Véu
1 Prelúdio
Prelúdio
A mulher contemplava o copo que segurava com uma certa monotonia. O gelo já tinha derretido e mudado completamente o sabor da sua bebida, mas isso pouco importava para ela naquele momento. Sua mente estava distante dali. As coisas não tinham ocorrido como ela planejara e a sensação de fracasso era amargamente desagradável. Sentia-se profundamente frustrada e abominava esse sentimento.
Alguém sentou-se no banco ao lado e suas narinas foram invadidas pela fragrância do perfume masculino. A voz dele era levemente rouca ao pedir a bebida ao barman, e ela o observou lateralmente, tentando ser discreta. Ela gostou do que viu, mais do que poderia imaginar. Era um homem alto, com cabelos bem cortados e uma barba bem-feita; ele usava uma calça jeans surrada e uma camisa azul escuro. Mas não foi a aparência em si que a prendeu. Havia algo… no jeito como ele se movia, como se pertencesse àquele lugar sem fazer esforço algum. Natural. Perigoso.
Sua mente, talvez por carência ou provocação, a traiu com imagens indevidas. Imaginou como seria sentir aquele corpo por baixo da roupa discreta, e se surpreendeu com a própria ousadia. Antes que se perdesse ainda mais, desviou o olhar de volta para o copo, esperando não ter sido pega em flagrante.
― Se desejar, posso posar para que tire uma foto, assim poderá observar-me com mais calma ― a voz rouca proferiu a frase com um tom divertido, fazendo-a se sobressaltar, percebendo que, afinal de contas, tinha falhado em sua tentativa de discrição.
Observou-o antes de responder e sentiu-se afetada pelos olhos azuis fixos nela de maneira intensa, acreditando que ele seria capaz de ler todos os seus pensamentos. Engoliu em seco antes de responder.
― Cometi algum crime? ― Ela indagou com um tom altivo, não deixaria ele pensar que poderia intimidá-la de alguma forma.
― De maneira alguma! Estou te observando desde que pisou os pés aqui, então estamos quites. ― Respondeu galante, piscando para ela. ― Posso te pagar uma bebida?
― Agradeço pela gentil oferta, mas como pode ver, já tenho a minha própria bebida. ― respondeu de forma seca, erguendo o copo que estava em suas mãos para ilustrar o que acabara de dizer. Internamente, sentiu-se lisonjeada com a confissão.
Ele sorriu diante da resposta. Ela era arisca e ele apreciava isso. Gostava do desafio.
― Me diga o nome dele. ― indagou, obtendo apenas uma sobrancelha levantada em questionamento como resposta. ― O nome do homem que te deixou assim.
Ela bufou descrente diante da audácia do que acabara de ouvir. Era muita arrogância masculina presumir que todos os problemas de uma mulher se resumiam a homens. No entanto, o que mais a irritava era que ele não estava errado; por um breve momento, aquela breve interação entre ela e o desconhecido a havia feito esquecer o motivo que a levou até ali, mas agora lembrava-se com extrema clareza da causa de suas frustrações, o que levou a uma nova onda de ira em seu peito.
Ele contemplava extasiado todas as reações provocadas pela sua frase na bela mulher sentada a seu lado. Seus olhos se encheram de raiva, seus lábios se apertaram e ela segurou o copo com mais força, franzindo a testa. Naquele momento, ele sentiu a fúria invadir seu peito; frequentava aquele bar há muito tempo e nunca a tinha visto ali antes, mas a obsessão foi instantânea. Assim que seus olhos pousaram nela, ele soube que faria qualquer coisa por aquela mulher.
Ela se preparou para responder de maneira ácida, mas ao encontrar os olhos dele, percebeu que ele estava genuinamente interessado em sua resposta; além disso, ele parecia genuinamente interessado nela. Ela pensou um pouco sobre o que poderia dizer e deu um gole em sua bebida, na tentativa de clarear seus pensamentos, porém engasgou-se com o gosto horrível que sentiu na boca e fez uma pequena careta.
― Acho que vou aceitar aquele drink… ― ela disse, virando-se para ele e lhe dando um sorriso de tirar o fôlego.
Ele sorriu largamente, as orbes azuis faiscando de excitação. Sentia um bom pressentimento em relação àquela mulher. Ele não sabia nem mesmo o seu nome, mas não tinha a menor dúvida de que a partir daquele dia, ele faria qualquer coisa para que ela lhe desse mais sorrisos como aquele…
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