Utopia
5 Capítulo 5
BY: L. L.
Como diz a sabedoria popular, agosto não é um mês muito prodígio. Estava ensolarado em Forks – Rio Grande do Sul. O céu estava límpido, sem nuvens. Uma ótima forma dos humanos aproveitarem o verão, absorvendo um pouco de vitamina D. E uma ótima maneira também para vampiros chamarem isso de “o inferno”, literalmente. Meu pai veio buscar eu e Lucas no aeroporto de Porto Alegre. Eu estava vestindo uma camiseta pólo feminina listrada, de mangas curtas. De Porto Alegre até Forks são uma hora e meia de carro. Então teríamos bastante assunto nessa longa jornada. Eu sentei na frente, no banco do passageiro e Lucas se atirou completamente no banco de trás do carro de papai. Liguei o auto-radio numa estação local. O locutor estava bem animado:
- Está calor hoje, não está? Temperaturas indicam 25°C. Portanto, fiquem frios com os mais quentes sucessos da sua FM...
Quando a música começou a tocar, meu pai abaixou um pouco o volume.
- Queria falar com vocês dois sobre a Dominique.
Dominique Umbridge é uma sibila – um tipo de feiticeira. Nas férias, meu pai só vivia falando ao telefone sobre ela. Ela trabalha como advogada num departamento do Ministério de Magia. Meu pai a conheceu á dois meses atrás, quando começaram a sair juntos.
Eu e meu irmão ficamos calados.
- Dominique vai morar com a gente. – meu pai disse olhando pra frente.
- Porque? – Lucas perguntou constrangido.
- Porque nós iremos nos casar em breve.
Eu e meu irmão continuamos calados.
- Olhem, isso não significa que eu tenha esquecido da mãe de vocês... Mas a vida continua e Dominique é uma pessoa sensacionalmente incrível. Vocês verão!
Lucas deitou a cabeça no banco.
- Ok, e onde ela está agora? – eu não queria magoar meu pai.
- Ela está em casa, nos esperando...
As sibilas profetizam seus costumes antigos. Defendem a Ordem de Merlin. Há mais de mil anos atrás foi fundada uma sociedade secreta pelos quatro maiores magos da época: Godric Grifinória, Helga Lufa-Lufa, Rowena Corvinal e Salazar Sonserina. Três dos fundadores viviam em perfeita harmonia, mas um deles não. Salazar Sonserina queria ser mais seletivo em relação aos tipos de feiticeiros. Achava que a feitiçaria devia limitar-se á famílias de mágicos. Em outras palavras: os sangues-puros. Incapaz de persuadir os outros três, ele decidiu deixar a Ordem de Merlin. Mas, no que consiste essa ordem só as sibilas sabem.
Aumentei o volume do auto-rádio. Eu não queria mais conversar. Em São Paulo, as férias foram um pouco tediosas. Minha tia Luíza, irmã de minha mãe, é solteira e passava o tempo todo na cozinha. Eu e Lucas quase não saíamos freqüentemente do apartamento.
Enfim, lar doce lar. Dominique estava na varanda de casa, nos esperando. Ela aparentava ter uns trinta e cinco anos, mais ou menos, e estava usando um vestido confortavelmente rosa. Quando eu e meu irmão saímos do carro, ela veio nos receber de braços abertos.
- É adorável ver tantas carinhas radiantes e felizes sorrindo pra mim. Tenho certeza de que nos daremos muito bem juntos!
- Até parece! – Lucas murmurou bem baixinho, enquanto meu pai levava as malas pra dentro de casa.
- Que peculiaridade se escondem por trás dessas bochechas rosadas? – ela apertou minhas maçãs do rosto e logo deu um tapinha.
- Que mistérios esses músculos ocultam? – ela se aproximou do meu irmão fazendo massagem nos ombros dele.
Lucas pareceu não gostar muito.
- Vamos preservar o que deve ser preservado, – ela continuou na nossa frente – aperfeiçoar o que puder ser aperfeiçoado e cortar práticas que devem ser proibidas! – ela deu uma risadinha simplória.
Meu irmão e eu nos entreolhamos e logo entramos em casa. Subi apressadamente até o meu quarto e me joguei na cama. No dia seguinte começariam as aulas.
Dominique preparou o jantar: ela fez lasanha. Na mesa, não foi bem um momento silencioso. Eu e ela falávamos o tempo todo. Competíamos indiretamente para chamar a atenção do meu pai.
De madrugada foi pior ainda. Tive um pesadelo que acordou todos na casa. Sonhei que eu estava num lugar escuro e uma pessoa corria atrás de mim, tentando me alcançar. Não dava para ver o seu rosto. Mas eu senti um pavor terrível.
BY: J. B.
O tempo estava bom. Não tinha nenhum registro de nuvem no céu. Os alunos não trouxeram seus casacos e arregaçaram as mangas compridas da farda colegial. E como eu havia previsto, os Cullens faltaram ao primeiro dia de aula do segundo semestre.
No intervalo, os estudantes ficaram no pátio, se refrescando embaixo dos jatobás ou correndo pela grama. Parecia um vale do sol, que ficou melhor ainda com a presença das populares.
Sophia, Luna, Bárbara e Deborah são as meninas que todo garoto queria ter e toda garota queria ser. Mas eu já tinha feito a minha escolha. Ah, sim, eu gosto da feiticeira: Luna Lovegood. Ela agora estava usando a franja grande do cabelo enviesado, repartido de lado. Maravilhosa!
BY: L. L.
Embora as aulas já tenham começado, me sinto mais só do que nunca. Estou tendo o mesmo pesadelo todas as noites. Alice, que passou as férias todas me pedindo notícias por e-mail, não apareceu mais na escola com seus irmãos. Não sei dizer se eles ainda estão na cidade.
Na sexta á noite, quando o relógio marcava 00hr30min, eu estava deitada de bruços na cama, assistindo um filme que estava passando na TV. Eu não queria dormir. E se eu tivesse aquele pesadelo de novo? Foi então que eu ouvi um estalo da janela se abrindo. Eduardo estava sentado no parapeito da minha janela. Eu não me mexi da cama.
- Porque você ainda está acordada? – ele perguntou baixinho.
- Eu não consigo dormir.
- Eu também não! – ele parecia estar fazendo graça.
Eu ri enquanto pegava o controle remoto do meu lado para desligar a televisão.
- Já que não está com sono, porque não vem dar uma volta comigo? – ele me fez uma proposta sem pé nem cabeça.
Eu estranhei, inclinando a cabeça. Ele esperou.
- Ah... Está bem, eu só vou vestir um casaco e daqui a pouco eu desço... – eu me movi lentamente da cama.
Ele pulou da janela para baixo, sem fazer nenhum barulho na grama. Corri pro closet, calcei uma bota amarronzada sem salto, por cima da meia, e vesti um casaco comprido, para cobrir o short jeans e a camiseta. Enfiei as mãos nos bolsos do casaco. Desci até a sala de vagarzinho e encontrei com ele na varanda.
- Ok, e aonde um vampiro maluco vai me levar de madrugada? – eu perguntei sem expectativas.
Eduardo sorriu e num reflexo, segurou as minhas pernas e me colocou nas costas como se eu fosse uma macaquinha. Correu tão depressa que em poucos segundos já estávamos num pequeno parquinho á dez quarteirões da minha casa. Um poste iluminava uma rua completamente deserta. Quando finalmente senti os pés no chão, passei as mãos no meu cabelo que estava um pouco bagunçado e perguntei assombrada.
- Mas, como...
- Fui rápido, não fui? – ele gargalhou suavemente.
Eduardo me levou para sentar num balanço e se sentou num também ao meu lado.
- E então, como foram as suas férias? – ele começou.
- Terríveis, e as suas? – eu enfeie as mãos no casaco de novo.
- Tediosas... Mas vejo que você ainda não está feliz! – ele me observou.
Eu abaixei a cabeça e suspirei.
- Hummm... Meu pai vai se casar de novo.
- E a sua mãe? – ele quis saber.
- Minha mãe era uma feiticeira extraordinária, mas gostava de fazer experiências. – eu mexi os ombros. – E então, um dia o feitiço deu errado. Eu tinha 9 anos.
- Eu lamento. – ele murmurou.
- É, foi bem horrível. Ás vezes eu fico muito triste por isso. Foi um choque enorme pra Lara. Foi por esse motivo que ela enlouqueceu...
BY: E. C.
- Lara? Quem é Lara? – eu olhei pra ela.
- Ah... É minha irmã gêmea...
- Você tem uma irmã gêmea? – perguntei estupefato.
- Estranho, não é? Ela vai passar os fins de semana em casa e então seremos uma bela família feliz... Que ridículo!
- Porque você não gosta da sua futura madrasta? Ela sabe que vocês são...
- Ela é uma sibila. E eu não fui com a cara dela. Nem eu nem meu irmão. Nós dois sentimos a cada dia que ela está nos afastando de papai. – Luna confessou.
- Não acho que seja o caso. Mas deve ser assim que ela quer que vocês se sintam!
Luna levantou os olhos e ficou atenta.
- Como assim? – ela me perguntou confusa.
- Ora, se eu fosse ela, ia querer que vocês se isolassem de todos, porque estando sozinhos, não chegariam a ser uma ameaça!
Luna ficou quieta, pensando um pouco.
- É... Faz sentido! – ela disse olhando pra lua no céu.
E então eu vi uma coisa inacreditável – palavras de um vampiro! Quando Luna olhou para a lua, a íris dos seus olhos ficaram prateados.
- Luna... Seus olhos!
- O quê? – despertei-a dos pensamentos e quando ela olhou pra mim, estavam azul-arroxeados de novo.
- Como fez isso? Seus olhos... mudaram de cor e agora...
Ela riu deliciosamente.
- Ficaram cinzentos, não foi?
Eu ainda a fitei boquiaberto.
- Foi porque eu olhei pra lua! – ela tocou no seu colar com pingente em forma de lua.
Ela notou quando eu analisei o colar.
- Lara também tem um igual. Só que o dela é um sol. Mas os olhos dela mudam de cor raramente.
- Porque? – perguntei de imediato.
- Primeiro que aqui nessa cidade dificilmente aparece sol e segundo... ela pode até ser louca, mas nenhum ser humano no mundo agüenta ficar olhando para aquela bola de fogo enorme. – ela ergueu uma sobrancelha.
Os segundos foram passando.
- Porque vocês não estão indo mais pro colégio? – ela quebrou minha concentração.
- Os raio ultra-violetas estão muito fortes. Retornaremos no outono, ou talvez antes.
Eu quis tocar na sua pele. Segurei a sua mão esquerda e então senti a marca da cicatriz da mordida. Da minha mordida. Passei meus dedos por cima do pulso quente e ela se levantou do balanço.
- Eu já... Já estou com sono!
- Está bem, eu te levo.
Coloquei seu frágil corpo nas minhas costas e rapidamente a deixei na varanda de sua casa.
- Hãn... Boa noite, então! – ela correu para dentro.
- Durma bem, meu amor. – eu disse apenas para mim escutar.
Voltei para casa realizado. Eu a amava mais do que tudo. Eu amava uma humana. Não! Eu amava uma feiticeira!
BY: L. L.
No sábado de manhã, eu e meu pai fomos buscar Lara no instituto psiquiátrico. Ela irá passar todos os fins de semana com a gente. Mas isso não quer dizer que Lara esteja curada. Ela poderá ter algumas recaídas. Mas isso não importa. Eu estava bastante empolgada.
- Lara! – fui correndo abraçá-la.
Ela me abraçou com um braço só.
- Deixe-a respirar, Luna! – meu pai pegou a mochila dela.
Tinha pouca coisa, portanto ela iria usar as minhas. Sei que Lara nunca teve o mesmo estilo que eu, mas logo daríamos um jeito. Eu sentei no banco de trás com ela. Lara estava usando brincos em forma de rabanetes e lendo um livro ilustrado de cabeça para baixo. A capa se chamava O LIVRO MONSTRUOSO DOS MONSTROS e mostrava figuras de bestiários medievais como: duendes, unicórnios, centauros, trasgos, cérberos, elfos, diabretes, basiliscos, fênix, hipogrifos, bicho-papão, dragões, sereias, pégasos, testrálios, gigantes... E muitos outros seres mitológicos.
- Você é tão normal quanto eu! – ela disse quando percebeu que eu estava olhando ela.
- Ah... Que colar bonito! – apontei pra um colar feito de tampas de cerveja amanteigada, envolta do de sol.
- É um amuleto, na verdade. Afasta os Narguilés. Que fome! Tomara que tenha pudim!
- Claro, filha. Dominique fará um pudim especialmente pra você! – meu pai falou dirigindo.
- Quem é Dominique? – Lara fechou o livro.
- Nossa futura madrasta. – contei entre os dentes.
- Futura madrasta? Mas como assim futura madrasta? Pai, você já ouviu falar em DSTs e gravidez indesejáveis? – ela soltou o verbo.
Meu pai fechou a cara. Conhecíamos muito bem o gênio forte dela, então já estávamos acostumados.
Ao chegarmos em casa, Dominique a cumprimentou dissimuladamente. Quando ela beijou meu pai na nossa frente, Lara se enojou e correu pro meu – quer dizer nosso quarto.
- Você está bem? – eu a segui.
- Estou.
- Quer que eu ajude com as coisas?
- Já disse que estou bem! – ela se revoltou.
- Tudo bem, eu vou deixar você sozinha. – fechei a porta do quarto quando saí.
Eu e Lucas esperamos Lara se trocar pra aproveitar o dia luminoso. Ela vestiu sua velha blusa preta que tinha a imagem de sua banda de rock favorita na frente, com os versos da música atrás.
Minha querida e rebelde irmã gêmea, Lara!
Nos sentamos embaixo de uma árvore, ao lado de casa. Como Lara não tem varinha, ela nos pediu para fazermos um feitiço. Peguei um pedaço de papel, que estava enfiado no meu bolso, e dobrei, fazendo um aviãozinho. Bati a ponta da minha varinha três vezes na dobradura e o aviãozinho ficou voando sozinho na nossa frente. Ela adorou! Lucas jogou uma pedrinha tentando fazer o aviãozinho cair. Dominique apareceu na varanda de casa e, com a varinha dela, fez o papel pegar fogo e cair levemente no chão.
- Nada de magia fora de casa, crianças! – disse autoritária.
Lara se levantou indignada.
- Nós não somos mais crianças! – ela reclamou.
- Mas também não são adultos! – Dominique deu um sorrisinho e entrou em casa de novo.
- Ai, essa maldita gárgula! Quem ela pensa que é? – Lara cruzou os braços.
De tardezinha, meu pai tinha acabado de voltar do trabalho – ele trabalha de segunda á sábado como agente de polícia local. Dominique estava na cozinha preparando chá. Eu e meus irmãos estávamos no sofá da sala assistindo TV. Quando Dominique nos serviu o chá, Lara surtou.
- Eu não vou beber essa porcaria!
- Se controle, minha filha! – meu pai tentou acalmá-la.
- Eu vi, pai! Eu vi ela colocar alguma coisa no chá para nós três bebermos! Eu vi!
- Foi só o açúcar, querida! – Dominique se fez de santa.
- Não, não! Então prove! Beba também!
Dominique pegou uma das três xícaras de porcelana e deu um gole. Lara correu pra cima e se trancou no quarto. Fiz sinal para Lucas continuar na sala comigo.
Depois que o clima pesado passou, meu pai pediu para a sua amável noiva conversar com Lara. Dominique e Lara se trancaram no escritório e saíram alguns minutos depois em silencio.
De madrugada, voltaram a acontecer os mesmos pesadelos. Como se alguém quisesse me pegar, mas eu tentava fugir do escuro. Lara estava dormindo do meu lado, já que a cama é grande e cabe duas pessoas.
- Ei, sua lesada, acorda! – ela ligou o abajur.
Eu estava banhada de suor.
- Desculpe ter te acordado... – me ajeitei.
- Tudo bem. – ela bocejou.
- O que houve com a sua mão? – eu estava perplexa.
- Nada.
- A outra! – eu peguei nas costas da sua mão direita.
- A vaca da Dominique que fez isso. No escritório ela pediu pra mim escrever a frase NÃO DEVO CONTAR MENTIRAS numa folha com uma caneta enfeitiçada. Daí apareceu essa frase como corte na minha mão. Ela disse que “no fundo eu sabia que crianças más devem ser punidas”. E está doendo pra caramba...
- Meus Deus, Lara. Você tem que contar isso ao papai!
- Não. Papai já tem coisa suficiente na cabeça. Problemas no trabalho, uma filha louca dentro de casa e agora esse casamento. Eu não quero dar esse gostinho á Dominique.
- Que absurdo! Essa mulher torturou você! Se mamãe estivesse aqui...
- Só que nós não temos mãe, temos Luna?
- Lara, você tem que fazer queixa. É bastante simples...
- Não é, não! Luna, seja o que for não é assim tão simples. Você não entende!
- Então explique! – eu supliquei.
- Ah, garota, vai dormir! – ela se deitou de costas pra mim.
No dia seguinte, domingo, Dominique começou a colocar regras na casa. Meu pai parecia estar cego. Ela tirou alguns quadros das paredes e guardou-os no porão. Eu já estava começando a enjoar com o perfume barato dela. A única desculpa que ela deu para a teimosa maluquete da Lara foi:
- Sou uma mulher tolerante, mas se existe uma coisa que eu detesto é desordem!
Lara não suportou e ela mesma pediu pro papai levá-la de volta pro instituto. Talvez fosse melhor assim.
BY: J. B.
Antes da aula, encontrei com Luna no estacionamento do colégio.
- Luna! Espera! – corri até ela, quando saiu do carro de Lucas.
- Oi! – ela sorriu.
- Eu queria te dar uma coisa.
- Mas nem é meu aniversário ainda! – ela se intimidou.
- Thiago contou pro meu pai que você está tendo muitos pesadelos, quase todas as noites...
- Pois é. – ela pôs a mão na cabeça.
- Então eu resolvi fazer uma coisinha pra você. Olha! – tirei do bolso um pequeno “apanhador de sonhos”.
- Ah, que lindo! Obrigada, Júnior. Eu estava mesmo precisando de um desses.
- De nada. – eu sorri.
Quando ela ergueu a mão para pegar o meu presente, vi no pulso de Luna uma marca de mordida. Segurei o seu braço até a altura dos meus olhos.
- Foi ele, não foi?
- Ah... Júnior...
- Você sabe que eu nunca te machucaria, não sabe? Eu jamais teria coragem de te fazer sofrer!
Luna guardou o “apanhador de sonhos” na bolsa, de cabeça baixa.
- Eu sei, Júnior. – ela deu um beijo na minha bochecha. – Obrigada por tudo. Mesmo!
Depois ela correu até as amigas.
Na hora do intervalo eu não a vi porque ela ficou na detenção com a Bárbara.
Essa é a minha garota!
BY: L. L.
Como agora nós almoçávamos em casa (sempre comíamos em restaurantes), eu tinha que ajudar Dominique na cozinha a lavar os pratos.
- Trabalhe com afinco, menina! Não faz mais do que sua obrigação! – ela reclamava enquanto eu a ajudava.
Na verdade, o que eu queria mesmo era tacar os pratos na cabeça dela. Eu tinha que descobrir algum ponto fraco. Alguma coisa que fizesse meu pai abrir os olhos e visse a cobra que ele trouxera para dentro de casa. Para dentro das nossas vidas. Uma cobra que sufocava e envenenava os filhos dele. Será que eu tinha que tomar banho de sal grosso, colocar Espadas de São Jorge na porta do meu quarto e me benzer com um ramo de arruda e alecrim?
Numa noite, quando Dominique não estava em casa, tentei conversar com meu pai. Ele me levou até o porão e ascendeu uma luz na varinha:
- Lumus Máxima!
A luz iluminou todo o pequeno aposentou. Em seguida, meu pai começou a rasgar o papel de parede de uma parede detrás de umas caixas. Apareceu outro papel de parede com desenhos das faces de pessoas da família paterna que eu conheci através de fotografias.
- Está vendo isso aqui, Luna? Essa é a árvore genealógica da minha família. Seus avós com a mania deles de sangue puro. – ele apontou pros rostos dos meus avós. – Meu pai fez isso depois que eu fugi de casa para viver com sua mãe, uma feiticeira filha de trouxas. – agora ele apontou para sua face queimada no papel de parede. – Grande homem, seu avô!
- Pai... esses meus pesadelos...
Ele pôs as mãos nos meus ombros.
- Eu quero que me escute com bastante atenção: isso são apenas sonhos! Você é uma pessoa muito boa a quem coisas ruins acontecem. E depois, o mundo não se divide entre gente boa e má. Todos temos trevas dentro de nós. O que importa é o lado no qual decidimos agir. Isso é o que realmente somos. Quando esta crise passar, seremos uma família decente. Você verá! Agora vamos que a Dominique já está chegando do supermercado. Nox! – ele desfez a luz da varinha quando subimos até a cozinha.
“Família decente”? Acho que ainda estamos muito longe do padrão de sermos uma “família decente”.
BY: E. C.
Quem pensa que um vampiro nunca se cansa, está enganado. Canso-me sim. A propósito, já estou farto!
Padeço! Existo! Perduro! Sou perpétuo!
E há décadas eu busco uma companheira.
Uma família arranjada até que diminui essa maldição que eu irei carregar por toda a eternidade: a solidão.
E agora que eu a encontrei, teria que disputá-la contra um lobisomem medíocre. Que lástima!
Mas ela será minha. E caminhará ao meu lado para todo o sempre!
BY: L. L.
Mais um fim de semana chega rapidamente. No sábado, Lara ficou o tempo todo calada. Depois do almoço, quando eu terminei de ajudar Dominique na cozinha, Lucas foi tirar a sua preciosa “soneca da tarde”. Meu pai ainda estava no trabalho. Assim que Dominique se trancou no quarto de casal – um aviso para ninguém a incomodar, Lara correu e puxou a minha mão até o porão.
- Eu sei o que ela quer, Luna! A gente tem que sair daqui depressa! – ela sussurrou.
- Do que está falando? Tomou seus remédios hoje?
- Ai, que droga. A porta está trancada. Abre! – ela decretou.
Peguei minha varinha e apontei pra fechadura.
- Alorromora! – destranquei o porão.
Lara vasculhou em cada caixa do porão até que encontrou uma bolinha de cristal que cabia perfeitamente na palma da mão. Ela chegou perto até a rede de flú – uma chaminé que nos teletransporta até o Beco Diagonal com uma chama verde.
- O que você está fazendo, sua maluca?
- Nós temos que ir embora daqui, Luna, antes que...
- Aonde vocês pensam que vão? – Dominique desceu furiosa o porão.
- Sua bruxa perversa! Eu encontrei guelrricho, ararambóia e hemeróbios na sua bolsa! Você está tentando nos envenenar! – Lara surtou de novo.
- Não admito ser desrespeitada por duas crianças de quinze anos! – ela ameaçou.
- Temos dezessete! – eu corrigi, sem entender nada.
- Que seja! Como sua mãe se sentiria se estivesse viva? Preocupada por suas atitudes mostrarem uma necessidade patológica de atenção, ou então, um desejo de morte psicótico? – Dominique zombou.
- Ei! Meus olhos não estão molhados pelos fantasmas do meu passado! – Lara falou num tom superior.
- Basta! Vocês são iguaizinhas! Crianças choronas sempre reclamando que a vida tem sido injusta e amarga com vocês. Talvez não tenham notado, mas a vida não é justa!
- Você é desprezível! – meus olhos lacrimejaram.
- Sabem, vocês precisam saber a diferença entre sonho e realidade! – ela foi se aproximando de nós vagarosamente. – Profecias só podem ser retiradas por aqueles de quem elas falam. Nunca se perguntaram o motivo de uma conexão entre vocês duas? Não querem saber o segredo dos colares? As respostas estão bem aí, Larinha, na sua mão! Sei que está escondendo atrás de você. Você só precisa entregar a mim, que eu lhes mostro tudinho!
- E o que você pretende com isso? – eu perguntei enquanto Lara ficava do meu lado, passando a bola de cristal na minha mão por trás.
- Vocês não vão tirar nada de mim! Eu não vou permitir!
Dominique agarrou os braços de Lara tentando pegar a bola de cristal, que já estava comigo.
- Solte a minha irmã, sua barata abominável, nojenta e asquerosa! – eu apontei a minha varinha na direção dela.
Com um braço, Dominique apertava o pescoço de Lara, que se sacudia em vão, e com o outro braço, ela apontou sua própria varinha pra cabeça da minha irmã.
- Vocês realmente acreditaram ou tiveram mesmo a ingenuidade de pensar que crianças tinham alguma chance contra mim? – eu vi a ira nos olhos dela. – Vou ser bem clara com você, Luna! Me dê essa profecia agora ou a sua irmãzinha doente mental sofrerá as conseqüências!
- Não dê a ela, Luna! – Lara gritou sem ar.
- Eu esperei dezessete anos por isso... – eu segurei a bola de cristal na minha frente. – E posso esperar um pouco mais! Reducto!
Destruí o tão desejado objeto com a varinha, fazendo-se espatifar vidro e poeira por todos os lados.
- Ah, se é assim que você quer, Expelliarmus! – Dominique fez minha varinha saltar da minha mão, me desarmando.
- Estupore! – apontou sua varinha maligna pra Lara, fazendo minha irmã virar uma fumaça negra e entrar no meu corpo.
Eu caí deitada no chão do porão, como se a alma de Lara estivesse se apossando de mim. Eu senti frio.
- Está nostálgica, querida? – Dominique se ajoelhou ao meu lado — quer dizer, nosso lado.
- O que você fez, sua vadia? – Lara perguntou dentro do meu corpo, como se eu tivesse falado.
Eu me mexia de um lado para o outro no chão, possuída por Lara, enquanto a psicopata gargalhava.
- O que Thiago não vê, Thiago não sente!
- Sua infeliz! – eu quase não tinha voz.
- Então não são as semelhanças entre vocês duas... são as diferenças! – a mulher refletiu.
- Você é fraca! E nunca vai ter amor ou amizade. Eu tenho pena de você! – dessa vez quem disse foi eu, olhando nos olhos da sibila.
- Você é uma tolinha, Luna. E vai perder a brincadeira! – ela falou sorrindo.
Nesse momento, meu pai entrou no porão incrédulo. Dominique se levantou rapidamente. Não havia desculpa alguma.
- Cistem aperio! – meu pai fez Lara sair do meu corpo e se materializar de volta.
Depois disso, minha visão ficou túrgida. Só acordei no dia seguinte, domingo.
Lucas ainda estava dormindo. Meu pai se encontrava no escritório, pensativo. Entrei sem bater a porta.
- Sei como se senti, filha. – ele levantou a cabeça, quando eu sentei numa cadeira frente á sua mesa.
- Não sabe não. É minha culpa.
- Não, a culpa é minha! Eu sabia que era só uma questão de tempo até Dominique fazer a conexão entre vocês duas. Ela queria multiplicar seu poder, anexando as almas. Me distanciei muito de você e Lucas.
- E cadê ela? Cadê Lara?
- Depois que você desmaiou, rompi meu noivado e expulsei Dominique de casa. Foi uma briga feia. Ela tinha colocado uma poção no suco de Lucas. Ele está dormindo até agora. Depois eu tive que deixar sua irmã no instituto novamente. Ela estava muito alterada.
- Pai, o que a profecia dizia? – eu encolhi as pernas.
- Dizia que “uma não pode viver enquanto a outra estiver viva, por muito tempo”. Mas agora que ela foi quebrada, as coisas vão ficar meio difíceis.
- Então... quer dizer que uma vai ter que matar a outra no final? – eu chorei baixinho.
- Sim. – meu pai continuou de cabeça baixa.
- Porque nunca me contou sobre essa profecia?
- Pelo mesmo motivo que sua mãe tentou salvar vocês duas, tentando fazer uma maldita poção que acabou causando sua morte. Depois de tantos anos, eu não quis lhes causar mais dor.
Eu respirei fundo, tentando memorizar suas palavras.
- Tenho pensado numa coisa.
- O quê? – meu pai levantou a cabeça.
- Apesar de termos uma batalha pela frente, temos uma coisa que Dominique não tem.
- Temos?
- Uma coisa pela qual vale a pena lutar! – me levantei e fui abraçar meu pai.
BY: E. C.
O verão já estava acabando. Nuvens grossas de chuva retornaram a cobrir o céu de Forks novamente. Eu e meus irmãos voltamos para o colégio.
No intervalo, encontrei Luna Lovegood no corredor, pregando alguns avisos. Eu me aproximei, mas não sabia o que falar. Luna estava com um dos braços engessados. Ela apontou para os papéis que estava pregando no quadro de recados.
- Perdi alguns pertences do meu armário na aula de educação física. Parece que as meninas escondem de mim.
- Que horror! – tive vontade de abraçá-la.
- É só brincadeira. Mas preciso deles de volta. – ela mostrou os avisos nas mãos.
- Quer ajuda pra procurar?
Luna balançou a cabeça negativamente. Em seguida, deixou uma mão livre das folhas que segurava e apertou a minha mão. Senti sua pulsação quente. Olhei para baixo, vendo nossas mãos unidas e logo olhei para seus olhos grandes e aluados. Ela sorriu carinhosamente, desgrudando nossas mãos. Depois voltou á pregar os avisos.
- Você não quer mesmo ajuda? – eu persisti.
- Não precisa. – ela falou com uma voz encantadoramente infantil. – Sabe, minha mãe sempre dizia que as coisas que perdemos acabam voltando pra nós. Bom, nem sempre da forma que esperamos...
Ela beijou um lado do meu rosto e foi embora em direção á lanchonete saltitando. Seus cabelos pulavam levemente com o balanço dos saltos. Fiquei paralisado, vendo-a ir, até ela desaparecer de vista.
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