Vítimas Das Circunstâncias
1 Início
31/01/2016
Domingo
23:49
Marcelo
Amanhã começo o primeiro dia na faculdade de psicologia e não poderia estar mais feliz, não porque é tudo o que sempre quis, mas sim porque sei que é nesse momento da minha vida que estou pronto para tal experiência e vou aproveitar o máximo. São 23:50, é hora de dormir, antes de fechar o os olhos escuto o som da notificação de mensagem do celular, penso em olhar, mas já estou confortável. Pode esperar até amanhã.
31/01/2016
Domingo
23:50
Alguém escreve a primeira, de muitas mensagens que estão para chegar.
01/02/2016
Segunda-feira
08:15
Marcelo
Acordo assustado com o som do meus irmãos gritando no quintal, olho para o relógio e vejo que estou atrasado para o trabalho, levanto correndo, só tenho tempo de escovar os dentes e colocar uma calça.
08:26
Felipe
Marcelo entra correndo pela porta tentando se esconder atrás dos produtos na esperança que eu não perceba sua chegada.
— Atrasado outra vez. — Digo sem irritação nenhuma.
— É que hoje é meu primeiro dia na faculdade então não consegui dormir na hora ontem, você pode tirar o tempo que cheguei atrasado do meu almoço se quiser. — Ele responde, sincero como sempre.
— Vou deixar passar. Só hoje.
— Obrigado. — Ele vai para os fundos da loja fazer alguma coisa.
08:26
Marcelo
Trabalho em um tipo de supermercado perto de casa o que deixa tudo mais fácil e os horários são bem flexíveis. Chego na loja já olhando quais produtos vou precisar repor, aposto que para o Felipe que é filho do dono parece que estou tentando me esconder. Meu celular vibra outra vez.
12:00
Mesmo morando perto não consigo ir almoçar em casa, minha mãe trabalha e não sei cozinhar então acabo pegando uma bolacha um refrigerante aqui mesmo e como nos fundos da loja na sala dos funcionários, pelo menos a gente chama assim, mas é só o lugar onde guardam as mercadorias. Pego meu celular e tem várias mensagens, algumas de amigos, grupos, mãe e no final de um número desconhecido, quatro mensagens. Clico para ler.
"Não vá para a faculdade se não quiser que o jogo comece"
"Não diga que não avisei"
"Pode ser um jogo, mas isso não é brincadeira"
"Está nas suas mãos"
Que merda é essa? Será que é uma brincadeira? Um trote da faculdade?
"Quem é você?" Mando a mensagem, é visualizada na hora.
"Você me conhece, só não vá para a faculdade e tudo vai ficar bem"
"Gustavo, é você?"
"Isso é segredo"
"Não tenho tempo para isso, tchau."
"Último aviso"
Bloqueio o celular e saio da sala nem nem tocar na comida.
18:30
Até agora aquele número não mandou nenhuma mensagem e não consigo ver quando ele entrou no aplicativo pela última vez, todos meus amigos falaram que não conheciam o número. Não importa, deve ser só uma brincadeira que os veteranos vão explicar quando chegar na faculdade.
19:20
Meu bloco é o quatro, relativamente perto da entrada, tem muitas vagas então estaciono bem na frente do prédio. Antigamente havia uma apresentação no auditório, mas agora cada professor se apresenta individualmente na sala. Enquanto procuro minha sala vejo um cara com uma camisa escrito "veterano" penso em perguntar sobre a brincadeira, mas se a intenção é deixar a gente com medo, perguntar iria estragar, passo direto por ele só aceno com a cabeça, quando chego na frente da sala meu celular toca. Outro número desconhecido. Desligo e praticamente no mesmo segundo aquele número envia uma mensagem.
"ATENDA"
O celular toca outra vez.
— Alô. — Decido que vou entrar na brincadeira dos veteranos.
— Como é bom finalmente falar com você. — É uma voz meio robótica meio humana. — Como vai?
— Bem. — Respondo segurando a risada.
— Não conseguiu entender minhas mensagens? — O tom dele ficou irritado.
— Entendi, só achei que era um teste de coragem, aposto que vocês não querem medrosos no seu curso.
— Isso não é sobre o curso.
— Olha, a brincadeira foi legal e tudo, mas você pode parar com a atuação eu já cheguei na faculdade. Acabou.
— Está apenas começando. — Ele desliga.
22:00
O primeiro dia só foi apresentação e uma introdução básica na matéria, fiquei a aula inteira pensando na ligação e reparando se outros alunos também receberam ligações, parece que fui o único.
Mateus e Guilherme estudam Educação Física na mesma faculdade então marquei de me encontrar com eles na frente do meu bloco, quando saio da sala o telefone toca outra vez e é o mesmo número. Atendo.
— Não me ligue mais, já perdeu a graça!
— Você sabe as regras dos filmes de assassinato? — Ele pergunta.
— O quê?
— As regras, você sabe? Responda rápido.
— Sim, acho que sei, mas isso não é muito assunto de psicologia, só se considerar o assassino.
— Qual é a base? Vamos! Diga!
— Ah... Uma história do passado que vem perturbar os personagens ou os filhos deles no futuro.
— Muito bem, qual é o primeiro ato?
— Não entendi sua pergunta. — Por algum motivo aquela pergunta fez um arrepio percorrer meu corpo.
— Qual a primeira coisa que o assassino faz?!
— Ele mata um casal ou uma garota indefesa na casa gigante que nunca tranca a porta.
— Sabe, eu nunca gostei da parte em que apenas dois morrem, falta ambição.
— Tudo bem... Sua opinião, O que isso tem a ver com o curso?
— Pobre, Marcelo, achando que tudo gira em torno dele. Agora vou desligar, mas aviso uma coisa. Amanhã cedo fique de olho nas notícias.
02/02/2016
Terça-feira
07:30
Marcelo
Hoje meu despertador tocou, porém eu já estava acordado. Mal consegui dormir pensando naquela ligação, que tipo de trote é esse? Saio do quarto e vou até a sala, falo bom dia para a minha mãe. Ligo a televisão e coloco no canal de notícias. Nenhuma notícia sobre a cidade. Vou até o banheiro escovar os dentes e pentear o cabelo, quando estou entrando no quarto meu celular começa a vibrar com várias mensagens. A televisão está com o volume alto o suficiente para que eu consiga ouvir a chamada de notícia urgente. Quando chego na sala, uma repórter está falando alguma coisa, mas reconheço na hora o que está atrás dela. Uma fábrica que fica perto de casa, no rodapé está escrito: " trinta corpos são encontrados em uma fábrica abandonada."
— A polícia apenas confirmou o número de corpos e que foi uma ligação anônima que denunciou esse caso.— A repórter fala.
Meu celular começa a tocar e é o número.
— Alô.
— Isso é sua culpa.
Fale com o autor