais importava. Eu sabia que muito se devia ao fato de eu ter acabado de brigar com Kenna, que em tão pouco tempo se tornou um grande porto seguro para mim. Eu sabia que ele, como tendo se tornado Alpha — ou quase isso — nutria de seus lobos energia a mais, poder a mais. Um Alpha sempre ficava mais forte na presença de sua alcateia.

E mesmo assim eu não conseguia me perdoar. As dores que eu sentia serviam apenas para eu me amaldiçoar ainda mais. Para lembrar-me quão fraca eu tinha sido. Eu simplesmente não havia sido boa o suficiente, mesmo tendo tamanha força, tamanha dominância.

Eu nunca havia sido boa o suficiente. Não tinha sido boa o suficiente para ficar na alcateia de Joseph; não tinha sido boa o suficiente para merecer o amor de minha mãe; não tinha sido boa o suficiente para satisfazer Bernard; e não era boa o suficiente para proteger o que era de Aidan.

A porta da jaula se abriu depois do que parecia ter sido algumas horas. Eu não tinha percebido que tinha chorado, mas, quando levantei o rosto dos ombros de Kenna, vi que tinha molhado-a um pouco. Notei que meus próprios cabelos pareciam úmidos, e, olhando para o rosto da mulher à minha frente, percebi que ela também havia decidido deixar de ser forte por um momento, deixando sua tristeza transparecer.

Maxwell estava na porta, segurando-a aberta, enquanto olhávamos para ele, apreensivas.

— Está ficando muito chato observar vocês duas só abraçadas e chorando em silêncio. — Meu orgulho foi atingido com suas palavras, não queria que um bando de lobisomens usurpadores visse minha fraqueza. — Não me faça me arrepender de não ter ido junto de meus outros lobos à caça de seus irmãozinhos de alcateia — falou para mim. — Nós todos — gesticulou para os quatro lobos que se encontravam com ele no subsolo, todos sentados e bebendo as latas de Pepsi que Aidan tanto adorava, que mantinha estocadas em seu frigobar. — Esperávamos que os abraços de vocês fossem evoluir para algo mais.

Kenna e eu nos entreolhamos enojadas com seu comentário asqueroso.

— Devo admitir que isso seria algo muito prazeroso de se ver, especialmente para mim. Mas não sou egoísta, não privaria meus queridos amigos de aproveitar a cena também.

Maxwell era inacreditável, simplesmente inacreditável. Parecia que cada respiração dele me fazia odiá-lo ainda mais. Se é que era possível odiá-lo mais do que já o odiava.

‘Se arrependimento matasse…’ grunhiu Bexi. ‘Deveríamos ter acabado com a triste vida do desgraçado de uma vez por todas na floresta.’

Ela tinha a mais completa razão. Entretanto, querendo agir de forma sensata uma vez na vida, optei por deixá-lo vivo para não criar problemas entre Seattle e Columbus. Mal sabia eu…

— Sintam-se a vontade para se acariciarem — debochou com sua voz grave e maliciosa. — Inclusive, incentivo-as a fazer justamente isso.

Fuzilei Maxwell com o olhar e estava prestes a mandá-lo à merda quando Kenna deu o ar de sua graça.

— Você só pode ser muito idiota se acha que eu e Rebecca faríamos isso por você. Porque você pediu que fizéssemos. Você é deplorável, seu saco de merda.

A raiva presente no rosto de Maxwell era evidente. Seu humor mudou em questão de segundos, ficando completamente ensandecido com as palavras de Kenna.

— Não estou pedindo, sua cachorra. Inclusive nunca tive que te pedir nada, fácil do jeito que é. Sempre disposta a abrir as pernas para mim só com o mais breve dos olhares. — Segurei minha respiração. — Às vezes eu nem queria nada com você, apenas queria um espeto de carne ou um chá, mas lá estava você, sedenta como se estivesse no cio.

Os homens de Maxwell, todos já como humanos, riam e olhavam para Kenna como se ela fosse se abrir para qualquer um deles também.

— Maxw-

— Eu não iria te deixar na mão, é claro, gostosa do jeito que é — interrompeu-a ele. — Mas você sempre foi fácil, ao menos para mim. Então não se faça de santa ou de recatada, e entenda que não estou pedindo a vocês. Estou mandando. — Sua voz ficou grave como o retumbar de um trovão. — Eu sou dono de vocês agora. Estão aprisionadas, pertencendo a uma alcateia na qual eu sou o Alpha.

A raiva em mim, assim com a dele, também estava crescendo.

— Joseph sempre foi muito burro. Sim, mantinha as fêmeas em seu devido lugar, ao menos a maioria, né Rebecca? — Seu olhar pousou sobre mim, deixando-me muito incomodada. — Mas nunca se atreveu a se aproveitar delas. Quanto desperdício. Eu serei um Alpha destemido, irei fazer com minhas lobas o que eu quiser.

— Você não irá conseguir — retruquei, notando o silêncio que se apoderou de Kenna depois das palavras malignas de quem ela um dia havia amado. — Meus irmãos são fortes, confio neles. Você não conseguirá acabar com eles com tanta facilidade. Além disso, — falei, mais como uma esperança do que uma certeza. — Aidan acabará com você. Aidan irá te fazer em pedacinhos, irá pisar por cima de seu cadáver. Você é uma pobre desculpa de um Alpha. Jamais chegará aos pés da grandiosidade de Aidan. E, quando ele chegar, você vai desejar estar nos braços de sua mamãe novamente.

O recinto emudeceu-se completamente. Até mesmo as respirações de todos eram quase inaudíveis. Maxwell, por cerca de um minuto, ficou apenas me olhando, seus olhos vidrados com ira.

— Você não sabe o que acabou de fazer. — Suas palavras saíram quase como sussurro.

Adentrou a jaula, chegando cada vez mais perto de Kenna e eu, que estávamos no canto mais longe dos lobos possível.

— Você acha que Aidan é tão foda? Acha ele um lobisomem tão bom? — A cada passo que ele dava parecia que o chão tremia. — Aidan sequer está aqui, não é? Deixou sua alcateia, que já é pequena, sob os cuidados de seu Terceiro em Comando. Eu podia ter tomado essa alcateia muito tempo antes, mas queria ter a satisfação de ver você lúcida para apreciar meu trabalho.

— Seu bastardo… — murmurei.

— Você sempre teve um significado para mim, Rebecca, e lamentei quando você partiu de Seattle. — Sua voz estava calma e fria. — Você sempre foi minha fêmea desafio. Vejo que você também é a fêmea desafio de Aidan. Pois bem, se acha que ele é tão grandioso assim, diga-me, por que ele ainda não comeu você?

— Você... Cale a boca! Você é um lunático depravado que-

— Pois irei provar que sou mais Alpha do que Aidan sequer sonharia ser. Irei concluir o feito que Aidan é incapaz de fazer. — Aproximou-se o máximo possível de nós. — Meninos.

Puxou-me pelos cabelos, quase arrancando-os de meu couro-cabeludo. Arrastou-me pela jaula, mas Kenna pulou em cima dele para tentar me ajudar. Infelizmente, os lobos de Max já tinham acatado seu chamado, e Kenna foi empurrada para longe e recebeu um belo chute na boca, fazendo-a voar para a outra extremidade da cela.

Arranhei Maxwell e me debati, tentando soltar-me dele e da dor insuportável de ser arrastada pelos cabelos. Minha pele queimava com o atrito do chão. Após lidar com Kenna, um dos homens pegou meus braços, segurando-os para eu não conseguir mais investir contra meu agressor.

Tiraram-me da jaula e jogaram-me em cima da mesa sem nenhuma delicadeza, trancando Kenna de volta lá dentro e fazendo-me soltar um grito agudo causado pela dor nas minhas costas. Maxwell, consumido pela raiva que nutria de mim, tapou minha boca com agressividade, fazendo meus gritos tornarem-se abafados.

Quando meus gritos finalmente foram abafados, conseguimos ouvir os barulhos que vinham de fora. Latidos, uivos, grunhidos e ganidos. Parecia uma guerra. Ouvi também o som de objetos se chocando nas paredes do prédio.

— Morra, seu lobo fedorento! — ouvi uma voz de um homem desconhecido gritar, acompanhado do som de madeira se chocando contra a parede. — Filho da mãe, desviou!

— O que está acontecendo lá fora? — Maxwell perguntou a ninguém em particular. — Vão lá verificar. Não deixem ninguém entrar. — Os homens de Max começaram a sair, mas ele os interrompeu com um berro. — Não todos, seus imbecis! Dois de vocês fiquem aqui comigo. Preciso que segurem essa cadela para mim.

Engoli em seco, com sua mão ainda tapando minha boca. Se eu ainda tinha alguma dúvida do que iria me acontecer, ela tinha sido dissipada.

Dois homens me prensavam contra a mesa, um segurando meus ombros e o outro minha cintura. Maxwell finalmente decidiu deixar-me gritar. Desfez, lentamente, o zíper da calça que roubara de Aidan, sustentando meu olhar aterrorizado com um sorriso nos lábios.

— Tenho certeza de que meus lobos conseguirão lidar com o que for que estiver acontecendo. Além disso, independente do que for, conseguirá esperar alguns minutinhos.

— São meus irmãos, tenho certeza! — gritei para ele. — Eles estão aqui, vão matar todos vocês! Não vão deixar que isso aconteça!

— É tarde demais, Beccinha. Praticamente já aconteceu. Você está aqui, jogada na mesa, pronta para me receber. E eu estou mais do que ansioso para me colocar em cima de você, meu bem.

— Eu vou matá-lo — grunhi. — Juro que se ninguém o fizer antes, vou matá-lo com minhas unhas e meus dentes.

— Gostaria que você fizesse outra coisa com suas unhas e seus dentes agora, mon amour. — Despiu-se das calças e de suas roupas de baixo, deixando seu grotesco membro ereto à mostra. — Está vendo? Eu sei ser romântico. Kenna sabe muito bem. — Virou-se para a loba em questão, que estava grudada às barras da jaula, desesperada para poder me ajudar, mas que estava trancada, segurando sua mandíbula quebrada. — Oh, não se preocupe, não ficarei falando sobre outra mulher enquanto estupro você. Acho isso bastante indelicado, até mesmo para mim.

Seu sorriso doentio fez meu estômago revirar, mas o que intensificou a sensação foi vê-lo subindo em cima de meu corpo.

Tentei me debater, tentei me soltar, inclusive cuspindo na cara do lobo que segurava meus ombros, mas eram fortes demais e eu estava muito enfraquecida. Conseguiam me segurar de tal maneira que a mesa mal tremia com meus esforços. Encarei os olhos castanhos, malévolos, de Maxwell. Seu lobo estava à tona, sabia disso pela mudança de tom de seus olhos. Seu lobo era, como o esperado, tão doentio quanto ele.

Passou uma mão sobre meu cabelo, enquanto a outra se demorava na base de meu abdômen. Abocanhou meu seio direito sem nenhuma delicadeza, fazendo-me arfar de dor ao invés de prazer. Era muito bruto em seus toques e eu sabia que estava fazendo isso de propósito.

Ouvimos um estrondo gigantesco no andar de cima, acompanhado de passos apressados e diálogos gritados.

— Obrigado, Jason!

Ninguém teve tempo de reagir àqueles sons ou àquela voz que eu tanto ansiava por ouvir, tamanha rapidez dos eventos.

Aidan surgiu, humano, praticamente pulando do andar de cima direto para o subsolo, como se as escadas nem estivessem ali. Atrás dele vieram um homem gigantesco, mais parecia um guarda-roupas, e alguns de meus irmãos.

Os olhos, quentes como o fogo ardente, de Aidan pousaram sobre a cena e se demoraram nos meus.

— Você estará tão morto que seu cadáver ficará irreconhecível — falou apenas, antes de voar para cima de Maxwell Kentner.

Nunca havia corrido tanto em toda minha vida, e olha que, para um bombeiro, essa é uma afirmação muito significativa.

Assim que eu e os lobos chegamos no que costumava ser nossa casa, agora quase em ruínas, ao menos por dentro, percebi que a luta já havia começado sem mim. Meus lobos que estavam comigo não hesitaram em cuidar dos lobos que ficaram para trás, ainda guardando o local ao invés de participar da batalha que, pelos meus ouvidos, ocorria no quintal.

Adentrei a casa, desesperado e em busca de apenas uma pessoa. Era uma mistura tão grande de cheiros que era impossível discernir quem havia passado por onde. Verifiquei todos os aposentos, xingando alto quando vi tanto meu quarto, quanto meu escritório totalmente desarrumados, com papéis, documento e fotografias jogados pelo chão.

Rebecca não estava ali.

Perguntei-me se ela estaria participando da batalha, o que não seria de nenhuma surpresa. Pegando um pedaço comprido de madeira, que havia surgido de algum móvel quebrado, sem dúvidas, marchei pela porta de trás.

Lobos voavam ao encontro uns dos outros e objetos voavam também. Meus lobos lutavam bravamente, principalmente estando claramente superados em número. Acredito que a relação era de quatro lobos para um. Mas eles se ajudavam e não eram estúpidos.

Ao perceber que Rebecca não estava em meio àquele caos, senti-me aliviado primeiro. Depois percebi, em desespero, que se ela não estava ali, deveria estar em uma situação ainda pior. A fúria e resiliência de meus lobos era também um reflexo disso. Lutavam como se não tivessem nada a perder, para poder salvar sua irmã de alcateia.

Enquanto atravessa o jardim, aproveitando para dar com o bastão de madeira na cara dos lobos que passavam por mim, ocasionalmente empalando um ou outro, vi a origem dos objetos voadores.

Jason Mills, meu antigo melhor amigo.

Ele me viu quase no mesmo momento em que eu o avistei, mas não teve tempo para apreciar minha vista, já que estava concentrado prensando um lobo contra a parede com o que restara do meu sofá. Terminou o serviço enfiando o ancinho que eu usava para fazer pilhas de folhas no outono na garganta do lobisomem.

— E aí, o que achou? — perguntou com um sorriso, finalmente podendo chegar até onde eu estava.

— Impressionante — falei sinceramente. — mas preciso achar Rebecca.

— É claro — respondeu, percebendo que eu não tinha tempo para matar as saudades naquele momento. Haveria muito tempo para isso depois.

Corremos até o Prédio de Questionamento, Jason ao meu lado, Trevor e Liam em meu encalço.

— Acredito que ele esteja prestes a… — Jason hesitou, mas decidiu que era melhor eu saber logo. — Maxwell parece estar prestes a estuprar uma das duas. Acredito que seja Rebecca.

Eu nem sabia quem era a outra, e nem conseguia raciocinar sobre aquilo no momento. Jason, sem perder tempo, arremessou com sua telecinese o sofá que havia usado para prensar o lobisomem inimigo. Com um estrondo a porta do Prédio de Questionamento foi quebrada e, agradecendo Jason, voei para dentro, sem nem perceber se os três ainda me seguiam.

Quando enfim cheguei ao subsolo congelei por alguns segundos.

Havia Rebecca, uma mulher e três homens. A mulher estava trancada na jaula, nua e com a mandíbula quebrada de uma forma que, certamente, era muito dolorosa. Rebecca estava jogada na mesa, dois homens segurando-a e Maxwell Kentner molestando-a.

Meu lobo já estava prestes a sair desde que eu chegara em casa, mas, vendo aquela cena, ele estava sedento por justiça.

Os olhos de Rebecca estavam cheios de mágoa, sofrimento e fúria. Ela estava impotente em uma situação muito perigosa e certamente se culpava por isso. Além da obviedade do mal que estavam fazendo a ela, eu queria destroçar todos os filhos da puta que invadiram meu território pelo simples motivo de fazê-la se sentir assim.

— Você estará tão morto que seu cadáver ficará irreconhecível — comuniquei com uma falsa tranquilidade, tendo o efeito desejado em Maxwell. Minha voz calma e gélida fez um arrepio percorrer por sua espinha e, no mesmo instante, avancei contra ele.

Liam e Trevor se ocuparam de cuidar dos lobos cúmplices de Max, enquanto Jason ia de encontro à jaula e à mulher presa nela.

Rolamos no chão, acertando socos e chutes sempre que possível um no outro. Amaldiçoei-me por ter deixado meu bastão de madeira no quintal. Seria muito útil para espancar Maxwell. Maxwell conseguiu acertar um soco em meu estômago seguido de um em meu maxilar, fazendo-me parar brevemente para cuspir sangue. Em resposta, soquei-lhe o queixo de baixo para cima, fazendo-o cair de costas no chão.

Vendo-o jogado no chão, senti-me mais forte, quase satisfeito. Ele ainda merecia muito mais, mas era óbvio que eu não o deixaria sair ileso. Inclusive, eu havia falado a verdade. Ele não sairia vivo desse prédio.

Aproveitei que ele ainda não havia se levantado e o puxei pela gola da camiseta que era minha. Joguei-o contra a parede sem soltá-lo, dando repetidos socos em seu rosto e ocasionalmente em seu tórax. Sangue escorria de seu rosto, seu nariz já há muito tempo quebrado e cortes se formando em suas têmporas. Ver a cara de sofrimento dele, apesar de prazerosa, não era o suficiente, não quando Rebecca tinha passado por tudo aquilo, não quando ele havia colocado as mãos imundas, a boca imunda nela…

Parei apenas pois vi uma movimentação atrás de mim. Os dois lobos de Maxwell haviam fugido para fora, e Liam e Trevor os seguiram escada acima. Jason e Kenna, apesar de sua mandíbula, ajudavam Rebecca a se levantar e a se acalmar. Ela tremia.

Ele a fez tremer. E ele nem se arrependia.

No curto espaço de tempo que levei observando Rebecca, Maxwell havia aproveitado para se transformar. Fui surpreendido pelo lobo grande que ele era, quase do meu tamanho, e fui jogado por sua força para o outro lado da sala, arrastando comigo a mesa, derrubando o frigobar e quase derrubando Rebecca e os outros.

Antes de deixar meu lobo tomar conta, algo que me custou muito autocontrole, gritei para Jason tirá-las daqui. Tomar cuidado com elas lá fora, mas tirá-las daqui. Nenhuma delas estava em condições de ajudar na retomada do território, mesmo se quisessem.

Senti meu irmão lobo implorando para eu deixá-lo sair e fazer com que Maxwell tivesse o que merecesse por ter se metido em nossa alcateia, com nossa Rebecca.

‘Eu nunca mais vou deixá-la passar por algo assim’ Ele jurou, antes de tomar seu lugar controlando meu corpo. ‘Rebecca nunca mais se sentirá desamparada, não enquanto eu respirar.’

Senti a habitual dor e o habitual desconforto da transformação, mas foi uma das únicas vezes que eu estava tão cego de raiva que não prestei atenção. Dei uma breve corrida, o máximo que o espaço contido permitia, e pulei em Maxwell. Prevendo meu ataque, porém, ele me encontrou de frente, mandíbula pronta para se defender e garras longas para me atacar.

O que ele não esperava, porém, era que minha fúria fosse ampliada com a chegada de meu lobo.

Rolamos no chão até um de nós conseguir sair por cima, depois de muitas mordidas e arranhões. Pedaços de carne eram arrancados tanto do corpo dele, quanto do meu. Com uma fúria cega, consegui me colocar por cima dele.

E foi então que a carnificina realmente começou.

O subsolo já estava todo destruído e ensanguentado, mas agora só com nós dois no recinto, não tinha ninguém mais para atrapalhar ou com quem se preocupar. Maxwell já estava em mau estado, provavelmente já sabia que não teria saída, contudo, ele estava agora preso sobre mim, completamente à minha mercê.

E foi assim que eu vinguei Rebecca. Vinguei Rebecca, vinguei meus lobos, vinguei a outra loba que estava presa e vinguei qualquer outra pessoa que ele já tinha machucado. Fui tomado por tamanha ira que parecia que nenhum tempo havia se passado. Talvez tivesse sido de fato muito rápido, mas eu não conseguiria me recordar com detalhes do que eu fizera. Não ouvi os ganidos, os gritos, os protestos, apesar de saber que tinham sido presentes.

Apenas fitei as tiras de carne que haviam sido Maxwell Kentner, espalhadas pelo chão, pelas paredes, algumas no teto. Pedaços grandes, médios e pequenos de seu corpo jogados por todos os lados. Sangue por tudo, pingando de cima. Nenhum centímetro de meu pêlo seco, um pouco por causa de meu próprio sangue, mas principalmente por eu ter me banhado no sangue dele. Eu havia cumprido minha promessa, estava irreconhecível.

Virei-me para subir as escadas e terminar a batalha ao lado de meus lobos, passando ao lado de um pedaço de rosto desfigurado de Maxwell. O olho lupino que estava naquele pedaço dele estava arregalado. Encarei aquele órgão como se seu dono ainda estivesse vivo e vendo através dele. Eu gostaria de poder pegar cada pedaço do corpo de Maxwell e pendurá-lo ao longo da cidade — do estado… do país… do continente! — para que todos soubessem o que acontecia com quem fazia Rebecca Young, loba da Alcateia de Columbus, protegida por Aidan Rucker, sofrer.

Por Deus eu ia fazer todos os lobisomens do mundo saber.

Notas finais
Por favor deixem suas opiniões, sugestões e críticas nos comentários. O que acharam dos acontecimentos desse décimo quinto capítulo? Estou curiosa. Beijos e, como sempre, muito obrigada!