Notas iniciais
Olá leitores amados ♥ Como estão passando? Espero muito que gostem do capítulo treze tanto quanto eu gostei de escrevê-lo. Vamos ver uns novos POVs e relembrar alguns que faz um tempo que não vemos. ^-^ Boa leitura a todos.

Clayton

Eu havia apenas ido ao mercado. À droga do mercado. Eu não podia me ausentar da casa do Aidan por quarenta minutos que alguma merda explodia lá dentro. Quase que literalmente. Era muita sorte a minha que eu queria deixar algumas compras em minha própria casa, e para chegar até lá, um dos caminhos era passar pela frente da casa do Alpha. Ainda bem que acabei decidindo pegar justamente este caminho e, portanto, pude ver horrorizado o estado em que se encontrava sua casa.

Alguns lobos estavam escondidos entre os arbustos de paisagismo na frente da casa, mas eu consegui enxergá-los apesar de seus esforços para permanecerem ocultos. Os vidros estavam despedaçados e alguém estava tentando colocar a porta de volta no lugar. Contei cinco lobos na parte da frente, mas tinha certeza de que ainda haveria alguns dentro da casa e no quintal.

Xinguei alto enquanto socava o volante, sem querer soltando uma alta buzinada enquanto já estava no fim da quadra. Eu só lembrava que Mathias estava lá quando saí, mas até onde eu sabia podiam ter lobos nossos lá dentro, e isso não era bom.

Estacionei a três quadras da casa e liguei para Connor. Aquilo me cheirava à invasão. Obviamente não somente a invasão da casa de Aidan, mas só podia significar uma coisa: Alguém sabia sobre Aidan estar fora e, tentando se aproveitar, estava querendo tomar nosso território.

Para se tomar o território de outro lobo, podia-se fazer de duas maneiras: A primeira maneira seria tomando sua alcateia, no caso, matando o Alpha e tomando seu lugar. A segunda maneira, apesar de mais trabalhosa, era menos arriscada para o lobo invasor em si, pois ele mesmo traria consigo sua própria alcateia, ou poderia formar uma ali na hora.

Claramente, os lobos que vi não eram nossos, portanto eu deduzia que o invasor estava tentando implantar sua alcateia no lugar da nossa e havia, aparentemente, tido sucesso em seu primeiro passo: tomar a casa do Alpha, que era considerado o coração de alcateia, onde todos eram bem-vindos e se reuniam.

Entretanto, ele ainda tinha de nos expulsar do território ou fazer-nos se juntar a sua alcateia, mas sob seu domínio. E isso ele não conseguiria.

— Alô? — falou Connor do outro lado da linha, soando despreocupado e fazendo-me ter certeza de que ninguém além de mim sabia da situação ainda.

— Connor, temos uma emergência. — Tentei me controlar para não berrar ao telefone, pois estava enfurecido com a ousadia daqueles lobos, contudo sabia que minha voz saia um tanto alterada.

— Fale, Clayton. O que aconteceu? — Agora eu havia chamado sua atenção, estava atento a minhas palavras.

— A casa do Aidan foi invadida. Está tudo quebrado, a porta arrombada. Consegui avistar cinco lobos de vigia no jardim da frente, mas estavam escondidos.

— Você não estava lá? — indagou Connor, acusatório.

— Não — rebati. — Alguém precisava sair para comprar a comida que alimenta esse bando de lobos. Além do mais, Mathias estava lá quando saí, e creio que Rebecca estaria voltando de sua corrida.

— Tem razão — admitiu, o equivalente a um pedido de desculpas. — Mas não confio em Mathias para guardar nossa casa! — xingou longe do telefone antes de continuar. — Até onde sabemos ele pode muito bem estar por trás disso!

— Eu não apostaria nisso, Con. Acho que Mathias estava ocupado demais pensando em outras coisas para orquestrar algo assim. Planejar uma invasão leva tempo.

— Quais coisas? — perguntou, curioso sobre minha certeza a respeito da inocência de Mathias.

Abafando uma risada, respondi:

— Rebecca.

— É claro — Connor bufou do outro lado de linha, permitindo-se rir. — Mas não temos como descartá-lo totalmente.

— A menos que alguém o ache — sugeri. — Sério, Con, eu apostaria que Mathias não está envolvido. O cara estava mal, Becca estava fugindo dele e ele estava pressentindo levar um pé na bunda.

— Hmpf.

— Além do mais, o cara é apaixonado pela Rebecca. Ele não faria isso.

— Nem para tentar conquistá-la?

— O quê? — Connor havia me pego desprevenido.

— Pense, Clayton, pelo que ouvimos sobre a missão deles de caçar Elizabeth Roman, a única coisa que impede os dois de, de fato, levarem um relacionamento adiante é Aidan.

— Você acha que ele faria isso? Tomaria o lugar do Alpha?

— Estaria tomando mais do que seu lugar, estaria tomando sua fêmea. — Connor deu uma curta risada, pois todos a víamos como sendo justamente isso, mesmo ela nos matando se soubesse. — E ele tem os lobos para isso.

— Não tive como reconhecer aqueles lobos, nunca vi os solitários transformados e passei muito rápido para conseguir pegar algum cheiro — comentei. — Mas, sério, Con, isso não está cheirando a Mathias.

— Ele é um solitário, cara, e trouxe consigo um bando igual a ele. É uma coisa típica de solitários desgraçados tentar tomar o território alheio.

— Podem ser os outros lobos — sugeri, pensando nos reforços que Joseph havia cedido.

— Os homens de Seattle? — indagou. — Acha mesmo que eles fariam isso? Têm sua própria alcateia, uma alcateia poderosíssima, inclusive.

— Talvez estejam fartos de viver em uma alcateia tão grande. Com tanta gente, passam despercebidos. Aqui, seriam os únicos donos do pedaço. Além disso, aquele Maxwell sempre me cheirou a problema. Lembra quando ele apareceu no almoço depois que Becca acordou?

— Lembro — recordou Connor, sua voz carregada de preocupação. — Ela não gosta dele, mas não quis falar a respeito.

— Exato. Se Becca não gosta do cara, eu não gosto do cara.

— Talvez você tenha razão, Clay — admitiu Connor, pensativo. — De qualquer forma, precisamos nos reunir para ver como abordar essa situação. Você falou em cinco lobos de vigia?

— Que eu consegui distinguir, sim. Talvez houvessem mais. Está começando a escurecer, talvez eu tenha perdido um ou dois. Mas tenho absoluta certeza de que são mais do que isso, caso contrário não tentariam tomar nosso território com tão poucos.

— Muito bem. Vou ligar atrás do pessoal e ver se não ficou ninguém preso lá dentro da casa. Acho arriscado nos reunirmos na casa de qualquer um de nós. Até onde sabemos eles podem estar apenas nos esperando voltar de nossos trabalhos ou já podem ter feito os outros que ficaram em casa de reféns. — Connor planejava tudo com a devida responsabilidade de um Gamma, Terceiro em Comando.

— Onde nos encontraremos, então?

— Vá direto para nossa floresta. Nos reuniremos no estacionamento. Duvido muito que algum daqueles lobos esteja pensando em dar uma corrida numa hora dessas.

— Está certo. Tente falar com Becca. Se ela não atender, pode ser porque ainda está correndo ou, o pior, que tenha sido pega. Ela já deveria ter voltado para casa há essa hora.

— Sinto muito, Clayton — disse Connor, com a voz entristecida. — Não podemos ir atrás dela de cara. Se ela tiver sido pega, mesmo assim teremos que nos reagrupar e montar um plano de ataque. Temos que avisar Aidan ou Trevor e, daí sim, tomar nossa casa de volta.

Suspirei, apertando as mãos contra o volante em frustração.

— Sei que está certo, Con, mas o amaldiçoo por isso.

— Vamos torcer para ela ter decidido estender sua corrida, irmão.

— Vamos torcer — concordei, desligando o celular e acelerando, rumo à floresta.

~x~

Mathias

— Maldita seja — grunhi, amassando um besouro com o pé enquanto caminhava pela trilha. — Ela vai se arrepender um dia. Vai ver o erro que cometeu, mas será tarde demais.

‘Será?’ perguntou meu lobo, sem ele mesmo saber a resposta. ‘Temos de superá-la, mas, se ela voltar, conseguiremos mesmo mandá-la de volta para casa?’

— Provavelmente não — respondi com um suspiro. — Se ela voltar, nós a aceitaremos. Porque somos idiotas e imbecis, e só caímos por garotas idiotas e imbecis.

Chutei uma pedra em protesto, que saiu rolando pela trilha. Eu não sabia o motivo, mas havia decidido voltar para a floresta depois que Rebecca havia me dado seu adeus. Essa floresta não era minha, nenhuma floresta era, já que eu e meu lobo preferíamos a vida de nômade, mas ela havia conquistado um lugar especial em meu coração.

‘Porque é a floresta dela.’

Amaldiçoei Rebecca pela centésima vez e, enraivecido novamente ao lembrar-me dela, decidi voltar. Eu não tinha para onde voltar, exatamente. Talvez pegasse minha moto e voltasse para Vegas. Talvez eu convencesse meus amigos a ir comigo para outras bandas.

Meus amigos, inclusive, que eu não via há alguns dias. Desde que Becca acordara eu não os vira e, mesmo alguns dias antes eles tinham estado meio distantes. Provavelmente porque estavam fartos de me esperar aqui, nesse fim de mundo que alguém decidiu chamar de capital.

Chegando perto do estacionamento, comecei a ouvir vozes. Aguçando meus ouvidos, reconheci Clayton e alguns outros lobos da Alcateia de Columbus. Talvez estivessem aqui para fazer uma caçada em grupo, mas a noite havia apenas caído há uma hora, achava cedo para uma corrida em grupo. Decidi juntar-me a eles, mesmo que eu corresse o risco de trombar com Rebecca. Precisava avisá-los de que eu iria embora, mesmo que Aidan e os outros lobos não tivessem voltado ainda. Eu simplesmente não iria mais ficar aqui, não com Rebecca tão perto de mim e tendo me rejeitado como rejeitou.

— Se haviam cinco no lado de fora, no mínimo têm mais cinco lá dentro. Eles não colocariam a maioria somente de guarda na frente.

— Nate tem razão. Cinco na frente. Mais uns três atrás e nas laterais. O líder deve estar lá dentro, desfrutando que nem um filho da mãe das coisas de Aidan com mais um grupo de lobos.

— Espero pelo bem do desgraçado que nesse caso esteja desfrutando apenas de coisas materiais.

— Você está dizendo o que eu acho que está dizendo, Liam?

— Pensem. Se Rebecca está mesmo lá, e deve estar pelo que Clayton contou e por ela não atender o telefone, ela está a mercê deles.

— Por todos os diabos! — reconheci Clayton. — Connor, não consigo esperar mais!

— Ainda não consegui falar com nenhum dos caras na Cidade do México. Preciso, no mínimo, avisá-los do que os espera e do que vamos fazer.

— Maldição!

Ouvi o som de punho chocando-se contra árvore e franzi o cenho. Precisava saber o que estava acontecendo e que estava deixando todos os lobos tão apreensivos e violentos.

Aproximei-me com cautela, não querendo alarmá-los ou fazê-los descontar sua inquietação em mim. Movimentei-me de forma propositalmente barulhenta, forçando-os a notar minha presença e sem correr o risco de pegar ninguém de surpresa.

— Mathias? — Connor perguntou ao me ver, parecia, apesar de meus esforços, ainda muito surpreso com minha aparição.

— Vim dar uma caminhada — expliquei-me, incomodado que todos me olhavam com tanto espanto. — O que está havendo?

— Eu falei que ele não tinha nada a ver com isso! — exclamou Clayton, desfazendo por um breve momento sua carranca e sorrindo para mim. — O cara é inocente.

— Pelo que me parece, é mesmo — respondeu um confuso Connor.

— Eu sinceramente não sei do que estão falando.

— Estamos sendo invadidos — explicou-me o ruivo Liam. — E achávamos que você era o responsável.

— Eu? — perguntei indignado. — Por que achariam que eu faria uma coisa dessas?

— Porque é um solitário em um território com uma pequena alcateia que está perigosamente desprotegida. — Spencer respondeu-me, como se fosse óbvio.

— Mas estou aqui com meus amigos justamente para protegê-los!

— Sim, mas…

— Mas, desculpe, você era nosso principal suspeito. — Fiquei chocado com o pedido de desculpas, mas, vendo que foi Liam, um dos mais submissos quem o falou, aceitei-o de bom grado.

— Vocês pensaram em mim, mas não pensaram naquele canalha do Maxwell?

Connor e Clayton se entreolharam.

— Ele era nossa segunda opção, pois também não conseguimos falar com ele. Mas ele era menos suspeito, tendo em vista que já possui uma boa posição em sua alcateia. — Connor falou, calmamente, apenas esperando minha reação.

— Logicamente faz mais sentido culpar o solitário. Afinal, os solitários são sempre meio pirados e certamente devem invejar a sintonia e organização de uma boa alcateia — falei em deboche.

— Espere, — falou Liam novamente. — por que diz que Maxwell é um canalha?

— Pelo fato de ele estar nos invadindo? — brincou Spencer, mas Liam bufou.

— Mathias xingou-o mesmo sem ter a certeza de ele ser mesmo culpado, sugerindo que algo no passado o faz ter essa animosidade. Aconteceu alguma coisa entre vocês dois?

— Nem parece que o psicólogo é George — riu Nate, descontraindo o grupo um pouco.

— Advogados também são perspicazes — respondeu Liam, dando de ombros.

— Bem, — comecei, após terem me dado uma brecha para responder. — aconteceu alguma coisa entre Rebecca e ele. Várias coisas, na verdade.

Todos me olhavam incrédulos, como se eu estivesse inventando tudo aquilo. Revirei meus olhos antes de continuar.

— Ela nunca lhes contou porque não queria causar um escândalo. Não queria causar problemas enquanto Maxwell e seus lobos estavam aqui para ajudar a alcateia. Não me olhem com essa cara, ela mesma me contou tudo isso.

Dito isso, eles desfizeram suas carrancas e caras de espanto e receberam minhas palavras com mais atenção. Contei para eles resumidamente o que Becca havia me dito sobre seu tempo em Seattle, sobre sua convivência com Maxwell e os amigos mais próximos dele.

— E, para finalizar com chave de ouro, — falei, sarcástico. — Rebecca foi atacada por ele quando eu e ela viemos apostar corrida aqui nessa mesma floresta.

— Atacada? — rosnou Connor, seus instintos de Terceiro em Comando entrando em ação. — Atacada como? Ela se feriu?

— Ele tentou estuprá-la, — expliquei com um suspiro. — mas ela conseguiu fazê-lo ir embora antes que coisas piores lhe acontecessem. Não se feriu gravemente, nada que algumas horas de cura lupina não resolvesse.

— E mesmo assim ela foi correr sozinha hoje de manhã? — rugiu Clayton. — Se eu soubesse nunca a teria deixado ir!

— Ela me implorou para não contar — defendi-me. — Também fiquei desesperado quando vi que ela não estava hoje de manhã, como você deve muito bem lembrar, Clayton — ataquei-o, fazendo-o recordar que ele não me deixara ir atrás dela de jeito nenhum.

— Mas essa mulher é incrivelmente estúpida! — Clayton estava extremamente irritado com ela, e com toda a razão.

— Acalme-se, Clayton — Connor ordenou, o que o fez fechar seus olhos e respirar fundo no ato. — Spencer, tente novamente falar com Trevor. Nate, tente Riley. Liam, chame George.

— Não podemos deixar Rebecca passar nem um segundo mais do que o extremamente necessário com aquele cara — falou Spencer, enquanto discava rapidamente algum número em seu celular. — Já faz um bom tempo que ela está lá.

— Mas eu preciso avisar Aidan antes. Não tenho escolha. Vamos tentar até conseguir alguém. Liam, passe o telefone para Mathias. Enquanto isso, pegue o celular dele e disque o número de Robert. Precisamos falar com qualquer um a essa altura.

Continuamos a tentar nos comunicar com alguém por um bom tempo. Nenhum dos lobos da alcateia, nem Scarlet, atendiam seus telefones. Liam conseguiu entrar em contato com Robert, mas foi de pouca ajuda, pois Robert não sabia do paradeiro dos lobos também. Por algum motivo eles não estavam em seus quartos de hotel e não havia sinal de onde poderiam ter ido. O máximo que Robert pôde fazer foi avisar seus irmãos no Maine do que estava acontecendo.

Depois de um tempo interminável, ouvimos uma voz falar ao ouvido de Connor.

— Alô, Connor? O que está havendo, estão todos bem? — Era Aidan, mas sua voz parecia arrastada, como se ele estivesse meio chapado. — Vi que tentou me ligar várias vezes. Eu estava, bem, fora de área, digamos assim. É uma longa história.

— Aidan, graças a Deus você atendeu. — Connor suspirou, aliviado, finalmente tendo conseguido entrar em contato com seu Alpha. — Estamos sendo invadidos.

Connor então prosseguiu em detalhar todos os acontecidos até o momento para Aidan, quantos lobos havia e quais eram os suspeitos. Fiquei surpreso em ouvir que eles achavam que meus amigos estavam envolvidos, mas, pensando mais a fundo, eu mesmo não descartaria essa possibilidade. Estavam agindo de forma muito estranha e, além do mais, talvez desejassem ter um pouco de poder para eles mesmos. Apenas me surpreendi que não haviam me contado nada. Deveriam saber que eu jamais apoiaria uma coisa dessas.

Quando Aidan perguntou se estavam todos bem novamente, Connor hesitou por um momento antes de falar.

— Rebecca está entre eles — avisou com cautela. — Temos quase absoluta certeza de que ela estava na casa quando a invadiram.

Naquele momento todos ouvimos um ruído horroroso e a ligação cair.

— O que… aconteceu? — perguntei.

— Tenho quase certeza de que ele esmagou o celular — respondeu Connor, pestanejando e pegando outro celular para ligar para outro lobo.

Conseguiu então falar com Trevor que, após se certificar de que Aidan estava mais calmo e não destruiria nenhum aparelho a mais com sua força bruta, passou o telefone para eles discutirem o que fazer.

— Vocês vão cercar a casa — instruiu o Alpha. — Estudem bem o local e apenas observem, não quero nenhum lobo morto e estaremos em minoria mesmo quando eu chegar. Vou imediatamente atrás de Robert e pedir que nos leve em seu jato até aí, mas demorarei ainda algumas boas horas a chegar. Não quero que invadam a menos que seja absolutamente necessário. Quero que se mantenham a distância, sem serem notados. Fiquem com os olhos fixos na casa, na movimentação. Quero, no mínimo, dois pares de olhos na Rebecca o tempo inteiro até eu chegar, entendeu?

— Está certo, Aidan — respondeu Connor, frustrado por não poder entrar em ação. — Mas como conseguiremos passar despercebidos por eles? Não acha melhor já iniciarmos o combate?

— Não! De jeito nenhum. Eles definitivamente tem a vantagem nos números e, não se esqueça, esses são lobos mandados para nos ajudar. Os melhores de Joseph e, bem, uns solitários jogados ali no meio — falou com desdém, fazendo-me rosnar baixinho. — Espere-me chegar se for possível. Mesmo com todos, não será uma luta fácil. Pedirei auxílio ao Clã Ventrue de Cincinnati. Fique tranquilo, tenho certeza de que conseguirão chegar rapidamente, são bruxos, afinal. — Com um suspiro, continuou. — Ficaremos devendo uma às bruxas. É algo perigoso ficar devendo um favor a uma bruxa, mas não temos escolha.

— Está bem, Aidan. Estamos na entrada da floresta habitual. Por favor, faça-os se apressar, e faça Robert se apressar também. Estamos preocupados.

— Eu também, Connor — rosnou Aidan, senti em sua voz que seu lobo estava prestes a se soltar. — Eu também.

~x~

Lucius

— Luke, o que você acha desse aqui?

Alice falou em um tom sensual, enquanto desfilava pelo seu quarto. Estava há mais de meia hora tentando escolher um vestido, mas eu tinha quase certeza de que era proposital. Ela estava apenas buscando uma desculpa para ficar demonstrando suas curvas na minha frente. E não era eu que iria reclamar.

— Prefiro o outro — respondi, lembrando-me do vestido prateado que tinha um enorme decote nas costas que ela havia acabado de provar. Usava um vermelho agora, mas o outro era mais sensual.

— Esse é mais comportado — argumentou. — Estamos indo à festa de retorno de seu pai, afinal.

— Você é quem sabe — falei, pondo meus braços atrás de minha cabeça e me acomodando melhor em sua cama, onde estava deitado e sem roupas. — Meu pai não teria problemas em te ver com um vestido escandaloso. Mas teria que lidar com Dona Gwyneth e suas escudeiras — brinquei, referindo-me a minhas cunhadas, que certamente desaprovariam.

Com um suspiro, Alice rebolou de volta até seu closet, onde provavelmente provava ainda mais um novo vestido.

‘Quantos vestidos de festa essa mulher tem?’ indagou meu lobo, surpreso por ela ainda ter alguma roupa que nós não havíamos visto para provar. ‘Ela não cansa disso não?’

— De certo a faz se sentir bonita — sussurrei.

‘De fato é bonita, mas não precisa dar esse show.’

— Eu não estou reclamando.

‘Eu sei que não, e isso me incomoda’, bufou meu lobo e decidi ignorá-lo e aproveitar a mulher que eu tinha diante de mim.

Após mais alguns minutos, Alice apareceu novamente de seu closet, desta vez com um longo vestido verde esmeralda de mangas compridas, porém com um corte que deixava à mostra metade de sua coxa direita.

— O que acha desse, Luke? — perguntou, fazendo, pela milésima vez, seu caminho pelo quarto como se fosse uma modelo, rebolando e rodopiando para mostrar-me todos os ângulos de beleza que ela possuía.

Por mais linda que ela estivesse naquele vestido, por mais delineado e desejável que seu belo corpo ficava com aquele corte, algo naquele modelo me incomodou. Franzi o cenho e ela fez um bico ao ver minha expressão.

— O que há de errado com esse? É minha perna, não é? — respondeu a si mesma, sem me dar uma chance de dizer nada de imediato, como era de costume. — Minha perna à mostra é demais para a festa do Letum, é isso, não é?

— Não — respondi. — Não é isso. É só… Não sei, não gostei desse. Não sei dizer o que é, mas não use esse.

Com um suspiro e um negar de seu cabeça, voltou ao closet, parecendo irritada por eu ter tido tanta aversão a um de seus vestidos, certamente um dos modelos que ela achava mais sexy.

‘Você sabe sim porque não gostou daquele’, começou meu lobo, irritando-me. ‘Apenas não quer admitir.’

— Não sei do que está falando. Apenas achei estranho — sussurrei, certo de que Alice estaria muito ocupada em meio às suas roupas para conseguir captar minha conversa interna.

‘Ah, sabe.’ ele deu uma risada sarcástica, irritando-me mais. ‘Aquele vestido, naquele tom… Em que você pensa quando vê aquela cor, Luke?’

Involuntariamente, peguei-me mentalizando o rosto de Scarlet Briggs, rosto esse que eu já não via há tanto tempo. Meses, que mais pareciam anos. Seu cabelo ruivo, à luz do sol, emoldurava sua face, onde seus olhos verdes profundos me encaravam com carinho. De repente, seu cenho se franziu, e seus olhos estavam carregados de mágoa e ressentimento. Balancei a cabeça e pisquei os olhos, tentando tirar a imagem dela de minha mente.

‘Você pensa nela, Luke. Em seus belos olhos que você tanto adora olhar. Não quer Alice vestida daquele jeito, pois aquela cor sempre remeterá à Scarlet.’

— Que coisa besta — resmunguei. — Scarlet se foi. Estraguei qualquer coisa que poderia ter acontecido com ela. Além do mais, estou aqui agora, e tenho Alice.

‘Alice não é Scarlet, Luke, e nunca será. Eu já percebi isso, só me pergunto como é que você ainda não percebeu.’

Rosnei para mim mesmo, levantando-me da cama e indo ao banheiro jogar uma água no rosto.

— Luke? — chamou Alice, notando minha ausência no quarto.

— Já vou — respondi, olhando-me no espelho.

Eu era Lucius Latham, terceiro filho de Octavian Latham, Letum do continente norte americano. E ultimamente estava discutindo com meu lobo feito um idiota, como eu nunca havia feito antes. Todas as discussões tinham a ver com uma só pessoa. Uma só raposa.

—x-

A festa estava entediante, como era de se esperar. Eu nunca gostara desses eventos formais, mas sempre fora obrigado a participar deles. Antigamente, para me distrair do papo político e das incontáveis conversas fiadas que tinha de ter com as pessoas importantes, ficava correndo atrás das moças. Dessa vez, porém, eu estava acompanhado e, apesar de minha acompanhante estar absolutamente deslumbrante no vestido prateado que eu havia gostado, permitindo-me admirar suas belas costas e pensar em acariciá-las, eu continuava entediado.

Comia alguns petiscos enquanto tentava manter uma conversa com nosso gerente de banco. Ele voltava a querer falar sobre as finanças, tentando convencer-me a investir uma parcela do dinheiro da alcateia, e eu voltava a distraí-lo com outros assuntos. Finalmente consegui me esquivar dele, indo até a mesa de bebidas e desejando muito poder encher a cara.

Avistei meu pai, sempre elegante e com a mulher nos braços, conversando com o Alpha da Alcateia de Halifax, Nova Escócia, no Canadá. Haviam sido convidados apenas os Alphas das alcateias vizinhas, como era de costume quando Dona Gwyneth dava suas festas. Logicamente, eles não sabiam o real motivo da festa, o fato de meu pai ter se recuperado de sua “pequena” ruptura mental, poucos sabiam disso. Para os outros, era apenas uma festa para comemorar mais um ano de casado de meu irmão Alexander e Pearl que, de fato, fariam aniversário de casamento naquele mês. Os dois, portanto, não se desgrudavam e pareciam perdidamente apaixonados. Eu sabia que os dois não estavam fingindo, como era de costume com acasalados que dão certo, estavam, realmente, perdidamente apaixonados até hoje.

Arabella, entretanto, mantinha-se distante. Percebi que estava deslocada, sendo a única fêmea acasalada a estar desacompanhada. Robert, para seu desgosto, ainda não havia voltado. Havia avisado que chegaria em breve, pois tudo já havia se resolvido, mas, ainda assim, não estava presente para acompanhá-la.

Após meus devaneios terem sido interrompidos algumas vezes por pessoas presunçosas, vi uma bela mulher adentrar o salão. Sua beleza chamou a atenção de praticamente todos ali presentes, mas senti que havia algo mais. Meus olhos não conseguiam se desgrudar dela, mas não necessariamente por admiração. Comecei a me sentir um pouco aflito, fazendo-me recordar de vezes em que meu pai ficava muito irado. A mulher tinha algo parecido com a energia de um lobo dominante, deixando-me desconcertado. Não havia dúvidas, era uma bruxa, e das poderosas.

A loira esbelta caminhou até meu irmão. Curioso e convencendo meu lobo de que ela não era uma ameaça, peguei um petisco e fui me juntar. Enquanto a bruxa caminhava até eles, vi Alexander sussurrar algo no ouvido de minha cunhada que a fez deixar os dois a sós, visivelmente a contragosto.

— Olá, senhorita — falei, cumprimentando-a e fazendo Alexander franzir o cenho. — Creio que não fomos apresentados ainda.

— Olá — cumprimentou-me com sua voz melodiosa. — Pela sua aparência e visível semelhança com o Letum, deduzo que seja seu filho mais novo, Lucius. É um prazer conhecê-lo.

Bufei com a falta de atenção daquela mulher. Ou ela era muito esquecida, ou então muito prepotente. Supunha, decerto, que eu já sabia de sua existência? Sabia quem eu era e julgava-se mais importante do que eu, ao ponto de ela não precisar se apresentar? Contei até dez mentalmente e decidi deixar passar.

— O prazer é todo meu — respondi, mas ainda insatisfeito. — Mas você ainda não se apresentou.

— Oh, não sabia que era preciso — disse em tom ousado, mas com um sorriso deslumbrante. Percebendo que nem eu, nem meu irmão achamos graça alguma, cedeu e se apresentou. — Sou Fiona Ventrue, filha de Lilith Ventrue, Akasha das bruxas.

Havia confirmado minhas suspeitas, era de fato uma bruxa, mas não uma qualquer. Era a próxima Akasha, nome dado à líder das bruxas, à mais poderosa. Em termos de política sobrenatural, Fiona era o equivalente das bruxas ao que Robert era dos lobisomens.

— Lucius, certamente Alice deve estar sentindo sua falta. — Alexander me olhou, impaciente, achando sem dúvidas que Fiona queria conversar com ele a sós.

— Creio que não. Parece estar se divertindo conversando com os outros sem eu fazendo sombra nela — retruquei, de repente interessado no que a próxima Akasha tinha a dizer para meu irmão.

— Acasalou, lobo? — perguntou Fiona, certamente surpresa por não ter recebido a notícia do último filho solteiro do Letum ter decidido atar seus laços.

— Céus, não — apressei-me em esclarecer. — Ela é só minha… minha…

— Sua namorada, Lucius. Ela é sua namorada — respondeu Alex, revirando os olhos.

— Se quiser chamar assim — dei de ombros.

— Vejo que não por muito tempo — brincou Fiona, dando uma risadinha.

Alexander não riu e nem eu. Não havia gostado de ela debochar de meu relacionamento, seja ele qual fosse.

— De qualquer forma — continuou Fiona. — Eu estava apenas querendo alertar seu irmão sobre algo. Na verdade o correto seria Robert receber esse… conselho, mas em sua ausência, contento-me com vocês.

— Não queira começar uma discussão, Fiona. Nos damos bem por um motivo: respeito mútuo. Não nos trate como inferiores — alertou Alexander.

— Oh não, longe de mim achar-me superior por ser uma bruxa, sabe, uma raça muito mais antiga do que os lobisomens — murmurou, sarcástica, mas por pura política vi Alexander esforçar-se para não retrucar com palavras duras e mal-educadas.

— Sobre o que queria alertar? — perguntei, tentando mudar o foco da conversa. — Creio que, se é para os ouvidos de Alex, pode ser para os meus também.

— Muito bem, se todos os meninos Latham querem saber, falarei, mas peço que contem a Robert assim que ele chegar. — Assentimos. — Como sabem, meu clã, sendo o clã da Akasha e, evidentemente, o mais importante, tem o dever de estar envolvido nos assuntos sobrenaturais da região. Portanto, a estabilidade lupina nos interessa e muito.

— Continue — pediu Alex.

— Levando em conta os acontecimento atuais — falou, tomando cuidado para não revelar nada que ninguém que estivesse por perto pudesse descobrir. — e o que aconteceu com seu pai, devo fazer uma pequena intervenção. É um conselho, mas seria tolice não segui-lo — advertiu.

Continuando com um sussurro para não conseguir ser ouvida, apesar da grande barulheira que estava o salão, prosseguiu.

— A Akasha já viu vários lobos não aguentarem o peso do tempo — continuou. — Creio que vocês também devem ter ouvido falar ou visto com seus próprios olhos. É algo perigoso e quase certo de se acontecer, a menos que o lobo morra antes.

— Acho que estou entendo onde quer chegar — murmurei, incomodado, trocando um olhar significativo com meu irmão.

— É verdade que apenas observamos as coisas de longe, mas estamos seriamente preocupados com a capacidade de seu pai, no momento.

— No momento? — perguntou Alexander.

— Certo, não no momento. Para sempre.

— O que quer dizer?

— Acho — suspirou. — que está na hora de passar para frente.

— Passar o que para frente?

— Você sabe o que, Lucius — retrucou a loira, impaciente, fitando-nos com atenção.

Arregalei meus olhos e virei-me para meu irmão.

— Acho que isso é algo que teremos que discutir entre nós mesmos, Fiona. — Alexander falou. — Conversaremos com Robert. Agradecemos sua, bem, preocupação.

— Escute-me, Alexander — pediu Fiona. — Dê ouvidos ao meu conselho. Isso é perigoso. Não deixe nada terrível acontecer por não ter tomado uma decisão. Nós bruxas estamos nos preparando, vocês lobos deveriam fazer o mesmo.

— Nos preparando para o quê? — não consegui não perguntar.

— Ah, lobinho, mal sabe você. Tempos difíceis estão por vir, é algo que conseguimos pressentir. Por isso aconselho a não perderem tempo nem energia com outras coisas — Irritava-me como tratava a questão da sanidade de meu pai com tanta levianidade. — A propósito, meus parabéns por mais um ano de casado, Alexander — falou, dando uma piscadela para nós.

Com isso, Fiona Ventrue pediu licença com um aceno e foi, também, fazer a parte social que lhe era demandada. Impaciente, virei-me quase que de imediato para Alex.

— Você acha que ela tem razão? Acha que teremos que — abaixei meu tom de voz. — fazer o Letum se aposentar?

— Ele não se aposentará, Luke — respondeu Alex, falando com rapidez, pois sua mulher já fazia seu caminho até ele. — Ele não dará seu lugar para Robert, nem para ninguém. Nosso pai ama demais seu poder, jamais renunciará.

— O que faremos então?

— Por enquanto, deixaremos as coisas como estão. Ele acabou de voltar, vamos ver se as coisas estão tão ruins como as bruxas acreditam estar.

— E se estiverem? — indaguei, também percebendo que Alice vinha junto de Pearl.

— Então… — meu irmão suspirou. — Então teremos de tirá-lo a força. Mas rezo para isso não vir a ser necessário.

Com um sorriso forçado, recebemos nossas respectivas fêmeas e fui forçado a retornar à monotonia da festa.

Notas finais
Muito obrigada por me acompanharem por mais um capítulo! Espero muito que tenham gostado e que decidam dividir suas opiniões e sugestões comigo nos comentários. Desculpem, como sempre, qualquer erro que possa ter me escapado. :] Beijos a todos e vejo vocês no próximo, que, olha, promete e muito! haha