Já passava da meia-noite quando Hermione destrancou lentamente a porta da antiga casa de seus pais. Estava cansada, mental e fisicamente, sentia que seus músculos rangiam a cada passo que dava em direção ao passado.

Draco ficara em seu encalço durante todo o depoimento e não seria nenhum pouco justo mandá-lo para sua própria casa depois de fazer tanto para ajudá-la. Esse talvez fosse o jeito dele de se redimir pelas acusações infundadas que lhe fizera há algumas semanas.

Entretanto, já estava tão saturada de brigas e havia tanta gente contra ela nessa jornada que se sentia muito grata por tê-lo ao seu lado. Harry fizera questão de lhe fazer as perguntas mais constrangedoras que poderia, algumas até mesmo relacionadas à sua infância em Hogwarts e a relação com Draco – segundo ele, para deixar em evidência os motivos que poderiam levá-la a sequestrar Gwen-, mas o loiro não se deixou levar e sempre que se sentia ofendido o bastante tentava interromper o depoimento com palavras em sua própria defesa. Exatamente por isso, o mesmo fora expulso da sala e Hermione terminara de responder as perguntas a sós com Harry e uma pena de repetição rápida.

Tentou acender as luzes do hall, mas apenas constatou que não estavam funcionando. Com um aceno de varinha, então, reparou com um feitiço o que estava quebrado e o ambiente instantaneamente clareou, revelando a sala de estar com papel de parede esverdeado e móveis cobertos por tecidos brancos. Apesar de ter vivido ali, antes de ir para a França, ainda era estranho voltar. O pensamento de que reencontraria seus pais sentados no sofá da sala, assistindo a televisão, era presente e doloroso demais.

Ouviu a respiração de Draco ao seu lado e o encarou, percebendo que ele parecia observar tudo com bastante curiosidade.

– Eu... Acho que vou dormir agora. – Declarou incerta.

– Posso buscar algo para comer. – Sua preocupação com Sophie e com o que aconteceria dali em diante era tão grande que pensar em colocar algo no estômago lhe deixava enjoada.

– Obrigada, Draco, mas preciso descansar. Ou, pelo menos, tentar. – Apertou o braço dele em agradecimento, recebendo uma afirmação com a cabeça. Porém, nenhum dos dois se moveu, seja para subir para o quarto ou ir embora.

Em sua mente, todos os momentos recentes em que Draco tentou defendê-la pareciam vividos demais, não tinha a mínima vontade de mandá-lo embora. Não quando percebia o esforço do loiro para ajudá-la quando isso o afetava quase que da mesma forma que a Hermione. Quando ele era uma das pessoas que queriam mais do que tudo encontrar quem havia sequestrado Gwen, a verdadeira pessoa e não um culpado qualquer para tentar aplacar o sentimento de vingança, como Astoria desejava.

Assim, com um suspiro, cedeu aos braços dele novamente. Queria dizer que sentia saudades, queria agradecer, queria falar que havia ficado decepcionada quando ele a culpara, mas isso tudo parecia muito menor do que o problema que tinham em mãos. Ele estava ali quando até mesmo a personalidade difícil que tinham dificultava uma aproximação e isso parecia muito maior que quaisquer palavras que pudesse encontrar para expressar suas emoções no momento.

Hermione sentiu um arrepio prazeroso subir pela base de sua coluna quando os lábios dele percorreram um caminho invisível por sua bochecha até chegar à base de seu pescoço e esconder o rosto em seus cabelos, aspirando seu perfume profundamente.

Passeou as mãos por cima da camisa tipicamente preta e afastou seus corpos minimamente, os lábios procurando os de Draco como há muito queria e não podia fazer, por orgulho ou circunstâncias inapropriadas. Tê-lo tão perto novamente era simplesmente incrível, sequer era possível acreditar que ele estava ali após tantos problemas.

No instante em que suas línguas se encontraram, suas mãos subiram no mesmo ritmo lento em direção a nuca dele, os dedos bagunçando de forma distraída os cabelos finos e lisos, como sabia que ele gostava. Em retribuição, Draco a trouxe para mais perto, os braços circundando e apertando a cintura sem pressa.

Soltou um riso baixo ao ouvi-lo gemer em sua boca quando mordeu levemente seu lábio inferior, mas logo Draco finalizou o beijo com um selinho, ou vários, pois queria mantê-la perto e Hermione não se importava nem um pouco com isso, embora ambos estivessem exaustos demais para continuar tudo aquilo no quarto.

– Senti sua falta. — Draco sorriu e a abraçou novamente, a mão em sua nuca massageando de forma confortável, como ele costumava fazer na França, quase a obrigando a fechar os olhos e apenas apreciar o carinho enquanto apoiava a cabeça em seu peito.

– Estamos bem então?

Hermione afastou-se minimamente e antes que pudesse responder a campainha soou por todo o ambiente, fazendo com que se assustassem. Não era como se estivessem esperando alguém àquela hora. Trocou um olhar com Draco e buscou a varinha no bolso de seu casaco, encaminhando-se imediatamente para a porta.

Estava esperando qualquer um, mas sua respiração foi suspensa assim que se deu conta da figura ruiva e alta parada embaixo do batente da casa.

– Ron! – Constatou, ficando ainda mais surpresa quando ele a abraçou apertado. – O que está fazendo aqui?! Quer dizer...

– Eu sei, me desculpe pela hora, é só... – O olhar do ruivo seguiu para Draco, fazendo-o ficar um pouco sem graça. Porém, surpreendendo-a, Ron estendeu a mão para o outro quase num gesto de paz. – Como vai, Malfoy?

– Tudo bem, Weasley. – Respondeu o loiro no mesmo tom sério. – O que está fazendo aqui?

– Harry contou que a interrogou hoje e disse que ficaria na cidade por tempo indeterminado, então... Vim ver como estava. – Ron deu de ombros enfiando as mãos no bolso e parecendo sem jeito sob o olhar impassível dos outros dois. – Deve estar sendo difícil.

– Bem, ele não faz com que as coisas fiquem mais fáceis.

– Sinto muito por isso. – Hermione meneou a cabeça, estranhando a passividade de Ronald. Ele nunca havia sido o amigo compreensível, ele explodia com qualquer coisa, Ron era aquele do trio que nunca tentava entender o lado dos outros e ali estava ele, completamente diferente do que se lembrava. – Harry está muito nervoso com tudo que está acontecendo, acho que deve se sentir culpado por... Tudo que aconteceu entre vocês naquela época.

– As atitudes de Potter não demonstram que ele se sente culpado. – Interveio Draco, cruzando os braços e encarando Ron de forma gelada.

– Tudo que Harry quer é encontrar o verdadeiro responsável por tudo isso, colaborar é importante...

– Ele o mandou aqui? – Hermione interrompeu impaciente.

– Não, mas... – Ron ficou instantaneamente vermelho e desviou o olhar, no que Hermione simplesmente suspirou.

– Não consigo entender por que quer que eu entenda os motivos de Harry para armar essa perseguição contra mim quando nem ele mesmo faz questão de se explicar.

– Você não confia nele, Hermione.

– Está certo, acho que esse é o ponto. Qualquer coisa que Harry faça me parece egoísta demais, exatamente como o fato de ele me internar simplesmente por não suportar minha presença e você concordar com isso. – Declarou cruzando os braços e mantendo a postura firme, estava cansada de ser considerada aquela que mantinha o lado mais frágil dessa briga.

– Não concordei, apenas achei que poderia ser melhor depois de ver o que os médicos falaram sobre o seu estado. – Ron teimou.

– E você acha que qualquer médico naquela época iria contrariar a vontade de Harry Potter? – Ele se calou, parecendo envergonhado. – Eu não estava louca, Ron, eu... Apenas tinha pesadelos com a guerra. Agora, todos acham que por isso eu seria capaz de sequestrar um bebê recém nascido para me vingar pelo que passei. Muito obrigada, então, por nunca discordar de Harry e me colocar nessa situação, Ronald.

O silêncio dominou o local por alguns segundos, até que o ruivo resolveu ir embora, pigarreando envergonhado e fazendo um pequeno gesto de despedida com uma das mãos.

– Só vim saber se estava bem, de qualquer forma.

Ron aparatou a sua frente, na pequena varanda da casa, e Hermione soltou o ar, quase aliviada pelo fato dele ir. As coisas entre eles nunca mais voltariam ao normal, mas gostaria de ter uma conversa definitiva pelo menos com o ruivo quando tudo acabasse, pois sabia que este tinha um bom coração.

– Seria uma boa ideia manter com contato com Weasley enquanto esse processo está em trânsito. – Hermione fechou a porta e encarou Draco com uma sobrancelha levantada. – Ele parece ser idiota o suficiente para soltar algo que pode nos ajudar.

– Algo relacionado à que, exatamente?

– Você sabe...

Antes que Draco terminasse, um chamado na lareira da sala fez ambos correrem em direção à sala. Não teriam uma noite de descanso? O rosto de Jean nas chamas esverdeadas fez com que seu coração perdesse uma batida. Ao voltar de Paris, deu o endereço de sua casa para que ele chamasse a qualquer momento, ainda que não tivesse certeza se passaria tempo suficiente ali para que eles mantivessem contato dessa maneira.

Ajoelhou-se em frente à lareira, ao lado de Draco, e cumprimentou Jean de forma educada, mas não perdendo tempo em perguntar como Sophie estava.

– Ela está bem, mas... Não tenho boas notícias para você.

– O que aconteceu? – Perguntou tensa.

– Parece que Potter e a família Greengrass cobraram alguns favores por aqui e o Ministério, que antes parecia resistente, irá mandar Sophie à Inglaterra para prestar esclarecimentos no processo. – Hermione prendeu a respiração. Sophie estar na Inglaterra significava perdê-la ainda mais rápido. – Ainda não há nada certo, mas é Astoria quem quer acompanhá-la.

Notas finais
Olááá, meus leitores sobreviventes até aqui!! Sei que disse na outra história que viria na semana passada, mas só consegui escrever a outra parte do capítulo ontem e deixei pra postar hoje pra dar uma revisada pra deixar o capítulo ainda melhor para vocês, então espero que tenham gostado!!! Hermione e Draco finalmente voltaram!! Aqueles que andavam se perguntando se esta ainda era uma fic "dramione", acho que a pergunta está respondida kkkkkk Gostaram da forma que eu fiz. Não queria fazer diálogos exagerados e desnecessários, a reaproximação deles meio que foi lenta e gradativa, então achei que dispensava uma DR pra voltar. E essa visita de Ron? O que acharam? Acho que ele ainda não havia aparecido né? Eu queria trazer alguém do passado dela para esse capítulo e até cogitei Ginny, mas achei que ela não acrescentaria muita coisa a história, Ron ao contrário... Espero que tenham prestado atenção!! :)) E Astoria mexeu os pauzinhos pra ter Sophie por perto, o que acham disso? Ela irá ou não para a Inglaterra? Como Hermione irá reagir?! Bem, eu já tenho o próximo pelo menos pensado e tenho certeza que irei aparecer aqui no mesmo que vem, provavelmente no fim do mês devido aos meus seminários no início, mas... De qualquer forma, até lá, não irei abandonar a história, gosto muito de postar e saber a opinião de vocês, apesar de considerar essa história um pouco mais difícil que a outra, então... Obrigada pelos comentários do capítulo anterior, espero vê-los aqui novamente! :)) Beijão, galera!!