Utopia
9 Capítulo 9
Notas iniciais
O grupo de estudantes sentou próximo à sombra de uma árvore no final das aulas, cadernos e livros sendo espalhados por todo lado, enquanto conferiam as respostas das provas. Cada erro ou acerto que encontravam era acompanhado de choramingos ou vivas de comemoração. O fim do ano letivo estava chegando e nenhum deles queria repetir a matéria.
— Virei a noite estudando patologia e não acertei nem metade da prova! – Katsuya resmungou ao conferir o gabarito, recebendo tapinhas no ombro como apoio.
— Patologia? Eu preciso tirar nota máxima em clínica cirúrgica! Tem noção do meu desespero? Eu vou passar a semana acordada pra estudar a matéria! – uma das meninas do grupo também manifestou seu descontentamento, ouvindo o lamento geral.
— Por que a gente escolheu esse curso mesmo? Eu podia tanto ter feito algo mais simples…
— Matsuo que tem sorte… tem um pai na área, ele pode ensinar tudo que precisa antes das provas.
— Meu pai é ortopedista, não tem muito a ver com veterinária!
— Não quis seguir a mesma carreira? – Katsuya pegou o lanche que era compartilhado, passando um pouco para o colega ao lado.
— Não mesmo! Prefiro lidar com animais do que com gente. – a risada e concordância foi geral – Mas já que estamos falando em medicina, eu consegui com meu pai alguns comprimidos pra memória. Alguém quer testar? Preço camarada pros amigos.
— Não, valeu. Eu e o Katsuya testamos energético semana passada. Fiquei sem dormir duas noites e tive que dormir um dia inteiro pra repor. – comentou uma outra aluna, que tinha olheiras para comprovar a tentativa falha.
— Eu dormi o final de semana inteiro. – Katsuya aproveitou o momento pra contar sua frustração – Minha mãe me olhou estranho no café da manhã, como se fosse proibido dormir demais.
— Quero ver ela reclamar quando você tiver seu diploma, sua clínica e uma conta bancária invejável. Vai fazer tudo que o filhinho pedir.
A conversa durou por mais um tempo, até que terminaram de corrigir as questões e decidiram ir embora. Estava ficando tarde e alguns ali trabalhavam no período noturno. Enquanto uns tomaram o rumo do metrô, outros foram para o ponto de ônibus, ainda rindo e conversando pelo caminho.
— Matsuo, esse remédio pra memória funciona mesmo? – Katsuya olhou para um lado da rua, não vendo seu ônibus se aproximar, então se voltando para o amigo.
— Claro que funciona! Você viu minhas notas? Meu pai não ia me deixar usar algo ruim. É garantia de notas boas e memória funcionando totalmente!
— E qual o preço camarada que tinha comentado? Ou talvez você tenha uma amostra grátis pra teste.
— Olha só… está tentando se passar por um homem de negócios… Muito bom, Kurosaki-chan! A questão é: quanto está disposto a pagar?
— Seu mercenário! Eu estou pagando a faculdade sozinho, sabia disso? Meu pai não é médico como o seu! Preciso de um desconto.
— Ok, ok… eu divido com você. – o rapaz revirou um bolso na mochila, retirando uma caixinha de remédios e estendendo uma cartela para o colega – Um comprimido por dia, ok? Ele vai te dar mais energia e melhorar a concentração, então vai conseguir estudar um longo tempo sem se cansar.
— É exatamente disso que estou precisando!
* * *
Katsuya entrou cantarolando em casa, subindo a escada para seu quarto de dois em dois degraus. Sentia-se mais motivado e cheio de energia. O remédio que o amigo havia compartilhado estava fazendo um efeito incrível! Não sentia sono, então conseguia estudar horas a fio; não tinha problemas para acordar cedo e muito menos para focar a atenção na explicação das matérias. Claro que não entendia tudo de primeira, mas o fato de conseguir se concentrar já era um ponto a favor.
A melodia parou junto com seus passos no batente da porta, o olhar pousando no homem sentado em sua cama.
— O que está fazendo aqui?
— O que é isso aqui, Katsuya? – Mikaru ergueu duas caixinhas de remédio, vendo o namorado arregalar os olhos.
— Estava mexendo nas minhas coisas?! – o rapaz se aproximou rapidamente, pegando as cartelas de volta, guardando-as no bolso da calça – Você não tem o direito de fazer isso!
— Tive autorização de pessoas preocupadas com você. Vai me contar o que é? Ou a quanto tempo vem usando?
— Você fala como se eu estivesse fazendo algo errado. Isso não é da sua conta.
— Parece que para seus pais e sua irmã é da minha conta sim. Eles me pediram para falar com você.
— Não tenho nada para falar com você. Eu disse que queria um tempo! Meus pais podem conversar comigo eles mesmos se precisarem.
— Certeza? – Mikaru o encarou num misto de pena e cansaço, suspirando fundo antes de continuar – Parece que andam tentando, mas você fica trancado por aqui, estudando o tempo inteiro e pedindo pra ninguém te atrapalhar.
— Eles sabem que estou em semana de prova. Como querem que eu me saia bem sem estudar? O curso não é fácil!
— Suas notas deviam ter aumentado ao invés de cair, já que está se esforçando tanto. Isso é efeito colateral do remédio, sabia?
— Andou mexendo na minha gaveta também? – Katsuya se moveu, na intenção de conferir o móvel, mas as provas em questão estavam em cima da mesa de estudos.
— Seu estresse é outro efeito. Quem te conhece sabe o quanto você é uma pessoa tranquila e agora está brigando porque estou no seu quarto, quando você tem acesso livre à toda minha casa.
— Eu não saio revirando as suas coisas! – Katsuya não queria dar o braço a torcer, mas realmente estava um pouco estressado. Mikaru precisava entender que era por conta da pressão nos estudos. Não tinha nada a ver com os comprimidos – O que exatamente você quer?
— Uma confissão. Que você está usando remédios sem indicação médica, que eles estão atrapalhando sua vida e sua relação com as pessoas à sua volta. Se quiser me passar o nome de quem te deu os comprimidos, ficaria grato. E, por fim, quero te ajudar a sair dessa situação.
— Eu não quero sua ajuda! E não estou em situação nenhuma. Não fico xeretando suas coisas e gostaria que não mexesse nas minhas também.
— Tudo bem, mas aceite a ajuda de sua família. Eles estão preocupados.
— Por que está agindo como se eu fosse uma criança fazendo algo errado? Eu já posso decidir as coisas por mim mesmo!
— Está tendo muito sucesso em provar isso.
Mikaru soltou o comentário em tom leve, mas Katsuya parecia ter levado na zombaria. Encarou-o com raiva, abrindo a porta com força e apontando para fora.
— Não quero ouvir sermão de um ex-suicida.
Mikaru não precisou de um segundo convite para se retirar.
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