Hermione estava em seu quarto, encarando seu reflexo no espelho, ainda indecisa sobre o que vestiria àquela noite. Sophie encontrava-se na cama, folheando distraidamente um livro de histórias infantis.

– O que acha, querida? — Virou-se para ela. — O branco ou o azul?

A menina semicerrou os olhos para os dois vestidos curtos que tinha em mãos. O branco destacava-se pelos detalhes em renda e transparência enquanto o azul de mangas possuía paetês espalhados por toda a sua extensão.

– Mamãe, nunca a vi tão preocupada com o vestido que usará numa festa.

Hermione soltou um suspiro e colocou o dois vestidos sobre uma poltrona que havia no canto do quarto, sentando-se em seguida ao lado da filha. Acariciou distraidamente os cabelos claros da menina e deitou-se, olhando para o teto.

– Eu conheci um cara. — No mesmo instante, a menina sentou-se e a encarou com expectativa.

– Ele é bonito? — Hermione riu, divertida. — Legal?

– Sim, ele é muito bonito, mas... Legal não é palavra certa para descrevê-lo. — Sophie pareceu não entender muito bem, percebeu ao encarar as expressões confusas da menina. Ela também era cheia de "por quês". — Ele é diferente, mas um diferente bom.

Fez uma careta ao perceber o que estava dizendo. Gostava do jeito "não legal" e diferente de Malfoy? Pelo amor de Deus, ele era o cara mais ranzinza que conhecia, sempre tinha algo do que reclamar, e não havia nem chegado aos 30 anos.

Tudo bem, ele havia mudado, mas não deixara de ser o Malfoy arrogante e prepotente de sempre, talvez até um pouco egoísta. Hermione suspirou, zangada, tentando ignorar a vozinha irritante em sua mente que dizia 'e é exatamente por esse "jeito Malfoy" que você se sente atraída por ele'.

– Você gosta dele, mamãe?

Essa era uma pergunta que já fizera a si mesma várias vezes depois que a raiva pelo que que havia acontecido na casa dele passara.

– Eu não sei. — Sophie ficara em silêncio por algum tempo, como se divagasse sobre o que a mãe havia falado. Ela era muito pequena para entender desses assuntos, mas às vezes dizia coisas que colocavam Hermione para refletir. — Nós brigamos.

– Mas por culpa de quem? — Sorriu ligeiramente com a pergunta infantil e se ajeitou na cama, ficando de frente para ela.

– Agora, eu já acho que a culpa foi de nós dois.

Pensara melhor no que ele havia dito e percebera que ele tinha certa razão em pensar que estava se escondendo de alguém. Naquele instante, apenas não pode suportar a ideia do que ele sugeria.

Merlim, havia acabado de ter o melhor sexo da sua vida e Malfoy começara com aquelas insinuações. Que tipo de homem faz isso?! Xingou-o mentalmente enquanto se levantava, não seria Draco Malfoy se não tivesse agido como um idiota.

– Ele é um bruxo, como nós?

– Sim, é.

Respondeu evasiva, decidindo-se pelo vestido branco. Após terminar de vesti-lo, constatou que o escolhera exatamente por que era provocante demais. Possuía mangas, mas também um decote profundo que era coberto apenas por um tecido transparente. Não era tão curto, indo quase até a altura dos joelhos, mas marcava todas as curvas de seu corpo.

– Então vai estar na festa?

– Provavelmente. — Olhou-se no espelho percebendo que já estava pronta para o jantar de aniversário de Irina Faucher, embora Marie ainda não tivesse chegado. — Mas não quero ter que lidar com ele hoje.

– Não pode fugir para sempre. Se gosta dele, precisavam conversar, mamãe. — Disse Sophie, usando um tom mais maduro do que se lembrava, parecendo irritada por Hermione não ter chegado a essa conclusão antes.

– Mas eu não... — Nesse instante, ouviram a campainha tocando e a menina saiu correndo em direção à porta, sem esperar por resposta. — Mas eu não gosto dele.

Tudo bem, isso Hermione sabia que era mentira. Gostava mais do que devia de Draco e tinha consciência disso, mas falar em voz alta seria como tornar este fato ainda mais real e não estava preparada para isso.

Vencida, colocou a varinha numa bolsa de mão e desceu as escadas em direção ao andar de baixo, mas teve uma surpresa assim que a porta e, mais importante, quem estava lá entraram em seu campo de visão.

Draco Malfoy se encontrava parado, sob o batente de sua porta, encarando Sophie com o cenho franzido em confusão. Hermione sentiu um arrepio percorrer sua coluna e seu corpo congelar por um instante quando Malfoy a olhou em busca de respostas.

Obrigando suas pernas a se moverem, Hermione terminou de descer as escadas, ainda a tempo de ouvir Sophie perguntando:

– Gostaria de falar com quem? — Colocou o braço ao redor dos ombros da menina e encarou Draco, corajosamente.

– O que está fazendo aqui?

– É a mamãe que está procurando?

Sophie perguntou em sua inocência de criança e o semblante de Malfoy passou de confuso para assustado em um segundo. Fechou os olhos, buscando paciência e quando os abriu Draco olhava dela para a menina, como se procurasse as semelhanças que ela sabia não existir.

– Mamãe? — Perguntou ele, parecendo nervoso.

– É, eu sou... Mamãe. — Levantou uma sobrancelha, como se o desafiasse a duvidar dela mais uma vez.

– Você o conhece, mamãe? — Suspirando, não tinha mais escolha, pegou a menina no colo e olhou Draco.

– Sophie, conheça Draco Malfoy, o cara de quem eu lhe falei. — Draco enfiou uma das mãos no bolso e levantou uma sobrancelha ao constatar que Hermione já tinha falado dele para a menina. — Malfoy, esta é Sophie Granger, minha filha.

Antes que Draco pudesse falar qualquer coisa, Marie chegou esbaforida atrás dele, pigarreando ruidosamente para que pudesse passar.

– Desculpe o atraso, Srta. Granger, tive que arrumar algumas coisas em casa antes de sair e...

– Sem problemas, Marie. — Entregou Sophie à babá. — Leve ela lá para cima, eu preciso conversar com Malfoy.

Hermione percebeu que os olhos de Draco seguiram Sophie e Marie pela escada até que não pudesse mais vê-las. Ele parecia intrigado e um pouco desconcertado com a presença da menina.

Enquanto andavam em direção a cozinha, sentiu os olhos de Malfoy queimando em sua nuca e não pode evitar que um pequeno arrepio percorresse seu corpo.

Deu espaço para que ele entrasse, fechou a porta e lacrou a cozinha com um feitiço silenciador, virando-se para Draco. Ele estava tão lindo quanto na festa de Jean e isso a deixava um pouco desconcertada, apesar de ter consciência de que ele era bonito até mesmo dormindo.

Usava um terno italiano bem recortado, que fazia conjunto com uma camisa preta e gravata vermelha. Era a primeira vez que o via usando uma e quase sorriu por isso, mas lembrou-se do motivo para estarem ali e controlou-se.

Draco poderia ficar ainda mais chateado, ele contara a ela até mesmo sobre sua filha desaparecida enquanto Hermione não tivera coragem de lhe dizer toda a verdade sobre sua vida. Suas meias-verdades eram um tanto quanto injustificáveis em comparação com tudo que ele havia lhe dito desde que se reencontraram.

– Não ia me contar, não é? — Hermione suspirou, colocando a bolsa sobre a bancada.

– Sobre Sophie? Não, eu nunca tive a intenção. — Malfoy pareceu ainda mais desconcertado após sua resposta direta.

– Por quê? Por quê não confia em mim? Por quê acha que posso fazer algum mal à ela? Por quê...

– Eu não sei! — O interrompeu, não querendo ouvir as acusações que ele insistia em fazer. — Tudo bem? Eu não sei por quê não contei, eu apenas não queria envolvê-la nisso.

– Bela justificativa. — Ele sorriu, irônico, mas Hermione sabia que aquela era apenas uma máscara que Malfoy sempre se obrigava a colocar em situações como aquela.

– Draco, eu... Nunca previ o que poderia acontecer entre nós! Eu só queria... Privá-la de sofrimento.

Nesse momento, ele estava parado perto da pia, encarando pela janela a rua lá fora, os braços cruzados e a cabeça balançando negativamente como se não estivesse satisfeito.

– Ao não mencionar ela para mim estaria a protegendo de sofrimento?! — Ele virou-se, parecendo indignado. Seus olhos não estavam mais tão azuis, misturavam-se num mar de matizes cinzas que lembrava uma tempestade muito revolta. — Que tipo de sofrimento? O que acha que eu poderia fazer contra uma criança inocente?

– Olha, Draco, eu sei que o que eu fiz pode soar estranho na sua cabeça, mas para mim fez sentido, entende? — Os olhos de Hermione já estavam brilhantes pelas lágrimas não derramadas, sentia que aquela situação não acabaria bem. — Tudo que eu fiz desde que Sophie entrou na minha vida foi protegê-la, eu só queria que ela não entrasse na confusão que nós dois somos juntos!

– Não existia "nós dois" até uma semana atrás, Hermione.

– Não importa! — Ela quase gritou fazendo os olhos dele se arregalarem, não de medo, mas de surpresa. Hermione percebeu que havia se exaltado e fechou os olhos, levando uma das mãos a cabeça, se acalmando e continuando em um tom mais neutro. — Sinceramente, Draco, o que esperava quando começamos a nos aproximar? Você lembra como éramos quando crianças, era questão de tempo para que algo acontecesse e brigássemos. Olha como estamos agora!

O ambiente foi tomado pelo silêncio, Hermione percebeu que Draco evitava encará-la e isso, de uma forma torta e previsível, doía muito. Secando uma das lágrimas que traçara um caminho molhado por seu rosto enquanto falava, perguntava-se se em algum momento ele havia sentido a mesma coisa quando saíra do apartamento dele, há quase uma semana.

Viu quando Malfoy passou uma das mãos pelos cabelos, bagunçando-os em sinal de nervosismo. Ele ainda a olhou por um momento antes de encaminhar-se para a porta, o que fez com o que o coração de Hermione perdesse uma batida. Não podia deixar que ele fosse embora desse jeito, não quando a certeza de que o estava machucando era forte e latente. Não quando essa certeza a machucava também.

Antes que Draco pudesse sair, então, se colocou entre ele e a porta, impedindo sua passagem.

– Aonde você vai? — Não previu que sua voz fosse sair tão frágil, quebradiça. Tentava buscar os olhos, algum contato visual, mas ele se recusava a encará-la. — Draco...

– Eu não posso ficar, Hermione. — As lágrimas agora corriam livremente pelo rosto de Hermione, nem havia percebido quando começaram. — Não quando confia em mim desconfiando. Não quando, por causa disso, escondeu de mim a pessoa mais importante da sua vida.

– Draco, por favor, entenda...

– Eu estou tentando entender, Hermione, juro que estou, mas...

Ele escondeu as mãos no bolso e, finalmente, a olhou. Os olhos estavam vermelhos, embora não tivesse derramado nenhuma lágrima, mas para Hermione era como se o tivesse feito. Vê-lo tão vulnerável a desarmava mais do que imaginou ser possível. Ele era Draco Malfoy, aquele que nunca se deixava afetar por nada, o que machucava primeiro para não ser machucado.

No entanto, ali estava Draco, parecendo mais magoado do que poderia ter previsto algum dia e Hermione apenas queria, mais do que tudo, fazê-lo parar de encará-la daquela forma. Deus, queria tanto não ser culpada pelo fato de ele estar machucado.

– Não vá, Draco.

Sem dizer uma palavra, ele colocou as mãos sobre seu ombro e, com um pouco de força, obrigou Hermione a dar um passo para o lado e abrir caminho para sua passagem.

Porém, ouviu os passos curtos e rápidos de Sophie e o tom bravo de Marie a advertindo para não atrapalhar a mãe. Sem vontade alguma para ir até a sala ver o que estava acontecendo, apenas prestou atenção no que se passava com a cabeça encostada na parede e as lágrimas molhando o rosto.

– Sr. Malfoy, é o namorado da mamãe, não?

– Er... — A resposta de Draco ainda demorou alguns segundos. — Não, não sou namorado da sua mãe.

– Mas... Ela gosta de você, eu sei. — Ouviu a risada baixa de Malfoy, neste instante já estava sentada ao lado da porta, apenas prestando atenção na conversa mais inusitada que já ouvira.

– Eu também gosto dela, mas as coisas são mais complicadas do que isso.

– É o tipo de coisa que ela diria. — Imaginou a expressão infantil e emburrada de Sophie, os bracinhos cruzados em sinal de teimosia.

– Bem... — Ouviu o pigarro quase inaudível de Draco. — Cuide dela, você pode fazer isso, não?

– É o que eu sempre faço.

A porta da frente se fechou e a casa ficou em total silêncio. Por um momento, imaginou que Sophie apareceria na cozinha, mas ninguém apareceu, Marie provavelmente não deixara. Então ficou ali, sua mente martelando e lamentando o que Draco havia acabado de falar.

"Eu também gosto dela"

Notas finais
Capítulo finalmente saiu!!! Dia de postar capítulo aqui em casa, pode-se esperar de tudo, sério. Eu sempre tenho que parar pra fazer algo, mas enfim... Vocês gostaram? Esperavam que Draco fosse conhecer Sophie logo agora que ele e Hermione não estão em uma boa fase? Meu palpite: acho que vai ser surpresa para muita gente, comentem para eu saber :D E falando em comentários (teve tantos *-*), respondi todos até onde podia - entendedores entenderão kkkkkkk. Mas foi muito legal, espero que comentem tanto assim neste tbm por que sei que muita gente esperava que o Draco conhecesse Sophie. O capítulo, então. Eu não ia fazer isso acontecer, não agora que o Draco e a Hermione estão brigados, mas eu pensei melhor e considerei que se encaixava na cena que eu queria fazer inicialmente - que era ele indo até a casa dela entregar o sutiã :D. Mas... Não achei que fosse apropriado eles fazerem as pazes pra brigar de novo depois, pra mim pelo menos é algo cansativo e repetitivo, então resolvi colocar tudo junto. Espero que tenham gostado!!! Acho que por hoje é só, vamos esperar pra ver o que Hermione vai fazer agora (ou Draco, quem pode saber ^^) kkkkkk Bjão, até o próximo :D