Vínculo
5 Capítulo 4
Olhou-se no espelho e suspirou resignada ao perceber que estava se preocupando por causa de Malfoy. Não iria arrumar-se para ele, ao contrário. Devia lembrar-se de tudo que ele havia feito na guerra, que ele estava do outro lado, que… Havia relevado isso pelo fato de que ele não tinha escolha.
Hermione sempre soube que, se fosse com ela, teria feito a mesma coisa. Ninguém ficaria contra a própria família numa guerra, ninguém se oporia à vontade dos pais. E Malfoy havia entrado nisso por causa de Lucius, como se tivesse caído de paraquedas nos planos do Lorde, não por escolha própria.
Foi isso que disse em seu testemunho para livrar Draco e Narcissa Malfoy de Azkaban. Ron havia sido totalmente contra ajudá-los, por que ele era mesquinho demais para analisar o que acontecia por baixo das camadas superficiais, por que ele sequer tinha vontade de fazê-lo, mas Hermione sabia que estava fazendo a coisa certa. Pelo menos Harry havia ficado ao seu lado e testemunhou a favor de Narcissa, apenas dela, no dia do julgamento.
Com um vestido preto de mangas que ia até um pouco acima dos joelhos e o cabelo jogado para o lado, Hermione estava bastante satisfeita com seu visual. Sabia que não poderia se vestir tão displicentemente para ir a um lugar como àquele.
– Está indo a um encontro, mamãe?
– Não, minha querida. – Ela parou para pensar. – É mais uma… Obrigação.
– Nunca a vi ir cumprir uma obrigação bonita desse jeito. – Hermione condenou-se por corar levemente à afirmação da babá.
– Eu não vou demorar, não se preocupe. Obedeça a Marie, certo? Quero que vá dormir no horário que combinamos se eu não tiver chegado até lá, tudo bem?
– Sim, mãe. – Sophie deu um beijo na bochecha de Hermione e começou a empurrá-la para a porta, sob os risos de Marie. – Eu te amo, você não está atrasada?
– Está querendo se livrar de mim?
– Mas é claro que não. – Então, a menina fechou a porta e ouviu-se apenas o riso das duas que haviam ficado do lado de dentro.
– Vocês me pagam, ouviram bem?
Como não havia ninguém passando na rua ou observando pelas janelas, aparatou dali mesmo uma esquina antes de onde ela sabia ser o jóquei. Jean havia insistido com ela para ir no lugar tantas vezes e agora apareceria lá sem mais nem menos no dia que sabia que Malfoy estaria presente. O que Jean ia pensar?
– Posso ajudá-la? – Perguntou um recepcionista uniformizado.
– Onde fica o camarote do Sr. Jouffret?
– Por aqui. – O homem a conduziu por um largo corredor e virou à direta para começar subir um lance de escadas. Ao final das mesmas, ele fez a curva para a esquerda e parou, virando-se para ela. – É o quinto bloco.
Hermione sabia que Jean tinha alguns privilégios por ser sócio do jóquei clube há tanto tempo, mas não sabia que eles o tratavam com tanto tato. Soltou um riso leve e bateu levemente na parede de madeira quando chegou ao lugar adequado.
Jean e Draco tinham as cabeças juntas, discutindo algo, e uma tabela em mãos. Ambos levantaram-se assim que perceberam quem estava na porta.
– Hermione! Que surpresa você por aqui. Só posso supor que o motivo não sou eu.
– Vim especialmente para apreciar a corrida de cavalos. – Ela olhou para Malfoy e estendeu a mão para um aperto de mão formal. – Boa noite, Malfoy.
– Como vai, Granger? – Hermione sentou-se à mesa para seis pessoas, de frente para a pista enquanto os dois homens ficavam um de cada lado.
– Champanhe ou vinho, Hermione? – Perguntou Jean quando um garçom apareceu segurando uma bandeja. Malfoy apenas pediu uma dose dupla de uísque.
– Vinho tinto, Jean. Como vão as apostas?
– Continuarei no Zorro e Draco… Bem, ainda está se decidindo.
– Há um cavalo chamado Zorro? – Perguntou ela uma careta, no que ele sinalizou afirmativamente, parecendo muito ofendido.
– O Zorro é uma lenda nessas pistas, minha querida.
– Isso quer dizer que ele já é mais… Experiente.
– Não importa, o Zorro é…
Nesse momento, uma mulher de meia idade adentrou o local, vestida elegantemente num conjunto azul de saia e blusa de seda.
– Elise! – Hermione levantou-se para cumprimentar a mulher. – Como vai?
– Muito bem, Hermione. Vejo que finalmente se rendeu aos encantos do… Jóquei. – Ela desceu seu olhar para Draco por um instante e olhou Jean. – Já disse que precisa vender o Zorro ou só perderá dinheiro nessas corridas.
– Zorro tem um valor sentimental. – Ele disse contrariado quando a mulher sentou ao seu lado, mas Hermione apenas revirou os olhos e tomou um gole de seu vinho.
– Você não vai apostar, querida? – Disse Elise, ao colocar seus óculos e pegar a tabela de seu marido.
– Não, eu não… Gosto muito. Na verdade, vim apenas por insistência de Jean. – Ela olhou Draco, mas ele estava concentrado em sua própria tabela.
– Senhores, suas apostas. – Um homem de terno apareceu com uma tabela diferente da que eles possuíam em mãos. – Conhecem as regras, o valor mínimo é mil euros.
– Eu aposto três mil no Black Jack.
– Cinco mil e quinhentos no Alfa Wolf.
– Cinco mil no Zorro.
Hermione ficou cada vez mais incrédula à medida que eles falavam. Como podiam gastar tanto dinheiro assim num mero jogo de apostas e sorte.
– Faça uma aposta, Hermione.
– Não, Jean, eu não tenho dinheiro suficiente.
– Não tem importância, eu pago. – Ele pegou a tabela e a colocou a sua frente.
– É, Granger, faça uma aposta.
Incitou Draco, tirando os olhos deliberadamente de sua tabela. Estreitou os olhos para ele. Bem que podia fazê-lo, só para colocar Malfoy em seu lugar. Mas era arriscado e nada garantia que ela fosse ganhar. Bem, talvez estivesse em seu dia de sorte.
Suspirando, olhou a tabela, sob olhares de expectativa de todos. Viu os nomes, suas idades, raça e histórico e decidiu-se por Jolly Jumper.
– Certamente, uma boa escolha, senhorita.
– Qual o valor da aposta?
– Mil euros. – Obviamente não iria abusar da boa vontade de Jean.
– Tudo bem, apostas feitas. A corrida começa em cinco minutos. Boa sorte.
O homem deu as costas e foi embora.
– Jolly é um ótimo cavalo, Hermione, como sabia?
– Ah, eu não sabia. – Deu de ombros, estava falando a verdade. – Só… Gostei do nome.
Draco revirou os olhos e eles esperaram pacientemente. Quando o narrador anunciou que os cavalos e seus cavaleiros estavam a postos, Hermione levantou-se, assim como todos os outros. Os cavalos saíram em disparada assim que a largada foi dada.
Ela não sabia qual daqueles cavalos era o Jolly Jumper, sequer estava se importando tanto para quem ganhasse.
– Eu não acredito nisso! – Disse Draco, pasmo.
– O quê? – Hermione perguntou, pois estava ao seu lado. Elise riu e voltou a sentar-se assim que os cavalos chegaram ao fim do percurso.
– Vamos desempatar as corridas pela análise das câmeras. Black Jack e Jolly Jumper chegaram emparelhados ao fim da corrida. – Disse o narrador, empolgado, e logo uma imagem em câmera lenta apareceu.
– Isso é sério? – Perguntou, estranhando. Apenas ela e Draco continuavam encostados na barra de proteção, esperando. Jean e Elise já estavam conversando sobre algo que ela não prestava atenção.
– Sorte de principiante, apenas isso. – Disse Malfoy, arrastado.
– Mas vocês disseram que não depende de sorte. – Ela forçou um sorriso para ele e voltou a se sentar quando o Jolly Jumper foi declarado o campeão da rodada.
– Parabéns, Hermione. – Disse Jean. – Quem imaginaria, não? Acho que vou trazer você aqui mais vezes.
– Não se empolgue tanto, Jean, um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. – Ela levantou-se, buscando a bolsa, já havia essencialmente ido ao Jóquei. – Bom, eu tenho que ir. Já vim até aqui e ganhei uma aposta, como queria.
– Tão cedo? Ia convidá-los para jantar depois da corrida. – Protestou seu chefe.
– Sei que o jantar pode ficar para outro dia. – Cumprimentou Elise com um beijo no rosto e apertou a mão de Draco, formalmente. — Boa noite.
Calmamente, percorreu o corredor e ia começar a descer as escadas antes de chamarem seu nome. Ao olhar de onde vinha à voz, viu Malfoy andando apressado enquanto abotoava o terno caro. Apesar de toda a sua vontade de negar, Malfoy havia se tornado um homem bonito.
Lembrava-se que, em Hogwarts, ele era o garoto que mais fazia sucesso entre as meninas e sabia que não podia ser diferente na idade adulta. Viu as mulheres do Ministério olhando-o de cima a baixo, interessadas. E além de bonito, ele era rico, o que era um prato cheio para todas aquelas secretárias oportunistas.
– O que quer? – Mas ele ainda era Malfoy e ela Granger.
– Achou mesmo que ia embora assim?
– Sim, eu achei. O combinado era que eu viesse até aqui, não que eu fosse sair com você.
– Ah, Granger, que tolinha. – Malfoy riu, debochado, e colocou uma mão na base de suas costas para fazê-la descer as escadas. Quando percebeu que aquilo a estava deixando bastante desconfortável, Hermione retirou bruscamente a mão dele.
– Qual é o seu objetivo com todo esse circo? – Ela perguntou quando passaram pela recepção e finalmente alcançaram a rua.
– Jean me falou de um restaurante ótimo que tem a duas esquinas daqui, quer me acompanhar?
– Está desconversando.
Ela cruzou os braços e prostrou os pés no chão, recusando-se a sair dali enquanto ele não falasse algo que fosse realmente útil e esclarecedor. Ele suspirou e enfiou as mãos no bolso, olhando o movimento da rua.
– Só quero conversar, Granger.
– Por quê?
– Eu não sei, você… É a única pessoa que eu conheço em toda a França. Não posso falar de certos assuntos aqui, se não for com você.
– Não somos amigos.
– Não disse que éramos.
Hermione suspirou. Ela só poderia imaginar o que ele tanto queria falar. Por que ele insistia tanto em tentar uma aproximação quando se odiavam quando eram adolescentes? Principalmente, quando ele desprezava seu sangue e suas origens. Será que ele havia realmente mudado tanto assim ou estava apenas jogando para, no fim, poder machucá-la?
Apenas virou-se e começou a andar em silêncio e Malfoy, pelo visto, não levou aquilo como uma negativa.
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