Valente
26 XXIV
Notas iniciais

Lucius
Ela tinha parado, um pouco, com as características que mais me incomodavam. Quem sabe ela não tenha percebido que estava sendo uma baita mala sem alça? O pior era que em alguns momentos eu até tinha pena dela. Eu sabia que era desnecessariamente grosso com ela, mas também sabia que era desnecessariamente afetuoso. Infelizmente, eu sabia esse era um claro caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde. No caso, eu era Jekyll – e meu lobo Hyde.
Eu sabia que estava forçando uma coisa que não existia ali. Queria que meus pais não ficassem no meu pé – ainda mais depois que o Letum “contratou” um vice-presidente, Alexander no caso, pois as tarefas de Alex passaram parcialmente para Robert e parcialmente para mim. Queria não ficar mais sozinho – se eu ficasse sozinho, abria espaço para minha mente vagar para lugares que eu não queria que ela vagasse. Queria esquecer uma raposa.
Mas esse era apenas Jekyll falando.
Meu lobo entendia a parte sobre meus pais, mas, sendo um animal, não entendia que humanos abriam mão de prazeres para outros fins. Não, ele estava em busca de seu prazer e, por mais que tenha concordado no começo que Alice poderia ser uma possibilidade, percebeu que a felicidade que sentia como namorado de Alice era passageira, duradoura apenas nos momentos mais calorosos. Mas a felicidade que sentia sendo apenas amigo de Scarlet – mesmo antes da tensão sexual entre nós se tornar algo palpável – sempre estava presente.
Quanto aos outros dois motivos, não preciso dizer que ele os considerava ridículos. Não queria esquecer Scarlet e sabia que sempre estaríamos parcialmente sozinhos caso não ficássemos com a pessoa certa. Há certo romantismo, na licantropia.
Mas o fato era que Alice estava menos... implicante. Estava mais segura de si, não ficava mais pressionando para sairmos sempre que ela tinha uma folga no trabalho, para desfilar como minha namorada. Também não insistia em visitar minha família ou comparecer a todos os eventos. Ela já tinha se enturmado na minha família: Dona Gwyneth a tratava como se ela fosse a melhor coisa que já me aconteceu; Alexander apoiava, pois achava que acasalar me tornaria mais maduro; minhas cunhadas saíam com Alice de vez em quando, mesmo tendo um pouco de ciúmes por ver que Alice agora era o centro das atenções de sua sogra; Robert não poderia ligar menos para minha vida amorosa. E o Letum, bem, ele certamente achava que Alice daria uma bela esposa lupina, pronta para ficar ao meu lado concordando com tudo o que eu falasse e parir muitos filhotes.
Só de pensar nisso minha cabeça ameaçava começar a doer.
Eu não concordei em sair com Alice com o intuito de acasalar. Não me via acasalado com ninguém. Na verdade, até mesmo o namoro não havia sido planejado, apenas acabou acontecendo. E eu sabia que não poderia acasalar com ela, meu lobo não aguentaria, e eu seria um lobisomem infeliz por toda uma eternidade.
Contudo, por enquanto podia aturá-la, pois, quando Alice deixava de ser maníaca por política e aparições sociais, ela era interessante.
E era justamente esse lado dela que eu estava observando, em seu apartamento, enquanto fingia escrever alguns relatórios que eu tinha que entregar antes de viajar. Ela era uma boa fotógrafa, mas agora havia decidido se aventurar em outra modalidade artística.
À sua direita estava uma fotografia de um lobo negro, de costas, na beira de um lago. O modelo, no caso, era eu, algo que havia se tornado muito comum. Era mais divertido do que parecia ser modelo fotográfico, e até mesmo meu lobo parecia gostar um pouco. À sua frente, estava uma grande tela em que ela tentava recriar a imagem em forma de pintura a óleo. Honestamente, para alguém que tinha começado a pintar há apenas uma semana, estava muito bom.
Seus traços com o pincel eram bastante suaves e delicados, mesmo que um tanto desproporcionais, e sua expressão de concentração – com as sobrancelhas escuras franzidas e os olhos azuis focados – era realmente uma graça.
Alice era uma graça, quando decidia não me pressionar.
— Acho que assim está bom por hoje – falou, suspirando e colocando seu pincel em um potinho com água. – Já está tarde, preciso arrumar as malas.
Dei um salto na cadeira, meu lobo convicto de que não tinha escutado direito. Não podia ter escutado.
— Eu já arrumei minhas malas, não precisa arrumá-las para mim. – Eu ainda tinha a esperança de que ela estava apenas querendo ser prestativa.
— Seu bobo. – Ela riu enquanto tirava o avental que usava para não se sujar de tinta. – Acha mesmo que eu ia arrumar sua mala? Sou submissa, mas não sou sua mãe. – Continuou a rir enquanto ia quarto adentro. – Vou arrumar as minhas.
Ao ouvir isso, meu lobo nos levantou imediatamente e, seguindo seu impulso, fui atrás dela em seu quarto.
— Do que você está falando? – perguntei, tentando não parecer tão desesperado quando estava. – Você não vai comigo.
— O que você está pensando, Lucius? Acha mesmo que eu não iria com você? É uma viagem breve, não há nada demais.
— Você vai perder alguns dias de trabalho – tentei argumentar.
O fato é que eu queria passar algum tempo sozinho, sozinho no sentido de longe de Alice, para ver como me sentia sem ela, se sentiria mesmo sua falta.
— Assim como você. Falei com meu chefe, que por acaso tem seu pai como chefe, portanto não viu problema algum em eu acompanhar o filho mais novo do chefe dele em uma viagem de monitoramento de alcateia. – Se eu não estivesse apavorado, brincaria com a ocorrência de tantos “chefes” em sua explicação.
— Monitoramento de alcateia? É assim que meu pai está chamando minha saída?
— E não é exatamente isso? Agora que você assumiu parcialmente as funções de Alex, e como Robert só viaja por motivos de medicina, cabe a você fazer essas viagens.
— Sei disso, Alice. – Bufei. – Mas estou indo para lá para ver como minha amiga está. O fato de eu aproveitar para enviar um relatório da Alcateia de Columbus é só um detalhe.
— Tudo bem então, não fui eu que inventei os termos. – Deu de ombros e colocou uma pilha de camisas dobradas em cima da cama.
— Não há necessidade para você ir. Vai apenas ficar entediada. – Tentei novamente. – Não há nada em Columbus, apenas milho.
— Luke, como sua namorada, quero poder viajar com você. – O jeito que ela falou isso, com os olhos bem abertos e a voz suave, deixou-me com vontade de abraçá-la e concordar com tudo o que ela dissesse. – Alexander podia não levar Pearl nas viagens, mas eu não quero ser esse tipo de companheira. Não quero ficar sentada no sofá tomando chá com outras lobas. Quero poder conhecer e participar das coisas.
E lá estava ela de novo, com aquele papo de novo. Por que tudo mundo achava que Alice seria a próxima – e última – fêmea a entrar oficialmente na família Latham? E por que ela achava que eu iria passar a tomar o posto de Alexander completamente? Eu só estava aqui temporariamente, se quisesse sair, sairia. Robert que abrisse mão da medicina e assumisse o cargo, ou então que achassem alguém de fora da família para assumir.
Percebendo a carranca que eu certamente tinha no rosto, Alice ameaçou, apesar da voz doce:
— Não me faça ter que falar com Dona Gwyneth.
— Estava tudo bem, mas você e minha mãe, e eu sei que ela está metida nisso de alguma forma, tinham que se meter – falei entredentes, batendo a porta do quarto e indo terminar o maldito relatório.
Já passava da hora mesmo de eu ter alguém com quem me abrir sem temer, que entenderia minha relutância em cumprir tudo o que esperavam de mim. Ah, que falta Rebecca fazia às vezes.
~X~
Becca
Eu estava no sofá quando Lucius bateu à nossa porta. Bem, na verdade Aidan estava no sofá, eu estava em seu colo. Era de manhã e todos os outros lobos estavam ou em suas casas, ou em seus empregos. Era em momentos como esses, de privacidade, que eu agradecia mentalmente por trabalhar no período da noite, no horário oposto dos outros.
Desde que eu e Aidan havíamos nos reivindicado, minha vida havia se resumido a acordar, ir para a casa de Aidan, passar o dia todo na casa dele até a hora de ir ao trabalho e do trabalho voltar para casa para dormir. Eu sabia que Aidan queria que eu passasse as noites com ele, mas estava se segurando para pedir isso. Porém, eu ainda não queria que isso acontecesse. Estávamos no comecinho do relacionamento ainda e, afinal, eu ainda pagava as contas da minha casa, deveria então utilizá-la. Além disso, temia que começássemos a levar as coisas em um ritmo acelerado demais e isso poderia estragar as coisas. Porém, de sábado para domingo eu me permitia o agrado e passava o fim de semana com ele.
Ou ao menos era assim que havíamos planejado, e até então eu estava conseguindo manter-me firme. Só não sabia até quando conseguiria ser valente o suficiente para resistir Aidan.
O som da campainha fez nós dois darmos um salto e ambos nos colocamos em pé imediatamente. Endireitei minha blusa e tentei alisar meu cabelo. Aidan pigarreou e passou a mão no rosto antes de atender a porta.
— Olá, Aidan. – Ouvi a voz do meu querido amigo e fui correndo para cumprimentá-lo.
— Olá, Lucius. – Apareci atrás de Aidan enquanto ele convidava Luke para entrar, com um sorriso sincero. – Entre, por favor.
— Belo penteado – Luke zombou, entrando dentro de casa enquanto Aidan desesperadamente tentava ajeitar a prova do que estávamos fazendo enquanto fingia não estar constrangido.
Assim que Luke saiu de sua posição anterior, pudemos perceber que havia uma moça acompanhando-o. Ela era esbelta, com traços finos, cabelos negros como a noite e olhos azuis claros penetrantes. Era deslumbrante, vestindo roupas sociais que não pareciam nem de longe confortáveis o suficiente para se viajar.
Luke abraçou-me com força, levantando-me do chão em um gesto caloroso do qual eu não havia percebido que sentia tanta falta.
— Senti sua falta, Luke – sussurrei em seu ouvido, sincera.
— Eu também, Rebecca bomba-relógio – zombou ao me colocar de volta no chão.
— Tenho melhorado.
— Espero sinceramente que sim, pelo bem-estar da nação.
Soquei-lhe o braço de forma amigável enquanto eu e Aidan observávamos a moça que entrava e fechava a porta.
— Aidan, Becca, essa é-
— Meu nome é Alice Witten e sou a namorada de Lucius Latham. – Ao ouvi-la fiquei dividida entre o choque de saber que Luke trouxera uma namorada, e entre o divertimento de perceber que ela lutava contra a vontade de enunciar todos os títulos que Luke possuía, como se isso o engrandecesse e, consequentemente, engrandecesse a ela.
— É um prazer recebê-la, Alice. – Aidan cumprimentou-a educadamente, após olhar, divertido, para meu amigo e compartilhar um olhar comigo. – Sou Aidan Rucker, o Alpha por aqui. Por favor, seja bem-vinda à nossa alcateia.
Alice assentiu e deu mais alguns passos para dentro de casa, obviamente analisando cada detalhe da decoração e ambientação da nossa “casa de alcateia”. Estendi minha mão para cumprimentá-la.
— Prazer, Alice, sou Rebecca.
— Percebi que era, pela sua familiaridade com Luke. – Eu não sabia se ela estava sendo hostil ou não, não tinha certeza, então decidi ignorar.
— Bem, acredito que vocês estejam com fome, não é mesmo? Vou pôr a mesa para um café da manhã tardio e podemos conversar enquanto comem.
Como o prometido, e como eu era a única loba além do Alpha em casa, preparei a mesa de forma bem simplória. Certamente se Riley ou Trevor estivessem aqui, me xingariam por preparar uma mesa tão ridícula e fariam a comida dos convidados. Contudo, só estava eu, e eu não fritaria ovos para eles simplesmente porque eu não estava a fim. Teriam de se contentar com os bagels que eu havia comprado antes de vir para cá e geleia.
— Puxa, Rebecca, deu para perceber que você tem melhorado seus dotes culinários desde que se juntou à alcateia – falou Luke uns quinze minutos depois, adentrando a sala de jantar com os outros.
— Cale a boca e come, Lucius – reclamei, aproveitando a oportunidade para comer mais uns bagelssem ser julgada. Percebi que Aidan fazia o mesmo. Já havíamos comido anteriormente, mas, sendo lobisomens, sempre havia espaço para mais.
— Aidan colocou você na cozinha, é? – Luke continuou a provocar.
— Acredite, eu não faria isso com meus lobos. – Ambos riram e encarei Aidan com um olhar que claramente o acusava de traição.
— Continua trabalhando para David Williams, Becca? – Percebi que Aidan inconscientemente se endireitou ao ouvir esse nome.
— Continuo sim. Na verdade, minha vida continua exatamente igual a anteriormente.
— É mesmo? – Os olhos azuis de Luke brilhavam com curiosidade, e uma pitada de insinuação de que sabia mais do que eu queria admitir. – Nos mínimos detalhes?
— Sim, Luke. Nos mínimos detalhes – respondi entredentes, não querendo descrever meu progresso amoroso no meio do café da manhã. Se ele quisesse, explicaria a sós sem problemas, mas eu sabia que ele estava apenas me provocando e Aidan também percebeu, por isso não estranhou minha pequena-grande mentira.
— E a sua, Lucius? – Meu Alpha veio ao meu resgate. – Acredito que as coisas devem estar um tanto turbulentas na Alcateia do Maine.
O lobo suspirou, abaixou o olhar, passou geleia calmamente em seu bagel e deu de ombros. Alice apenas o estudava de canto de olho.
— Já passamos pelo pior, agora é só esperar a situação se estabilizar. O Letum não vai mais governar sozinho, soberano. Admitimos que ele não tem mais condições para isso. Por isso, Alexander virou uma espécie de segundo poder, mais fraco, mas ainda influente.
— Alexander tem poder de tomar decisões? – perguntei.
— Não exatamente, digamos que serve mais como uma ferramenta para confirmar que as decisões do Letum fazem sentido e deveriam ser implementadas, entende? – Assenti. – Pois é, e como vocês devem ter percebido, estou aqui a trabalho, oficialmente, pois com a criação desse cargo para Alex, eu estou tendo que cumprir parte de suas antigas funções.
— Você deve estar pulando de alegria – comentei e Alice encarou a mim e a Luke com um olhar nada amigável.
— O que eu não faço pelo meu povo? – Meu amigo brincou, mas somente eu sabia realmente o quanto ele deveria estar detestando tudo aquilo. Senti-me muito mal por ele, mas sabia que ele não poderia fazer nada a respeito sem causar uma terceira guerra mundial com seus pais.
Comemos os bagels até que não houvesse mais, e Aidan ofereceu para ambos um quarto. Alice, que estava cansada, subiu ao quarto para cochilar, mas não sem uma discussão um tanto constrangedora para os espectadores em que tentava convencer, sem sucesso, que Luke subisse com ela. Quem ganhou foi Lucius.
Aidan, sabendo que eu ia querer botar o assunto em dia com Luke, ofereceu para ajeitar as coisas enquanto eu e ele saíamos.
Enquanto dirigia com Luke até um bosque – que não era a nossa, mas era uma menor e mais perto de casa – conversamos sobre diversos assuntos banais, talvez na tentativa de fazer nosso tempo juntos se prolongar. Eu sabia que, agora com suas novas obrigações, Luke jamais poderia voltar a morar em Columbus, e parecia que tê-lo perto por tão pouco tempo doía mais do que sempre tê-lo à distância.
— Sua namorada não vai querer te matar quando acordar e perceber que você saiu comigo? – provoquei, até porque eu não conhecia nada sobre Alice e estava apenas brincando sobre sua suposta possessividade.
— Tenho certeza de que terá vontade. – Luke riu, mas sua risada não foi das mais carregadas. – Deu para perceber como ela é?
— Não muito – confessei, mantendo meus olhos na estrada. – Mas em alguns momentos percebi alguns aspectos... Mas não queria generalizar.
— Não está generalizando. Alice é ótima, mas... Olha, eu sempre soube que ela era interesseira, de certa forma.
Espiei-o e percebi que ele olhava pela janela, num gesto claro de quem estava ao menos levemente deprimido. Porém, como não pude ver seus olhos, não pude ter certeza.
— Se você fosse qualquer outra pessoa eu ficaria quieta ou me desculparia por me meter. Mas você é um de meus melhores amigos, então tenho obrigação de meter o fuço na sua vida. – Suspirei, pois eu sabia que algo não estava certo com ele. – Por quê, exatamente, você está com Alice?
Olhei novamente para ele, mas ele continuava a contemplar as casas passando, sem indicação de que iria me responder.
‘Talvez ele simplesmente não saiba a resposta.’
— Ela é obviamente linda e tem um corpão. É realmente só pelo sexo, Lucius? – pressionei. – Ou é seu lobo? Sei que existem casos em que o lobo prefere uma pessoa com a qual a parte humana não se adapta. Até eu mesma já sofri com isso, por um curto período – falei, lembrando-me de Mathias e não me deixando devanear sobre onde ele estaria agora, se estaria vivo, se estaria bem.
— Não, definitivamente não é isso. – Senti o timbre de sua voz engrossar e soube que seu lobo respondia por ele. – Se tem alguém que sabe que não deveríamos ficar com Alice, é meu lobo – Luke admitiu.
— Tudo bem.
Permanecemos em silêncio até chegarmos ao bosque. Ao estacionar o carro, percebi que não estava pronta para correr com ele, não com tantas perguntas em minha mente, minha curiosidade simplesmente não permitiria. Então sugeri que apenas caminhássemos pela mata e, mais tarde, soltaríamos nossos lobos.
— Luke – comecei novamente, quando já estávamos há uns cinco minutos dentro da mata densa, em completo silêncio. – A Alice não aparenta ter nada em comum com você. Sei que é chato para você eu ficar circulando em torno desse assunto, mas eu realmente não consigo entender suas decisões!
— Você realmente teve uma impressão tão ruim dela? – Ele esboçava um sorriso, sugerindo que estava apenas de brincadeira, mas senti uma seriedade em seu olhar que me preocupou.
— N-não, não é por isso-
— Tudo bem, não precisa ficar nervosa. – Seu sorriso agora era triste e não consegui ficar olhando para ele por muito tempo, decidindo então olhar para o chão úmido da chuva que ainda não evaporara da madrugada anterior. – Sei porque você pergunta tanto.
Com isso, levantei meu olhar.
— Por quê? – indaguei, curiosa. Queria saber o que ele achava que sabia sobre meus próprios pensamentos.
— Porque você ainda acha que eu e Scarlet vamos voltar.
Parei no lugar em que estava, percebendo que eu havia ou subestimado as habilidades de Lucius Latham em ler as pessoas, ou eu era simplesmente muito transparente mesmo.
— E você não é a única iludida que acha isso. – Ele continuou a andar, não percebendo que eu havia parado pois ele mesmo olhava fixamente para suas botas afundando na lama. Fui forçada a acompanhá-lo. – Você não sabe como é desgastante conviver com seu lado lupino assim tão iludido. – Em seguida ele franziu o cenho e resmungou para si mesmo. – Sinto muito, mas é verdade, não há nada que você possa dizer. – Voltou a incluir-me na conversa. – É impossível. Scarlet está longe, quase em outra ponta do continente, pelo amor de Deus. E, mais importante, está com alguém, e está feliz com esse alguém. Quem sou eu para separá-los? Eu, que fui tão hipócrita ao ponto de não conseguir assumir a mulher que realmente queria, mas assumo essa por necessidade?
Ele estava tanto desabafando para mim, como brigando consigo mesmo.
— Além do mais, tenho certeza de que minha família, assim como os lobos mais conservadores, preferiria que eu morra solteiro do que acasale com uma Selvagem. Eles não aceitariam que um dos filhos do Letum se unisse a uma fêmea sobrenatural que não fosse lobisomem. Possivelmente tolerassem uma humana, mas somente porque sabem que eu ultrapassaria a expectativa de vida dela, e poderia ter tempo para me unir a uma loba futuramente. Quase como se amar uma humana fosse apenas um capricho que me seria concedido. – Sua briga virou reflexão, e com isso seu estado deprimido retornou.
— E você tem medo disso? – arrisquei interrompê-lo, rezando para isso não terminar seu desabafo abruptamente. – De ser criticado pela família, pela alcateia?
— Não é apenas uma questão de crítica! Tenho certeza de que teria que renunciar minha linhagem, meus direitos e de certa forma meu status se fosse contra a vontade deles dessa forma.
— E você tem medo disso? – repeti.
— Não. Sim. Não sei! – bradou, chutando uma pedra com força exagerada, fazendo-a voar longe e bater numa árvore mais à frente, marcando-a.
— Luke, não posso fingir entender como é ter sua licantropia ligada à família. Eu abandonei a única integrante da minha, na mesma medida em que fui abandonada. Mas isso tudo, não é o que você sempre quis? Parar de ser rotulado como filho do Letum; se livrar de todas as suas obrigações políticas; poder seguir sua vida do jeito que você quer.
— Falando assim, até parece que meu sonho é vender minha arte na praia. – Rimos juntos, e o fato de que ele não estava completamente devastado me animou. – Eu sei, Becca, que você está opinando por bem. Mas para mim, deixar tudo para trás não é tão simples quanto foi para você. Quanto poderia ser para pessoas como Mathias, que parece que realmente não quer se apegar a nada.
Senti uma vontade de defender o solitário, afinal, ele quis se apegar a mim, de certa forma. Mas eu sabia que quanto menos eu me lembrava de Mathias, menos eu sofreria com sua falta, então me esforcei para ignorar.
— Eu sei que não é verdadeiramente fácil para nenhum lobo. Sei que não deve ter sido fácil para você, por mais que você talvez queira pensar que foi. Não conheço o passado de Mathias para saber se ele sempre foi assim, ou se sua nova vida como lobo o tornou tão inconsequente. Mas se eu abandonar o que eu sou, não tenho para onde fugir. Minha família está inserida na minha sociedade. Porra, ela é o centro dela. – Riu levemente. – Não sei quantos anos a mais vou viver. Décadas? Séculos, como meu pai? Não tenho como saber, mas sei que pela totalidade desse tempo, essa decisão vai me assombrar, e toda a minha sociedade vai me lembrar disso a todo instante.
— Você poderia viver como solitário, para não ter que sofrer tanto – sugeri, depois de caminhar em silêncio por um tempo, percebendo o lado dele da história toda.
— Já vivi como solitário, aqui em Columbus, como você bem sabe. Mas viver como solitário sob a proteção do Letum é um luxo, sem comparações com a “vida real”. – Suspirou. – Viver verdadeiramente como um solitário... Lidar com a possibilidade de meu lobo perder a sanidade, de ter que ficar vagando pelos territórios como nômade, arriscando se encontrar com outros clãs de seres sobrenaturais e sem ter a proteção de uma alcateia... Eu não consigo me ver levando essa vida. E certamente não iria querer arrastar Scarlet junto para ter que aturar tudo isso. Colocá-la nesses perigos, nesse desconforto, nesse... improviso de vida. – Deu uma curta risada, como se estivesse debochando de si mesmo. – Isso se é que ela ainda tem algum interesse por mim.
— Não posso responder por ela, e não vou – falei em resposta a isso, observando Luke arrancar uma folha de um galho e prosseguir em brincar com ela. – Mas acho que, no mínimo, ela apreciaria perceber que você está disposto a mudar, a amadurecer, por ela. Mesmo se, no final, vocês não acabassem juntos.
— Pois é. É tudo muito bonito, mas é impossível. Impossível. – Repetiu com mais fervor, provavelmente respondendo a alguma insistência de seu lobo.
O fato de Luke estar abertamente discutindo tanto com ele na minha frente aumentou minha preocupação levemente, pois nunca havia presenciado isso entre os dois. Isso era sempre muito incomum com lobisomens, quase uma invasão de intimidade.
— Sem falar que existe o outro cara, que tenho certeza de que deve ser o máximo.
— Riley? Sim, ele é o máximo – admiti, minha voz com tom de pesar. – Ele é mais que o máximo, na verdade.
— Obrigado. – Luke me fuzilou com os olhos, mas logo abriu um sorriso. – E como você fica nisso? É amiga dele, é amiga minha. Está torcendo para mim, aparentemente. Está torcendo para ele se dar mal? Para Alice levar um pé na bunda?
— O quê? N-não. – Pegou-me desprevenida pois, realmente, para alguém ficar com Scarlet, o outro teria que se dar mal. Era um jogo extremamente competitivo. Alguém ganharia e alguém perderia. Não havia espaço para algum meio termo. – Eu não sei. Não estou torcendo para ninguém. Quer dizer, acho que vocês dois vão ficar juntos, mas não necessariamente estou torcendo para isso. Quer dizer, eu gosto dos dois, e certamente não acho que Alice merece ficar sozinha. Eu deveria ser mais imparcial, mas-
Luke deu uma alta gargalhada.
— Calma, Becca. Estou apenas te infernizando a vida. Desde que você não interfira, seja apenas uma expectadora, acredito que você não precise se sentir mal. – Jogou fora a folha que havia pego, com seu entorno todo rasgado em pequenos pedacinhos. – Não encha essa sua cabeça com problemas sem solução. Não há nada que eu possa fazer. Não vou acasalar com Alice, mas também não vou acasalar com Scarlet. – Deu de ombros. – Paciência.
Eu estava prestes a sorrir, mas parei assim que ouvi suas últimas frases. Ele deve ter percebido, pois rapidamente interferiu com outro assunto, antes que eu pudesse voltar ao anterior.
— De qualquer maneira, tenho certeza de que sua cabeça deve estar ocupada demais pensando no seu Alpha. – Senti meu rosto esquentar quase que imediatamente. – Quem diria, hein? A ex-solitária, contra o sistema, envolvida com um dos líderes mais influentes.
— Pare! – Virei-me para ele com fúria. – Pare de falar assim. Eu temia justamente que isso acontecesse, que coisas como essa passassem pela cabeça das pessoas.
— Calma, eu só estava tirando com a sua cara – falou, defensivo. – Não se preocupe, os mais próximos sabem que você não faria isso. Sei que você é orgulhosa demais para aguentar se juntar a alguém somente por interesse. Seu orgulho é voltado demais para o seu lado emocional para permitir algo desse tipo.
— Eu- Erm. Obrigada por entender, eu acho. Ao menos parcialmente.
— De nada, sua idiota.
— Ah, cale a boca.
— Mas e daí, como está sendo? Está tudo bem entre vocês? Quão recente é isso?
— Nossa, eu não sabia que o filho do Letum era tão interessado nas relações amorosas dos lobos dentro das alcateias. Isso vai para o seu relatório, também? – zombei.
— Vai, assim como uma fita de vocês dois transando, imbecil.
— Uau. Não sabia que o Letum era assim tarado desse jeito.
— Sério, pare com isso, está me dando náuseas – ele reclamou, e eu tive que gargalhar da cara que ele fez, talvez por imaginar eu e Aidan, ou talvez seu próprio pai assistindo.
— Você que fez a piada – apontei.
— Um erro terrível, admito.
— Bem, respondendo à sua pergunta, faz pouco tempo, mas a cada dia que passa tenho mais certeza de que tomei a decisão certa. – Fiquei um pouco envergonhada de abrir meus sentimentos para Luke, que certamente usaria minhas palavras contra mim futuramente. Para tirar sarro, obviamente. Então decidi contar a ele apenas o necessário. – Demoramos para nos acertar, verdade, mas finalmente parece que a coisa engatou. Agora estamos nos dando bem, felizmente.
— Realmente, estava na hora, hein? Sei que um pouco da preocupação de Aidan para com você foi por causa do Alpha nato que há dentro dele. Mas, honestamente, todos sabíamos que ele era a fim de você.
— O quê? Você acha mesmo? – Minha curiosidade, como sempre, venceu minha vergonha.
— Ah sim. Não sei dizer ao certo quando aconteceu, mas com certeza quando fomos para Las Vegas já deu para perceber que havia algo acontecendo na cabeça de Aidan.
— Eu- Puxa vida. Na época eu juro que não fazia ideia. Mas quando olho para trás com atenção, acho que dá para insinuar algumas coisas, de fato.
Lucius olhou para mim com um olhar malicioso, ao mesmo tempo em que parecia dizer “não diga?” com sua expressão. Franzi o cenho para ele, tão desconcentrada por sua reação que tropecei em uma raiz e quase caí.
— Ah, me deixa, vai? – reclamei. – Pelo menos estamos juntos agora, e eu estou me sentindo bem.
Após um resquício de uma risada, Luke falou, sério:
— Estou feliz por você, de verdade. Dá para ver o bem que estar com ele está te fazendo. Estou feliz que sua loba esteja em paz. – Nessa parte seus olhos se ofuscaram, possivelmente por ele me invejar nesse aspecto, só um pouquinho. – E não é como se Aidan fosse te magoar, não de propósito. Sei o homem que ele é. Mas pode deixar que vou ter uma daquelas conversas ameaçadoras com ele – brincou.
— Se você insiste. – Ri alto com a imagem da cena em minha cabeça. – Só não cause uma guerra lupina, por favor.
Caminhamos por mais um tempo, brincando sobre quem ganharia uma guerra lupina: Lucius ou Aidan, e também quem apoiaria quem. Depois de um bom tempo discutindo coisas absurdas, mas engraçadas desse tipo, decidimos sentar, cada um apoiado em um tronco diferente, um de frente para o outro.
De algum modo, o assunto acabou por alguns minutos, e era fácil de perceber que Luke estava profundamente incomodado com algo. Ficava levantando o olhar para mim quando achava que eu não estava prestando a atenção, e o desviava quando achava que eu ia olhar para ele. Decidi deixá-lo em paz e tomar o tempo que precisasse, pois já desconfiava sobre o que ele queria falar.
— Rebecca, eu queria- – Praguejou. – Desculpe, sei que você certamente não quer reviver certos acontecimentos, mas eu preciso saber. Você- O que aconteceu?
O assunto que ele trouxe era exatamente aquele que eu esperava. Sem dúvidas Aidan já havia falado com ele em detalhes sobre o que aconteceu aqui, mas talvez meu Alpha não tenha detalhado tanto o que se referia a mim, talvez por minha própria privacidade. Talvez Luke apenas queria ouvir o meu lado da história, ouvir de minha boca que eu havia sobrevivido.
Esbocei um sorriso fraco.
— Eu e Kenna fomos emboscadas, como você deve saber, em nossa própria casa de alcateia. Nossos lobos preferiram esperar Aidan e os outros chegarem, com ajuda, do que arriscar atacar e também serem capturados. Se eles conseguissem ser capturados, certamente Aidan teria que pedir ajuda às alcateias vizinhas para retomar o território, então entendo perfeitamente a escolha deles em esperar. – Luke assentiu. – Na hora, enquanto eu estava presa, eu claramente não sabia dos planos de meus irmãos, mas tinha certeza que sua demora teria alguma justificativa plausível por trás. E eu sabia que Aidan estava no México, fazendo o possível e o impossível para chegar rapidamente. Precisei aguentar o máximo que pude.
— Teve algum momento em que você quebrou? – As palavras de Luke poderiam ser interpretadas de forma errada por outra pessoa, mas eu percebi que ele estava apenas espelhando minha preocupação. Queria saber de meu psicológico se eu ainda estava bem. Se eu precisaria de ajuda.
— Não até aquele momento. Eu e Kenna lutamos e tentamos comprar tempo o máximo que pudemos. E admito que acho que fizemos um bom trabalho, levando em conta as circunstâncias e o fato de que já estávamos esgotadas quando eles chegaram, pois estávamos lutando uma contra a outra. – Luke levantou sua sobrancelha em curiosidade. – Uma história para outra caminhada – sugeri com um breve sorriso. – Mas teve um momento que Maxwell apenas decidiu que queria fazer alguma coisa para nos deixar quietas, e foi nessa tentativa que eu quebrei, ao menos parcialmente.
— Tentativa? – perguntou num sussurro, como que se ele falasse mais alto, poderia acabar mudando os fatos acontecidos.
— Tentativa – assegurei-lhe. – Maxwell conseguiu fazer algumas coisas, mas Aidan chegou a tempo. E por mais apavorada que eu estivesse, naquela hora e depois, a notícia de que Aidan havia fatiado o corpo de Maxwell em tirinhas me trouxe um grande alívio. – Fiz uma pausa, fechando os olhos e respirando fundo antes de continuar. – Fiquei semanas reclusa, sem conseguir estar no mesmo aposento que meus próprios irmãos de alcateia. Aidan era a maior das exceções, talvez por ele ter sido quem me trouxe justiça, talvez por eu saber que ele sempre seria aquele a me proteger, mesmo antes de nos reivindicarmos.
— Outra história que quero ouvir com calma – Luke falou, tentando suavizar um pouco o clima sombrio que tomou o bosque. – Ouvi dizer que foi uma bela confusão.
— Novamente, uma história para outra caminhada. – Consegui soltar uma pequena risada. – Mas foi graças principalmente a ele que eu me curei. Se não fosse por Aidan e os cuidados e atenção que ele me deu, eu teria que sair dessa sozinha, e isso talvez levasse anos.
— Entendo. Sinto muito por tudo que aconteceu, e sinto por ter tido que sair de Columbus. Talvez, se eu estivesse aqui, poderia ter ajudado, poderia-
— Shh. – Levantei, sinalizando que queria encerrar a conversa e que eu havia cansado de ficar parada. – Eu sei que se você estivesse aqui, estaria tão empenhado quanto Aidan em me ajudar. Mas você não estava e não é culpa sua. Não é culpa de ninguém, a não ser Maxwell, seus comparsas.
Luke concordou com a cabeça e andou até mim, lentamente passando os braços ao meu redor em um gesto de carinho e proteção. Retribuí o gesto, perdendo a noção do tempo em que ficamos unidos, agradecidos apenas por estar novamente na companhia um do outro e que todos estavam bem.
— Acho que, se formos correr, deveríamos ir já – ele comentou depois de um tempo. – Já faz tempo que estamos aqui e eles devem estar nos esperando.
— Tem razão – concordei. – Aposto que ainda consigo matar um coelho mais rápido do que você – provoquei, fingindo que o assunto pesado em que estávamos nunca havia sido proferido, como eu sempre fazia nessas situações e provavelmente sempre faria.
— Caçar um coelho com mais rapidez não é nada. Pena que nesse pequeno bosque não tem nenhum cervo, pois certamente eu conseguiria encurralar um com mais sucesso.
— Deixa o cervo pra amanhã. Hoje eu quero é ver o coelho. Se você ganhar de mim, te faço panquecas pro café da manhã pelo resto de sua estadia.
— Fechado. E se você ganhar, te faço suco de frutas espremido na hora todas as manhãs.
— Você, Senhor Latham, tem um acordo.
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