Vínculo
32 Capítulo 31
– Isso não pode estar dentro da lei. Se ela é minha filha, tem que ficar comigo! – Disse Astoria andando de um lado para o outro pelo apartamento de Draco.
– Bem, sem um exame provando que ela é sua filha, não podemos reivindicar nada. – Podia sentir o olhar do negro fuzilando sua nuca, mas, no momento, não estava preocupado com as opiniões de Zabine. – Granger não irá facilitar e não podemos dar entrada em um novo pedido de exame sem a autorização dela, que é a responsável pela menina.
Draco sabia de tudo isso. Astoria não poderia simplesmente ir até a justiça bruxa francesa e reivindicar Sophie como sendo sua, pois ali não obteria razão para isso. Ela não poderia bater à porta de Hermione escoltada de aurores com o objetivo de levar a filha deles à força e prender Granger. O ponto chave de tudo é que ele poderia e, por incrível que pareça, não estava nem um pouco animado quanto a isso.
Hermione tinha conexões poderosas que não se resumiam apenas a Jean Joffret e nessa batalha ela não estaria sozinha, tinha certeza. Há essa hora, já teria contatado toda a ajuda que pudesse ter ante a ameaça de Astoria. Sophie havia sido sua salvação ao sair do hospital psiquiátrico, segundo suas próprias palavras, o que significava que ela jamais abriria mão da menina.
Entretanto, para Draco, algo não se encaixava em toda essa história. Astoria usava a sanidade mental de Hermione para justificar o sequestro de Gwen, mas não estava muito propenso a aceitar essa hipótese. Ela não ficara louca, apenas traumatizada pela Guerra – assim como todos que participaram dela – e Potter não aguentava mais tanta pressão, por isso a decisão de interná-la. Hermione não tinha nenhum motivo concreto para sequestrar sua filha, exatamente nenhum.
– Blásio e eu vamos voltar à Inglaterra. – A voz de Astoria o tirou de seus devaneios. O brilho em seu olhar era determinado e não tinha o direito de tentar pará-la, mesmo ainda tentando juntar todas as pontas soltas dessa história. De qualquer maneira, a morena não conseguiria ficar parada após o exame que comprovava que Sophie era filha dele. – Não iremos conseguir nada reivindicando Gwen aqui, nem mesmo você. Os avós de Granger são franceses e a justiça daqui não estará do nosso lado.
– Como sabe que os avós dela são franceses? – Ela sorriu de lado, como há muito não via.
– Às vezes acho que esquece o poder que minha família ainda tem no mundo bruxo, querido. – Assim, a morena desapareceu em direção ao quarto de hóspedes, certamente com intenção de arrumar suas malas. Ela não iria perder tempo.
Draco suspirou e ignorou Blásio seguindo para seu quarto, não estava com paciência para o humor de gosto duvidoso ou as ofensas veladas contra Hermione, todos tinham consciência de que ele a detestava e nada mudaria sua opinião. Aliás, a lógica não parecia ter lugar na mente do casal, pois nenhuma de suas tentativas de debater sobre os motivos de Granger e o modo como ela havia supostamente sequestrado Sophie haviam realmente vingado.
– Draco? – Assustou-se com a voz conhecida vinda da lareira na extremidade direita do quarto. Cansado, sentou-se no sofá em frente à mesma e encarou a face de Narcissa, flutuando entre as chamas verdes. Seu semblante era preocupado. – Recebi sua carta.
– Precisa vir a Paris, mãe.
– Não tenho tanta certeza sobre a culpa de Granger quanto ao sequestro de Gwen. – Admitiu Narcissa, deixando-o alerta, endireitando-se na poltrona. – Ela não parece o tipo de pessoa que faria isso.
– Diga algo que ainda não sei. – Disse ele, mal humorado desfazendo-se da gravata e abrindo os primeiros botões da camisa, a sensação de alívio o preenchendo rapidamente. – Hermione não irá me receber, mas ela é educada demais para recusar um pedido seu. É mais amigável que Astoria e menos pessoal que eu, mostre-se amiga e ela será mais sincera com você do que com qualquer um de nós. Preciso saber a versão dela sobre tudo isso, mãe.
– Caso Granger tenha mesmo sequestrado Sophie...
– Ainda... Não sei o que pensar sobre isso. – Declarou, cortando qualquer hipótese que Narcissa pudesse levantar, já o havia feito exaustivamente e a conclusão de que não chegara a lugar algum era frustrante. – Quero condená-la por tudo que Astoria e eu passamos, mas não consigo. Quando a olho não vejo a pessoa que sequestrou Gwen. Depois de tudo que aconteceu entre nós, não tenho estrutura mental ou física para construir um panorama onde a odeio novamente.
O silêncio tornou-se confortável a partir deste momento. Mãe e filho eram realmente parecidos. Sabiam a hora de falar e exorcizar seus demônios, mas, mais importante, também sabiam a hora de manterem-se quietos, dar paz às pessoas que gostavam quando era disso que elas precisavam.
– Estarei aí o mais rápido possível, querido. – Disse a senhora, amavelmente. – Durma bem.
O rosto de Narcissa desapareceu entre as chamas e Draco deitou-se no sofá, exausto demais para levantar, tomar banho e finalmente cair na cama. Sua cabeça latejava, seus olhos doíam de cansaço, seu corpo parecia ranger a cada movimento brusco. Hermione fazia falta, realmente.
Mansão Joffret
– Legilimens!
No segundo seguinte, Hermione viu todas as suas memórias relacionadas a Sophie passar diante de seus olhos, como num filme confuso e desfocado, de acordo com o interesse e curiosidade de Jean.
Estando mais calma, o procurara e implorara – novamente – para que ele lhe desse um voto de confiança, mas o senhor estava irredutível. Um exame de DNA, feito por um dos melhores laboratórios de Paris, estava contra sua palavra colocando-a como a mais ordinária das mentirosas.
Porém, precisava de Jean e da influência que ele poderia usar em seu caso. Com a justiça da França ao seu lado, ficaria realmente difícil tirar Sophie do país. Então, a única maneira que encontrara para provar sua inocência fora mostrando suas memórias. A intimidade dos tempos de gravidez e de quando Sophie era apenas um bebê.
Viu seu próprio reflexo admirando com um brilho no olhar a protuberância do ventre, cada vez maior. Sua pele parecia mais vistosa e o sorriso em seu rosto era o mais feliz em muito tempo, lembrava-se perfeitamente. Suas roupas apertaram, seus pés ficaram inchados, estava sempre cansada, mas nada disso tinha o poder de minar a alegria por estar gerando uma criança. Mesmo não planejada, Sophie seria muito bem vinda quando nascesse.
Nostálgica, reviu os primeiros meses da bebê enrugada que se tornara gorda e cheio de vida. Hermione relembrava a si mesma cuidando de sua filha, as noites em claro, as preocupações de uma mãe de primeira viagem quando a pequena tinha cólicas; os momentos alegres em que simplesmente curtia o grandioso fato de ter uma vida que dependia dela, que lhe dava forças para continuar todos os dias.
Quando Jean se deu por satisfeito, entretanto, abaixou a varinha e Hermione voltou a realidade. O rosto estupefato do senho a sua frente, concordando que algumas peças não estavam se encaixando naquele quebra-cabeça.
– Como o resultado do exame pode estar errado? – A morena suspirou, sentindo a leve dor de cabeça que se instalara após o homem ler sua mente como a um livro.
– Não durmo desde ontem pensando sobre isso. – Ela mordeu os lábios, pensando se deveria mesmo levantar a hipótese que havia cogitado. Sua incrível nobreza grifinória não permitiria que não o fizesse mesmo que significasse estar indo contra tudo que desejava no momento. – E acho que encontrei a resposta.
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