– Ora, ora, faz tempo que não nos vemos.

Os olhos verdes de Harry expressavam divertimento e alguma outra coisa que, depois de tanto tempo, não sabia identificar. Ele estava perto demais, confiante demais, sereno demais. Para a primeira vez que se viam depois da última — e tensa — briga que haviam tido, ele estava muito calmo.

Hermione não se lembrava de um Harry que controlava suas emoções, sempre tão impulsivas, e supôs que o mesmo tinha aprendido tal arte no curso para aurores. Enquanto esteve internada, soube pela Sra. Weasley, ele estava nos EUA se especializando na melhor escola para aurores de toda a América.

Antes que pudesse responder, um homem na faixa dos 40 anos segurando uma câmera bruxa, se aproximou.

– Posso registrar esse momento para o Diário Matinal? Em nome dos velhos tempos! — O rosto do fotógrafo estava corado de felicidade por encontrá-los juntos, depois de mais de oito anos.

Harry a olhou de soslaio e sorriu simpático para o homem, antes de segurá-la pela cintura e colá-la ao seu corpo, com uma intimidade que não possuía há tempos — que não merecia, aliás.

– Aos velhos tempos, então!

Ao longe, Hermione viu Draco se aproximar e encará-la confuso depois de registrar com quem estava posando para o fotógrafo. No dia seguinte, aquela foto estaria em todos os jornais bruxos da França e talvez até mesmo da Inglaterra, não duvidava que o Ministério Inglês tivesse bancado um correspondente do Profeta Diário para cobrir o evento.

Um sorriso forçado, um punho cerrado pela raiva, um único flash depois, Hermione fez questão de tirar a mão dele de sua cintura e dar pelo menos dois passos para longe. Sabia que aquele encontro "memorável" entre os heróis ingleses da II Guerra Bruxa tinha espectadores e seria, no mínimo, estranho que não se falassem, como era sua vontade.

– O que você quer?

Não fez questão de disfarçar sua má vontade, não era a primeira vez que Harry lidava com isso. Ele lhe sorriu, como se tivesse dito algo interessante, e alcançou um drinque de sidra com um garçom que passava por ali.

– Devo mencionar que está um tanto hostil? — Ele bebericou o líquido e fez uma rápida careta. — Oh, isso é horrível!

Hermione realmente também queria algo para bebericar, para molhar sua boca, seca pelo nervosismo. Apertou a pequena carteira em sua mão, consciente de que sua varinha estava ali dentro e que poderia pegá-la a qualquer momento, mas forçando a si mesma a lembrar que havia mais de 500 pessoas naquele átrio e Harry não poderia lhe fazer mal algum ali.

– Você está em terras francesas, caso seja preciso lembrá-lo.

– Não, não, sua presença essa noite me lembra isso à todo o momento. — O sorriso já não estava presente no rosto bem desenhado e ele deu um passo para mais perto, abaixando o tom. — Achei que quando nos reencontrássemos esse seu ressentimento já teria sido... Esquecido.

– Eu nunca vou esquecer o que me fez, Harry. Nunca.

Isso pareceu afetá-lo por alguns segundos, embora não tenha passado disso: apenas segundos de fraqueza, apenas segundos onde ele pareceu realmente ponderar o que havia lhe feito e sobre sua razão em não querê-lo por perto.

– Bem, tenho uma teoria sobre sua língua mais do que normalmente afiada.

Acompanhou o olhar de Harry e deparou-se com Draco observando-os. Ele se encontrava em uma roda de senhores segurando uma bebida qualquer, mas parecia mais interessado em saber o que se passava ali. Hermione de certa forma agradecia que ele resolvera se deter e esperar, ou as coisas estariam ainda piores.

Para provocar, o moreno levantou seu drinque em sinal de cumprimento acompanhado de um sorriso irônico e insolente que, em outros tempos, não se encaixaria em seu rosto. Draco sequer fez menção de corresponder, apenas lhe lançou o característico olhar de desprezo dos tempos da escola.

– Não o coloque no meio disso, não quando você é o culpado por nos encontrarmos nessa situação hoje. — Praticamente grunhiu, os dentes cerrados, o rosto rígido.

– Jamais pensei que a veria como defensora de Draco Malfoy. — O desprezo no rosto dele era palpável. — O homem que sempre a ofendeu da pior maneira possível. Sabe, quando ouvi os rumores, me recusei a acreditar.

– Claro, queria que eu escolhesse o homem que me julgou louca. — Ela se aproximou, estavam há centímetros de distância. Não sorria, não usava de tais artifícios para demonstrar superioridade. — Draco Malfoy é bom para mim como Ron jamais foi e eu, realmente, espero que você diga isso à ele.

Inesperadamente, Harry segurou seu braço, marcando sua pele com a força que seus dedos exerciam. Finalmente, parecia tê-lo afetado. Ele nunca admitiria que Draco Malfoy fosse considerado melhor que qualquer um de seus amigos, em hipótese alguma, em tempo nenhum.

– Se eu fosse você, Potter, a soltaria. — Tão concentrada estava nas atitudes de Harry como um todo, Hermione nem percebeu o momento em que Draco deixou os homens conversando e, praticamente, materializou ao lado deles. — Agora.

A varinha do loiro estava mirada diretamente para a barriga de Harry e seu rosto estava impassível. A rixa de criança nunca seria quebrada, eles jamais superariam o fato de terem lutado em lados diferentes na Guerra e, Harry principalmente, não acreditaria que Draco fosse capaz de mudar. Era apenas uma constatação, pois Hermione sequer pedia por isso.

– Não é conveniente ameaçar um auror, Malfoy, estou lhe avisando. — A voz do moreno era fria como pedra.

– Então, não se prenda! — Draco lembrava o menino de voz macia e persuasivamente mal que fora há anos atrás. — Faça o que tem vontade. Mas, é claro, devo lembrar que o Ministro Kingsley não está aqui para justificar as merdas que você faz.

– Não espere que isso acabe aqui. — Lentamente, Harry a soltou e saiu à passos duros. Entretanto, como se tivesse se lembrado algo, ele virou-se, sorrindo cruelmente. — Esqueci de dizer: Ginny sente sua falta.

Assim, ele se foi. Às vezes, cumprimentava alguns animadamente, ignorando o que havia acabado de ocorrer entre eles. Harry definitivamente havia se tornado um ótimo ator, se encaixado perfeitamente nos jogos de aparência que a sociedade amava.

– Tudo bem? — Draco analisava a pele alva de seu braço, manchada de vermelho, mas não estava preocupada com isso, sequer sentia dor. Hermione respirou fundo e meneou a cabeça. — Por que deixou que chegasse à esse ponto, Hermione?

– Não gosto de bancar a frágil. — Essa sempre fora a verdade sobre ela e poderia contar nos dedos de uma mão todas as vezes que isso acontecera. — Harry sairia vencedor caso eu fugisse e, de todo modo, não houve como.

– De qualquer maneira, ele foi o vencedor, Hermione. Sabe-se lá do quê.

Por que Draco sabia que a última frase de Harry a deixaria mal — havia sido proferida com esse objetivo, afinal -, por que ele sabia que Hermione sentia falta dos antigos amigos que, praticamente, fora obrigada a deixar. Deus, Ginny era tão especial! Queria saber como ela estava, como se sentia estando casada (mesmo que fosse com Harry), como criava seus filhos. Muito raramente, Hermione se lembrava de que quase todos os seus colegas da época de Hogwarts havia constituído família. Quando acontecia, a curiosidade de saber como eles estavam a consumia.

Suspirando, o abraçou e ficaram assim por alguns minutos. Não se preocupou com o que as pessoas poderiam falar, haviam acabado de assumir a relação, para todos os efeitos ainda eram um casal muito feliz e estavam apenas aproveitando a presença do outro. Sentia uma pontada de dor em sua têmpora direita e não tinha mais paciência para continuar sorrindo aos quatro cantos, como se nada tivesse acontecido.

– Vamos para casa?

Draco não fez objeção e logo estavam subindo os conhecidos degraus de sua casa, em silêncio. Despediram-se apenas de Jean alegando que Hermione estava cansada e saíram 'à francesa', de fininho.

Quando chegaram ao quarto, ele já havia se desfeito do smoking e da gravata. Hermione encaminhou-se direto para o banheiro, tirando os sapatos e jogando-os sem cuidado pelo quarto, assim como os brincos sobre a pia do banheiro. Prendeu os cabelos e lavou toda a maquiagem do rosto, terminando de tirar os resquícios com a ajuda de um feitiço.

Porém, ficou encarando seu próprio reflexo, os braços apoiados na pia. Sua mente nunca deixando de reviver a conversa que tivera com Harry. Há anos evitava aquele reencontro e, pelo visto, seus temores estavam certos. Gostava de encarar o que ele fizera no passado como um erro momentâneo de alguém que queria a vida perfeita, mas agora isso não seria mais possível por que seu melhor amigo havia se tornado aquilo que sempre abominara e sequer percebera.

Draco aproximou-se, tirando-a de seus devaneios, usando apenas a cueca boxer branca que ela mais gostava, e abriu o zíper de seu vestido. Despositou um beijo leve em seu pescoço — apenas para ter o prazer de ver seu corpo se arrepiando. Ao fazer menção de pegar a camisola, ele impediu e a direcionou para o quarto, o vestido esquecido deliberadamente no chão do banheiro e Hermione apenas de calcinha.

– Você não vai precisar de roupa para o que vamos fazer.

Ele lhe beijou e mordeu seu lábio inferior quando ela tentou aprofundar o contato. Com um muxoxo, Hermione deitou-se como Draco havia pedido e não demorou para que sentisse o líquido oleoso e perfumado sendo depositado por toda a extensão de sua coluna.

Fechou os olhos e sorriu, deliciada, quando as mãos dele percorreram suas costas espalhando o óleo corporal. Seu corpo inteiro se arrepiou ao toque, sentia os músculos relaxando a medida que ele a massageava. Eles não falaram, sabiam quando era necessário ou não.

Assim, deitaram-se depois de Draco buscar seu pijama menos excitante — um short velho de malha e uma camiseta preta, que ficava enorme em seu corpo. Por que saudade não se mata apenas com sexo. Na escuridão do quarto, pois ele fazia questão de fechar todas as cortinas, minutos depois, Hermione ainda tinha em mente algo que Harry havia lhe dito:

"Jamais pensei que a veria como defensora de Draco Malfoy. O homem que sempre a ofendeu da pior maneira possível."

Havia defendido Draco, sim, mas não devia explicações a Harry, embora sua fala tivesse desencadeado uma inquietação em seu interior. Exatamente por isso, virou-se, quebrando o silêncio do quarto com um sussurro.

– Draco? — Ele resmungou, indicando que estava ouvindo. Talvez não tivessem se passado apenas minutos. Ajeitou-se melhor, suas respirações se misturando, os corpos colados, a mão dele acariciando inconscientemente suas costas sob a camiseta, sem segundas intenções. — Eu amo você.

Hermione sempre imaginou que, quando dissesse essas três palavras à um homem, as ouviria de volta — essa era a lei dos relacionamentos. Porém, o que recebeu foi muito melhor: as batidas, antes ritmadas, do coração dele aceleraram instantaneamente.

Depois de mais alguns segundos em silêncio, Draco a beijou delicadamente. Não queria que as luzes estivessem acesas, não precisava olhar nos olhos dele, não precisava ver suas reações. Apenas sentir era o suficiente para Hermione.

– Obrigada. — Ele disse num murmúrio, as testas unidas na escuridão.

Notas finais
Tuuuudo bem, eu sei que vocês estão super boladas comigo, mas é que onde eu estava não tinha internet!!! E eu sei que vocês estavam curiosas para a continuação, então... Me desculpem!! Please!! Então... Ao capítulo!! Estavam curiosas pra saber como seria Harry e eu tenho que explicar algo sobre essa nova personalidade dele. Eu havia acabado de assistir Django Livre e o vilão do Leonardo DiCaprio nesse filme é simplesmente perfeito, então se houver características dele no meu Harry "mal" é por isso. Vocês gostaram? ME DIGAM!! E a Hermione dizendo "as três palavrinhas"?!!! Eu TENHO CERTEZA que peguei vocês de surpresa dessa vez!! Foi na hora certa? Precipitado? Quero saber o que acharam por que, tipo, eu não gosto de clichês, então espero que não tenha ficado assim. Mas... Se ficou, me digam!! Enfim, obrigada pelos tantos comentários legais no último capítulo, vocês são ótimas e sempre me dão umas ideias (às vezes até sem sequer!!). Muito obrigada mesmo!! :D P.S: O próximo capítulo já tá escrito!! o/ Bjão, galera, até lá!!