Vínculo
31 Capítulo 30
Quando Hermione chegou a Mansão de Jean, tinha certeza de que encontraria Greengrass, Zabine e Malfoy a esperando. Inevitavelmente se atrasaria após a saída de Draco, pois precisaria estar no mínimo apresentável para aquela reunião. Usou um feitiço e maquiagem trouxa para tentar disfarçar os olhos vermelhos, o que ajudou, mas não eliminou por completo os resquícios de lágrimas.
Por incrível que possa aparecer, assim que foi encaminhada pela empregada para o escritório de Jean, ignorou por completa e solenemente a presença de Blásio Zabine e do próprio Draco. O primeiro não tinha o mínimo direto de estar ali, participando de algo que deveria ser particular, ofendendo-a quando bem entendia; o segundo... Bem, não era como se pudesse tratá-lo normalmente depois de tantos acontecimentos envolvendo-os, colocando em cheque sua relação, a qual haviam colocado um fim definitivo há menos de três horas.
Não retornara a carta de Astoria respondendo seu pedido, pois sinceramente não sabia o que responder usando a boa educação. Neste caso, seu silêncio era a melhor resposta. Se as intenções da mulher fossem tão boas, esta entenderia suas razões para que não a quisesse perto de sua filha. Hermione era mãe e Greengrass estava ameaçando essa posição inerente e inquestionável, ninguém em sã consciência permitiria tal contato.
Entretanto, se trataram normalmente, beirando até mesmo a simpatia, o que não a agradou. Astoria estava sendo empática por esperar que o resultado não lhe fosse favorável e Hermione não a tratava mal por já antecipar a decepção que se seguiria ao resultado do teste. Eram duas mulheres no auge de sua educação e falsidade. Sim, falsidade, apesar de tudo não se gostavam nenhum pouco e o entendimento mútuo que ocorria nessa estranha relação era fruto da boa índole de ambas, o que era quase doentio.
– Então... – Começou Jean pouco à vontade de trás de sua mesa de carvalho escuro. Ele pigarreou e levantou, preparando-se e ao mesmo tempo angustiando a todos pela demora. – Como vocês sabem, me responsabilizei por cuidar e abrir o teste de DNA na presença de todos vocês assim que este ficasse pronto e aqui estamos nós.
– Pode pular a parte da lição de moral? Estamos mesmo com pressa. – Tentou interromper Zabine, no que foi prontamente ignorado. Jean parecia compartilhar de sua opinião sobre o quanto ele era detestável e inconveniente.
– Quero que saibam que independentemente do resultado dentro deste envelope... – O senhor levantou o envelope branco para que todos pudessem vê-lo e constatar com os próprios olhos que estava lacrado e seguro. – Vocês são boas pessoas. Lembrem-se, ações impensadas geram consequências desastrosas.
Seu olhar recaiu sobre Hermione e não pode deixar de sentir-se invadida. Aquilo soava como uma insinuação, mas não poderia ser, pois Jean ainda não sabia o resultado do exame e... Deus, isso estava tirando-a do eixo. Ele estava referindo-se apenas ao que aconteceria dali para frente, não sabia o resultado do exame, apenas... Não queria que fizessem besteiras, pois seu espírito de pai os julgava jovens e inconsequentes demais para pensar com clareza sobre o que viria a seguir.
Jean era o tipo de homem que havia nascido para ser pai, mas por uma brincadeira de mau gosto do destino não pudera sê-lo. Podia imaginar aquela casa cheia de crianças correndo de um lado para o outro e o senhor, parado a um canto, provavelmente perto do piano já que era um de seus lugares preferidos, apenas admirando a bela família que havia conquistado. A realidade era mais cruel, porém, pois o casarão parecia triste e solitário demais para o casal Joffret.
Viu o homem romper o lacre do envelope, ao mesmo tempo em que parecia sentir a tensão palpável a seu redor. A pouca distância, Astoria prendeu a respiração, mordendo os lábios nervosamente. Zabine estava logo atrás dela, estático, como o Sonserino frio e calculista que sempre fora. Draco estava perto da lareira, torcendo os dedos da mão esquerda ansiosamente – mania particular que ele possuía quando estava nervoso ou ansioso.
Hermione... Bem, ela não estava em melhor estado que a mulher ao seu lado. Apesar de poder prever antecipadamente o resultado do teste, o medo de encontrar uma resposta diferente da que esperava a estava consumindo. Sua garganta estava seca e daria tudo por um bom vinho nesse instante, apenas para sentir todos os músculos de seu corpo relaxando aleatoriamente.
Jean leu por um instante as informações, conferindo os dados e soltou um suspiro. Hermione não sabia o que pensar diante de sua expressão resignada.
– O suposto pai tem no mínimo 99,9% de chance de ser o pai biológico da filha. – Ele declarou, à queima-roupa.
– O quê?! – Hermione levantou-se, tomando o exame das mãos de homem e lendo por si mesma o que estava escrito no papel. Aquilo não poderia estar certo. — Isso é um absurdo!
Astoria se levantou e, como uma fera, aproximou-se. Não pode prever o que ela faria, simplesmente sentiu quando um tapa forte fora deferido contra sua face esquerda. Draco segurou a morena antes que pudesse lhe agredir novamente, estava atônita demais para pensar em uma reação.
– Você é uma bastarda, Granger! – Os olhos de Astoria estavam vermelhos, assim como suas faces coradas pela raiva. Ela não tentou se desvencilhar, satisfeita por tê-la atingido uma única vez. – Uma maldita bastarda que roubou minha filha de mim e, anos depois, tentou iludir Draco se passando por boazinha. Você não é boazinha, você é uma maluca que apenas pensa em destruir a vida dos outros.
– Eu não roubei sua filha! – Gritou, sentindo as lágrimas escorrerem pelo rosto, frustrada por não conseguir fazer com que todos entendessem que Sophie era sua, havia crescido dentro de seu ventre.
– Não é o que o exame diz! – Gritou a outra de volta. – Nós fizemos tudo do jeito que queria, Granger, até o exame trouxa que você alegava ser mais confiável. Este mesmo exame diz que Sophie é minha filha, minha, e você não tem nenhum direito sobre ela.
– Não? – Começou em tom cruel, estava farta de ser acusada pelo que não tinha culpa, de ser agredida por uma Astoria que se achava cheia de razões. O entendimento mútuo havia acabado no instante que a possibilidade de lhe tirarem sua filha fora cogitada. – Então me diga o que sabe sobre ela? Diga por que tem mais direito que eu? Eu sou a única mãe que Sophie conhece. Eu sei qual foi sua primeira palavra, sei com quantos anos perdeu o primeiro dente, eu a consolei em seu primeiro machucado, eu a ensinei a ler, escrever, a tratar os outros com educação. Eu sou a mãe dela e nem você nem ninguém tem o direito de dizer o contrário.
Astoria parecia ter sido atingida por um tapa na cara, pois sua expressão era de completa dor, mas Hermione não tinha mais pena.
– Se não fosse por você, eu teria feito tudo isso. Eu seria uma boa mãe, Granger, e você não permitiu que eu pudesse sentir essa sensação. – Astoria deixou uma lágrima escorrer, mas a secou com um movimento brusco, desvencilhando-se de Draco. – Você será presa e eu vou comemorar quando isso acontecer, pois significa que então estarei com minha filha e estaremos em paz, longe da maluca que você é.
– Já chega. – Pronunciou-se Jean. – Vocês irão resolver esse problema como adultos, berrar suas verdades não está ajudando em nada.
– Não, Jean. – Quem disse foi Draco. – Hermione tem pagar pelo crime que cometeu. Ela tem de ser levada a júri.
– Ela tem de ser presa. – Interrompeu Astoria. – Não há prova maior do que esse exame. Ela roubou nossa filha, Draco!
– Você disse que iria reabrir o inquérito e o fará, Astoria. Se Hermione será punida precisa ser nos trâmites legais, nós iremos voltar para a Inglaterra e cuidaremos disso.
– Draco... – Hermione tentou, mas quando os olhos cinzas recaíram sobre ela, tinha certeza de que falar com ele não mudaria sua opinião, não mudaria o fato de que Draco acreditava naquele exame e sua palavra não valeria de nada. – Eu não fiz isso.
– Como ainda tem coragem?! – Zabine manifestou-se, um sorriso incrédulo e desdenhoso se fazendo presente em seus lábios grossos. O odiou mais do que nunca. – Não tem o direito de falar com nenhum deles, você não pode tentar enganá-los depois disso. Acabou para você, fim da linha, Granger.
– Zabine, saia daqui. – Disse Jean, friamente, e quando o negro ainda tentou revidar, o senhor insistiu. – Isso é uma briga particular e você não é sequer da família, saia.
– Não precisa. – Falou Astoria buscando sua bolsa enquanto sustentava corajosamente o olhar de Hermione. – Nós já estamos indo, de qualquer maneira. Amanhã eu irei buscar minha filha, Granger, e os aurores estarão comigo para o caso de tentar impedir.
Astoria e Zabine saíram da sala a passos duros e Jean, hesitando por um momento enquanto os olhava, os seguiu. Então, a sós, encarou Draco de braços cruzados, esperando pelo momento em que ele a acusaria novamente, do mesmo modo que havia feito quando sua ex-mulher apareceu para acusá-la sem prova alguma.
– O irônico é que eu torci para que isso não fosse verdade. – Começou o loiro, seu tom mais melancólico do que já vira. – Eu realmente quis.
– Não é verdade! – Ela disse, em tom indignado. – Juro que não é, Draco, eu nunca faria algo parecido!
– E você está sugerindo que alguém falsificou o teste? – Ele respirou fundo, pegando o terno que havia tirado, provavelmente, antes de chegar. – Você... Tirou a melhor parte da minha vida, Hermione, eu... Não posso, não consigo lidar com isso por mais que tente encontrar uma forma de justificar o que fez. Qual foi o motivo, afinal? Nós nos odiamos tanto assim quando éramos crianças?
Hermione balançou a cabeça negativamente, sem sequer saber o que falar para retrucar as perguntas de Draco. Estava cansada de mostrar sua indignação quanto aquelas acusações, ele mesmo estava cansado de ouvi-la dizer que não havia sequestrado sua filha. Pegou sua própria bolsa e, antes de sair, ainda virou-se para ele.
– Vocês não irão tirá-la de mim, vocês... Podem mover céu e terra para conseguir isso, mas... Nunca me tirarão, Sophie. – Ela mordeu os lábios por um momento, sentindo o coração acelerado. Sua mente estava uma confusão, mas tinha certeza do que estava falando, pois sua voz se mostrava firme como há muito tempo não ficava. – Eu te amo, Draco, mas lutarei pela minha filha até o fim, independente dos meus sentimentos por você.
Assim, saiu do escritório deixando-o sozinho com suas próprias conclusões. Encontrou Jean conversando com Elise na sala de estar e se despediu rapidamente, agradecendo por tudo, antes que qualquer um deles pudesse insistir numa conversa. Hermione garantira a seu chefe que não havia nenhuma chance de Draco ser pai de filha, que não havia possibilidade de Sophie ser Gwen Malfoy e ele havia lido um exame de DNA que provava o contrário.
No fim das contas, não queria ter de se explicar por que não havia o que explicar. Lembrava-se de sentir os primeiros chutes de Sophie dentro de sua barriga, de acariciar seu ventre distendido, da sensação de quando a pegou em seus braços pela primeira vez. O parto era uma memória confusa, pois, segundo a enfermeira, fora um procedimento difícil e havia sido anestesiada para que tudo saísse como planejado, mas lembrava-se claramente da dor insuportável que sentira antes disso.
Pensando nisso, aparatou em sua casa, agradecendo mentalmente que Sophie estava dormindo àquela hora, pois todos os cômodos se encontravam em completa escuridão. Até mesmo a sala, onde Marie cochilava à sono solto. Acordou a mulher, agradecendo a ajuda por educação e despedindo-se para finalmente subir até o quarto de sua filha.
Um abajur iluminava seu quarto de princesa, pois ela não conseguia dormir sozinha na completa escuridão. Suas feições eram tranquilas e delicadas, principalmente no sono, mas pela primeira vez, como um estalo em sua mente, percebera de onde conhecia as expressões de insatisfação que percorriam o rosto da menina quando esta estava chateada com algo. Era praticamente o mesmo que enxergar Draco Malfoy aos seus 11 anos ostentando sua face de desdém para toda Hogwarts.
Balançou a cabeça e deitou-se perto dela, acariciando sua massa de cabelos loiros. Sophie era sua e de mais ninguém, que Astoria e o resto do mundo estivessem contra ela, não desistiria de sua filha.
– Não vão tirá-la de mim, meu amor. — Assim, adormeceu na cama ao lado da menina.
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