Utopia
8 Capítulo 8
Notas iniciais
Katsuya não respondeu a mensagem de Mikaru, o que era estranho, pois mesmo brigados ele não deixava de retornar.
Mikaru cogitou que o namorado estivesse realmente chateado consigo ou talvez cansado demais até para conversar e resolver a situação, mas decidiu não insistir a princípio. Acabou por ir no jantar de aniversário de Takeo com a irmã de Katsuya, que ficou encantada com a oportunidade de conhecer os músicos de perto e ainda participar de uma comemoração que, segundo o próprio empresário, não deixaria nada a desejar numa festa de criança, já que o amigo fazia questão de doces e bolo.
No dia seguinte, Mikaru enviou uma nova mensagem, mas foi mais uma vez ignorado. Talvez o namorado precisasse de mais tempo, talvez o celular estivesse descarregado, ou o cansaço ainda não fora dissipado. Mayu havia dito durante o jantar que o irmão se fechou no quarto e mal saía de lá. Ele costumava fazer isso quando precisava estudar por um longo período, mas antes participava das refeições e saía de vez em quando para esticar as pernas e respirar ar puro, mas dessa vez ele estava bastante recluso.
Três dias sem nenhuma ligação ou resposta às mensagens foram o suficiente para Mikaru se preocupar de verdade. Claro que ele não assumiria em voz alta que sentia falta do namorado e que estava incomodado com aquele longo sumiço, mas era estranho demais. Já haviam discutido algumas vezes antes, nada muito sério, mas o garoto sempre aparecia depois de um curto espaço de tempo, se desculpando mesmo que não fosse o errado da história, somente para que pudessem ficar juntos de novo. Mikaru sabia que tinha seus defeitos, sabia que o namorado era uma benção em sua vida por aceitá-lo como era, e isso o irritava também, essa entrega e aceitação total, mas ao mesmo tempo, era isso que o tornava especial.
Estacionou o carro em frente ao portão da família Kurosaki, sacando o celular e discando para o namorado, o olhar vasculhando por fora da janela, atrás de algum facho de luz no andar superior que indicasse que Katsuya estava no quarto, mas não conseguiu ver nada. Praguejou baixinho quando a chamada caiu na caixa de mensagens, não se dando por vencido e discando de novo. Sabia que ele estava em casa. Queria alguns minutos para conversar com ele. Prometeu a si mesmo que não ia brigar e nem cobrar uma satisfação pela falta de retorno, mas queria entender o que estava acontecendo.
Somente na quarta tentativa é que a ligação foi atendida, arrancando um suspiro aliviado do empresário.
— Já estava a ponto de chamar seus pais. O que aconteceu? – Mikaru tamborilou os dedos no volante, sentindo-se ansioso.
— Eu não quero falar com você.— a resposta veio num resmungo, a voz baixa e grave, como de alguém que havia acabado de acordar.
— Posso ao menos saber o motivo?
— Por que está agindo como se não soubesse? Você quem me chutou da sua casa…
— Katsuya, eu te dei a cópia da chave. Acredito que isso é um passe livre pra você entrar e sair quando quiser.
— Você não gostou da minha última visita… pediu pra te avisar antes. É como se quisesse um tempo pra esconder algo de mim.
— Eu só comentei que poderia estar ocupado. Além do mais, foi você mesmo quem disse que não queria ficar por lá quando eu não estivesse.
— Mas você estava aquele dia! E mesmo assim me mandou embora!
— Eu não fiz isso, Katsuya. Não pedi em momento algum que saísse. Talvez você tenha entendido errado, eu não estava num dia muito bom.
— Tem coisas que não precisam ser ditas. Você deixou isso bem claro com sua cara de desgosto.
— Como te disse, não estava num bom dia. Você está ocupado? Desça aqui, vamos conversar pessoalmente.
— Não. Estou com sono e cansado.
— Tudo bem, está tarde. – Mikaru suspirou frustrado, mas não podia obrigá-lo – Posso passar aqui amanhã? Eu te dou carona pro curso e conversamos no caminho.
— Não… você não entendeu… eu não quero conversar, Mikaru. Parece que você tem algumas pendências pra resolver e eu só estou atrapalhando, seja lá o que for. Não quero te prender a nada e muito menos a mim.
— Se você for se afastar sempre que eu tiver algum empecilho no trabalho, vamos nos ver pouco. Conseguimos lidar com isso até agora, acredito que podemos continuar como estávamos.
— Por que continua fingindo? Você tem noção do que eu sinto por você, mas não posso te forçar a sentir o mesmo. E não posso te forçar também a ficar comigo quando claramente quer estar em outro lugar e com outra pessoa.
— Do que está falando?
— Ele te dispensou? Por isso está tentando ser agradável comigo?— a risada veio baixa e estranha do outro lado da linha, mas as palavras começavam a incomodar Mikaru – Olha, agora sou eu quem não quero mais nada. Cansei de ter você pisando em mim, tratando meus sentimentos como se não fossem nada, sempre considerando outra pessoa mais especial do que eu.
— Talvez isso tenha acontecido no começo do nosso namoro, Katsuya… mas não tenho intenção de pisar em você. Se fiz algo que não te agradou, devia ter me dito.
— Quando eu vou falar se você nunca dá brecha pra conversar sobre sentimentos? Você tenta fingir que é uma pedra e algumas vezes realmente consegue! Eu não sei o que está pensando, não sei quando posso me aproximar já que sempre evita meus toques. Parece que tem medo de mim, preciso ficar pedindo permissão até pra dar um beijo de despedida!
— É por isso que Izumi fica implicando que eu tenho que ser mais carinhoso com você? Deixa de falar essas coisas pra mim e desabafa com ele… – Mikaru sorriu sem humor, não acreditando que estava tendo aquele tipo de conversa por telefone, parado em frente à casa do namorado.
— Pelo menos ele me escuta! Você também não prefere desabafar com o Takeo? Por ser amigo de infância e te conhecer como ninguém? Por que não fica com ele agora?
— Katsuya…
— Chega, Mikaru… estou cansado e com dor de cabeça. Vamos dar um tempo.
— E por tempo você quer dizer…?
— Não é isso que os casais fazem quando as coisas não estão indo bem? Dão um tempo até tudo esfriar e depois terminam?
O silêncio perdurou nos dois lados da linha, até que a ligação foi encerrada, mas dessa vez, não por Mikaru.
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