Valente
6 VI
Notas iniciais

Lucius
Minha mãe me encarava com um sorriso no rosto, do outro lado da sala. Seu olhos azuis escuros estavam brilhando por diversos motivos. Era nessas horas que eu percebia que seu sorriso realmente se parecia com o de um lobo feroz. A felicidade de Dona Gwyneth se dava pelos médicos e psicólogos do meu pai, os quais nós todos esperávamos chegar na grande sala de estar da mansão Latham. A lenha na lareira estalava enquanto esquentava o ambiente, iluminando o rosto de meus familiares.
Eu estava sentado sozinho em uma poltrona, a mais próxima da mesa de bebidas refinadas que meu pai colecionava. Eu poderia não sofrer dos efeitos do álcool, mas poderia fingir, ao menos para mim mesmo. A mãe sentava ao lado de Arabella, companheira de Robert, que não poderia estar conosco, já que estava no Mexico com Aidan. Arabella era, obviamente, a favorita de minha mãe, já que seria a próxima fêmea de um Letum. Um dia minha mãe passaria o posto para ela, uma grandiosa cerimônia comparável a uma coroação. Por isso, mesmo sem querer, havia uma quase imperceptível rivalidade entre Arabella e Pearl. Rivalidade esta notável em seus modos de agir e até mesmo de vestir, para olhos atentos.
Pearl, companheira de Alexander, sempre fazia questão de estar vestida em um nível acima de Arabella. Hoje, por exemplo, Arabella estava com uma simples blusa polo rosa com uma saia cinza que ia até os joelhos. Enquanto isso Pearl, além de ter arrumado o cabelo — pensando melhor, nunca a vira com o cabelo desarrumado ou apenas casualmente adornado, ao contrário de sua cunhada — usava um vestidinho de inverno formal e um colar de pérolas, presenteado por minha mãe. Para a infelicidade de Pearl, entretanto, o tom de rosa de seu vestido era quase idêntico ao da blusa de Arabella, o que perceptivelmente a estava incomodando e a deixando de mau humor.
Ao lado dela, fazendo carinho em sua mão para talvez amenizar o mau humor, estava meu outro irmão, Alex. Alexander, ao contrário de Pearl, que estava mal humorada, de Arabella, que parecia estar absorta em outro mundo e de nossa mãe, que possuía um sorriso que parecia não caber em seu rosto delicado, estava de cenho franzido. Os médicos haviam nos dito que tinham boas notícias, mas, ao analisar meu irmão, pude deduzir que o que eles haviam falado para Alexander tinha sido um tanto diferente do que falaram para o resto de nós.
Enquanto esperávamos, fiquei ouvindo as conversas banais das mulheres com minha mãe. Era também perceptível nas conversas como as duas competiam pelo favor dela. Sempre que Pearl acrescentava alguma coisa à conversa ela dava uma olhada para Gwyneth para ver sua reação, se aprovava ou desaprovava de seu comentário.
Sem nem perceber, meus pensamentos se voltaram a minha vida em Columbus, aos anos que passei lá, longe da “côrte” lupina. Pensei em Scarlet, que já havia fugido daqui. Mesmo se eu quisesse, mesmo se um dia seria possível eu e ela ficarmos juntos… como ela conseguiria se adaptar a isso? Scarlet não era como Pearl, não era como Arabella, não era como Gwyneth. E não era nem sobre licantropia que eu estava pensando. Este era outro problema completamente a parte, que também tinha muito peso.
Não é que eu não gostasse de minhas cunhadas, sempre me trataram bem, nos divertíamos juntos e, inclusive, elas mesmas se divertiam entre si, apesar de tal rivalidade. Também não era que eu duvidava de seu amor por meus irmãos, isso eu nunca havia questionado. Mas, querendo ou não, sempre há uma vantagem a mais ao escolher acasalar-se para dentro de uma família como a nossa. Menos para Scarlet e menos para mim.
Eu sabia que ela nunca sequer havia sonhado com o status e poder de minha família. Não porque achava que fosse inalcançável, mas porque simplesmente não possuía tais ambições. E eu não as possuía também. Eu não poderia arrastá-la para uma vida tão cheia de compromissos, holofotes e frescuras. Se ao menos eu conseguisse, eu mesmo, desatar-me disso tudo…
Meus pensamentos, que assim que foram quebrados percebi que eram predominantemente de meu lobo, foram interrompidos pelas portas da sala se abrindo e dando espaço para o psicólogo chefe da cidade e o médico responsável pelo meu pai. Minha mãe virou-se no mesmo segundo para eles, ansiosa pelas tão esperadas notícias.
— Olá, Senhora Latham — adentrou o psicólogo e prosseguiu em cumprimentar a todos nós logo em seguida, individualmente. Percebi que era ele quem faria a maior parte do falatório, o que implicava que a situação de meu pai estava mais grave no quesito de saúde mental do que física.
— Como prometi, — falou, sentando-se — vim trazer notícias ótimas para vocês. Sei como estão esperando notícias mais concretas do Letum, mas ele realmente teve um progresso um tanto quanto lento. Agora, porém, creio que ele já poderá deixar a clínica e vir para casa.
Minha mãe e Arabella se abraçaram e vi que Alexander apertou a mão de Pearl carinhosamente.
— Todos seus ferimentos foram tratados, já faz algum tempo — dessa vez o médico falou. — e cuidamos para monitorar suas funções biológicas nesse tempo em que ele esteve fora.
Minha mãe agradeceu os dois e prosseguiu fazendo várias perguntas sobre meu pai, principalmente para o psicólogo. Ambos os homens pareciam se esforçar até demais para tranquilizá-la de todas as formas possíveis e a convencê-la de que seu marido estava tão bom quanto antes. Voltei a examinar Alex e, vendo que sua cara de preocupação havia apenas suavizado um pouco, fiquei com uma pulga atrás da orelha.
— Ele está totalmente lúcido e são agora — voltou a assegurar o psicólogo, mas olhando diretamente para mim. — Está tendo que ingerir alguns medicamentos lupinos e terei que continuar a monitorá-lo à distância, mas acredito que em alguns meses podemos inclusive parar com os remédios. — Assenti. — É, porém, aconselhável que ele continue a governar com auxílio, ao menos até que pare com os remédios. — Alexander sabia que o incumbido seria ele e assegurou o psicólogo que assim o faria.
Após mais alguns minutos de conversa, os dois homens foram embora, indo preparar meu pai para voltar para casa. Começamos a falar sobre ele e estávamos planejando uma festa de ‘bem-vindo ao lar”, isto é, até que minha mãe abruptamente nos interrompeu, praticamente me expulsando de casa.
— O que você ainda está fazendo aqui, Lucius?! — gesticulava exageradamente com os braços. — Olha o horário!
Olhei para o grande relógio que havia na sala e arregalei meus olhos. Realmente, estava atrasado. Mas isso certamente não me incomodava tanto quanto a ela.
— O que tem ele, mãe? — quis saber Alexander, sempre se intrometendo em meus compromissos.
— Pergunte a ele, meu filho. — Todos olharam para mim e, após um suspiro, aquietei a curiosidade de todos.
— Tenho um compromisso com a Alice — murmurei. E aí estava, o outro motivo para minha mãe estar radiante hoje.
— Ah, que fofo! — Pearl falou, juntando as duas mãos em apreciação. — Sempre achei que vocês dois formariam um belo casal.
Para meu desgosto vi minha mãe concordar veementemente com a cabeça.
— Não somos um casal — esclareci enquanto vestia meu casaco para ir embora. Pior do que sair com Alice era ficar ali com aquele bando que queria me empurrar para cima dela.
— Não ainda, mas já estão no quinto encontro — Dona Gwyneth sussurrou, obviamente ciente de que ninguém naquele recinto não conseguiria ouvir. Eu não precisei me virar para saber que Alexander teria sorrido e levantado as sobrancelhas sugestivamente.
Grunhi, propositalmente avisando aos meus familiares que estava sendo um sofrimento passar tempo com ela. Fechei a porta da sala atrás de mim e atravessei o hall para sair de casa. Eu sabia, no fundo, que aquilo era apenas uma meia verdade.
Antes que eu finalmente alcançasse a porta, senti uma mão me puxando pelo ombro e me virei. Alexander me lançou um olhar de aviso e nos levou para fora.
— Não quero que elas escutem o que tenho a te dizer, Luke.
— E o que seria? — perguntei, ajustando meu casaco, mas eu já fazia ideia pelo menos do assunto.
— O psicólogo hoje, bem, digamos que ela tenha amenizado algumas coisas.
— Hm — foi minha simples resposta, seguida por um pedido para ele continuar e explicar melhor.
— Ele me disse ontem, durante uma ligação, que nosso pai está sim lúcido e aparentemente normal. — Segurei minha respiração. — Entretanto… ele parece estar mais violento ou, pelo menos, com um pavio mais curto ainda do que o de costume.
Tudo bem, isso não era exatamente uma mudança tão radical assim nos comportamentos do meu pai, mas tinha sua devida importância.
— Temos que ficar de olho nele. — Já me virava para seguir meu caminho, mas o que Alex ainda tinha a dizer me fez congelar.
— Não é só isso. Enquanto ainda estava sob tratamento mais intenso, o psicólogo disse que ele estava proferindo ideias e planos, erm, extremistas. — Percebi como Alex tinha parado para escolher um adjetivo adequado, mas pelo tom sabia que poderia tanto ser dito que as ideias de nosso pai estavam sendo malucas e absurdas.
Engoli em seco. Isso sim era um problema.
— Vamos ter que torcer para que tenha sido apenas fruto de sua forte medicação.
‘E não de sua loucura iminente’ meu lobo completou, mas nenhum de nós teve coragem de emitir isso em voz alta.
De repente, qualquer distração, mesmo que fosse Alice, era bem vinda para tirar esses pensamentos de nossa cabeça, até mesmo para meu lobo.
—x-
— Que saco, Luke! Da próxima vez que você me deixar esperando por quarenta minutos eu vou pessoalmente até sua casa e te arrastar pela porta.
Eu estava saindo de um café com Alice, que decidira que queria um café quentinho para se aquecer antes de fazermos nosso programa para hoje. Já fazia uns vinte minutos que estávamos juntos e ela ainda continuava a permanecer no assunto de minha demora. Porém, eu tinha que admitir que fiquei surpreso em como ela, mesmo de brincadeira, desafiava minha autoridade. Achei divertido, mas sabia que fazia apenas parte de sua tática para me cativar.
— Duvido muito que você um dia consiga — falei a ela, rindo levemente da ideia. — Sou um cara pesado e não aconselho qualquer um a mexer comigo.
— Ah, mas eu não sou qualquer uma, Lucius. — Seus olhos azuis, lindamente adornados com maquiagem preta, fitavam-me. Eu precisava abaixar bastante meu rosto para poder encará-la, devido a sua pequena estatura. — Talvez eu realmente não conseguisse somente por força bruta, mas sou muito persuasiva quando quero ser.
Suas palavras impregnaram o ar, flutuando entre a gente, e eu fiquei sem saber o que responder. Essa tinha, sem dúvidas, sido sua intenção. Alice havia conseguido me deixar sem palavras, constrangido, até.
Acompanhei-a até meu carro, abrindo a porta para ela entrar. Depois de já ter passado tanto tempo com ela, percebi que o que incomodava não era exatamente a companhia dela, mas sim o fato de que isso nunca havia sido ideia minha. Na verdade ninguém havia sequer perguntado minha opinião.
Minha mãe apenas esperava que eu fizesse o que ela havia “sugerido”. Mandado seria uma palavra mais adequada, pra falar a verdade. Alexander, bem, ele via isso como sendo um caminho rápido para meu amadurecimento e, talvez assim, eu pudesse tomar mais responsabilidades e livrar as dele um pouquinho.
Se Robert estivesse aqui eu sabia que ele não se envolveria, até porque, além de ser doutor, ele tinha que cumprir os papéis políticos e financeiros de segundo em comando do continente. Nada fácil, nada simples. O cara mal tinha tempo para almoçar em paz. Mas eu sabia que, ao voltar a viver cotidianamente comigo, ele ia tentar dar umas espetadas aqui e ali sobre como estava na hora de eu criar vergonha na cara e crescer de vez.
O Letum, bem, era o pior de todos. Eu sabia perfeitamente bem o que ele queria. Queria que eu fosse mais como meus irmãos, isso era óbvio. Mas também queria me ver acasalado de uma vez, com uma loba de sua aprovação. Eu sabia que ele achava que ter um filho solteirão denegria a imagem da família. Além de solteirão, eu fazia questão de demonstrar como eu não tinha interesse em me envolver na politicagem lupina. E tudo isso o irritava demais.
Eu também não podia ficar bravo com minha mãe, eu sabia que ela tinha meus melhores interesses em vista em tudo que ela fazia. Queria que, quando meu pai voltasse para casa, para seu posto, se deparasse com seu filho mais novo se endireitando. Ou, ao menos, se envolvendo com uma boa moça da alcateia. Meio caminho andado.
No fundo, para o Letum, eu não tinha muito valor. Era um pensamento que vinha me corroendo desde que eu era criança, e disso já se fazia muito tempo. Ele já tinha dois filhos homens, lobos fortes, dominantes, carismáticos e mais do que aptos para serem grandes líderes. Não que eu não fosse assim, eu era parecido com meus irmãos, mas ele já tinha o bastante disso. Eu desconfiava que Octavian gostaria mesmo é de ter tido uma filha, uma princesinha lupina para desfilar por aí.
Portanto, para ele, eu tinha a obrigação de, no mínimo, acasalar bem e manter as aparências da família. Ele já havia me feito um grande favor ao me deixar morar como solitário em Columbus, ele não me cederia mais nenhum outro.
— Em que está pensando tanto? — questionou Alice, percebendo meu olhar vago e meu silêncio, enquanto eu dirigia em direção ao norte da cidade, onde havia uma tremenda floresta em que nosso grande número de lobos poderia se aventurar sem preocupações.
Se eu já não tinha mais escolha, se era minha obrigação passar tempo com Alice, então eu deveria, ao menos, aproveitá-lo. Eu não precisava necessariamente acasalar com ela, não de cara. Contudo, podia muito bem me divertir, divertir a nós dois.
— Apenas em minha própria tolice — respondi, decidindo, finalmente, esforçar-me em dar a ela encontros de verdade. Mesmo já sendo o quinto encontro, estava na hora de eu me permitir aproveitá-los. Ela continuou a me encarar, esperando que eu revelasse mais. — Não sei como nós dois não saímos mais vezes antes de eu me mudar.
Não precisei desviar o olhar da estrada para perceber a mudança repentina em Alice. Como era de comum com os lobos, era possível detectar as emoções e o humor de uma pessoa, quando muito fortes, pelo olfato. Alice, assim que eu me pronunciara, havia passado a exalar um aroma de puro deleite. Eu tinha certeza de que ela estaria portando um sorriso de orelha a orelha.
— Também me admiro com isso — revelou por fim, quando havia conseguido controlar seu contentamento, para não deixá-lo tão visível assim pela voz. — É incrível como nos damos bem, eu me sinto muito bem quando estou com você, Luke.
— E eu quando estou com você. — Não era nem uma completa verdade, nem uma completa mentira.
Quando finalmente chegamos ao nosso destino, ajudei-a a sair do carro, sendo ligeiro para abrir a porta para ela como um cavalheiro. Alice desceu com uma bolsa, que depois percebi que era de uma câmera.
Passeamos a pé pela floresta por cerca de trinta minutos até que eu sugeri que fôssemos dar uma corrida como lobos.
— Na verdade — ela disse, um pouco envergonhada, mas mais determinada do que envergonhada — eu pensei que a gente pudesse tirar umas fotos — sugeriu, e eu sorri. Havia me esquecido de seu pequeno hobby.
— Tudo bem, podemos tirar umas selfies com sua câmera.
— Ah, não. — Ela deu uma leve risada. — Detesto selfies. Sou longe de uma fotógrafa profissional, mas gosto de aspirar a ser. Lembra que te contei uma vez sobre o mural que tenho no meu quarto?
Lembrava-me vagamente, então pedi por mais detalhes.
— Tenho todos meus amigos da alcateia fotografados, na mata, como lobos. Já são dezenas de lobos colados na minha parede. — Ela riu. — Posso fotografar você também?
Querendo ou não, eu tinha gostado muito daquilo. Sim, eu às vezes pensava que o interesse dela por mim não era exatamente devido a minha personalidade. Contudo, algum sentimento genuíno ela deveria possuir, já que queria me colocar em seu mural. Ela queria que eu fizesse parte de algo que, para ela, era importante, e isso me deixou feliz.
— É claro, Alice. Ficaria honrado.
Andei para trás de algumas árvores para tirar minhas roupas e me transformar. Para a surpresa de Alice, que acho que nunca havia realmente parado para me admirar em minha forma lupina, um lobo negro de olhos dourados saiu em meio às árvores para seu encontro.
Fitei-a, esperando que ela me desse alguma instrução sobre o que exatamente fazer. Eu não estava acostumado em ser fotografado, não assim, só de forma mais informal. Honestamente, estava meio perdido. Entretanto, ela permaneceu me encarando por alguns minutos antes de finalmente falar alguma coisa.
— Nossa, você é realmente deslumbrante. — Percebi o rubor se espalhando pelo seu rosto no mesmo instante em que soltara sua frase. Mesmo ela querendo me conquistar, deu para notar que ela não queria ter sido exatamente tão franca e direta assim. — Q-quer dizer, seu pêlo é tão brilhante. De todos os lobos negros que eu já vi, você é o mais escuro. Tão escuro e brilhante quanto um céu estrelado.
Nenhum de nós, nem o lobo, nem o humano, conseguiu ignorar a boa sensação que ouvir as palavras de Alice causou.
Após eu agradecer sutilmente com um aceno de cabeça, ela começou a me direcionar para os locais em que achava que as fotos ficariam mais bonitas. Pedia para eu posar de diferentes formas, até mesmo em forma de ataque, em pleno salto, de barriga para cima, como um cachorro carente! Confesso que eu estava me divertindo a beça com Alice naquela tarde.
— Aqui, Luke. Acho que deu. Venha ver como ficaram.
Fui até ela, ambos lobo e humano igualmente curiosos e ansioso para ver os resultados. Ela passava cada foto, mas não sem antes olhar para ver minha reação para com cada uma delas. Algumas ficaram bem borradas e esquisitas, mas um bom número delas ficaram de fato extraordinárias. Ela parou em uma em que eu estava com os dentes à mostra, de frente para a câmera, agachado e pronto para investir contra minha presa.
— Essa aqui ficou especialmente boa, vou colocar bem no centro de minha parede — comentou, e então virou-se para mim, decidida a dar sua própria investida. — Você é realmente um cara feroz, Luke. Amedrontador, mas medo está longe do que eu estou sentindo por você há um bom tempo. — Colocou sua mão direita em meu pescoço, acariciando meus pêlos. — Queria poder mostrar para você o que sinto.
Antes que minha parte lupina tivesse sequer chance de refletir sobre qualquer coisa, transformei-me na frente dela. Sua mão agora segurava meu rosto, seus olhos azuis sofriam com a tentação de se desviar do meus.
— Você é muito boa nisso — confessei, referindo-me tanto em suas habilidades fotográficas, quanto em suas habilidades para me fazer ceder.
— Obrigada. — Um meio sorriso surgiu em seu rosto mas eu logo o desfiz, chocando meus lábios de forma rápida e feroz contra os dela.
—x-
Scarlet
O clarão, a princípio, parecia que ia me cegar. Estava durando por tempo demais, eu achava, mas eventualmente começou a se dissipar e eu pude ver o maravilhoso mundo que me aguardava.
Parecia, sem dúvidas, com o conceito de Paraíso que muitas culturas possuíam. Havia natureza por toda parte, água fluente, altas árvores carregadas de folhas, arbustos floridos com todas as cores do arco-íris. Surpreendi-me até mesmo com animais silvestres vivendo inalterados pelos efeitos da humanidade.
Ao relembrar algumas aulas e discussões que eu tivera com os Selvagens, lembrei-me, morbidamente, que os animais fofos e bonitos eram, exatamente, espíritos. Animais que morreram, de uma forma ou de outra, no mundo material. Já o cenário em si, eu sabia, era graças aos grandes espíritos da natureza que, aqui no mundo deles, tinham mais força e podiam exercer seus poderes sem a interferência de humanos e sua devastação ou poluição.
Era uma cena maravilhosa, acolhedora. Era tentador passar horas sentada ali na grama, como eu chegara, apenas observando e me deleitando com o sossego. Decidi fechar meus olhos por um momento, desligar-me por uns minutos e apenas concentrar-me nos belos sons da natureza.
Quando abri meus olhos, porém, levei um susto tão grande que caí para trás. Um homem me encarava, estava há uns quinze metros de distância de mim, mas não havia estado ali antes. Repeti para mim mesma de que não havia motivo para eu me alarmar. Isso era normal. Do mesmo modo que os espíritos dos animais vinha para cá, os dos humanos também vinham. Tomei coragem para levantar e, inspirando profundamente, aproximei-me do homem.
Ele nada falou, mesmo eu o circulando, minha curiosidade ultrapassando meu bom senso.
— Qual o seu nome? — perguntei, mas ele apenas negou com sua cabeça.
— Essas coisas não são importantes para nós aqui — esclareceu.
Arqueei minha sobrancelha. Eu achava que nunca tinha ficado tão curiosa na vida.
— Há muitos outros de vocês aqui? — Pensando melhor, não era uma pergunta muito esperta. O mundo espiritual era enorme, gigantesco, maior inclusive em extensão do que a Terra. Todas as almas vinham para cá em algum momento, mas, na hora, não me lembrei disso.
O homem assentiu com a cabeça e indicou para que eu o seguisse. Esquecendo-me totalmente de minha promessa a meus amigos Selvagens, adentrei a mata densa com ele. Passamos por alguns espíritos também caminhando pela floresta, mas não era esse o destino dele. Finalmente, chegamos a um vasto lago, rodeado por pequenas pedras e cedros altos. Em um de seus lados havia um enorme paredão, pelo qual descia um belíssima cascata. A água era cristalina, refletindo as árvores e a paisagem como um espelho.
Havia uma particular aglomeração de espíritos aqui. Poucos falavam entre si, parecendo a maioria estar absorto na mesma contemplação e na mesma paz que eu estivera há apenas alguns minutos. O homem que me levara até ali me deu as boas-vindas, confessando que não tinha recebido a visita de nenhum novo Selvagem há algum tempo. Agradeci educadamente, avisando que iria dar uma volta no lago antes de partir.
A extensão do lago era verdadeiramente longa, mas eu secretamente agradecia por isso. Dava-me uma desculpa para ficar mais tempo nesse maravilhoso mundo novo. Eu passava pelos espíritos, curiosa, estudando seus rostos e suas expressões, mesmo com a maioria deles simplesmente me ignorando.
Ao longo de minha caminhada, entretanto, percebi um espírito em particular que me chamara a atenção. Estava mais afastada do que os outros e, ao contrário deles, não estava conversando, nem relaxando, nem sequer olhando para a linda visão que era o grande lago. Parecia, inclusive, estar um tanto quanto perdida.
Decidi chegar mais perto dela, admirando seus longos cabelos castanho-claros, um pouco ondulados, que esvoaçavam com a suave brisa do lago. À medida que fui me aproximando, comecei a me dar conta que aquele corpo, aqueles cabelos, eram familiares. Dando os últimos passos que nos separavam, prendi minha respiração, tentando tomar coragem para chamá-la.
Coloquei minha mão de leve em seu ombro, impressionando-me em como os espíritos eram materiais nesse mundo. Não estava preparada, porém, para me impressionar ainda mais ao me deparar com os olhos cor de mel de minha melhor amiga, amedrontados, encontrando-se com os meus.
Fale com o autor