Notas iniciais
Obrigada pela paciência de sempre, seus lindos ♥ Espero muito que apreciem a leitura de mais um capítulo!

Aidan

Para minha surpresa, eu estava mais preocupado do que furioso. Claro, eu havia quebrado meu próprio celular em desespero quando soube sobre Rebecca estar sendo refém dos invasores, mas meu lobo estava conseguindo manter-me calmo, de alguma forma. Certamente com o propósito de me manter lúcido o suficiente para tomar a liderança e agir de forma eficaz, sem perder tempo e certificar a segurança de Rebecca o mais rapidamente possível.

Scarlet e eu havíamos saído de nosso transe e nossa visita ao mundo espiritual. Apesar de muito inesperada e perigosa, havia sido uma experiência única e, eu sabia, provavelmente não se repetiria para mim. Havia sido minha primeira e única visita àquele plano.

Quando saímos, um sentado em frente ao outro na sala lotada de Fernando, trocamos um olhar que transmitia mais de mil palavras. Ela não contaria nada que havia visto entre eu e Yenila, ou melhor, entre eu e as ilusões de Yenila. Além disso, havíamos criado um vínculo, depois de passar por tamanha experiência e perigos juntos. Eu me sentia mais próximo da raposinha, e entendia ainda mais como ela era poderosa, de sua própria maneira.

Os Selvagens e meus lobos, que àquela altura estavam lá, festejaram quando nos viram acordados, mas não tivemos muito tempo para poder celebrar. Logo em seguida, atendi meu telefone insistente e meu mundo desabou. Todos meus lobos ouviram a conversa pelo telefone e Scarlet, entendendo-a pelas minhas respostas, juntou as peças do quebra-cabeças.

Scarlet teimou comigo, de início. Queria ir junto, queria ajudar sua amiga desesperadamente. Queria arrancar o couro de Maxwell e também de Mathias, por não estar mais envolvido no que seus próprios amigos estavam fazendo. Entretanto, puxei-a para o lado e consegui convencê-la de que ela já havia feito tudo o que podia pela Becca até agora, e não havia sido pouco. Havia sido graças a ela que Bexi estava reunida com Becca e, apesar de ter ficado presa com Yenila, havia completado sua missão, havia honrado e salvado Rebecca.

Após uma longa discussão em que eu não pude usar minha dominância, coisa que sem dúvidas faria se estivesse lidando com uma loba, consegui fazê-la compreender que ela precisava ficar na Cidade do México. Precisava passar mais tempo ainda sob a tutela do Sr. Gutierrez e os outros Selvagens. Eu sabia que ela não queria ficar ou morar aqui, mas precisava passar um tempo com sua “alcateia” temporária. Ainda tinha muito o que aprender, coisas que, por direito, ela já deveria saber, mas havia sido privada pelo Letum. E eu sabia que, se ela voltasse para Columbus, iria demorar a voltar a vir para cá.

Sem perder mais tempo, deixei sob os cuidados de Trevor achar Robert e pedir que nos levasse de volta para Columbus com rapidez. Enquanto Riley tinha uma longa conversa e despedida com Scarlet, tomei coragem e decidi que estava mais do que na hora de ligar para o Clã Ventrue. Pedi licença para as pessoas na sacada de Fernando e me tranquei lá fora.

Pensei em ligar para várias pessoas. Pensei em ligar, principalmente para uma em especial, mas eu não estava com energia para isso. Se eu fosse ligar para ela, sei que a conversa levaria muito mais tempo do que eu estava disposto a perder. Não que eu considerasse a conversa uma perda de tempo, mas não era o momento para aquilo. Não ainda. E eu não estava pronto para ter de encará-la, por enquanto. Além do mais, eu não sabia nem como conseguir seu telefone.

Porém, eu sabia que conseguiria o telefone de uma das pessoas mais fáceis de ser achada do clã, que eu sabia que poderia ajudar-me tão bem quanto ela. Fiz uma rápida pesquisa pelo celular do Trevor e achei o telefone da clínica de pediatria de Claus Ventrue. O telefone chamou apenas duas vezes até ser atendido.

— Clínica de pediatria do Dr. Claus Ventrue, como posso ajudá-lo? — Era a secretária.

— Olá, é, meu nome é Aidan Rucker e eu gostaria de falar com o Dr. Ventrue.

— Desculpe-me senhor, mas o doutor está bastante ocupado no momento. Você tem alguma consulta marcada, sua criança não está se sentindo bem? Devo aconselhá-lo a ir para o hospital mais próximo, se for o caso, pois o doutor raramente tem espaço para fazer algum encaixe.

— Olha, moça, não tenho filho nenhum, mas é uma emergência. Preciso falar com o Dr. Claus e sei que ele vai querer atender essa ligação.

— Senhor, desculpe, mas isso é muito fora do comum-

— Apenas repasse a ligação, por favor. Diga quem sou, sou um velho amigo. Garanto que você não será repreendida por passar essa ligação — cortei-a, ficando impaciente.

A secretária deu um longo suspiro antes de me dirigir a palavra novamente.

— Está bem, Senhor Rucker, mas peço que não volte a usar esse número para falar com o doutor sobre outros assuntos. — E assim, repassou a ligação, fazendo-me bufar em irritação por não poder simplesmente explicar para uma humana as emergências que se passavam no mundo sobrenatural.

— Alô? — A voz de Claus Ventrue soou do outro lado da linha. Percebi um pouco de confusão em sua voz, o que era compreensível. Já fazia mais de vinte anos que eu não falava com Claus, apesar de eu já ter sido bastante próximo do bruxo.

— Olá, Claus — falei para ele, sentindo um sorriso sincero se formar em meus lábios.

— Aidan? É você mesmo, menino? — Não pude conter uma risada de felicidade. Havia sentido saudades do velho Claus.

— Sim, Claus, sou eu mesmo — respondi, contente.

— Há quanto tempo, rapaz! — gargalhou do outro lado da linha. — Como andam as coisas, está tudo bem? — De repente seu tom ficou sério. — Pensando melhor, para você estar me ligando depois de vinte anos, tenho certeza de que as coisas não estão bem — falou, sem dúvida lembrando de como eu e Fiona rompemos e nos afastamos completamente por vinte anos sem dar notícias um ao outro.

— Tem razão, Claus. Sinto muito ter de entrar em contato contigo dessa forma, mas estou um tanto quanto desesperado. Minha alcateia está sendo invadida e eu não estou em meu território.

Aflito, expliquei da melhor forma que pude, ao mesmo tempo sendo direto e sem perder tempo, o que estava se passando com minha alcateia e quais eram meus planos de ação. Expliquei para ele sobre minha ideia de camuflar os cheiros de meus lobos, para poderem supervisionar a situação sem serem detectados até eu poder chegar. Claus ficou pensativo por alguns instantes, até, enfim, dar sua opinião.

— Está metido em uma baita enrascada, rapaz. Mas não duvido de suas habilidades. Tenho ouvido falar que se tornou um tremendo Alpha. — Ao ouvir isso meu lobo se encheu de orgulho por dentro. — Para sua sorte, meu amigo, Jason está fazendo uns trabalhos bem perto de Columbus. Creio que ele conseguirá chegar para ajudar seus amigos mais rapidamente do que qualquer outro de nós. — Sorri ao lembrar de Jason, outro velho amigo, talvez o mais próximo de todos. — Vou passar o número dele, daí vocês dois se acertem. Estou torcendo por você, Aidan. Estou mesmo.

Agradeci a Claus pela ajuda e prontifiquei-me a discar o número de Jason Mills. Secretamente, queria poder falar mais com o bruxo, matar mais as saudades de quem um dia quase tornou-se meu sogro.

— Alô, quem? — A voz grossa de Jason eu conseguiria reconhecer em qualquer lugar.

— E aí, cara — respondi simplesmente, sabendo que ele iria reconhecer-me também.

— Aidan? Ô seu filho da puta! Quanto tempo! — Gargalhei alto o suficiente para todo mundo dentro do apartamento olhar para mim na sacada. — Cara, não acredito que você tá me ligando.

— Estou sim, Jason, pode acreditar.

— Porra, pra você estar vindo matar as saudades depois de vinte anos é porque a coisa tá feia pro seu lado, não é não?

— Cara, sinto que estou ferrado — confessei, uma coisa que só conseguiria falar para um não lobisomem que há muito tempo havia sido meu melhor amigo. — Minha alcateia está sendo invadida e…

— Invadida? Cara, você está mesmo ferrado — falou Jason com preocupação. — Fica tranquilo, Aidan, que estou aqui perto e ajudarei como puder. O que mais que houve? Sei que tem mais alguma coisa.

Engoli em seco antes de responder. Era Jason, ele me conhecia melhor do que ninguém, mesmo tendo se passado vinte anos desde a última vez em que o vi.

— Tem uma fêmea de minha alcateia que está sendo feita de refém. Não quero nem pensar no que podem estar fazendo com ela. A última vez que parei para refletir sobre o que ela está passando, moí um celular — contei.

Jason ficou em silêncio por um momento.

— Ela não é uma fêmea qualquer, não é?

— Não, não é — suspirei. A esse ponto eu já não via mais porque esconder isso, muito menos de Jason.

— Então está decidido. Conte-me o plano que eu chego em Columbus em quinze minutos.

Mais do que agradecido por esses bruxos estarem dispostos a ajudar a mim e aos meus, expliquei, como fizera com Claus, tudo o que aconteceu e o que eu pretendia fazer.

— É arriscado, Aidan — advertiu-me Jason. — Mas é o mais sábio a se fazer na sua situação — tranquilizou-me. — Sobre sua ideia de fazer seus lobos perderem o cheiro, dá pra usar uma poção mágica para isso. É só fazer cada um tomar uma pequena quantia do líquido que ninguém os perceberá pelo olfato.

— E você sabe fazer essa poção? — perguntei.

— Saber eu sei, mas vai ficar uma merda. — Jason riu alto, fazendo-me ter de afastar o telefone. — Acha mesmo que sou bom em misturar ervinhas? — Sorri. — Vou pedir à Emília que faça, ela está por perto também. Daí busco rapidamente a poção com ela e entrego a seus lobos.

— Estão a sua espera na floresta perto do aeroporto — informei. — Muito obrigado, Jason.

— Aidan, relaxa. Vamos dar um pau nesses lobos filhos da mãe, você vai ver. E vamos recuperar sua lobinha também.

~x~

Rebecca

A raiva que eu sentia era tremenda, era quase inimaginável. Sentia-me impotente, encurralada daquele jeito no meio da sala com Kenna ao meu lado, igualmente abalada. Já estávamos enfraquecidas e cansadas de nosso próprio confronto e não sabíamos o que fazer para impedir tantos machos de tomar o território como seu.

Maxwell, como o completo filho da mãe que era, perambulava pela casa como se fosse dele, deixando alguns lobos para nos vistoriar e ter certeza de que não sairíamos do lugar. Ouvia-o explorando a casa de meu Alpha, mexendo em suas coisas e fazendo comentários idiotas sobre a decoração ou ridicularizando itens pessoais que achava pela casa.

Adentrou o escritório de Aidan, que ficava no primeiro andar, e revistou toda a papelada. Intrometeu-se na vida de todos os lobos da alcateia, pois havia papéis à respeito de todos ali, inclusive eu. Comentava com escárnio para seus aliados sobre os salários de cada um de nós, principalmente o de Aidan. Quando finalmente cansou de se meter na vida alheia, sem dúvidas fazendo uma tremenda bagunça nos documentos importantes de Aidan, decidiu explorar o andar de cima.

Ouvi seus passos por todos os quartos de hóspedes, enquanto conversava sobre banalidades com um de seus amigos. Fechei meus olhos instintivamente quando percebi que ele havia entrado no quarto do Alpha. Maxwell vasculhou o quarto inteiro e, pela barulheira, não estava deixando nada no lugar. Eu sabia que ele não buscava nada em específico, apenas estava se divertindo e querendo ridicularizar o Alpha de quem ele havia tomado o território.

Eu sabia que Kenna e eu havíamos combinado, silenciosamente, que iríamos descansar um pouco antes de tentar fazer qualquer investida. Contudo, quando ouvi que Maxwell estava mexendo nas coisas da mesinha de cabeceira de Aidan, estava ficando muitíssimo difícil para eu ficar parada.

— Olha só, Geoff — sua irritante voz falou. — Olha como o temível Aidan era novinho.

O lobo chamado Geoff deu uma gargalhada e acrescentou:

— Olha a gata que tá do lado dele. — Já conseguia imaginar o que estavam olhando.

— Sim, maravilhosa — contribuiu Max com malícia. — Pelo visto estavam saindo do ensino médio nessa foto.

— Não parece ter sido há muito tempo.

— Não mesmo — concordou Maxwell. — Mas Aidan, pelo que ouvi falar, não é um lobo muito velho.

— Mais um motivo para não levar ele a sério.

— Com certeza, Geoff. Com certeza. — Maxwell riu. — Um cara que deixa a alcateia tão desprotegida só pode ser um amador.

Rosnei baixo, chamando a atenção de um dos lobos, mas disfarcei antes que eles pensassem que eu fosse atacar.

— Ei, olha isso — falou o outro lobo, Geoff, chamando Maxwell. — Olha esse álbum de fotos.

— Esses devem ser os pais dele.

Os dois examinavam o álbum achado por Geoff, álbum esse que eu não tinha visto, mas porque eu havia justamente me recusado a bisbilhotar as coisas pessoais de Aidan, o completo contrário do que eles estavam fazendo.

— Olha só — Maxwell deu uma risada abafada. — Esse deve ser Aidan bebê. Que criancinha gorda que era o temível Aidan. Nossa, olha a mãe dele nessa foto antiga. Eu comia essa aí sem pensar duas vezes.

Ambos riram e eu havia ouvido o suficiente. Com um breve olhar de desculpas a Kenna, que, como eu, precisava de mais descanso, pulei sobre o primeiro lobo.

Ele não estava esperando que eu atacasse, na verdade estava bastante desleixado, quase cochilando. Portanto, rolamos juntos até a parede frontal da casa, batendo forte contra a parede ao lado da porta da frente, que um deles havia conseguido arrumar no lugar. O lobo sob minhas patas tinha batido a cabeça forte e, para assegurar-me de que ele não incomodaria mais, abocanhei sua pata direita dianteira e a torci, conseguindo quebrá-la. Aquele levaria algum tempo para se curar.

Kenna, percebendo que os outros dois lobos que haviam sido designados a cuidar de nós estavam indo para cima de mim, saltou para empurrar um deles em pleno ar, fazendo-o desviar de seu trajeto e cair em cima da televisão. Enquanto isso, o outro acabou me pegando de surpresa, já que eu estava torcendo a pata do primeiro lobo.

Ele aterrissou em mim por trás, fincando suas garras em minhas ancas. Gani alto enquanto ele me puxava para o centro da sala, temendo que eu fosse tentar sair correndo porta afora. Como se eu fosse fugir como uma covarde e deixar minha nova aliada à mercê deles! Senti minha pele rasgando sob suas patas e, no desespero, consegui acertar-lhe uma patada no rosto com minha pata traseira. Desvencilhando-me dele e consumida pela raiva, avancei contra o mesmo lobo, querendo arrancar-lhe os membros dolorosamente.

Saltei para atingi-lo com impacto, mas fui atingida pela lateral por um lobo imenso que eu bem conhecia. Bem até demais.

Maxwell me prensou contra a parede onde a televisão havia estado pendurada, mas que agora se encontrava estilhaçada no chão. Bufou contra minha cara, tomado pela vontade de pôr-me em meu lugar, ao menos o lugar em que ele achava que eu deveria ser posta. Ah, ele não sabia o quão enganado estava.

Espiei para trás para ver como Kenna estava, mas a fêmea estava ensanguentada e cercada por três lobos, um deles na forma humana, que eu supus ser Geoff. Uma raiva espantosa tomou conta de mim, queria poder tirar esses imbecis de minha casa, queria poder proteger Kenna, queria poder mostrar para Maxwell que estava mais do que na hora dele me deixar em paz!

Num piscar de olhos, rápido demais para qualquer um antecipar, mordi o fuço de Max, fazendo-o ganir alto e tentar a qualquer custo se soltar. Não o soltei. O lobo balançava o rosto como um maníaco, tentando se soltar de minha mordida, mas eu segurei com todas as minhas forças. Finalmente, ele percebeu que não iria se livrar de mim apenas se balançando, então deu-me uma porrada na cara com a pata e as garras bem afiadas. Meu rosto foi jogado para o lado, batendo com força contra a parede, e ele aproveitou para sair de cima de mim e se recuperar brevemente de meus danos.

Pisquei, tentando me concentrar para voltar à luta, mas por causa da porrada minha visão estava ficando preta. Maxwell, todavia, foi mais veloz. Voltou a ficar acima de mim, empurrando meu rosto de novo para o mesmo lado que havia batido. Abocanhou meu pescoço, pressionando tanto que senti minha pele se perfurar.

— Agora essa vadia vai ter — Geoff falou com escárnio. — Ela não vai conseguir resistir à dominância de Max.

Senti uma pressão enorme começar a se espalhar sobre meu corpo, como se eu estivesse sendo prensada contra o chão. Rosnei para o filho da mãe que estava em cima de mim, mas, infelizmente, não conseguia me mover para atacá-lo. Eu já havia resistido à dominância dele antes, mas os poderes dos outros lobos, que pertenciam a ele, o estavam fortalecendo, como muitas vezes acontecia com um Alpha que lutava junto de sua alcateia. Além disso, eu estava já bastante debilitada, o que enfraquecia meu próprio poder.

Maxwell deu uma gargalhada gutural, fazendo meu pescoço vibrar junto de sua risada. Meus olhos estavam virado para a parede, mas sabia que Kenna estaria com pena de mim e que os outros lobos assistiam com satisfação.

Amaldiçoei a família Kentner até a décima oitava geração e entreguei-me à dominância. Cada vez que eu tentava me mover para combatê-lo era como se uma gigantesca cãimbra tomasse conta de mim. Soltei um suspiro, resignada, enquanto transformava-me em humana, sinalizando que me rendia.

‘Perdoe-nos, Aidan’, Bexi sussurrou em minha mente, querendo tremendamente que ele pudesse nos escutar. ‘Simplesmente não conseguimos.’

~x~

Mathias



O cara era um armário. Era um gigante. E era um bruxo. Passava fácil de 1,90m, quase batendo os dois metros, muito musculoso e bem apessoado. Era intimidador de todas as maneiras possíveis. Jason Mills era seu nome, e disse ter vindo a pedido de Aidan, que aparentemente era um velho amigo seu.

— Caras, sei como vocês devem se sentir, aceitando bebidas de estranhos, mas bebam isso. — Passou um frasco para Nathaniel, que estava mais próximo dele, depois de se apresentar e explicar que já estava a par de tudo. — Tem gosto ruim? É claro que tem. Mas vai permitir que camuflem o cheiro de vocês, no mínimo, até dar a hora de Aidan estar chegando.

Fazendo uma careta, tanto pelo conteúdo do frasco quanto por ter de receber essa ordem de um bruxo, Nathaniel virou o frasco e bebeu uma pequena quantia do líquido.

— Assim está mais do que bom — falou o bruxo, tirando o frasco das mãos do lobo loiro para passar para o próximo. — Não tomem demais, só temos esse frasco e tem que dar pra todos, porque eu não sou bom em fazer essas merdas e a belíssima bruxa que o fez não está tão perto de mim quanto eu gostaria.

Algum dos lobos deu uma risada, mas eu não prestei atenção em quem havia sido. A maioria de nós estava bastante tensa, eu incluso.

O frasco foi passando de lobo para lobo, até que passou para mim. O gosto do líquido não era tão ruim quanto eu esperava, mas sem dúvidas não era algo que eu tomaria por prazer. Passado alguns minutos, eu e os outros começamos a farejar o ar e, como o prometido, não conseguimos sentir os cheiros de nenhum de nós ali presentes.

— Nossa, esse negócio funciona mesmo — murmurou Spencer.

— Mas é claro que funciona — rebateu Jason. — Acho que os bruxos estão de brincadeira? — Ele riu, mostrando que não estava de fato ofendido ou querendo comprar briga.

— Estou impressionado, o efeito foi muito rápido — comentou Connor.

— Sim, mas o efeito só dura algumas horas, então teremos que agir já.

— Teremos? — Isso chamou a atenção do Terceiro em Comando. — Você está achando que vai nos acompanhar, bruxo?

— Não estou achando, lobo — respondeu-o o enorme bruxo. — Tenho certeza. Vocês podem ser lobos de Aidan, mas eu sou seu amigo. Se ele está precisando de ajuda, eu ajudarei com toda a certeza. Sou muito bem treinado e, além do mais, consigo usar telecinese. Consigo me virar contra lobisomens.

Connor, trocando um olhar com os outros lobos da alcateia, por fim virou-se para Jason e assentiu.

— Aidan confia em você, é isso que importa. Aceitaremos sua ajuda.

— É isso aí, amiguinhos, vamos tirar a pele de uns lobinhos? — brincou Jason, animado com a luta que viria. — Estou precisando mesmo de um novo casaco de peles para o inverno.

—x-

Rebecca estava na sala, nua e encurralada, suas costas encostadas nas da outra fêmea que eu já não lembrava o nome. Estavam assim para poderem se proteger, uma defendendo a outra, ou pelo menos tentando. Sentadas daquele jeito, nenhum dos lobos poderia atacá-las por trás.

Ninguém havia lembrado que ainda havia outra fêmea no território. Entretanto, Clayton lembrou que ela se dizia namorada de Maxwell, o que nos deixou mais confusos ainda. Se ela era a namorada de quem achávamos que era responsável, por que se encontrava no mesmo estado de Becca?

Após uma rápida olhada conjunta pela janela lateral da sala de jantar, dividimo-nos pelo território, invadindo os telhados e quintais dos vizinhos para conseguir nos manter escondidos, mas ao mesmo tempo perto o suficiente. Não deixamos nenhuma janela sem supervisão, exceto as da frente, pois não tínhamos onde nos esconder na rua, mas dava para enxergá-las pelas janelas da sala de televisão e jantar. Além disso, havia lobos designados para vistoriar o quintal de trás e a entrada do Prédio de Questionamento.

Eu havia sido encarregado de supervisionar a janela da cozinha. Havia dois lobos comendo lá, em forma humana, mas não eram meus amigos, portanto não sabia ao certo quem eram. De onde eu estava, conseguia ver as duas ao longe, graças ao arco que Aidan tinha no lugar de uma porta na cozinha.

Estreitando meus olhos enquanto esperava o tempo passar e Aidan chegar, percebi que as duas estavam muito arranhadas e sangravam levemente de alguns ferimentos. A outra fêmea estava com um olho roxo e o nariz sangrava, o que sinalizava que havia sido muito maltratada já. Rebecca, ainda bem, não parecia ter sofrido tanto, ao menos não ainda, mas não tinha como negar que algum confronto havia acontecido antes de chegarmos. Ou talvez ela já tivesse se curado da pior parte de seus ferimentos. Conhecendo a Becca, eu sabia que ela deve ter tentado enfrentar os lobos sozinha, junto da outra loba, mas foram dominadas.

De repente, houve uma movimentação na cozinha. O tremendo desgraçado que era Maxwell adentrou o recinto, fazendo os dois outros lobos darem-lhe espaço para abrir a geladeira de Aidan e escolher alguma de suas comidas para comer.

— Aquela briga te deu fome, é Max? — falou um deles, apesar de ter acabado de comer um sanduíche ainda tentava espiar por sobre o ombro de Maxwell atrás de mais alimento.

— O que está tentando insinuar com isso, Wyatt? — Maxwell virou-se, aparentando estar irritado.

— Ué, nada. Só estou perguntando.

— Está insinuando que eu mal aguentei? Que quase precisei chamar mais lobos para ajudar?

— Max, ele não quis dizer isso — interrompeu o outro lobo, mas logo foi silenciado.

— Cale-se Sam. Vocês dois estão tirando sarro de mim, insinuando que eu preciso repor minhas energias gastas com Rebecca enchendo a cara de comida?

— Não, Max, é claro que não — Wyatt tentou assegurá-lo, mas foi inútil.

— Vocês têm de ter em mente daqui para frente que quem manda aqui sou eu — enfatizou Maxwell. — Aidan está bem longe, seus lobos são muito poucos e já tomamos a casa, além de ter capturado sua única fêmea. Sob o entendimento de todos, nós somos a nova Alcateia de Columbus, só falta a notícia se espalhar e Aidan sair correndo com o rabo entre as pernas para outra alcateia que o acolha.

Até para mim, um solitário, as palavras de Maxwell estavam sendo irritantes. Eu sabia que os outros lobos estariam, no mínimo, ouvindo esse diálogo. Mal podia imaginar como estavam fazendo para se segurar e não avançar em cima de Maxwell e seus lobos naquele exato instante.

— Portanto — o imbecil falou, um leve rosnado em sua voz. — Isso quer dizer que eu sou o novo Alpha de Columbus e, se vocês quiserem permanecer aqui, ao invés de voltar à vidinha medíocre que tinham em Seattle, vão me tratar como tal. Exijo respeito como Alpha, ou então sofrerão banimento, ou pior, punições físicas. Entendido?

Wyatt e Sam se entreolharam, mas apenas por um segundo, em seguida assentindo com as cabeças e deixando a cozinha. Maxwell, sozinho, revirou seus olhos e voltou a examinar a geladeira. Apesar de suas palavras anteriores, parecia bastante desesperado em busca de alguma coisa para saciar sua fome.

Pensei comigo mesmo que a luta, que realmente deve ter ocorrido entre Maxwell e as mulheres, certamente o deixou cansado e talvez pudéssemos usar isso a nosso favor. Entretanto, isso também significaria que ambas deviam estar ainda piores do que ele, visto que, evidentemente, Maxwell havia ganhado.

Observei-o escolher e comer uma coxa de frango que achara em meio aos restos de comida da alcateia de Aidan. Era incrível como um idiota desse conseguia se apossar dos pertences dos outros com tamanha naturalidade. Uma coxa obviamente não seria o suficiente e, em pouco tempo, Maxwell havia comido metade do frango assado. Quando terminou, após lamber seus dedos de forma gulosa, vi-o atravessar o arco até a sala.

— Rapazes, vamos fazer uma transferência — anunciou. — Acho que nossas meninas não estão se sentindo muito à vontade sentadas no chão da sala.

Alguns dos lobos de Max deram risadas curtas.

— O antigo Alpha tinha um prédio muito convidativo, que já andei explorando, onde tem uma jaula muito confortável para as duas. — Não conseguia ver o rosto de Maxwell, pois encontrava-se de costas para mim, tampando também minha visão das duas lobas, mas eu não tinha dúvidas de que ele estaria com um sorriso repugnante na face. — Tragam-nas para o prédio ali atrás. Quero três homens para cada uma delas. O restante fica em suas posições. — Deu uma risada abafada. — Vou entretê-las um pouquinho.

Respirei fundo. Eu nunca havia entrado no Prédio de Questionamento, mas obviamente pretendiam enjaulá-las. Aidan havia nos dito para não atacar, a menos que elas fossem atacadas, mas...

Decidi que seria a melhor hora para me mover e tentar encontrar Connor. Seria agora a melhor hora para avançar? Ou seria melhor aguardar Aidan e os reforços? Observei os homens de Maxwell pegando as duas pelos braços e forçando-as a andar. Tentaram resistir, mas foram presenteadas com empurrões e chutes para continuarem em frente.

Eu via que Rebecca queria lutar, queria mostrar-se vitoriosa e castigar aqueles que ousaram invadir o território de sua alcateia. Mas, abatida como estava, não conseguiria e ela sabia — eu conseguia ver pela falta de brilho em seus olhos — que não conseguiria contra todos aqueles lobos, mesmo que estivesse em plena forma física. Procurei avidamente por Connor, que estava em comando até a chegada de Aidan, para receber ordens sobre o que fazer.

Notas finais
Muito obrigada a todos pela leitura fiel ♥ Por favor deixem suas críticas e opiniões nos comentários. O que acham que irá acontecer a seguir? O que acharam desse capítulo?