Valente

25 Parte III - XXIII


Notas iniciais
Tudo bem com vocês, pessoal? Espero muito que sim e espero que estejam preparados para mais um capítulo de Valente! :}

Becca

Não sei porque me surpreendi ao saber que Aidan havia mandado mensagens para absolutamente todos os membros da alcateia para não darem as caras em casa no dia seguinte, que seria um sábado. Eu devia ter pensado que ele faria isso, de uma forma ou de outra. Não teria, realmente, outro motivo para ninguém ter aparecido durante um dia inteiro, fato que não passou despercebido por mim. Achei, talvez, que fosse apenas uma feliz coincidência.

Apesar da tremenda vergonha que estava passando, não podia deixar de ficar agradecida por ele ter feito isso. Afinal, se não fosse o pensamento à frente que ele teve de avisar o pessoal, não poderíamos ter passado o dia inteiro enrolados nas cobertas, como fizemos. Eu podia fingir estar brava, mas por dentro havia ficado muito contente.

E hoje, manhã de domingo, quase hora do almoço, todos já tinham chegado para nossa tradicional reunião e faziam um semicírculo em nossa frente na escada, impedindo que fugíssemos sem maiores explicações. Não que eles precisassem de um relatório completo para perceber o que havia acontecido. O cheiro, é claro, estava no ar.

‘Assim como o amor...’ Bexi cantarolou, brincalhona e ao mesmo tempo suspirante. Eu certamente me lembraria de tirar sarro dela depois.

Como se eu estivesse menos suspirante do que ela.

— Podem passar a grana, rapazes. Eles não só fizeram as pazes como foi Becca quem foi atrás dele primeiro – Trevor demandou, tirando suas luvas de cozinha após ter posto o último prato de comida na mesa, sendo também o último a adentrar o semicírculo.

Isso desencadeou uma série de resmungos e comemorações dos dois lados da alcateia. Até mesmo Kenna enfiou a mão na carteira para retirar alguns dólares. Encarei-a com uma cara feia, mas sabia que minha cara estava nada assustadora. Não tinha como eu e minha loba ficarmos irritadas com eles, não depois das últimas vinte e quatro horas que tivemos.

— Eu ainda não acredito que vocês transformaram nossos assuntos pessoais em uma aposta! – falei com falsa indignação.

— Boneca, você faz parte de uma alcateia. Devia saber que não existem assuntos pessoais quando se trata de uma alcateia – Clayton zombou, usando meu antigo, mas aparentemente permanente, apelido.

— Vai me dizer, Becca – Trevor me encarava com olhos que sabiam coisas demais. – Fiz bem em sair daqui àquela hora, não é?

Minha vontade era de mandar ele para aquele lugar, mas não deixei de perceber o calor que me subiu pelo rosto e de ter a certeza de que estava corando terrivelmente.

— Para sua informação, fez bem sim. Mas não é da sua conta saber nenhum detalhe, Trevor – retruquei.

Aidan apertou levemente a mão que descansava em minha cintura em um sinal de apoio e reconforto.

— Não precisamos explicar nada, tenho certeza de que Trevor deve ter esclarecido o que presenciou aqui na sexta de madrugada quando vocês receberam o pedido para não viram até aqui ontem. Vocês sabem usar a cabeça. E, caso a cabeça não esteja sendo o suficiente, existe um motivo para o faro de vocês ser aguçado, então o usem. – A expressão de Aidan era severa, mas havia um traço de um sorriso que queria aparecer, fazendo o canto de sua boca mais próximo de mim estremecer. – Além disso, por mais contente que eu esteja, não quero ver Rebecca sendo o centro das atenções por esse motivo, nem quero que ela se aborreça. Portanto, chega de apostas envolvendo nós dois. – Seu tom de voz estava contaminado por uma sombra de risada que queria sair.

Meus irmãos se entreolharam e percebi que a grande maioria ficou um tanto decepcionada, querendo ao menos alguma reação mais elaborada. Deveriam saber melhor, saber que seu Alpha não seria um para glorificar seus feitos amorosos com o bando. Mas fiquei com pena deles e, talvez também simplesmente por tamanha felicidade que estava sentindo, decidi dar a eles algumas migalhas.

— A resposta é sim. – Fingi um suspiro e revirei os olhos, falando a próxima frase arrastada quase como uma criança repetindo uma promessa. – Eu reivindiquei Aidan e aceitei ser reivindicada por ele.

Os oito lobos explodiram em palmas, risadas e gritos de apoio. Liam inclusive, sem eu nem perceber, correu até o armário da sala de jantar para pegar uma garrafa de Champagne e conseguiu abri-la no meio da sala, quase acertando com a rolha na televisão nova.

— Pelo amor de sua pele, Liam! – Aidan advertiu, mas estava rindo demais para conseguir ser levado a sério. – Não quero ter que comprar móveis novos para essa casa em alguns bons anos!

Eu o cutuquei com o cotovelo levemente no intuito de fazê-lo parar de pegar no pé dos lobos, e os olhos carinhoso que recebi de volta sem dúvidas me fizeram ter mais clareza ainda de que estava fazendo a coisa certa. Tudo parecia certo, eu sentia-me certa, ao menos era isso que o eterno calor que havia dentro do meu coração parecia sinalizar.

Sentia-me feliz, isso era fato, mas havia uma parte de mim que sentia a falta de um pequeno lobo com o sorriso mais belo que eu já havia visto. Riley permanecia na Cidade do México com Scarlet, e com certeza todos sentíamos que essa celebração estava faltando sua presença. Eu sabia que ele estava se divertindo e aproveitando seu tempo com sua namorada, e certamente não deveria estar sentindo tanto nossa falta quando nós sentíamos a dele, e isso fez meus ânimos melhorarem levemente.

Nos dirigimos então para a mesa, onde havia três deliciosos e esfumaçantes pratos para nosso almoço. Direcionei-me para sentar no meu lugar de sempre, entre Nate e George, do lado esquerdo da mesa. Contudo, Aidan me empurrou levemente, em um silencioso pedido para eu sentar ao seu lado, no lugar que Riley normalmente ocuparia. Por mais que os assentos fossem, essencialmente, aleatórios, acabávamos sempre respeitando o mesmo lugar.

Justamente por isso, neguei levemente com a cabeça apenas para que ele pudesse ver, e dirigi-me para meu lugar habitual. Não queria ter que mudar qualquer coisa que fosse por estar namorando Aidan – e esse conceito ainda parecia não ter encaixada direito em minha cabeça. Mas eu e minha loba gostaríamos de continuar sendo vistas do mesmo modo que antes. Não queríamos nenhum tratamento diferenciado após o dia de hoje, nem pelos lobos, nem pelo Alpha. Conhecendo esse grupo de lobos, sabíamos que provavelmente não o teríamos, mas da mesma forma achávamos que manter algumas coisas do jeitinho que eram antes seria uma boa ideia.

Aidan apenas prosseguiu em sentar em seu lugar em uma das ponta da mesa, mais especificamente naquela em que ele não ficava de costas para a porta e em que ele conseguiria enxergar alguém adentrando o cômodo com mais rapidez, caso houvesse alguma intromissão. Não parecia especialmente chateado, ou ao menos conseguia escondê-lo bem e, mandando um sorriso em sua direção, eu e Bexi ficamos muito agradecidas por ele nos entender.

— Realmente, Liam, foi uma ótima ideia abrir o Champagne. Inclusive, Spencer, pegue mais um aí atrás, cara – sugeriu Clayton.

— Tive que abrir! Achei que não estaria vivo para ver esse dia – Liam brincou, olhando em minha direção.

— Concordo, achei que levaria mais uns quatro anos até a Becca aceitar sequer pegar um cinema com ele – Nate contribuiu, e como resposta eu mostrei aquele dedo para todos os presentes.

Fingindo ainda chateação, roubei a taça de Nate ao meu lado e a virei. Ouvi-o bufar ao meu lado e encher o que seria a minha taça, que havia agora pego para si. Por mim, tudo bem. Não era muito adepta de Champagne, achava a bebida demasiado amarga, mas os lobos sempre mantinham um estoque para datas festivas pois a grande maioria deles ainda a apreciava. Bem, e porque velhos costumes são difíceis de quebrar.

Avançamos na comida como um bando de cães esfomeados, como era de costume e como era verdadeiro. Algumas conversas paralelas surgiam entre a mesa, mas nenhuma parecia dizer respeito a mim ou a Aidan. Meus irmãos decidiram dar um tempo em tirar sarro de nós.

George começou um assunto discreto comigo, perguntando-me como eu estava desde que eu havia parado meus treinamentos no dojô com Aidan. Certamente, sendo não apenas o querido George, mas também um competente psicólogo, estava preocupado com meu bem-estar mental, e os treinos tinham sido minha única forma de terapia após o assédio de Maxwell.

— Para ser honesta, George, esse é um dos outros motivos pelos quais eu me arrependo de ter brigado com Aidan. Queria poder ter continuado a ir, e certamente vou importunar nosso Alpha para voltarmos – expliquei. – Não necessariamente por causa do que aconteceu, mas simplesmente porque senti que estava me fazendo bem. Fisicamente, mentalmente, até para a Bexi e o lobo do Aidan também, creio.

— Parece que seria benéfico para eles sim. É outra oportunidade para vocês deixarem os lobos se aproximarem, em um cenário diferenciado da floresta.

— Você acha? Também achei, mas creio que seja mais significativo vindo de você essa análise. – Sorri e levantei-me brevemente para me servir de mais uma porção dos deliciosos alimentos preparados por Trevor. Eu me perguntava como ele estava conseguindo fazer tamanha quantidade de comida e com a mesma impecável qualidade sem a ajuda de Riley.

Eu nunca havia sido boa em cozinhar, mas sempre havia tido um interesse em aprender. Acontece que cursos de gastronomia são caros e por isso nunca persegui isso. Mas, vendo que nenhum dos outros lobos pareciam ter talento nem interesse, fiz uma anotação mental para oferecer minha ajuda a Trevor, desde que ele me ensinasse tudo o que sabia, é claro.

‘E que tenha paciência, pois queimaremos inúmeros rocamboles, pode ter certeza.’

Quando voltei a sentar-me, Nate ofereceu para encher minha taça novamente, mas declinei. George iniciou novamente a mesma conversa comigo, e permanecemos no tópico por bastante tempo. Cheguei a aceitar ter algumas sessões esporádicas com ele, apenas para desabafar e porque ele gostaria de ter certeza de que eu havia me recuperado do que havia passado durante a tomada da alcateia.

Estava justamente relembrando com Bexi a “visita” de Joseph Beitman e como deveríamos estar alertas para qualquer notícia daquele lado do país quando percebemos Aidan levantar da mesa. Seu celular estava em seu ouvido e, certamente por ter checado o visor, decidiu que teria a conversa em seu escritório. Todos nós ainda conseguiríamos ouvir, mas por questão de educação, fazíamos uma conversação mais alta e fingíamos que não prestávamos a atenção no outro cômodo.

Cerca de trinta minutos depois, Aidan voltou e eu, Liam e Connor retirávamos a mesa enquanto Trevor trazia a sobremesa. Nós já sabíamos o assunto em geral, mas os detalhes creio que ninguém conseguiu pegar, portanto o silêncio reinou quando Aidan se sentou.

— Recebi uma ligação diretamente do Maine, como devem ter percebido – começou nosso Alpha. Corri deixar os últimos pratos na pia e voltei para meu assento com Nate rindo da minha ansiedade. – O Letum já voltou às suas funções normais, mas decidiu que não governará sozinho mais. Após essa sua...

— Crise? – Kenna sugeriu e alguns de nós tivemos que abafar o riso, apesar de apoiarmos nosso designado Alpha dos Alphas.

— Recaída – Aidan corrigiu, apenas levemente ofendido. – Após sua recaída, percebeu que talvez precise que seu irmão mais velho assuma algumas das funções. Robert, contudo, como vocês sabem é o melhor médico lupino que esse mundo já viu. Ao menos creio eu, sabendo que ele salvou minha vida quando nem mesmo a licantropia conseguiria.

Involuntariamente apertei os talheres que segurava com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram brancos. Era uma dor estranha, temer por algo que já aconteceu e que, quando aconteceu, eu não teria dado a mínima. Não teria nem como me importar, pois era apenas uma criança, mas a noção de que Aidan quase não conseguiu tornar-se lobisomem, e assim morreria de seus ferimentos, fazia meu coração bater dolorido.

— Em resumo, Robert não quer a posição, mas Alexander a quer. Ou seja, o terceiro lobo mais dominante do continente será, oficialmente, o braço direito do Letum e assumirá algumas de suas funções para que as tarefas não pesem muito em seu pai. Agora, vou contar-lhes a segunda parte da ligação que recebi.

Seus olhos negros encontraram os meus e sustentaram meu olhar por tempo o suficiente para todos me olharem.

— Nossa invasão foi comunicada faz tempo, mas por causa do frágil bem-estar mental do Letum, faz pouco tempo que conseguiram virar sua atenção para nós. Devido à nova posição de Alexander, será difícil que ele faça esse tipo de viagem daqui em diante e, como é de costume, Robert está sendo requisitado em outro lugar de nosso território no momento.

— Isso quer dizer... – comecei, sem conseguir segurar minha empolgação e levantando da cadeira.

— Isso quer dizer que, para ver o estado em que estamos, assim como para pegar um relatório de cada um dos envolvidos, Lucius Latham deverá estar viajando para cá dentro das próximas setenta e oito horas. E Rebecca – interrompeu minha comemoração antes mesmo que eu a começasse. – falei especificamente com ele. Ficou evidente que sua maior razão para vir é por querer saber de sua saúde. Ele está profundamente abalado pelas notícias, e disse que vai fazer o possível para vir aqui com a maior rapidez possível.

‘Quanta saudades do nosso filhinho de papai preferido...’ Bexi divagou, a ansiedade para revê-lo tão presente em sua voz quanto certamente estava em meus olhos.

Fui até Aidan em busca de contato corporal. Precisava abraçar alguém depois dessa notícia e, surpreendentemente, senti no toque de Aidan a mesma expectativa para rever Luke quanto eu. Pensei que certamente não era pelo mesmo motivo, mas sim simplesmente por seu constante desejo de me ver feliz.

— Isso é tudo muito feliz e ótimo e tudo o mais, mas acho que está na hora de vocês prestarem atenção na torta de abóbora que eu fiz! Vocês sabem a dificuldade de achar abóboras boas nessa época do ano, sinceramente? – Trevor reclamava como uma avó irritada e me peguei pensando em como não conseguia mais visualizar Trevor como sendo aquele brutamontes feroz que ele era quando o conheci. Tanta coisa mudou, e tanta coisa para melhor.

Quem diria que eu estaria aqui, nos braços do Alpha que eu odiei desde o primeiro dia que pisei nessas terras? Ou almoçando num domingo com a alcateia da qual fugi por tantos meses? Ou teria feito uma amizade duradoura com a loba que queria me ver empalhada em cima da lareira? Ou que eu seria amiga e confidente do lobo do qual quase arranquei fora o antebraço, e que me xingava de vadia diariamente quando os ouvidos de seu Alpha estavam longe?

Estava tudo em harmonia e de uma forma que eu jamais esperarei que ficasse. Eu jamais pensei que esse caminho, que fui forçada a trilhar, me traria felicidade verdadeira. E eu e Bexi nunca na vida estivemos tão felizes em estarmos completamente enganadas.

Até parecia que nada nesse mundo poderia estragar essa felicidade.

~X~

Scarlet

Estava chovendo forte naquela noite, e o carro que Riley havia alugado e que eu havia emprestado para ir ao salão de beleza estava sendo acoitado pelo vento. As ruas estavam com pouquíssimo movimento, o que fazia total sentido, visto que poucas pessoas eram tão imprudentes quanto eu em querer sair de casa em um tempo desses.

Acontece que eu precisava ir ao salão. Depois que voltamos da fazendo do Senhor Gutierrez, onde descobri que o segundo espírito animal a me escolher foi o de um falcão peregrino, meu cabelo e minhas mãos estavam um horror. Não vou nem mencionar meus pés, pois certamente a visão deles seria fruto de um pesadelo horripilante.

E, olha, normalmente eu não estaria ligando para isso. Quer dizer, exceto para meu cabelo. Mas o problema era que hoje marcava exatamente uma semana para Riley ter de ir embora, e acho que era evidente que não consegui passar tempo com ele adequadamente enquanto estava na fazenda.

Por isso marcamos de jantar fora nesta noite. Não, não íamos comer comida mexicana – a essa altura do campeonato eu já estava enjoada – mas Riley descobriu um restaurante muito bem avaliado de frutos do mar e, honestamente, fazia tempo que eu não comia uma casquinha de siri bem-feita. Na realidade, confesso que nunca comi casquinha de siri na vida, e essa era a minha chance.

E é claro que eu precisava estar apresentável para a ocasião, e para o que viesse depois, se é que me entende.

Justamente por tudo isso é que eu estava enfrentando o que parecia ser o filho prematuro do furacão Katrina. A chuva agora batia tão forte que eu não conseguia enxergar as ruas à minha frente. O para-brisa simplesmente não dava conta. Eu seguia a dez quilômetros por hora nessa maldita tempestade, pois ao menos sabia que boa parte do trajeto era em linha reta.

Assustei-me completamente quando um pedaço gigantesco de galho bateu na lateral direita do carro, fazendo-me gritar e depois xingar alto em espanto. Por um milagre e uma breve pausa na chuva que durou cerca de um minuto, consegui avistar um posto de gasolina do lado esquerdo da pista. Rezando para não haver nenhum louco correndo em meio a uma tempestade destas, sinalizei a conversão – não sei para quê, visto que ninguém enxergaria – e atravessei o outro lado da pista, agradecendo aos deuses da natureza quando o incessante martelar dos pingos de chuva cessou. Na verdade, eu deveria é estar dando um belo sermão nos deuses da natureza, por decidirem castigar a humanidade por seus pecados justamente no dia do meu jantar, mas tudo bem.

Suspirei ao finalmente conseguir enxergar devidamente e estacionei o carro. Olhei-me pelo retrovisor e constatei que eu estava completamente apavorada. Nunca na minha vida eu havia enfrentado uma tempestade dessas e, por mais que a adrenalina ainda estivesse alta, eu sabia que ia ter que esperar o tempo melhorar um pouco para conseguir voltar para o apartamento, onde teoricamente eu pegaria Riley e sairíamos.

Ajeitei meu cabelo recém hidratado sentindo-me bela e poderosa. Rebecca certamente me torturaria com deboches até a semana que vem se pudesse ouvir meus pensamentos. Mas eu estava arrumada, estava bonita, e tinha dirigido com sucesso por cerca de quarenta minutos nesse tempo horroroso.

Eu merecia um tapinha nas costas.

Só não esperava realmente receber um.

A sensação de uma mão encostando em meu ombro me fez pular na hora de meu assento, contudo, ao virar-me para trás, não encontrei ninguém.

E era óbvio que não encontraria, estava sozinha no carro, afinal! Não pude deixar de lembrar que Selvagens possuíam a habilidade de contatarem, ou serem contatados, por espíritos humanos, mas dispensei a ideia. Deveria apenas ser fruto de tamanho estresse que eu havia acabado de passar.

Decidi que precisava sair do carro e respirar um pouco de ar fresco. Bem, ar muito bem hidratado ao menos, pois a chuva da tempestade vinha de forma lateral e molhava parte do posto de gasolina. Fechei a porta do sedan que Riley alugou e entrei na lojinha de conveniências.

Como o esperado, só havia eu ali dentro e uma senhora que seria a atendente do caixa caso ela estivesse acordada. Eu não sabia como alguém conseguia cochilar quando o mundo estava caindo do lado de fora, mas ela parecia estar fazendo um belo trabalho nisso. Fui até o fim da loja e peguei um pequeno pacote de amendoim e um chá gelado. Ao me aproximar da caixa, fiquei pensando em como acordá-la e decidi por apenas deixar a respectiva quantia no balcão a sua frente.

Saí da loja e me apoiei com as costas no carro, abrindo a latinha do chá e tomando um grande gole. Não havia percebido a sede que eu estava. Ansiedade dá sede? Aparentemente sim, pois terminei o chá em menos de dois minutos.

Observei os arredores do posto e, novamente, notei como eu estava sozinha. Ninguém havia saído de suas casas num dia como esses, apenas os mais teimosos ou os que não tinham opção. Aqui na Cidade do México, ao menos nesse posto, não havia frentista, assim como era costume nos Estados Unidos, e perceber isso me fez sentir ainda mais solitária.

E eu não entendi por quê isso estava me incomodando tanto no momento.

Abri o pacotinho de amendoim e coloquei alguns na boca, apreciando o aperitivo salgado. Riley que me perdoasse, mas eu não sabia quanto tempo ia ficar parada aqui até a chuva passar. Eu não queria pensar muito nessa possibilidade, mas talvez até tivéssemos que cancelar o jantar.

Pensando nisso, tirei meu celular do bolso por estranhar que Riley não havia me ligado ainda. Ele era muito protetor, como qualquer lobisomem minimamente dominante, e certamente estaria preocupado comigo, sabendo que eu estava na rua. Apertei o botão de desbloqueio e nada aconteceu, a tela continuou preta. Franzindo o cenho, pressionei mais insistentemente o botão apenas para receber no visor o sinal de que minha bateria havia acabado.

Fato muitíssimo estranho, pois ele ainda estava com sessenta porcento de carga enquanto eu brincava com ele no salão.

Praguejei e enfiei o aparelho novamente no meu bolso, pegando mais um punhado de amendoins para colocar na boca. Por isso não recebi ligações de Riley. Coitado, deveria estar com os lindos cabelos castanho-claros em pé de tanta preocupação.

Derrubei, sem querer, um amendoim no chão, que foi rolando para longe de mim. Determinada a não deixar o amendoim simplesmente caído, acompanhei seu trajeto até ele parar abruptamente ao lado de um par de sapatos. Sapatos acompanhados de pernas acompanhados de tronco acompanhados de homem.

Havia um homem aqui, há apenas uns dez passos de mim. Vasculhei o estacionamento para talvez provar para meus ouvidos que eles estavam errados em não perceber que outro carro havia estacionado. Mas meus ouvidos estavam certos, e não havia mais carro algum no posto de gasolina.

Voltei minha atenção para a figura a minha frente que me encarava. Suas vestes eram simples e o sapato gasto. Usava uma jaqueta jeans rasgada em algumas partes, mas com figuras de bandas antigas costuradas. Seu rosto era coberto por uma barba espessa que escondia sua boca, suas sobrancelhas grossas emolduravam olhos azuis desprovidos de vida. Seu cabelo, castanho escuro e longo, cascateava por seus ombros.

Talvez um pouco tarde, dei-me conta que eu já conhecia esse sujeito, e meu coração se acelerou em meu peito, mais ainda do que estava enquanto dirigia em meio à tempestade.

— V-você! – falei, sem coragem alguma na voz.

Era fácil você aceitar as coisas que poderiam vir a acontecer com você, mas muito mais difícil de encará-las quando elas realmente batiam à sua porta.

— Eu já te vi, na vitrine da loja de ternos no centro da cidade há mais de um mês. – Ao mesmo tempo eu gaguejava e tagarelava, tamanho era meu nervosismo. – Eu não vi seu rosto, mas vi sua cabeça, seu corpo...

O homem apenas permanecia ali, imutável e silencioso.

— Você não é humano, é? – Perguntei, amassando o pacote de amendoim na mão como se ele fosse minha fonte de forças.

— Eu sou. Você, não – Ele finalmente respondeu-me, e sua voz não é nem de longe tão amedrontadora quanto imaginei. Chegava a ser... calorosa.

Aparentemente eu havia feito a pergunta errada.

— Digo, você não está vivo.

— Realmente, já faz alguns anos que não, para meu azar. – Parecia até mesmo divertido ao me responder e, claro, ao me ver sofrer para não demonstrar o quanto eu estava assustada.

— O que exatamente você quer? – Ele apenas me fitava. – Veio atrás de mim antes, mas naquela época eu não era forte o suficiente para te ajudar, não tinha aprendido tudo o que precisava para você poder se comunicar. Agora, obviamente pode, então por que não me diz logo?

Levei a mão à boca assim que percebi minha irritação fazendo-se presente por meio de palavras. A última coisa que eu precisava era atrair a raiva de um fantasma, pelo amor dos deuses.

— Q-quer dizer-

O homem deu uma alta gargalhada que me fez sobressaltar, não por parecer maléfica, mas apenas por, simplesmente, soar tão alta. Olho para os lados para ver se mais alguém chegou, atraído por tremendo som, mas continuamos sozinhos e a senhora da lojinha continuava adormecida.

Refleti que provavelmente apenas eu conseguia escutá-lo, eu ou qualquer outro Selvagem que estivesse aqui comigo. Certamente isso, ou aquela senhora conseguiria permanecer adormecida até mesmo durante o Pearl Harbor.

— Rebecca realmente sabe escolher os amigos mais insolentes, pelo que vejo.

Apesar de seu sorriso parecer sincero ao ponto de ser visível pequenas rugas ao redor de seus olhos azuis, suas palavras fizeram meu sangue congelar nas veias.

— Quem é você? – consegui proferir, estrangulando o pacote de amendoins.

Ele ajeitou suas vestes e arrumou seu cabelo, como se realmente estivesse se apresentando para alguém.

— Chamo-me Samuel Young e é um prazer poder conversar com você, senhorita Selvagem.

Dou um passo para trás, mas como estou encostada no carro, acabo desajeitadamente escalando parcialmente o capô do sedan.

— Se acalme, por favor. Apesar de eu ter me divertido um pouco assustando você, não vim te machucar. Não sou esse tipo de fantasma, se quer saber, e não estou apenas falando isso porque você é amiga da minha filha.

— Você... Você realmente é o pai da Becca!

— Pode apostar que sim, em carne e osso. Erm, na verdade, esquece que eu falei isso.

— Rebecca nunca te conheceu direito, não consegue nem lembrar de você! – refleti em voz alta, ao perceber que por mais que eu estivesse conhecendo esse homem, ela nunca faria o mesmo.

Samuel suspirou, olhando para o horizonte por um segundo, que por acaso ainda estava sendo devastado pela tempestade.

— Acredito mesmo que ela não se lembra de mim. Apenas que eu existi, mas não de minha aparência, ou de minha personalidade.

— Será que teria como eu poder mostrar você para ela? Fazer vocês se conhecerem de novo? É por isso que está aqui, quer saber sobre ela? – Dessa vez, tomada pela compaixão por esse homem e minha melhor amiga, amasso o pacote com todos os amendoins dentro por pura raiva. – Maldita seja a mãe da Becca! Isso é tudo culpa dela, por ter envolvido vocês naquele acidente. E espero que você saiba que ela nunca melhorou, continua do mesmo jeito que estava quando matou você e quase levou a pequena Becca junto.

Samuel volta seu olhar para mim novamente, o leve brilho em seus olhos, que antes pareciam vazios, fizeram eu me perguntar se fantasmas conseguem chorar.

— Não estou aqui por causa de Rebecca. E acho muito difícil eu poder reencontrá-la um dia, a menos que seja quando a hora dela chegar. – Ele me surpreendeu com suas palavras. – Surpreendentemente, estou em paz com Melissa. Observei-a durante todos esses anos, apenas se afundando mais em seus vícios, mas nunca pude fazer nada. Porém, aceitei que morri, pois não é como se eu pudesse reverter o que aconteceu.

Eu apenas escuto-o em silêncio, querendo saber um pouco mais sobre esse homem a minha frente, para poder passar cada detalhe para Rebecca, e também desvendar qual seu real motivo por me procurar.

— Por mais que não estou aqui por causa da minha filha, estou porque você precisa dela.

— E-eu?

— É. Quer dizer, ao menos você precisa passar para ela a informação que lhe darei, e daí ela fará o que quiser com essa informação. Ela tem o direito de escolher, afinal, e de ficar enraivecida por toda uma eternidade.

— E o que é que eu preciso contar para ela?

Samuel engoliu em seco, como se apenas de se lembrar desse assunto torna-se nervoso.

— Melissa não está mais em Seattle. – Surpreendi-me ao ouvir isso, Rebecca sempre parecia tão certa que sua mãe jamais sairia daquela casa. – Ela deixou tudo para trás e se mudou para Detroit.

— Detroit? – falei espantada. – O que diabos ela foi fazer em Detroit? É uma das cidades com maior índice de violência do país, além de ter declarado falência há alguns anos.

— Pois é, mas uma cidade falida, onde o crime prospera e que é considerada quase uma cidade fantasma é um ótimo lugar para criar uma sede de produção e tráfico de drogas.

— Eu não acredito... – Lamentei comigo mesma. Rebecca certamente iria ficar arrasada ao saber dessa notícia. Isso ou fingiria apatia e sofreria em silêncio, não querendo dar a sua mãe a satisfação de fazer Rebecca se indispor em público. – E você quer que eu conte tudo isso para Becca?

— Eu preciso que você conte. – Seu olhar era sério e suplicante. – Melissa agora não apenas atingiu um nove “ápice” para seus vícios, mas ela não faz ideia de quem realmente são seus traficantes. Ela não faz ideia no que está se metendo, Scarlet, e Rebecca precisa ajudá-la. – Fez uma breve pausa, sustentando meu olhar de forma dramática. – Eu ainda não fui para frente, Scarlet. Não fui para o mundo espiritual e o além. Estou preso aqui, e devo permanecer atrelado a esse mundo justamente por querer ver Melissa melhorar.

— Eu entendo, Samuel. Entendo mesmo, e até consigo entender, por mais que seja pouco, porquê você está tão aflito em salvar Melissa. Mas, honestamente, é de Rebecca que estamos falando. Não sei se ela vai sequer querer ouvir o que tenho a dizer.

— Sim, sei bem disso – ele disse com um suspiro. – E como disse antes, Rebecca tem todo o direito de escolher. Mas você precisa, ao menos, explicar para ela tudo o que está acontecendo, e deixar bem claro que sua mãe está correndo risco de vida enquanto falamos.

Assenti com a cabeça, concordando que eu precisava fazer o máximo para, no mínimo, conseguir fazer com que Rebecca entendesse a profundidade da escolha que ela teria que fazer. E possivelmente do perigo que ela estaria se metendo para salvar a mãe. Ela e eu, pois não existia motivo nesse universo que me permitiria deixar Becca passar por isso sozinha.

— Conte-me tudo então, Samuel, em seus mínimos detalhes.

Notas finais
Obrigada pela leitura, gente. Por favor, me digam o que acharam nos comentários! Um pequeno update sobre a publicação do livro: já tenho um rascunho (quase pronto) da capa! Ainda vamos trabalhar com aprimoramentos, mas gostei bastante do resultado até agora. Contudo, pedi para a capista fazer uma nova versão da capa em um estilo completamente diferente, mais para ver qual eu prefiro mesmo, e até os dois rascunhos estarem prontos e um for escolhido e aprimorado, infelizmente não poderei divulgar nada para vocês. Mas prometo que logo vem! :) (Um dos estilos está parecido com as novas capas da série Bússola de Ouro, e a outra tenho em mente algo mais parecido com a capa de Dominante aqui no site mesmo) Até o próximo!