Preguiçosamente, Hermione remexeu-se na cama e, de olhos abertos, ainda demorou alguns segundos para se dar conta de que aquele não era seu quarto e aquela definitivamente não era sua cama.

Com um suspiro, lembrou-se de tudo que havia acontecido desde que havia chegado na casa de Draco, arrepiando-se ao lembrar da sensação dos lábios dele em sua pele. Nunca havia sentido nada igual com nenhum dos homens com quem já esteve e perguntava-se por quê. Nenhum deles era seu inimigo de infância, ela ponderou. Com Draco, definitivamente, era e sempre seria tudo diferente.

Percebeu que a respiração dele era calma contra suas costas e o aperto em sua cintura, por cima da colcha, não era forte. Lentamente, se virou para encará-lo. Ele realmente parecia estar dormindo como uma pedra. Relaxou o corpo, que nem sabia que se encontrava tenso, e o encarou.

Identificou um vinco na testa, entre as sobrancelhas, uma ruga de preocupação. Estaria sempre ali? Molhou os lábios levemente com a ponta da língua e desviou os olhos curiosos para as demais partes do rosto.

A barba estava realmente por fazer, mais comprida do que já viu alguma vez, e Hermione só pode imaginar o por quê. Apesar de tudo, o deixava bonito, roubava parte da delicadeza do rosto angelical.

Suspirou, deslizando os dedos suavemente pela linha bem desenhada da mandíbula. Os olhos subiram para as maçãs do rosto. A pele dele não era perfeita, como muitos pensavam. Olhando de perto, como estava fazendo, era possível notar pequenas sardas pouco mais escuras que o próprio tom da pele alva. Apesar de poucas, estavam lá, podia até mesmo contar se quisesse.

Seus olhos desceram para os lábios. Não eram grandes e nem tão grossos, as origens dele não permitiriam, mas eram na medida certa para encaixar-se aos seus. Perfeitamente, pensou ao recordar dos beijos trocados mais cedo. Sem poder ou querer se conter, aproximou-se até que pudesse sentir o calor do corpo dele a centímetros do seu e selou seus lábios.

O toque era calmo, mas havia o silêncio do quarto em contraste com o martelar insistente de seu coração contra seus ouvidos. Fechou os olhos quando Draco passou a corresponder seu gesto, quase inconscientemente. O selar de lábios casto do início se transformou em algo mais quando, já conscientemente, ele deslizou os dedos por suas costas encaixando-os em seu pescoço e nuca.

A língua dele em contato com a sua lhe enviou um arrepio a espinha que se espalhou por todo o corpo. Estremeceu, visivelmente, quando Draco mordeu seu lábio inferior e isso foi como um aviso do que viria a seguir. O que não poderia vir a seguir, pois provavelmente já era tarde e precisava ir para casa. A questão era: como dizer isso a Malfoy quando ele parecia tão entretido em fazê-la se entreter com seus toques?

– Malfoy... — Ele sequer lhe deu atenção enquanto deslizava o dedo indicador por seu pescoço só para ter o prazer de vê-la se arrepiar novamente. — Draco... Eu tenho que ir.

Para sua surpresa, Malfoy parou tudo o que estava fazendo — no caso, provocá-la e excitá-la — para encará-la. Seus olhos, mais claros do que se lembrava, a encaravam com uma pergunta silenciosa. Surpreendentemente, ele parecia hesitar em fazê-la. Engoliu em seco vendo-o se afastar com um suspiro e deitar-se de costas na cama, como uma desculpa para não olhá-la diretamente nos olhos.

– Já parou para pensar no quão estranho isso é? — Hermione depositou a cabeça no travesseiro e encarou o perfil dele, as feições fechadas. — Primeiro uma ligação estranha e você tendo que dar explicações a sabe-se lá quem e agora tendo que ir embora assim, no meio da noite, às pressas, como se estivesse aqui... Escondida.

Hermione sentiu o estômago afundar ao perceber o que ele sugeria. Expirando, entre chateada e nervosa, Hermione jogou a colcha para o lado e encontrou com facilidade sua calcinha e vestido. Podia sentir o olhar dele sobre si o tempo inteiro, mas não tinha vergonha, sexo era a maior intimidade que dois seres humanos poderiam ter e haviam acabado de fazer então era completamente natural que ele a visse nua.

– Se é o que acha então, realmente, não me conhece.

Seguiu para a sala, apressadamente, a mente fervilhando de ideias e mais ideias sobre estrangular Draco Malfoy. Ele não tinha o direito de achar que era uma... Adúltera. Adúltera! Balançou a cabeça negativamente, bufando enquanto se abaixava para pegar os sapatos, jogados sem qualquer cuidado perto do sofá.

Para sua surpresa, Malfoy já estava na sala, vestindo apenas uma calça de moletom — a mesma de quando havia chegado. Evitou encará-lo enquanto amarrava o casaco envolta de sua cintura. Entretanto, não pode segurar a língua antes de se virar para sair. Por que era assim, sempre queria saber de tudo, sempre queria enfrentar a todos e ser dona de sua própria razão.

– Acha mesmo que eu seria capaz de vir até sua casa estando com outro? — Draco se encontrava de braços cruzados atrás do sofá e simplesmente a encarou sem expressão, como sempre fazia quando não queria demonstrar o que estava sentindo. Se estava com raiva ou chateado, ela não poderia saber e isso a irritara ainda mais. Aproximou-se, semicerrando os olhos. — Acha que eu seria capaz de trair, quem quer que fosse?

– Eu não sei, Granger. — Ele respondeu, sem se alterar, parecendo tão impenetrável quanto uma estátua. A luz da cidade, que infiltrava os cômodos pelas janelas envidraçadas da cozinha logo atrás dele, contribuíam para que Draco aparentasse ser emocionalmente inalcançável. — Talvez esse seja o problema. Eu não conheço essa Hermione Granger em que se tornou e, cada vez que eu pareço estar perto de entendê-la, algo me puxa para trás.

– Eu posso ter mudado, Malfoy, mas não como está sugerindo. Não completamente, não para perder minha essência por que eu sei que ela é vital para mim, para me lembrar quem eu sou. — Hermione mordeu o lábio, insegura, mudando o peso de uma perna para a outra. — Há algumas horas, eu poderia te contar tudo, tudo que permitiria que... Me entendesse, como você diz, mas... Agora parece sem sentido fazê-lo.

– Por quê?

– Por que sempre teria uma centelha de desconfiança pairando sobre a minha cabeça! — Hermione o encarou, incrédula. — Percebeu do que acabou de me acusar? Eu nunca tive que me explicar para ninguém e, se te contasse toda a verdade, teria de fazê-lo para a pessoa que menos confiaria em mim.

– Isso não é verdade! — Falou Draco, indignado, uma sombra de desdém mascarando seu rosto. Sabia que esse era o jeito dele se proteger. — Eu me abri com você como nunca fiz com ninguém, Hermione. Você sabe tudo sobre mim, sobre a minha vida, e ainda assim não confia em mim para... Contar o que quer que seja que esteja acontecendo com você. Não venha botar a culpa das suas paranoias em mim, Granger.

– E depois de adúltera, sou paranoica. Qual será o próximo rótulo que irá me dar, Draco? — Ele fechou os olhos e expirou, como se pedisse paciência. — Sim, por que parece que você adora fazer isso. No passado era sangue-ruim, não era? E, olha a ironia, foi com essa sangue-ruim que você acabou de transar.

– Hermione, pare com isso, você está desviando completamente o foco do que estamos discutindo e sabe muito bem disso.

Eles ficaram se encarando por alguns segundos, ambos se recusando a quebrar o contato visual, a deixar que o outro vencesse a batalha. Uma batalha que nem eles mesmos sabiam qual era. Os motivos eram confusos na mente de Hermione — e duvidava que fosse diferente na dele -, embora o fato de ele a acusar de adúltera ainda estivesse bem vivo em sua memória.

– Acho que acabamos por aqui.

– É o melhor. — Draco respondeu, orgulhosamente, e Hermione pegou a bolsa em cima de uma das poltronas.

Hermione sorriu, amargamente, assim que fechou a porta atrás de si. Acabar o que sequer havia começado, que paradoxo. Mas talvez era assim que as coisas deviam acontecer, sabia das consequências de se envolver com Draco Malfoy e ainda assim arriscou. Esse talvez fosse o problema, no final das contas, as coisas com ele nunca seriam... Simples.

Aparatou nos fundos de sua casa, havia aberto uma pequena área de aparatação pessoal na barreira de feitiços. As luzes já estavam apagadas, inclusive a do quarto de Sophie.

Andou pela cozinha, silenciosamente, desfazendo-se do casaco e dos sapatos enquanto subia as escadas. Passou no quarto de Sophie, percebendo que Marie dormia ao lado dela. Arrependeu-se instintivamente de não ter mandado uma carta avisando que ia "se atrasar".

Balançou suavemente o ombro da senhora, que acordou um pouco assustada, mas aquietou-se assim que a viu. Sorriu, tranquilizando-a.

– Não se preocupe, sua hora extra está garantida.

Marie percebeu que havia alguma errada, em seu olhar talvez, pois a conhecia e sabia que teria começado a reclamar no mesmo instante. Ao invés disso, a senhora apenas apertou suavemente um dos ombros de Hermione ao passar.

– Durma bem, Srta. Granger.

Ainda ficou algum tempo com Sophie, observando-a dormir, sentada no chão ao lado da cama. Tão pequena, tão inconsciente dos problemas do mundo dos adultos, de sua sorte.

Entretanto, sua mente divagava, estava em outro lugar e permaneceu assim até que se levantasse para direcionar-se a seu próprio quarto. Foi só quando despiu-se para tomar um banho antes de se deitar que percebeu: havia esquecido seu sutiã na casa de Malfoy.

Notas finais
Oi gente!! Domingo, dia de responder, de capítulo novo, de treta nova :p Só falar uma coisa: recorde de comentários na fic!!! Gente, eu nunca imaginei que uma cena de sexo pudesse gerar tantos comentários, sério kkkkkk Muito obrigada!! Essa galera que comentou no último capítulo, continuem deixando suas opiniões, eu adoro responder, meus leitores fiéis sabem :D Tudo bem, o capítulo 16 kkkkk Eu avisei para alguém que ia ter treta, embora eu ache que muita gente pensou que ia ter a continuação da NC, mas não consegui (sorry!). Então... Gostaram da briguinha pós-sexo deles? Foi coerente? A cara deles? Me digam! Eu disse também que possivelmente teria spoiler, mas o capítulo ainda não tá completo, então... Me desculpem. Bjo, bjo, até o próximo domingo! :D