Notas iniciais
Olá gente *0* Finalmente vamos saber o que está se passando com Scarlet no mundo espiritual. Espero que gostem e apreciem a leitura!

Scarlet

Tive que me lembrar de como se respirar.

Eu não conseguia acreditar em meus olhos, simplesmente não conseguia. Não conseguia acreditar no meu tato, na própria palma da minha mão, que repousava sobre seu ombro. Rebecca estava ali, na minha frente. Estava sob meu toque, respirando, viva, olhando para mim. Só consegui sair de minha breve paralisia quando, por fim, ouvi sua voz.

— Scarlet? Como você está aqui? – perguntou-me, parecendo ao mesmo tempo aliviada e alarmada. – Eu jurava que estava presa aqui para sempre. Não me diga que você – Vi-a engolir em seco. -, que você também morreu?

Morrido também? Mediante esta pergunta, tive que me esforçar para quebrar meu silêncio.

— Becca, eu não estou morta – tentei tranquilizá-la. — Você também não está.

— Como não estou? – indagou, seus olhos ficando marejados e sua voz quebrando. Ela estava obviamente abalada pelo lugar. Apesar de ser magnífico, para ela, era uma prisão. – Todos que aqui estão são espíritos de pessoas mortas, Scarlet. Os peixes no lago estão mortos, os cervos nos bosques estão mortos, até os malditos mosquitos deste infernal lugar estão mortos!

Puxei-a para um instintivo abraço. Ela precisava do conforto, e eu precisava do toque de minha amiga há tanto tempo perdida.

— É um fato, Becca, que você está viva. Entendo como deve estar se sentindo, estando cercada de espíritos, mas seu corpo humano está sob os cuidados do irmão médico de Luke. Tenho certeza que nada de ruim teria acontecido sob os cuidados dos médicos de Robert.

— Meu corpo humano? C-como assim?

A realização veio como um choque para mim. Ela não sabia. Não sabia de nada que lhe acontecera desde o momento que o deplorável Francis a havia cortado e feito sua cirurgia.

— Enquanto caçávamos Elizabeth Roman – expliquei, dando-me até um mal-estar em relembrar o ocorrido -, um de seus cúmplices fez uma cirurgia em você. Desde então seu corpo tem estado em coma e, bem, sua loba tem vivido como um espectro – pausei, analisando o turbilhão de emoções que eram demonstradas por sua expressão. – É difícil de explicar.

— M-minha loba...

— Está bem – prontifiquei-me a esclarecer. – Ela está bem e sob os impecáveis cuidados de Aidan, não tem de se preocupar quanto a isso. Seu corpo também está em ótimas mãos, Robert e sua equipe sabem o que fazem. Ele é o melhor, você sabe, portanto certamente tem os melhores assistentes.

— Aidan... – Sussurrou de forma contemplativa. Era como se ela havia acabado de acordar de um longo sono, como se havia acabado de se lembrar dele.

Eu não fazia a mínima ideia do que o mundo espiritual fazia em espíritos ainda vivos, que não fossem Selvagens, por isso não queria deixá-la aqui por muito mais tempo.

— Becca, eu estive treinando justamente para conseguir, de alguma forma que eu ainda não sei ao certo, juntar seu corpo com sua loba novamente. Honestamente não esperava encontrar você aqui, seu espírito humano, mas é apenas mais uma tarefa que preciso fazer. Preciso dar um jeito de te tirar daqui.

— Mas algo não está certo, Scar...

— Rebecca.

— Escute, por favor. – Ela pôs as mãos na cabeça, sofrendo uma tontura repentina. – Ai. Só a própria ideia de deixar esse mundo... há apenas alguns minutos eu daria qualquer coisa para sair! Mas desde que você chegou... sinto que também tenho algo a fazer aqui.

— Algo a fazer? – Pestanejei baixinho. – Rebecca, você precisa sair daqui. Você não tem as mesmas habilidades que eu, habilidades essas que eu prometo te explicar mais tarde, quando eu já tiver te ajudado e nós duas estivermos dividindo uma deliciosa caneca de chocolate quente. Mas agora preciso te tirar daqui!

Ela virou a cabeça repentinamente para sua esquerda, na direção oposta à do lago. Seus olhos tornaram-se azuis claros, como gelo, como eu bem conhecia. Virou-se para mim, alarmada.

— Estou sentindo um forte puxão, Scar. Como se... como se alguém tivesse amarrado uma corda em mim e estivesse a puxando. Sinto que preciso ir até lá, Scar. Sinto que você precisa vir comigo.

Engoli em seco. Eu nunca iria deixar Becca passar mais um segundo sequer sozinha neste mundo, mas estava um pouco apreensiva. Entretanto, eu sabia que os olhos dela não haviam trocado de cor à toa. Eu interpretaria aquilo como sendo um bom sinal.

— Muito bem, vá em frente, vou com você. Eu não sei nem como te tirar daqui mesmo – confessei em voz alta, notando que isso seria um problema em breve, mas ainda assim a segui floresta adentro.

Ao contrário da grande floresta que eu havia atravessado para chegar até o lago, esta em que Rebecca me guiava era bastante diferente. As árvores eram mais esparsas, não era uma floresta tão cheia quanto a outra, e nelas havia poucas folhas. Era uma floresta quase monocromática, todas as plantas de um verde acinzentado, sem flores e sem cores. Não se ouvia, também, nenhum canto dos pássaros, nem o roer de nenhum esquilo. A brisa que soprava por entre as árvores era gélida e me dava arrepios. Passamos por uma clareira, mas não havia sol algum que nos iluminasse, apenas espessas nuvens que não nos deixava ver o céu.

— Não estou gostando muito disso, tem certeza que não quer voltar?

— Não estou seguindo este caminho porque quero – respondeu minha amiga. – Estou apenas seguindo o puxão. Sinto que estamos perto.

— Perto de quê? – perguntei em vão. Rebecca deu de ombros e falou simplesmente:

— Perto do que quer que esse mundo quer que eu encontre.

Continuei a segui-la em silêncio, decidindo confiar em seu instinto. Há apenas alguns meses, eu diria que essa história toda de espíritos, ervas, meditação e mundo espiritual era tudo baboseira. Era minha obrigação acreditar em Becca, especialmente após tanto sofrimento dela.

Quando finalmente saímos da floresta, a brisa já havia se tornado uma forte ventania. O lugar em que nos encontrávamos não possuía grama, apenas alguns arbustos com o mesmo aspecto acinzentado das outras plantas na floresta. O chão era arenoso, com pedras aqui e ali. Também podia se ver alguns aglomerados de pedras maiores, alguns que pareciam ter sido formados pela natureza e outros que pareciam ruínas antigas. O sol, antes tão quente e convidativo, aqui não dava as caras. O céu estava coberto de nuvens, deixando toda a paisagem com um aspecto arroxeado.

Rebecca parou abruptamente, no meio da paisagem desolada.

— Parou. O puxão, ele parou – repetiu.

Olhamos ao nosso redor, tentando enxergar alguma coisa que não fosse pedra ou areia, alguma coisa que teria feito Rebecca vir até aqui.

— O que será que tem aqui? – perguntei, virando-me para ver o rosto de Becca.

Ela me encarou com uma cara tão confusa quanto a minha certamente estava, seus olhos ainda azuis. Contudo, eles foram se arregalando cada vez mais, até ela mesma dar um passo para trás. Virei-me na hora, para me defrontar com o que quer que fosse que a estava deixando assim.

— Você não pertence aqui. – A voz era rouca, como a de uma senhora já de muita idade, mas de uma forma que fazia os pelos de minha nuca se eriçarem. – Você não pertence.

A princípio eu não conseguia enxergá-la direito, parecia mesclar-se à poeira e à areia que esvoaçava com a ventania. Todavia, ela logo se materializou melhor, sem dúvidas deixando-me tão assustada quando minha amiga.

Possuía um vestido cor de esmeralda, algumas partes já desbotadas e outras manchadas, com vários rasgos compridos que esvoaçavam com o vento. Era um vestido longo e de várias camadas, de tal forma que não era possível ver seus pés, apenas o vão entre o tecido e o chão, indicando que aquela coisa flutuava. Era magérrima, mal preenchendo a cintura e o busto de sua vestimenta, e sua magreza era refletida também em seu rosto, revestido por uma pele acinzentada e com aparência murcha. Seus globos oculares eram

completamente negros e opacos, e tanto a região de seus olhos quanto suas bochechas eram côncavas de forma que demonstrava sua falta de saúde. Seus cabelos eram tão escuros quanto seus olhos, apesar de finos e com algumas falhas visíveis em seu couro cabeludo. Eram cortados de forma irregular, e a criatura não se incomodava com ele sendo jogado em seu rosto como eu ou Rebecca nos incomodávamos com os nossos.

— Quem é você? – demandou Becca, bravamente. Ela sabia que a criatura havia se referido a ela e parecia incomodada com isso. Estava amedrontada, dava para perceber, mas iria enfrentar a mulher — se é que podia chamá-la disso.

A mulher soltou um grito agudo, porém breve, de estourar o tímpano e voou para cima de mim, parando há apenas alguns milímetros de minha face.

— Ela não pertence aqui. – Com tão pouca distância entre nós, pude ver o que sobrar dos dentes amarelados e podres da criatura, tortos e com algumas larvas que ali se alimentavam.

Demorei para responder pois tentava segurar meu estômago e, portanto, Becca teve a infelicidade de respondê-la antes de mim.

— Não, não pertenço. Inclusive, adoraria sair daqui. Será que sua belíssima donzela não poderia ser de meu auxílio? Afinal, foi você, Miss USA, que me trouxe até aqui.

Desta vez, o grito que ela soltou não foi apenas doloroso aos ouvidos, mas criou uma barreira sonora que arremessou tanto Becca quanto eu para longe. Eu fui arremessada para mais longe, indo parar somente em um grande barranco de areia, mas Becca foi arremessada há apenas uns dez metros daquela coisa, um amontoado de pedras servindo de paredão para suas costas. Ela permaneceu deitada, com a cabeça enterrada na areia, enquanto eu já me recompunha e corria em sua direção. Desconfiava que ela havia desmaiado.

— O que você quer? – gritei para a criatura, levantando o rosto de minha melhor amiga e o aconchegando em meu colo. – Por que chamou Rebecca até aqui?

— Eu não a chamei – sibilou a coisa. – Ela não pertence a esse lugar. Não pertence entre os espíritos – repetiu pela milésima vez. – Mesmo se pertencesse, por que eu haveria de querê-la? Já tenho espíritos o suficiente sob minha guarda e, além disso, roubei recentemente um lindo espírito de lobo perto daquele maldito lago enfestado de gente.

Ela havia roubado um lobo? Do lago?

E foi aí que eu a vi, como se sua menção fosse a única coisa necessária para que ela se tornasse concreta. Bexi se escondia atrás de uma pequena ruína, encarando-me com olhos suplicantes. Estreitei meus olhos e percebi que ela não estava exatamente olhando para mim, mas para Becca. Havia sido seu laço com Rebecca que havia feito as duas se encontrarem, agora isso estava claro para mim.

— Bexi... – sussurrei, e percebi que a loba conseguia sim me ouvir daquela distância. A mulher, entretanto, percebeu minha atenção à loba e se pôs à sua frente, bloqueando-a de minha vista.

— Saia de meus domínios e pare de comunicar-se com meu lobo – exigiu. – E tire essa maldita intrusa daqui imediatamente.

— Quem exatamente é você? O que é você? – Parecia algo melhor a se falar do que apontar que Bexi era fêmea.

A mulher rodopiou no ar, algo que parecia contentamento por eu finalmente estar dando a ela a devida atenção.

— Sou apenas mais um dos espíritos mais importantes deste mundo – gabou-se. – Sou Yenila, e eu sou um dos espíritos que ajuda a pegar as pessoas que fizeram idiotices ou maldades e fazem-nas pagar.

— Fazem-nas pagar – repeti, incrédula, para mim mesma.

— Exato, proporcionando-lhes milênios de solidão e sofrimento. Cada espírito encarregado tem seu jeito de puni-los, mas, em minha opinião, este é o modo mais eficaz.

Analisei Rebecca, preocupada. Yenila tinha razão sobre uma coisa ao menos, de que Becca precisava ir embora.

— Como ela pode voltar? – perguntei à criatura que, quase imediatamente, riu de mim.

— Você é uma Selvagem, oras. Use seu poder.

— Meu poder?

Franzi o cenho e encarei minhas mãos. Eu precisava, antes de salvar Bexi, tirar a própria Becca dali. Cada segundo a mais que ela passava ali podia estar causando danos a ela no mundo material. Talvez eu pudesse barganhar com Yenila, talvez pudesse roubar Bexi. Contudo, pensaria nisso depois. Precisava aproveitar que Becca estava desacordada e incapaz de me confrontar e tirá-la de lá para nunca mais voltar.

Surpreendendo a nós duas, Bexi latiu, vindo correndo em minha direção antes que Yenila pudesse sequer reagir. Ela passou seu focinho por meu rosto, cumprimentando-me e acariciando-me, para depois abocanhar minha mão direita de leve. Queria que eu me levantasse.

— O que está fazendo, lobo? – indagou Yenila, sua voz rouca aparentemente irritada.

— Deixe-o me ajudar. – Decidi não contestar as habilidades da mulher em decifrar o sexo dos animais, para não mais enfurecê-la. – Assim estará livre dela. – Apontei para o corpo de Becca, deitado no chão arenoso, agora de barriga para cima e com o rosto limpo de areia.

— Muito bem. – Suspirou. – Se você não sabe o que fazer mesmo... – Se ela tivesse íris e pupilas, eu deduziria que ela reviraria seus olhos. Mas, logicamente, eu estava incapacitada de saber.

Bexi fez menção para que eu me ajoelhasse ao lado da barriga de Becca e, logo colocou seu focinho ao lado de minha orelha. Olhou para trás repentinamente, para se certificar de que Yenila estava prestando a atenção em outras coisas.

— Scarlet, faça exatamente o que eu mandar.

Dei um pulo, o que chamou a atenção de Yenila.

— O que é? – perguntou com sua voz irritante.

— N-nada! – respondi, com os olhos fixos nos de Bexi e fingindo que estava limpando a roupa de areia. – Não é nada, apenas não estou acostumada com meu, erm, poder.

Yenila xingou-me baixinho e decidiu sentar-se em uma das ruínas, observando a “belíssima” paisagem que era seu lar.

— Não se espante! – alertou-me a loba. – Sim, eu consigo falar com você nesse mundo. Não perca tempo perguntando o porquê, pois nem eu o sei. Só faça o que eu digo para tirar a Becca daqui.

— T-tá, mas me diga ao menos como que você está aqui. Você está no mundo material. Como pode aparecer aqui-

— Apenas posso! – interrompeu-me, com seu habitual temperamento. – Alguma coisa deve ter dado errado na cirurgia do vampiro. Ou dado certo, vai saber – tentava me explicar aos sussurros, enquanto eu imitava técnicas de reiki em Rebecca para o caso de Yenila olhar para nós. – Ele queria tirar o lobo vivo do lobisomem, conseguiu. Mas, por algum motivo, estou aqui também, talvez seja um efeito colateral, vai saber. Isso nunca aconteceu antes. Estou simultaneamente nos dois mundos, mas não consigo voltar para meu corpo, nosso corpo.

— E como posso fazer vocês se juntarem novamente?

Vi os olhos dela brilharem, mas quase que instantaneamente se ofuscarem como uma chama apagada.

— Aí que tá, preciso sair do mundo espiritual. Quando eu sair, as minhas metades tanto no mundo material, quanto no espiritual, vão se fundir e, também, se fundir com a mente de Rebecca. Só não acho que será nada fácil convencer Yenila a me deixar partir. De qualquer forma, para isso, a própria Rebecca tem de estar lá já, e tem de estar bem.

— Tá bom. Diga-me o que fazer, Bexi – pedi, determinada.

— Ponha uma mão na testa dela. Isto – concordou quando realizei a ação. – Agora a outra em cima de seu coração. São os pontos espirituais mais fortes de qualquer ser humano. É bastante simples, na verdade. – Soltou uma risada abafada.

— Não deu tempo de eu ter essas aulas – retruquei, um pouco ofendida com sua brincadeirinha.

— Okay. Agora é com você. Os Selvagens são seres sobrenaturais que dominam os espíritos e a energia deles. Você precisa fazer força, com sua energia interna e envolver o espírito da Becca com ela. Assim, ela deve se dissipar, e deverá acordar de seu coma no mesmo instante.

— Mas eu não sei fazer isso. Como assim, envolver com energia, Bexi? – sussurrei, começando a me desesperar.

— Eu não posso te ensinar, Scarlet, pois não seu fazer – respondeu com surpreendente calma. – Siga seus instintos, como Becca seguiu os seus para me achar.

Respirei fundo, sabendo que ela tinha razão. Havia somente eu nessa parte desolada do mundo espiritual para salvar Becca. Além do mais, a imagem mental da Becca acordando de seu coma, mesmo que com o silêncio da ausência de sua loba em sua cabeça, enchia-me de pura alegria. Após tantos meses, ela finalmente acordaria.

Cerrei meus olhos, decidida a mantê-los fechados até eu conseguir me concentrar propriamente. Imaginei que precisava da mesma concentração da minha meditação, que havia me feito entrar e me faria sair do mundo espiritual. Comecei a contar minhas respirações.

Um, dois, três, quatro, inspira pelo nariz.

Um, dois, três, quatro, expira pela boca.

Senti que o estresse foi sumindo, minha mente foi clareando. Senti uma leveza interior e, ao sentir um formigamento em minhas mãos, nos pontos de concentração espiritual de Rebecca, abri meus olhos.

Bexi estava com um largo sorriso e meu rosto logo espelhou o dela. Minhas mãos brilhavam em tons brancos e, à medida que continuei com minhas respirações ritmadas, com meus pensamentos leves e concentrados, determinados com a tarefa de tirá-la dali, percebi que, como Bexi ilustrara, a reconfortante luz branca que saía de minhas mãos estava envolvendo o corpo de minha tão amada amiga.

Percebi que Yenila se agitara, curiosa para ver o que se desenrolava finalmente. Não me deixei abalar por ela e continuei a forçar com o pensamento minha energia, imaginando cenas de Rebecca com seus irmãos de alcateia em Columbus, apenas aguardando que o resto de nós voltássemos e que Bexi logo retornaria. A cada cena imaginada, mais partes de seu corpo eram envolvidos, até que Rebecca inteira parecia estar envolta em uma película gigante e brilhante.

— Agora pode soltá-la que ela irá – sussurrou Bexi e, após alguns segundos maravilhada, obedeci.

O corpo de Becca levitou há alguns palmos do chão para, de repente, desmaterializar-se.

— Ufa, tava mais do que na hora. Ela não pertencia aqui.

Revirei meus olhos antes de me virar para Yenila.

— Pronto, Selvagem, aprendeu a lição? Eles estão ficando cada vez mais desleixados, hein, com seus ensinamentos. Que coisa mais básica para se aprender.

— Está bem, Yenila, agora finalmente tirei-a daqui.

— Finalmente – zombou-me mais.

— Quero saber sobre o lobo.

— E o que tem ele? – perguntou, fingindo desinteresse.

— O que tem, é que vou tirá-lo daqui também.

Encarei-a de cenho franzido, já farta de tudo aquilo e querendo ver minha amiga completa e feliz novamente. Eu não tinha dúvidas de que eu não aceitaria não como resposta e que faria de tudo para libertar Bexi.

Aidan

Saí batendo todas as portas pelas quais eu passava para, logo em seguida, ouvi-las batendo novamente. Riley estava em meu encalço.

A ligação de Fernando havia me pego totalmente desprevenido. Eu nem o conhecia direito, Scarlet havia nos apresentado, mas quem passava tempo com eles era ela. Enquanto ela fazia a parte dela, aprendendo sobre sua espécie e se aprimorando em suas habilidades, eu fazia a minha parte tomando conta da loba. Inclusive, ainda tentava vestir minha camisa em meio a tanto movimento.

Eu havia, há pouco, estado em forma lupina com Bexi, comunicando-me com ela no quarto do hotel. Ela havia acabado de sair de uma sessão com George e parecia especialmente entristecida. Parecia pressentir que algo estava errado, ou que algo de errado estava prestes a acontecer, mas não sabia ao certo o que seria. Estava mais depressiva do que o habitual.

Justamente por isso xinguei até a quinta geração de antepassados de Fernando quando atendi o telefone, até ele me dizer do que se tratava: Scarlet estava presa no mundo espiritual.

Saí correndo do quarto e passei no barzinho que tinha no andar da piscina para chamar alguém para ficar com Bexi. Prontamente, Trevor se voluntariou o que, devo dizer, satisfez-me muito. Era péssimo que a amizade dos dois apenas pôde se desenvolver após Rebecca sofrer uma tragédia, mas era melhor do que nada. Era um reconforto e tanto

quando seu segundo em comando se dava bem com sua, é... com uma fêmea especial da alcateia. E Riley, obviamente, decidiu que o bem estar de sua ficante era tanto de seu interesse quanto era do meu.

Chegamos no endereço em tempo recorde para lobisomens fingindo ser simples humanos apressados. Ainda faltava eu colocar um braço em minha camisa, então prontifiquei-me a fazer isso enquanto Riley berrava coisas ao porteiro para deixar-nos subir. Quando finalmente chegamos ao andar, a porta já estava escancarada e as dezenas de pessoas do que parecia ser uma festa estavam envolta da nossa Selvagem.

A ruiva estava imóvel no centro da sala, seu rosto com aparência serena. Parecia estar apenas meditando, mas estava em um estado tão intenso que claramente não conseguia se dar conta do alvoroço que se passava ao seu redor.

Riley mal a viu e já voou para seu lado, segurando-a em um abraço e tentando acordá-la com sussurros. Não parecia ser uma boa ideia agitá-la ao berrar em seu ouvido, até porque parecia que não funcionaria de uma forma ou de outra.

Fernando finalmente me avistou e veio até mim.

— Alpha Aidan, que alívio. Não imaginei que você fosse chegar tão rapidamente.

— O que aconteceu? – perguntei, sem perder tempo.

— Ela quis entrar no mundo espiritual. Como era sua primeira vez e ela não teve todas as devidas lições sobre o assunto, foi combinado que fosse uma visita breve, de apenas cinco minutos, só para ela finalmente se dar conta do quão grandiosas poderiam ser suas habilidades. Mas alguma coisa deu errado e, bem, acho que alguma coisa chamou a atenção dela. Para ela não conseguir voltar, deve realmente ter sido algo impressionante ou... algo muito ruim.

— Como assim ruim? O que de ruim poderia acontecer? Vocês não mandaram ninguém ir atrás dela?

— Pois então. – Fernando parecia um tanto encabulado, apesar de preocupado. – Mandamos, mas ela saiu do lugar em que estava. Foi longe, pois procuramos por tudo. Inclusive Sofia – apontou para uma moça de uns trinta anos, sentada na varanda na mesma posição de meditação que Scarlet. – ainda está lá, procurando. Mas ela foi muito longe, ao que parece. – Fez uma pausa e, vendo minha impaciência, decidiu continuar e contar tudo de uma vez. – Não há somente bons espíritos no mundo espiritual. Scarlet pode ter tido a infelicidade de cruzar com um espírito maligno.

— E o que isso implicaria?

— Ela, bem, ela pode ter ficado presa, pode ter sido raptada, pode ter se perdido ou pode mesmo estar tão imersa no que está fazendo que simplesmente não quer voltar.

— E o que eu posso fazer?

— Pensamos que você, sendo um lobisomem e tal, poderia farejá-la com maior eficiência. E, além do mais, sendo Alpha e sendo forte, poderia salvá-la, caso fosse necessário.

— É possível eu ir para esse mundo? E, mais importante, posso me transformar lá? Minha forma lupina é muito mais eficaz, tanto para farejar, quanto para lutar.

— Sim, é possível se transformar. É um mundo bastante parecido com o nosso, com o único detalhe de que todos lá estão mortos. – Em seguida, respondeu minha primeira pergunta. – É complicado, mas podemos chamar o Sr. Gutierrez. Ele sendo um de nossos anciãos, creio que conseguiria fazer um ritual adaptado para enviar alguém de fora para o mundo espiritual. Creio que o fato de você não ser um simples humano, mas um ser sobrenatural, também facilite as coisas.

— Pois não vamos perder mais tempo. Chame-o.

Fernando, apressado e um pouco desesperado, gritou para qualquer um ligar para o Gutierrez e para ele trazer todos seus amuletos, matinhos, isqueiros, vodus e toda essas coisas para as mandingas deles. Quando finalmente voltou sua atenção para mim, perguntei:

— Há quanto tempo ela está assim? Ela parece bastante pálida, não parece ter sido recente sua entrada no mundo espiritual – opinei e vi ele abaixar o olhar, não querendo fazer contato visual.

— Acho que, bem, agora acho que já faz umas oito horas.

— Oito horas?! – Minha voz soou grave e alta como era de praxe quando perdia a paciência. Todos olharam para mim, com exceção de Scarlet e a moça Sofia.

— É que, veja, Alpha Aidan, o tempo no mundo espiritual não se passa como o nosso. – Esforcei-me muito para ficar quieto e não começar a xingar o moleque. – Não há ciclos de noite e dia. Os cinco minutos combinados, para ela, realmente durariam cinco minutos. Mas para nós, seria cerca de cinco horas.

— O quê? – A palavra incrédula era fraca demais para descrever meu estado.

— Pois é, por isso quando um Selvagem precisa fazer uma missão no mundo espiritual, normalmente são isolados e protegidos, para não sofrerem danos no mundo material. E, bem, as outras horas restantes nós passamos tentando resolver o problema sozinhos. Não sabíamos se seria realmente preciso pedir sua ajuda.

Tive que me afastar do Selvagem, para o próprio bem dele. Respirei fundo e não consegui segurar um palavrão. Isso era um grave problema para Scarlet. Eu teria de ir atrás dela, mesmo sabendo que isso deixaria minha alcateia, tanto aqui quanto em Columbus, temporariamente desprovida de um Alpha. Eu desconfiava, também, de que Scarlet não havia simplesmente se perdido no mundo espiritual. Ou ela estava em perigo, ou ela descobrira algo sobre Rebecca. Ou ambos. De qualquer forma, eles precisavam me enviar lá para dentro pra ontem!

Se Rebecca estava de alguma forma envolvida, e eu tinha um forte pressentimento de que estava, eu faria de tudo para tirar as duas do maldito mundinho de fantasmas.

Chamei Riley e o coloquei a par de tudo. Tentei acalmá-lo o máximo que deu, mas ele tinha o direito de xingar alguns Selvagens. Era impressionante, para o temperamento mais tranquilo dele, vê-lo explodir daquele jeito. Pedi para ele deixar claro que Trevor estava no comando e que, com exceção de pessoas próximas, não era para a notícia de que eu estaria no mundo espiritual se espalhar de forma alguma.

Enquanto o Gutierrez não chegava, Fernando e outros Selvagens foram acomodando um espaço em frente à Scarlet para eu sentar. Deram-me dicas de respiração e técnicas para esvaziar a mente, mas eu honestamente nunca havia sido bom nessa coisa de relaxar.

Somente quando o Gutierrez finalmente chegou, após queimar umas ervas e me fazer inalar o aroma e a fumaça, me fazer beber uns líquidos suspeitos, passar uns amuletos por meu pescoço e praticamente forçar meus olhos a se fecharem que os sons do ambiente começaram a, gradativamente, diminuir. Fiquei surpreso com a eficácia de todas aquelas maluquices que eles fizeram, mas me preparei para o que viria a seguir. Não fazia ideia do que me esperaria, de como seria esse mundo. Seria uma caverna recoberta por lava? Seria uma cidade construída em cima de nuvens?

Respirei fundo quando percebi que já não ouvia mais nada da barulheira e conversação do apartamento de Fernando. Comecei a ouvir o farfalhar de folhas ao vento, um pica-pau ao longe, o bater de asas de pássaros. Senti leves cócegas no rosto e, lentamente, abri meus olhos, deparando-me com uma pequena borboleta azul pousada sobre meu nariz e um mundo bem diferente do que eu esperava.

Notas finais
Como sempre, agradeço de coração a leitura de vocês e por vocês terem escolhido acompanhar essa história *-* Por favor deixem suas opiniões abaixo e nos vemos no próximo capítulo! Quem tá com saudades da Becca comenta: BECCA VOLTA MEU AMOR hsauh Beijos :*