Véu
2 Capítulo 1
Southampton é uma vila tranquila, com cerca de 4 mil habitantes. Chegar até lá não é tão acessível, deixando claro que não foi projetada para ser frequentada por qualquer pessoa. Durante os movimentados meses de verão, há um aumento notável no número de visitantes, principalmente turistas, mas, além disso, é um lugar notavelmente pacato e acolhedor, ideal para quem busca uma atmosfera familiar e serena.
No entanto, naquela quinta-feira, a vila estava em um estado de caos. As ruas estavam congestionadas com moradores, todos exibindo uma mistura de curiosidade e choque no rosto. Além disso, a cada minuto, várias vans tentavam desesperadamente encontrar um espaço de estacionamento adequado, já que os jornalistas precisavam se preparar para iniciar seu trabalho de cobertura. E, para tornar a situação ainda mais complicada, a chuva estava caindo torrencialmente, tornando a locomoção uma tarefa árdua.
Jasper estava lutando para navegar pelas ruas escorregadias, com os dedos tamborilando impacientemente no volante, enquanto tentava enxergar através dos limpadores do para-brisa. Seu semblante transparecia todo seu cansaço e o quão frustrado ele estava; casos como aquele eram inegavelmente desgastantes. Aquele não seria seu primeiro caso de homicídio, mas este em particular tinha um elemento que o tornava excepcionalmente complicado: sua vítima. Luke Collins fazia parte de uma das famílias mais influentes da cidade e na madrugada daquela fatídica quinta-feira, uma presença indesejada penetrara em sua luxuosa residência, encerrando sua vida de forma brutal.
O detetive tirou uma das mãos do volante e a passou por entre os fios castanhos do seu cabelo, suspirando insatisfeito novamente. Ele já previa os desafios que teria que enfrentar com a mídia, bem como a pressão iminente que receberia de todos os lados para solucionar o caso o mais rapidamente possível.
Finalmente Jasper conseguiu chegar ao seu destino. Ele estava ciente da tempestade de câmeras, flashes e repórteres que o aguardavam, ansiosos por qualquer informação. Seu veículo deslizou suavemente para uma vaga de estacionamento enquanto o ronco constante das máquinas fotográficas ecoava ao seu redor. Caminhando com passos determinados, ele se aproximou lentamente da cena do crime. As luzes da polícia lançavam sombras irregulares sobre o chão encharcado pela chuva que caía ininterruptamente. A fita amarela bloqueava o acesso à tragédia que se desenrolava adiante.
Seu distintivo foi exibido com precisão ao policial de plantão, sinalizando a seriedade de sua presença. O policial respondeu com um aceno e ergueu a faixa amarela para permitir a passagem de Jasper. A chuva incessante parecia acompanhar a tensão que o detetive sentia enquanto adentrava na cena do crime.
Ele entrou na casa, sua mente alerta enquanto seus olhos vasculhavam a cena à sua frente. A sala de estar, outrora meticulosamente arrumada, agora era um caos de móveis revirados e objetos espalhados pelo chão. A estante de livros, que antes exibia uma coleção impressionante, estava agora desorganizada, com volumes jogados em todas as direções. Enquanto avançava pela casa, cada cômodo contava a mesma história de intrusão e violação.
― Bom dia, Senhor Cooper. O comissário Rogers me designou para acompanhá-lo hoje. Me chamo Daniel, senhor! Se me permite, é uma honra poder trabalhar com o senhor e… ― O policial gordinho e baixo o recebeu com entusiasmo evidente. Ele era jovem e parecia ansioso. À medida que falava, gesticulava com as mãos pequenas e rechonchudas de maneira nervosa.
― Daniel ― Jasper interrompeu seu monólogo, mantendo a calma, mas com firmeza e uma pitada de insatisfação que passou despercebida aos ouvidos do mais novo. Ele não gostava de trabalhar com novatos, especialmente em um caso como aquele, e com certeza o comissário ouviria suas reclamações sobre isso em um momento mais propício. ― Pode me dizer o que temos aqui?
― Sim, senhor! É claro… ― Daniel pigarreou antes de continuar sua narrativa dos fatos, seus olhos ansiosos se encontrando com a expressão calma do detetive.
Enquanto Daniel falava, Jaser manteve sua postura observadora. Seu olhar atento capturava cada mínimo detalhe do ambiente, sua mente treinada sintonizada para as nuances da cena, embora apenas metade de sua atenção estivesse realmente focada nas palavras do policial novato, mas algo no discurso de Daniel fez com que ele redirecionasse seu interesse.
― … e a esposa dele também foi atacada, ela já foi levada ao hospital.
A revelação sobre a esposa do Sr. Collins atingiu Jasper como um soco. Seus olhos, antes impassíveis, piscaram com surpresa, e ele odiou a sensação de ter sido pego de surpresa.
― Esposa? Não sabia que o Sr. Collins era casado. ― murmurou, enquanto sua mente começava a conectar os pontos.
― Ele se casou recentemente. Eles ainda estavam em lua de mel, praticamente. Uma tragédia… ― Daniel disse com pesar em sua voz, demonstrando um traço de compaixão.
― Certamente… O que aconteceu com a esposa? ― Jasper perguntou, agora totalmente envolvido e determinado a descobrir todos os detalhes.
― Ela foi espancada, mas ainda conseguiu pedir ajuda; foi ela quem chamou a polícia. Ela foi levada ao hospital, senhor. ― Daniel respondeu, sua voz revelando uma preocupação genuína pelo sofrimento da vítima.
Daniel continuou seu relato com uma ansiedade palpável.
― Senhor, a situação fica ainda mais sombria quando subimos. É onde encontramos os quartos e... bem, o quarto principal é onde está o Sr. Collins.
Jasper assentiu, seguindo Daniel escada acima. Cada degrau parecia mais pesado do que o anterior, pois a incerteza pairava no ar. Quando chegaram ao topo, o detetive se viu diante de um corredor escuro, com portas fechadas e uma atmosfera sufocante.
― Lá, naquele quarto à direita ― Daniel indicou, com a voz diminuindo quase a um sussurro.
Jasper acenou silenciosamente e se aproximou da porta, que estava entreaberta. Empurrou-a suavemente e entrou no quarto. O cenário à sua frente era assustador. O quarto estava em completo desalinho, como se uma tempestade de raiva tivesse varrido tudo, com roupas e pertences pessoais espalhados de forma caótica. No centro, em meio a lençóis manchados e os móveis derrubados, estava o corpo de Luke Collins.
Jasper se deteve por um momento, olhando em volta, sua expressão séria. O que quer que tivesse acontecido ali, era mais do que um simples roubo. Daniel permaneceu em silêncio, compreendendo a gravidade do momento.
― A equipe de perícia já está a caminho? ― a voz do detetive quebrou o silêncio que pairava, fazendo Daniel dar um pequeno salto.
― Eles ligaram informando que talvez demorem um pouco. Estão enfrentando dificuldades para chegar até aqui.
Jasper assentiu, lembrando da própria luta para chegar até o local. Saindo do quarto, ciente de que não poderiam fazer muito até que a perícia analisasse a cena, o detetive pediu a Daniel mais detalhes sobre o que sabiam até aquele momento.
― Não sabemos muito ainda. As casas estão distantes umas das outras, então os vizinhos não ouviram nada e não testemunharam nada. A esposa ligou para a polícia por volta das 3 da manhã. Ela mal conseguia falar, mas conseguiu pedir ajuda. Quando os policiais chegaram, encontraram o Sr. Luke já sem vida, e a Sra. Collins estava gravemente ferida. Eles não conseguiram obter muitas informações dela; tiveram que enviá-la ao hospital. Até agora, tudo o que sabemos é que ela está estável e sedada.
O detetive recebeu a informação em silêncio, desejando que ela ficasse bem, pois era a única pessoa que poderia ajudá-los a entender o que tinha acontecido. Enquanto aguardava a chegada da perícia, ele iniciou uma conversa com os dois policiais que haviam chegado ao local do crime primeiro, no entanto, eles não tinham muito a acrescentar além do que Daniel já havia mencionado. O detetive aproveitou o tempo de espera para investigar mais sobre a vida de sua vítima.
Luke Collins era um homem jovem e bem-sucedido, ocupando um cargo na diretoria da empresa da família. Estava casado há apenas um mês com Amy Thompson, que, assim como Luke, fazia parte de uma das famílias mais influentes de Nova Iorque. O detetive encontrou uma foto do casal no dia do casamento na mesa próxima e, ao olhá-la, foi tomado por uma sensação de tristeza profunda. Eram jovens demais! O olhar puro e doce de Amy contrastava com o sorriso orgulhoso e radiante de Luke. Eles não mereciam ter passado por aquilo. Determinado, o detetive prometeu a si mesmo que faria todo o possível para fazer justiça a eles…
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