Vínculo
6 Capítulo 5
Haviam caminhado em silêncio até o local que Malfoy havia sugerido. Não ficou surpresa ao se deparar com um lugar intimista e pequeno, que compensava o espaço em elegância. Havia algumas mesas perto das janelas de vidro, que refletiam as luzes dos postes de iluminação, e foi numa delas que ele escolheu se sentar.
O bar, repleto de garrafas e copos para todos os tipos de bebidas dispostos sobre uma moderna prateleira de vidro com fundo espelhado, ficava ao lado da porta da cozinha. Todas as mesas possuíam uma pequena garrafa com um delicado arranjo de girassóis. Malfoy fez uma careta para as flores, mas sentou-se a sua frente sem protestar.
Na tentativa de relaxar, encarou as pessoas andarem distraídas na calçada. Paris parecia poética demais quando via os casais passearem de mãos dadas ou as mães cuidando de seus filhos no parque; ou até mesmo quando alguma senhora de aparência simpática passava. Parecia a Paris que todos pintavam.
Não negava, era uma cidade excepcionalmente linda e com conteúdo mais que histórico, Hermione era fascinada por aquele lugar. Mas depois de sete anos vivendo lá, sabia que Paris não era apenas o recanto dos apaixonados. Havia problemas, havia gente estressada, executivos viciados em trabalho, carros correndo de um lado para o outro, criminosos, e assim por diante. Muitos parisienses se irritavam com a descrição dos turistas para a cidade, mas sabia que eles eram civilizados demais para cometer qualquer falta de educação com um visitante.
Apesar de tudo isso, Paris ainda era um ótimo lugar para se morar. Talvez Malfoy havia considerado isso quando decidiu se mudar para lá. Ela o analisou, sem cerimônias, depois de suspirar voltando-se para o homem. Seu rosto estava compenetrado enquanto lia o menu que o garçom havia acabado de trazer.
Hermione podia ver as pequenas e quase inexistentes marcas de expressão que o tempo havia formado em volta de seus olhos. As feições tão maduras que ela se perguntava quando ele as havia adquirido. Um início de barba rala estava se formando no queixo e por toda sua mandíbula e condenou-se mentalmente por fantasiar quais reações que aquela barba clara poderia causar em contato com sua pele. Seus olhos subiram para o cabelo, que tinha certeza serem muito macios.
Fechou as mãos em punho e respirou lentamente, desviando o olhar para as pessoas na rua. Distrair-se com elas era bem mais seguro do que fantasiar com Malfoy.
– Ravióli com camarão. – Ele pediu, em contramão, a sua salada.
– E para beber, senhor?
– Eu quero uma dose de gim, puro com gelo. – Pediu Hermione, decidindo que precisava de um pouco de álcool em sua garganta e mente para clarear as coisas.
– Pode trazer a carta de vinhos?
O garçom saiu e ele a encarou, quase surpreso, mas fingiu não perceber.
– E então, fechou o negócio com o Ministro?
– Aquele cara não sabe fazer negócios. – Ele disse numa careta, tomando um pouco d’água que ela havia pedido assim que chegaram.
– Só precisa ter calma, vão entrar num acordo. – Hermione deu de ombros, suspirando. – Não era para você saber, mas… É o único fabricante de poções que esteve interessado em fornecer para o hospital.
– Por que não há fornecedores interessados? – Draco estranhou.
– Talvez a fama de péssimo negociador do Ministro tenha se espalhado.
Eles ficaram em silêncio por alguns instantes. O garçom voltou com sua dose de gim e a carta de vinhos que Draco havia pedido.
– Você mudou tanto.
Hermione só percebeu que estava sendo analisada quando o ouviu falar. Havia um pianista, tocando música ambiente perto do bar e estava o observando distraidamente. O cenho de Draco estava franzido levemente enquanto a encarava.
– Todos nós mudamos, Malfoy. – Não sabia, exatamente, do que ele estava falando, então resolveu ficar neutra.
– Por que, realmente, veio para a França?
– Me trouxe até aqui para investigar minha vida? – Draco riu, levemente, e chamou o garçom, indicando um vinho no menu que estava em suas mãos.
– Faz muito tempo que ninguém tem notícias suas na Inglaterra, Granger.
Hermione suspirou, era exatamente essa a intenção. Ir para a França, conseguir um emprego bom o suficiente para sustentá-la e viver por lá como se nada tivesse acontecido no Reino Unido. Mordeu os lábios, apreensiva. Ele, com certeza, sabia tudo que havia acontecido com ela nos anos pós-guerra. Quem naquele maldito país não sabia?
– Você… Certamente, deve ter ouvido falar que fiquei internada num hospital psiquiátrico. 2 anos e 3 meses, para falar a verdade. Apareceu em todos os jornais na época. A amiga de Harry Potter, Hermione Granger, havia sido internada para tratar dos traumas pós-guerra. – Ela riu amargamente, os dedos brincando distraidamente com a toalha da mesa. Draco apenas a encarou com atenção. – Não que eu não estivesse traumatizada, é claro que estava, nenhum de nós havia ficado psicologicamente bem depois de tudo. Eu tinha pesadelos todas as noites… Com a guerra. A senhora Weasley era quem cuidava de mim, mas ela se cansou. Talvez você tenha ficado sabendo, Fred… Fred Weasley morreu na batalha de Hogwarts. Eu até a entendo, ela não estava com cabeça para cuidar de uma garota que… Acordava a todos da casa a noite com seus gritos parecendo uma criança amedrontada. Então… Eles resolveram que me internar seria a solução mais cabível.
– Com eles você quer dizer…?
– Harry, Ron e a Senhora Weasley. – Hermione fez uma careta. – Eu não me lembro muito bem. Talvez… Arthur… O senhor Weasley tenha protestado, mas aquela foi uma noite confusa.
Draco meneou a cabeça, em silêncio. O garçom finalmente chegou com o vinho. Não se lembrava realmente do que havia acontecido na noite em que havia sido internada. Estavam hospedados n’A Toca, como sempre, e a última coisa de que se lembrava era de homens de jaleco branco carregando-a para fora à força e aparatando.
No dia seguinte, já era a habitante do quarto 333 da Clínica Psiquiátrica St. Leopold. Não era um hospital bruxo, mas soube que alguém havia descoberto que estava internada e essa pessoa informou a um jornalista do Profeta Diário. Harry não teve escolha a não ser falar a verdade sobre seu estado. Quem então acreditaria que ela apenas havia tirado férias? Foi isso que a senhora Weasley disse em uma de suas visitas.
Molly era a única que sempre aparecia. Apesar de todo o seu sofrimento com a morte de Fred, ela estava lá para dar seu apoio. Os outros, apesar de aparecerem a cada quinze dias ou mais, talvez achassem que Hermione estava realmente louca e não perceberia quem a visitava ou não.
– Então você veio para Paris pra… Esquecer tudo isso? A guerra, a internação…?
– Aconteceram algumas coisas depois que eu saí da clínica, então decidi que… Não havia mais nenhum lugar para mim em Londres. Se quisesse ter uma vida normal, teria que recomeçar em outro lugar. – Ela deu de ombros e olhou para cima, percebendo como a pontinha da torre Eiffel se sobressaía sobre alguns prédios e árvores mais altas do ponto onde estava. – Eu sempre gostei de Paris.
– Eu nunca pensei que Potter fosse capaz… Disso. – Ele disse, franzindo o cenho, como se seus pensamentos estivessem muito confusos.
– Aparentemente, ele queria ter a vida perfeita depois da guerra. – Hermione balançou a cabeça negativamente. – Harry perdeu muito com ela. Não estou dizendo que ele não mereça ser feliz, eu quero o melhor para ele, mas… Talvez ele tenha imaginado que todos os problemas fossem terminar com a guerra. Bem… Eu fui um problema muito mais fácil de lidar do que Voldemort.
– Certamente. – Ele recostou-se na cadeira quando o garçom apareceu com os pratos que haviam pedido. – Bom, ele realmente tem a vida perfeita.
– Não duvido disso.
– Ele era o herói, Granger, o final feliz sempre foi dele. Fomos apenas… Coadjuvantes. – Pela primeira vez desde que havia chegado ali, ela riu e levantou a taça.
– Mas fizemos bem o nosso papel. – Ele brindou a taça na dela.
– Você fez.
Fale com o autor