Vínculo
27 Capítulo 26
Hermione tocou a campainha da Mansão e esperou, esperançosa, que alguém a atendesse. O segurança da guarita tinha deixado que entrasse por que a conhecia como assistente de Jean e não havia encarado com atenção seu rosto ou perceberia que o assunto que a levara ali não estava relacionado a trabalho.
Obrigava-se a respirar, mas cada vez que pensava no que havia acontecido, sua garganta fechava-se e seu corpo parecia ficar completamente dormente, a fazendo não sentir nada ao redor. Estava completamente encharcada, pois havia passado tempo demais na rua pensando e uma chuva assolara Paris naquela noite.
Sabia que era tarde, odiava incomodar os outros com seus problemas, principalmente àquela hora, mas o assunto era urgente demais para que esperasse até o dia seguinte. E se tratando de Sophie Hermione incomodaria até mesmo o Ministro da Magia, sem se importar. Suspirou, encostando a cabeça na pilastra de estilo grego à direta da porta.
"- Hermione, Sophie tem exatamente a idade de Gwen..."
Por mais que quisesse, as palavras de Draco não saíam de sua cabeça. Deus, não podia ser! Detestava admitir, mas ele tinha razão. Gwen realmente teria a idade de Sophie, mas seria coincidência demais...
Nesse instante, uma funcionária baixinha usando uniforme abriu a porta e franziu o cenho ao vê-la ali.
– Srta. Granger...?
– Desculpe incomodar à essa hora, pode chamar Jean?
– Mas ele e a Sra. Joffret se recolheram há alguns minutos...
– Por favor, eu não viria se não fosse importante. — Hermione não esperou resposta e adentrou o hall luxuoso, ignorando os protestos da empregada e dirigindo-se até a sala de estar.
– Srta. Granger, sabe que eu não tenho autorização para incomodá-los agora.
– Eu me responsabilizarei, nada vai acontecer ao seu emprego por minha causa. Por favor.
A funcionária da Mansão Joffret, certamente, percebeu seu semblante desesperado, pois saiu pelo mesmo local onde entrara balançando a cabeça, provavelmente condenando-se por desafiar a ordem do patrão.
Hermione sabia bem o quanto Jean prezava seu descanso e, é claro, entendia. Porém, ele havia lhe dado a liberdade de procurá-lo quando precisasse e nunca, até o dito momento, havia abusado dessa liberdade. Jean era um bom homem e fora um dos primeiros a aceitá-la, quando chegara da Inglaterra.
Conseguir emprego no Ministério da Magia Francês não havia sido fácil, uma vez que as pessoas tinham preconceito por vê-la como a garota que "ganhara a guerra e achava que que teria uma vida fácil". Bem, podia afirmar com bastante certeza que eles não sabiam a metade sobre lidar com problemas da amplitude dos seus, principalmente depois dos últimos acontecimentos.
– Hermione? — Jean, finalmente, apareceu na porta vestindo um roupão sobre o pijama, a empregada andando apressada em seu encalço. Franzindo o cenho, ele aproximou-se e sacou a varinha do bolso do moletom ao encará-la de cima a abaixo. Com um aceno, suas roupas estavam secas novamente. — O que aconteceu? Sente-se aqui.
Ele a encaminhou para um sofá perto da lareira, acendendo-a com habilidade usando a varinha. Jean possuía um olhar preocupado e um pouco aflito.
– Jean, você precisa me ajudar...
– Acalme-se. — Hermione não chorava, mas sentia seus olhos inchados pelas horas que passara chorando na chuva, assim como todas as vias congestionadas, a voz rouca pelo desuso. — Tudo bem, me conte com calma.
– Querem tirar Sophie de mim. Minha filha, Jean!
– Quem? Quem quer tirá-la de você? Por quê fariam isso?
– Draco. — Ela não aguentou mais e deixou que algumas lágrimas caíssem. — Ele está me acusando de ter sequestrado a filha dele! Ele acha que Gwen é Sophie e quer tirá-la de mim. Ele não medirá esforços para fazê-lo, Jean.
Jean a encarou, ponderando, por alguns segundos e tirou uma mecha de seu cabelo do rosto, escondendo-a atrás da orelha, a olhando com carinho.
– Hermione, Draco é uma pessoa sensata e não faria algo assim com você. Estão juntos, não estão?
– Alguém mandou uma carta anônima, eu... Não sei quem pode ter feito algo assim, apenas... Tenho certeza que quer se vingar. — Ela levantou-se, passando a andar de um lado para o outro. Estava inquieta, muitas ideias e suposições passavam por sua mente e não conseguia organizá-las. — Draco... Ele está completamente cego pela ideia de ter a filha de volta.
– Se vingar de você?
– Eu não sei. — Disse, a voz fina. Eles ficaram em silêncio por alguns instantes, Jean a encarava pensativo e Hermione tremia por imaginar tudo que teria pela frente para enfrentar. — Eles vão reabrir o inquérito no Ministério Inglês, Draco e Astoria. Jean, por favor, preciso de ajuda. Eu não posso deixar que tirem Sophie de mim.
Nesse momento, ela já estava ajoelhada em frente à ele, segurando suas mãos, implorando para que Jean a ajudasse, pois ele era sua única alternativa, a única pessoa a quem ela poderia recorrer. O homem suspirou e balançou a cabeça afirmativamente.
– Sabe que não negaria isso a você, Hermione. — Ele suspirou e ajeitou seus cabelos, como um pai faria. Era exatamente assim que Hermione o enxergava, até mesmo quando interagia com as crianças da Fundação de Elise. — Mas antes terá de me falar: há alguma chance de Sophie ser, realmente, a filha desaparecida de Draco?
xxx
Há alguns quilômetros da Mansão Joffret
Da janela de seu quarto, Draco encarava os carros passando na rua, lá embaixo. Nem tentara dormir, pois sabia que não conseguiria depois de tudo que acontecera. Em outros tempos, recorreria ao uísque, mas queria manter sua mente completamente atenta, funcionando, tentando encaixar as pontas soltas daquela história.
Não conseguia ver por que um anônimo entregaria aquela carta a Astoria se não fosse verdade, o que uma pessoa que nem conhecia poderia ganhar sabotando sua vida? Sabotando, as coisas boas de sua vida. Primeiro Gwen, agora Hermione.
Demoraria — ou nunca conseguiria — enxergar Hermione como a pessoa que havia sequestrado sua filha, era simplesmente inacreditável cogitar essa hipótese ao se lembrar dos momentos que havia vivido ao lado das duas Granger. Deixou a cabeça cair contra a parede e fechou os olhos, apoiando os braços nos próprios joelhos.
– Sabe, poderíamos passar o fim de semana fora. — Estavam esticados no sofá da casa dele, Sophie tinha os olhos brilhando, encantada por poder finalmente demonstrar magia, sem precisar se conter por causa de Marie. Ele correu o nariz pela mandíbula de Hermione, apertando-a contra si. — Tenho uma casa de campo em Versalhes.
– E por que isso não me surpreende? — Ela disse, com um sorriso, enquanto acariciava os cabelos de Draco, que escondia o rosto em seu pescoço, rindo brevemente.
– Sophie iria adorar. — Hermione havia lhe contado que Sophie dissera na escola que ele era seu pai e gostava disso, da sensação de realização e, ao mesmo tempo, responsabilidade, por ter de cuidar para não fazer algo que a decepcionasse. Qualquer um gostaria de ser pai daquela garotinha. — Há um lago, cavalos, muito espaço para brincar...
– Se distrair. — Completou ela, cutucando-o na escola. — Acha que não te conheço, Malfoy?
– Sou um sonserino, Granger, a astúcia está implícita. — Draco levou os lábios aos ouvido dela, mordendo rapidamente. — Acostume-se, você vai ter de lidar com isso por muito tempo.
Ela revirou os olhos, rindo, e o puxou para um beijo.
Draco foi tirado de seus devaneios por uma batida na porta, a qual nem se preocupou em responder. Não estava com cabeça para falar com Astoria, ou Blásio, ou qualquer outra pessoa. Achou que, se não respondesse, quem estivesse do lado de fora simplesmente desistiria e iria dormir. Afinal, já passava das duas horas da manhã.
Porém, estava enganado. Com a luz que infiltrava pela janela, viu a silhueta de Astoria adentrar o quarto, segurando uma xícara de algo quente. Ela estava séria, como há muito não via. Sabia que a conversa — vulgo briga — que tivera com Hermione mexera com ela.
A morena sentou-se ao seu lado e lhe estendeu a xícara, mas simplesmente a dispensou com um gesto de mão. Astoria suspirou e encarou a paisagem lá fora, seguiu o olhar dela. Paris era realmente linda e entendia por quê os turistas gostavam tanto, apenas não conseguia ver algo que lhe fizesse parar e admirar, simplesmente pelo prazer de fazê-lo e perder algum tempo refletindo e pensando na vida. Não seria a primeira vez depois de sua mudança, mas não havia nada para motivá-lo, no momento.
Ficaram em silêncio por muito tempo. Draco não se sentia desconfortável, embora não soubesse os pensamentos de Astoria quanto a isso. Ela havia sido boa e compreensiva enquanto estiveram casados, por que esse era seu jeito, o modo como conduzira toda a situação com Hermione é que não refletia em nada sua personalidade, mas a compreendia, haviam passado por muita coisa juntos e seria completamente cruel não entendê-la.
– Eu sinto muito por... Fazê-lo passar por isso. — Draco apenas a encarou, as luzes da cidade refletida nos olhos verdes. — Vejo como a olha. Há algo que não estava aí enquanto estivemos casados.
– Astoria...
– Não! Não pense que estou lamentando. — Ela se apressou em dizer e encarou o chão. — Draco, eu... Não o culpo por tudo que aconteceu. Pelo contrário, depois de tanta mágoa, apenas queria que fosse feliz e, Merlim, sei que Granger o faria. Eu só... Quero que entenda. Eu preciso das respostas.
– Acredite, eu as quero tanto quanto você. — Não se alterou, apenas encostou a cabeça na parede novamente. — Reabra o inquérito. Mandei uma carta à Narcissa, ela lhe dará o apoio necessário.
– Mas e você?
– Acompanharei pelos relatórios semanais. Eu tenho uma vida aqui agora e não posso, simplesmente, abandoná-la.
– E Paris sempre terá Granger. — Ele balançou a cabeça, negativamente, abaixando os olhos para os próprios dedos.
– Reabrir o inquérito quer dizer que estou desistindo de Hermione, Ast.
– Draco, estaremos apenas investigando. — Ele sorriu, amargamente.
– Eu a conheço, ela jamais me perdoará. — Dizer tais palavras era como tornar a dor real. Sentiu os olhos marejarem e a garganta se fechar. — E, sinceramente, não sei se conseguirei lidar com isso.
Fale com o autor