Vínculo
30 Capítulo 29
– Sophie, traga os brinquedos para o seu quarto, agora! Não quero essa bagunça na sala.
Hermione gritou do quarto, enquanto dobrava e guardava pacientemente as roupas passadas da filha. Logo mais, à noite, teria de ir à casa de Jean. Havia sido convocada pela manhã, assim como Draco, Zabine e Astoria, e não estava nada ansiosa para ver o sol se pôr da casa de seu patrão. Ele sequer havia feito questão de organizar um jantar, consciente de que a situação era tensa para ambos os lados.
Organizando as coisas de Sophie, tentava ocupar o tempo para não ter que pensar no que iria acontecer, adiando até mesmo a hora de começar a se arrumar para sair. Suspirou e sentou-se na cama da menina, escondendo, por um momento, o rosto atrás das próprias mãos.
Estava tão cansada. Não fisicamente, mas mentalmente. Não dormia há uma semana à espera do resultado do teste de DNA e agora que ele chegara, que faltavam poucas horas para que este fosse aberto e essa tortura psicológica a qual fora submetida terminasse de vez, sentia que não estava preparada para abri-lo.
Um aperto se instalara em seu peito quando entregara o material de Sophie ao laboratório, sendo informada de que Draco havia cedido alguns fios de cabelo no dia anterior. Ele sim estava ansioso, Hermione tinha certeza. Sorriu, amargamente, e balançou à cabeça em negação. Talvez não pudesse negar à Malfoy o direito de nutrir essa ansiedade. Ele havia esperado tanto tempo por isso, por uma única pista.
Tirada de seus devaneios, ouviu a campainha tocar e esperou que alguém atendesse. Simplesmente, não tinha ânimo para lidar com ninguém. Respirando fundo, levantou a cabeça e decidiu, finalmente, começar a se arrumar. Adiar ainda mais seria arriscar chegar atrasada e isso era inadmissível, pois poderia mostrar como estava vulnerável.
Entretanto, após fechar a porta do quarto de Sophie, franziu o cenho ao ouvir fragmentos de conversa no andar de baixo. A menina falava algo animadamente e quem respondia não era Marie, o que ficou claro para Hermione ao ouvi-la rir alegremente. Há dias ninguém conseguia fazê-la rir daquela maneira.
Intrigada, desceu as escadas sorrateiramente até ter uma visão parcial do hall de entrada. Seu coração, imediatamente, disparou ao perceber quem estava falando com Sophie. Aproveitando que não poderia ser vista por quem estava na porta, simplesmente fechou os olhos e ouviu a conversa por um momento, como nunca imaginou que faria se isso acontecesse.
– ...Como você cresceu! — Disse Draco, animadamente.
– É o que digo a Marie todos os dias. — Retrucou Sophie com ar petulante. — Draco, o que está escondendo aí?
– Ninguém engana você, não é? Aqui...
– Eu sabia que não se esqueceria de mim. — Disse a menina, enquanto, provavelmente, abria o embrulho de um presente que Draco trouxera. — Sabe, quando mamãe disse que tinham terminado, eu fiquei muito brava com ela...
– Sophie...
– Mas então parei pra pensar: tenho muitos amigos com pais separados, então acho que posso lidar com isso, apesar de sentir sua falta aqui todos os dias. — Houve um breve momento de silêncio, o qual foi quebrado pela própria Sophie, ao soltar uma exclamação admirada. — Um porta-retrato só nosso!
Imediatamente, Hermione lembrou-se do que ocorrera alguns meses atrás quando Draco dera de presente à Sophie um lindo porta-jóias com um bailarina feita totalmente de forma artesanal, que ficava girando, girando e girando o tempo todo ao som de uma música irritante.
Sophie estava sentada no chão da sala, abrindo e fechando o porta-jóias à todo instante apenas para ver a bailarina colorida surgir e começar a rodar ao redor de si mesma. Mais um dos presentes de Draco. Ele não se cansava de presentear a menina. Na semana anterior, havia sido um carrinho todo cor-de-rosa e, na outra, uma paleta de maquiagem — pois, segundo o próprio Malfoy, assim ela não iria usar as coisas de Hermione para brincar.
– Mamãe, quero ser uma bailarina quando crescer. — Hermione sorriu para a menina e levantou-se, puxando Draco pela mão para subir as escadas logo atrás dela.
– Se soubesse que estava com tanta saudade assim teria vindo mais cedo. — Disse, quando Hermione fechou à porta do quarto e o encarou, seriamente, às mãos na cintura e o ar mandão.
– Tem que parar de trazer presentes para Sophie. — Ele levantou as sobrancelhas, não levando-a a sério. — Draco, ela está ficando cada dia mais mimada e você e seus presentes semanais são os responsáveis por isso.
– Que mal há em trazer alguns presentes? — O loiro se desfez do terno e da gravata. — Gosto de fazer surpresas.
– Eu odeio surpresas.
– As surpresas não são para você. — Ele lhe sorriu, malicioso, e fez com que se sentasse em seu colo, mesmo que resignada. — Sim, sou o eterno responsável por Sophie estar mimada, mas... Eu não trouxe a casa de bonecas e você deveria ser bastante grata por isso.
A casa de bonecas que a menina tanto queria — e que "todas as suas amigas tinham" — seria dada à ela em seu aniversário, como Hermione prometera durante meses à fio ante a insistência de Sophie e testemunho de Draco.
– Agora, Granger, que tal pularmos a parte da briga e irmos direto para a reconciliação? — Pediu ele, em seu ouvido, apertando sua cintura de forma sutil por baixo da blusa. Porém, reunindo todo o auto-controle que possuía, Hermione levantou-se e sorriu para ele.
– Sophie está lá embaixo, desfrutando do seu último presente.
Decidindo que já ouvira muito às escondidas, Hermione terminou de descer as escadas. Draco e Sophie já estavam na sala sob o olhar vigilante de Marie, que a encarou temerosa assim que se fez presente.
– O que está fazendo aqui? — Draco levantou-se imediatamente e Hermione cruzou os braços, numa forma inconsciente de se proteger. Tê-lo em sua casa novamente, depois de tanto tempo, era perturbador demais.
– Achei que pudéssemos conversar.
– Mamãe, não o mande embora.
Implorou Sophie, abraçando o porta-retrato que ganhara, quando abriu a boca para dizer que não, não podiam conversar, pois se veriam dali a poucas horas para definir de uma vez por todas o futuro de sua filha. Sua filha, a qual nenhum deles tinha direito de reivindicar.
– Por quê? — Ele a encarou, confuso. — Nós não temos nada para conversar e você sabe disso.
– Está enganada. — Ele insistiu, inflexível, e virou-se para Sophie. — Pode subir para o seu quarto? Prometo que irei me despedir.
Marie subiu junto com a menina, em silêncio, dando-lhes a privacidade que Draco queria, e Hermione amaldiçoou o fato de sua filha gostar tanto do loiro à sua frente.
– Então?
Ele a observou por um momento, parecendo saber cada pedacinho que estava fora do lugar com tantos problemas para lidar. Tinham estado juntos por poucos meses, mas se conheciam tão bem que mais pareciam anos. Podia jurar, por exemplo, que Draco reprimia com veemência a vontade de se aproximar.
– Não deixou Astoria conhecer Sophie.
– O fato de você tê-la conhecido já tem me causado muitos problemas.
– Hermione...
– Se veio aqui em defesa de Astoria, está perdendo seu tempo. Se depender de mim, sua ex-mulher nunca conhecerá minha filha. — Afirmou, determinada. Não estava preparada para isso, talvez nunca estivesse. Não queria que Sophie tivesse contato com Astoria, sentia que uma linha muito fina a mantinha consigo, principalmente por causa de Draco, e a mulher representava uma ameaça a essa linha frágil. Querendo ou não, Astoria poderia ser adorável quando queria.
– Não vim falar de Astoria, vim falar de... Nós dois. — Hermione suspirou e, por um momento, o tecido de cor clara do sofá pareceu bem mais interessante que os olhos dele. Era tão difícil olhar para Draco e negar o que tiveram, tão difícil tentar esquecer tudo que tiveram tendo-o à sua frente, na sala de sua casa, insistindo em falar sobre o que haviam sido. — Eu sei que é injusto, eu sei, Hermione, e eu pensei muito antes de vir aqui.
– Injusto? — O encarou novamente deixando a indignação transparecer. — Injusto foi você ter me acusado de sequestradora, sem hesitar, sem parar pra me ouvir, sem sequer me dar um voto de confiança, Draco. Isso foi injusto! Você vir até a minha casa para "falar de nós dois" não é injustiça, é hipocrisia.
– Eu sei que errei e peço perdão por isso, eu só... Achei que merecíamos isso antes de... Antes do resultado de hoje.
– O resultado do teste de DNA não vai mudar nada. — Admitiu por fim, cansada, esperando que ele finalmente entendesse, mas Draco apenas aproximou-se, tocando hesitantemente um de seus cachos.
– Às vezes, quero mesmo que não mude. — Hermione o olhou, surpresa. — Às vezes, só quero que as coisas entre nós voltem ao normal e, tenha a certeza, eu me culpo tanto por desejar isso. Por que ter você talvez signifique que não possa ter minha filha e me condeno por ainda ter dúvidas sobre o que escolher.
– Apesar disso, você já fez sua escolha e há um teste de paternidade nos esperando para provar que as coisas não serão como antes. Independente do resultado, nada vai voltar a ser como antes para nós.
Nenhum dos dois interrompeu o silêncio que se instalou na sala. Draco analisava todos os traços do seu rosto, as duas mãos segurando-o delicadamente. Não sabia como haviam chegado àquele ponto, mas ambos pareciam exaustos demais para falar.
Hermione fechou os olhos ao sentir a respiração dele misturar-se com a sua, os narizes se tocando numa carícia íntima, os braços ainda cruzados, não tinha forças, não queria sair dali. Pelo contrário, queria que o momento durasse ao máximo, pois sabia que seria o último, estavam selando um acordo onde as coisas "não seriam como antes", estavam se despedindo, independentemente do resultado do exame de DNA.
O beijo foi apenas um tocar de lábios, casto. Há tanto tempo não sentia o toque dele, há tanto tempo tinha saudades de tê-lo tão perto, e agora o simples fato dele estar ali, nas condições em que se encontravam, doía.
– Eu te amo. — Draco sussurrou, juntando suas testas, e Hermione engoliu um soluço recusando-se a abrir os olhos para encará-lo.
– Por favor... Vá embora. — Implorou baixinho, evitando olhá-lo. Seria melhor para ambos que ele fosse e só conseguiria mandá-lo ir se não o encarasse. Os olhos de Draco podiam ser devastadores quando queria e essa era uma dessas ocasiões em que ele depositava todos os seus sentimentos no simples e, ao mesmo tempo, complexo brilho de seus olhos cinzas. Para sua surpresa, Malfoy não resistiu, apenas respirou fundo e concordou.
– Vou me despedir de Sophie.
Meneou a cabeça, mas, antes de se afastar e começar subir as escadas, ele aproximou-se novamente e depositou um beijo em sua testa, aspirando sem pressa o perfume de seus cabelos. Sem acrescentar mais nada, Hermione ouviu seus passos lentos subindo as escadas e esperou para ter certeza de que ele estava no corredor e só então deixar algumas lágrimas caírem.
Fale com o autor