Utopia
6 Capítulo 6
BY: L. L.
As árvores se mostravam incrivelmente belas com a névoa se suspendendo sobre a cidade. Forks parecia estar pegando fogo com as cores outonais de setembro. O vermelho, o laranja e o amarelo das folhas secas contrastavam com o sempre verde das araucárias. Tudo parecia ter voltado ao normal. Bom, pelo menos era o que eu achava. Meu padrinho-lobisomem, Raul J. Lupin, continuava a morar na pequena pensão da cidade. Ele só não morava na reserva com Willian Black e os outros “lobos” porque dizia que queria experimentar a liberdade depois de mais de quinze anos de prisão em Azkaban. Raramente Raul nos visitava porque trabalhava numa loja como vendedor de equipamentos para pessoas que vinham á Forks acampar ou praticar algum esporte nas montanhas. Enquanto isso, minha vida virava um caos naquela bendita escola. Samuel e Diego estavam zanzando no corredor. Um verdadeira dupla de idiotas. Eu ignorei o assovio e as graçinhas dos dois. Eles pararam bem na porta da sala de história. Deixaram a Deborah passar, mas quando foi a minha vez, bloquearam o caminho.
- Com licença. – eu pedi calmamente tentando não perder o controle.
- N-A-O-til, Luninha. Você sabe muito bem o que tem que dar pra poder passar! – eles gargalharam.
- Com licença, por favor! – eu apertei o fichário e o livro com força contra o meu corpo.
Esses dois estúpidos pareciam que não iam ceder tão facilmente. E o professor não tinha chegado ainda. Mas que droga! Eu batia o pé de tão nervosa no chão mas os garotos teimavam. Eduardo, que já estava sentado, na frente, se levantou. A expressão em seus olhos era mais que furiosa, era perversa. Eu embranqueci e Diego e Samuel paralisaram quando Eduardo esticou seu braço severamente para me puxar pra dentro da sala de aula. Ele me guiou com a mão nas minhas costas até a nossa carteira. Eu quase tropecei no caminho. Poucas pessoas viram essa cena. Mas, como assim? Luna Lovegood, uma das populares, devia ter berrado, montado barraco, flertado com eles ou até ter dado uma bolsada na cabeça de cada um. Não sei o que houve, mas na hora eu enfraqueci.
BY: E. C.
Há alguns anos atrás eu estava cansado de viver nas sombras, na escuridão, na penumbra. Acima de tudo, eu estava cansado de ficar só. Nunca haveria um lugar onde eu pudesse me sentir inteiramente á vontade, onde eu pudesse ser verdadeiramente eu mesmo. Bem, pelo menos era o que eu pensava. Depois eu encontrei uma família e formamos um clã. Mas eu ainda me sinto sozinho. Alice e Jonnatah passam uma boa parte do tempo juntos nos galhos altos das árvores. Isto é, só quando ela não está gastando dinheiro no shopping. Emanuel e Raqueli ficam mais no quarto deles, assistindo TV, filmes, ouvindo música ou usufruindo alguma outra coisa tecnológica. Já Carlo e Eliza, o senhor e a senhora Cullen, adoram o ateliê e o escritório. Ás vezes eles lembram que eu não estou fazendo nada e nós quatro, — homens — vamos pro salão de jogos da casa, jogar sinuca e poker. Mas isso ainda não é o bastante. Ainda! Na escola de ensino médio de Forks, dois meninos estavam fazendo uma brincadeira de mau gosto com Luna Lovegood – uma garota determinada e cheia de amigos. Na verdade, uma garota especial para mim. De repente, eu não vi mais uma garota determinada. Eu vi uma menina ingênua, delicada e vulnerável, por dentro e por fora. Ela perecia não estar gostando daquela brincadeira. E eu também não. Fui até a entrada da sala e peguei no seu braço, para tirá-la de lá antes do professor chegar. Ao meu lado, eu ouvia cada respiração suave que ela dava. Cada batida de sua doce pulsação. Queria abraçá-la para sempre, protegê-la de todos os perigos, defendê-la de qualquer mal que a ameaçasse, unir minha vida á dela. Sentir o cheiro da sua pele, do seu cabelo, do seu hálito refrescante que ás vezes cheirava á pasta dental de menta, ás vezes á pirulitos...
BY: L. L.
Quatro líderes de torcida sentadas numa arquibancada. Meio estranho isso, mas era justamente onde eu e as meninas estávamos. Nossa professora de ginástica tinha faltado, então fomos até a quadra ao lado ver alguns garotos treinarem futebol. Convenhamos que eles ficaram bem mais alegrinhos com a nossa presença. Meu irmão mais velho era péssimo jogador. Aliás, ele sempre foi. Mas dessa vez, até que ele progrediu. Fez um golaço e Bárbara deu um gritinho de viva. E por falar em Bárbara, venho notado que há alguns dias ela está dando mole pro meu irmão. Acho que ela começou a gostar do Lucas desde quando ele a convidou para o baile de verão. Enfim, o sinal tocou. Hora de os garotos irem pro vestiário, tomarem uma chuveirada para ir pra casa. Lucas veio em nossa direção, na arquibancada. Certamente para perguntar o que estávamos fazendo ali. Quando Bárbara se levantou para lhe dar os parabéns pelo gol, Sophia foi mais esperta. Puxou a camisa suada de Lucas e lhe beijou. Eu e Deborah ficamos boquiabertas. Bárbara caiu sentada. Os garotos, que já iam embora, voltaram correndo e formaram uma rodinha envolta dos dois. Foi um beijão bem demorado, tipo de final de novela das oito! A galera toda começou a zoar.
- Parabéns, meu UON-UON! – Sophia apertou as bochechas dele, toda romântica.
Não tardou muito para que eles começassem a namorar.
No dia seguinte eu fui pro colégio com o cabelo preso numa liga e jogado em cima de um ombro. Mega-fofo! Lucas parou o carro no estacionamento e foi se encontrar com a sua querida Sophia. O sinal bateu e os estudantes começaram a entrar na escola. De longe eu vi uma discussão atrás de uma velha caminhonete. Era a caminhonete do Arthur. Ele sempre dá carona pros garotos da reserva. Júnior parecia estar discutindo com Felipe. Daí Felipe fechou a mão num punho e deu um soco no rosto de Júnior. Júnior também fez o mesmo. Bruno segurou os braços de Felipe e Matheus segurou os de Júnior. Eu corri até eles, enquanto Arthur se posicionava desesperado no meio da briga.
- O que está acontecendo aqui? – eu me aproximei.
Bruno e Matheus soltaram os outros dois e se afastaram.
- Continuamos isso depois, Black! – Felipe o intimidou.
Os outros quatro retornaram pra dentro do prédio. O estacionamento já não tinha quase ninguém.
BY: J. B.
- Júnior, o que houve? – Luna perguntou preocupada.
- Ah, não foi nada, só o imbecil do Felipe fazendo tempestade em copo d’água.
A chuva fraca lavava o sangramento da minha boca. Ela percebeu que o meu nariz estava doendo quando eu mexi.
- Quer que eu conserte pra você?
- Consertar? Como?
Luna tirou sua varinha de dentro da bolsa.
- Pessoalmente, eu acho que você fica bem mais charmoso desse jeito. Você quem sabe.
- Você já consertou um nariz antes? – eu sorri.
- Não, mas já consertei vários dedões. Não são tão diferentes.
- Está bem... Vai em frente!
Ela olhou pros lados pra ver se não tinha ninguém. Só tinha nós dois no estacionamento. Estávamos bem atrasados. Luna apontou sua varinha pro meu nariz.
- Episkey!
Senti uma dor aguda percorrer o meu rosto. Quase fiquei sem respirar, mas logo toda a dor sumiu.
- Como estou? – levantei a cabeça ainda surpreso.
- Excepcionalmente comum! – ela guardou a varinha de madeira.
- Brilhante!
Caminhamos pela chuva até dentro do colégio.
- Me desculpe te fazer atrasar, Luna.
- Tudo bem, não é a primeira vez que me atraso.
Tivemos que pedi uma autorização para assistir aula na secretaria. Um coordenador baixinho nos questionou de trás de um balcão.
- Atrasados, não é? Vamos lá. Nomes?
- Coordenador! O senhor já me conhece á dois anos! – Luna falou espremendo a água do cabelo amarrado para um lado.
- Ah... Sem exceções, Lovegood. – ele se esquivou.
Depois de informamos nossos nomes, tivemos licença e fomos para nossas respectivas salas. Quando eu entrei na minha, de literatura, todo mundo parou para me olhar. Talvez porque eu estava completamente molhado ou talvez porque eu estava com um machucado na boca.
BY: L. L.
Sábado chegou mais depressa do que eu imaginava. O tempo estava perfeito para um chocolate quente. Vesti minha echarpe verde-clara envolta do pescoço, fiz duas tranças no cabelo e coloquei uma toquinha na cabeça. Meu pai trouxe Lara para casa, para ela passar outro fim de semana com a gente. Quando ela chegou, começou a fazer suas loucuras de sempre. Encheu o parapeito da janela do meu(nosso) quarto de pedras e pedregulhos.
- Lara, pra que isso? – eu perguntei indignada.
- É para afastar os Zonzóbulos! São criaturas invisíveis que entram pelo ouvido e embaralham o cérebro.
Então o cérebro dela já devia ter muito desses bichinhos, pensei. Á tardinha, eu e Lucas a encontramos no quintal de casa. Lara estava de joelhos em frente ás raízes de um ipê amarelo. Eu e meu irmão nos aproximamos e sentamos na grama.
- Isso é uma aranha-caranguejeira? – Lucas apontou para uma coisa preta e peluda dentro de um frasco de vidro tampado, ao lado dela.
- Acho que está morta. – eu deduzi sabiamente.
- Santo Deus, Lara! Como você conseguiu matá-la?
- Matá-la? Ele era meu amigo! – Lara se abismou com a barbaridade que Lucas disse.
- Sinto muito, eu não sabia. – ele se desculpou.
- Ah, não se preocupe, você não é o único. Aranhas são criaturas extremamente mal interpretadas. São os olhos, eu acho. Enervam as pessoas. – ela contou.
- Sem mencionar as presas venenosas! – eu citei.
- É, isso também. – Lara fungou.
- Mas é uma caranguejeira tão pequena! – Lucas sacudiu o frasco sem dó.
- Ele estava comigo desde que era um ovo. Era uma coisinha pequenininha quando saiu da casca. – minha irmã gêmea mergulhou em suas lembranças.
- Já que está morta, digo morto, posso usá-lo?
- Que nojo, Lucas! Pra que você quer uma aranha morta? – eu reclamei.
- Ta bom, eu não vou mais precisar dele mesmo.
Lara abriu a tampa do frasco e colocou a aranha na grama. Nos deitamos de bruços lado a lado. As patas da aranha estavam todas fechadinhas. Lucas pegou a varinha dele.
- Engorgio!
Apontou á aranha e ela cresceu, aumentando alguns centímetros de tamanho. Lara colocou na palma da mão. Eu me afastei um pouco.
- Você gostaria que eu dissesse algumas palavras? – eu quis acabar com aquele momento fúnebre.
- Pode ser. – ela começou a cavar um buraco embaixo do ipê.
- Suponho que ele tinha família. – tentei adivinhar.
- Ah, tinha! – Lucas enfiou sua varinha no casaco.
- Adeus... – eu parei.
- Aragogue. – Lara falou o nome da aranha.
- Adeus, Aragogue, rei dos aracnídeos. Seu corpo se deteriorá, mas seu espírito se conservará, e seus amigos humanos encontrarão consolo pela perda sofrida. – eu me empolguei.
Lucas e eu ficamos em silencio enquanto olhávamos Lara enterrar Aragogue. Simplesmente por não ter nada o que fazer.
BY: J. B.
No domingo, ao nascer do dia, eu fui sozinho até o cais. A maré estava baixa. Caminhei pela orla da praia enquanto selecionava alguns búzios na areia. Haviam pequenas piscinas que nunca estavam completamente secas por causa da água despejada no oceano. Subi numa rocha e me sentei. Anêmonas balançavam sem parar, conchas tortas apareciam nas beiras, escondendo os caranguejos dentro delas, estrelas-do-mar ficavam imóveis sobre as pedras, enquanto uma pequena enguia preta com listras brancas nadava contra as ervas daninhas para voltar para o mar. Fiquei pensando sobre meu amigo Felipe. Ele ainda estava bolado comigo. Lembro-me de poucos dias atrás quando chegamos no colégio, na caminhonete do Arthur. Felipe disse que tinha conseguido não sei como o gabarito completo das provas bimestrais. Ele nos contou quando deçemos do carro.
- Pode ser expulso por isso, sabia? – eu me revoltei.
- Não sei do que está falando! – ele fingiu cinicamente.
- Fala sério, Felipe, cai na real! Isso pode ferrar todos nós!
- OOPS! Estou sentindo alguém amarelando. – Bruno frisou em seguida.
- Se não quer o gabarito, então não se mete. E bico calado, Black!
- Vai vendo! – eu parti pra cima.
Daí começamos a brigar no estacionamento. Mas eu já estou acostumado com as atitudes de Felipe. Em poucos dias, quem sabe, ficará tudo bem. Eu acho.
BY: L. L.
Sempre desconfiei dos lanches da lanchonete dessa escola. E nesse dia eu tirei a limpo minhas conclusões. Lucas tinha comido um sanduíche e começou a passar mal, com febre, dor de barriga e vontade de vomitar. Eu, Deborah e principalmente Bárbara o levamos até a enfermaria. Ele se sentou num sofá de couro com os olhos fechados. Lucas não podia ir embora porque meu pai estava no trabalho e eu não tenho carteira nem idade para dirigir. Bárbara segurou firme na mão dele, esperando o enjôo passar. Eu e Deborah nos grudamos na parede.
- Cadê ele? Cadê meu UON-UON?
Sophia entrou na sala de enfermagem da escola quase arrombando a porta. Acho que ela se atrasou porque estava um pouco ocupada dando em cima do Samuel ou do Diego.
- O que você está fazendo aqui? – Bárbara se levantou do sofá.
- Eu é que pergunto! O que você está fazendo aqui? Eu sou a namorada dele!
- E eu sou... a amiga! – Bárbara se sentou derrotada.
- Ah, não me faça rir, vocês não se falam há dias! Só está aqui porque de repente ele ficou interessante.
- Ele está passando mal, sua otária!
As duas começaram a brigar.
- Não se preocupe, meu UON-UON, eu estou aqui! – Sophia se sentou no outro lado de Lucas e segurou sua outra mão.
Ele começou a delirar de olhos fechados.
- Bárbara... – ele chamou bem baixinho.
- Não, meu amor, sou eu! Sophia!
- Bárbara... – ele continuou.
Sophia saiu bruscamente do sofá e correu choramingando pra fora da sala.
- Já era hora, não? – Deborah se virou para mim.
- Tão jovens e já sofrendo as desilusões do amor. – eu falei e nós duas começamos a rir.
- Ah, calem a boca vocês! – Bárbara disse com um sorrisinho no canto da boca.
BY: E. C.
Numa certa noite de feriado, eu estava no quarto dela. Era contagiante vê-la dormir. Vê-la sonhar. Mas então, sua respiração começou a ficar mais ofegante. Luna nadava desesperadamente na cama, afogando-se no mar de lençóis. Mexia o corpo adormecido debaixo do cobertor na esperança de se proteger de algo no ar. Foi aí que eu percebi que Luna não estava sonhando. Estava tendo um pesadelo. Era agonizante vê-la se espernear e eu não poder fazer nada. Então ela começou a gritar. Eu pulei da janela e fiquei esperando embaixo. Seu pai veio correndo até seu quarto.
- Luna, minha filha, acorde. Acorde!
- Pai, foi horrível!
- Eu sei, eu sei, se acalme.
- Eu quase não consegui fugir...
- Está tudo bem agora, fique tranqüila. Vou trazer um copo d’água com açúcar pra você.
- Espera.
- O que?
- Troca o açúcar por adoçante?
Ouvi os passos do pai dela sair do quarto. Tudo o que eu desejava era consolá-la, mas eu não podia voltar lá. Não com ela acordada.
BY:L. L.
No intervalo, minhas amigas e eu ficamos divididas em grupos diferentes. Eu, Lucas e Bárbara sentamos numa mesa e Sophia, Deborah, Diego e Samuel sentaram em outra um pouco distante.
- Me conta de novo como eu terminei com a Sophia. – Lucas pediu pela vigésima vez.
- Ah... Ela foi visitar você na sala de enfermagem. E você falou... Eu não creio que tenha sido uma conversa muito longa. – Bárbara olhou pra mim procurando as palavras certas.
- Não me entendam mal. Estou mais do que feliz por ter me livrado dela. Ela só queria saber de me beijar. Mas ela parece estar bem chateada.
Nós três olhamos pra trás e vimos Sophia apertar um garfo não muito afiado com força.
- É mesmo. Mas, Lucas, você disse que não se lembra de nada? Nadinha? – Bárbara implorava por dentro.
- Só de umas coisas... Mas, não pode ser. Eu estava zonzo, não é?
- Isso. Zonzo. – ela perdeu as esperanças.
Me virei de novo e vi Samuel lambendo os dedos melados de yogurte e olhando pra mim. Credo! Depois observei Sophia novamente. Ela continuava olhando pra Bárbara com aquela cara de “vou acabar com a tua raça”. Resolvi deixar o novo casalzinho sozinhos. Quando me levantei, percebi pelo canto do olho que Samuel se levantou também. Então comecei a andar. Ele parecia estar me seguindo. Felizmente encontrei a Camila na biblioteca. Engatinhei pelo chão por debaixo das mesas até as pernas da Camila. Samuel entrou na biblioteca para me procurar.
- Luna, o que você está fazendo aí embaixo da mesa? – Camila abaixou a cabeça.
- Shhh! Estou fugindo do Samuel!
Ela sacou e logo voltou sua concentração no seu livro.
- O que é isso? – eu fitei um pacote dentro da bolsa aberta dela.
- Ah, é salgadinho de milho sabor cebola e salsa. Mas aqui na biblioteca não pode comer.
Um menino do primeiro ano com sardas no rosto entrou embaixo da mesa.
- Ér... Luna? Tem um cara chamado... Daniel... Gabriel... Israel... Samuel! Ele está procurando você. Digo que está aqui?
- Não! – eu quase gritei e bati a cabeça na mesa.
- Ta bom. – o menino saiu.
- Ah, droga, ele está vindo. Pensando bem, isso aqui deve manter ele longe. – falei pegando o lanche da Camila e abrindo o pacote.
- Tudo bem, Luna, você pode pegar. Mas aqui não, sua doida! – Camila resmungou sussurrando.
Enfiei a mão no pacote e entupi minha boca de salgadinho, depois joguei o pacote dentro da bolsa dela novamente. Saí de fininho e ainda vi a Camila gaguejar quando Samuel se aproximou dela.
- Ah, ela só foi retocar a maquiagem... Sabe como é... Coisa de patricinhas...
Quando finalmente cheguei na porta da biblioteca, Alice e Jonnatah Cullen estavam entrando.
- Luna, que bom te ver! – Alice me mostrou um longo sorriso.
Essa não, e agora! Com salsa e salgadinho de milho nos dentes e hálito de cebola, o que eu ia fazer? Dei um gelo neles quando vi de longe Bárbara e Lucas juntos no corredor. Saí correndo em disparada. Quando passei pela Bárbara, puxei o cabelo dela e fomos até o banheiro. Contei tudo á Bárbara com os olhos lacrimejando e ela me deu um monte de balinhas de menta. Nossa, o que ia dizer á Alice?
BY: A. C.
Já se fazia duas semanas que as chuvas tinham retornado á Forks. Gralhas azuis cortavam o céu nebuloso todos os dias. No colégio, eu e Jonnatah éramos inseparáveis. Nós gostávamos de ficar mais na biblioteca, onde é mais calmo. E num intervalo, nós vimos minha AMIGA Luna Lovegood sair apressadamente de lá. Ela parecia estar nervosa. Boa coisa é que não era.
- Vamos falar com ela, amor? – eu pedi á Jonnatah.
- Hummm... – ele fechou a cara.
- Por favorzinho!
- Está bem, amigos de Alice são meus amigos também. – ele concordou.
Mas quando nos aproximamos, ela nos ignorou completamente e saiu correndo.
- Eu não consegui sentir a emoção dela... – Jonnatah disse enquanto entrávamos na biblioteca estagnados.
BY: L. L.
Quando tudo parecia ter voltado ao normal, surgem mais confusão na minha vida. Ultimamente Lara tem andado meio estranha. Digo: estranha mesmo, para o estado de uma louca. Ela simplesmente decretou que não queria mais passar os fins de semana em casa. Meu pai teve de aceitar sua decisão. Num outro dia, no colégio, Deborah veio correndo me contar sua novidade quando eu estava no corredor.
- Luna, adivinha o que eu fiz nesse final de semana!
- Sei lá, comprou outro esmalte?
- Não, melhor ainda! Eu coloquei dois piercings na orelha esquerda e fiz uma tatuagem no tornozelo. Não é demais?
Justo a Deborah? A única do nosso grupo que parecia ter juízo na cabeça? Eu não sabia o que falar e deixei os livros e o fichário caírem aos meus pés. Eduardo veio do nada atrás de mim e se abaixou cavalheiramente no chão para pegá-los. Deborah deu meia volta e disse andando.
- Han... Eu vou... vou contar a novidade á Bárbara. Tchau! – ela acenou esbarrando nas pessoas.
Eduardo me entregou meus materiais. Meus olhos ficaram exatamente no nível da boca dele. Ele nunca me pareceu tão... tão lindo! Eu sempre o via como um bebedor de sangue invasor e curioso. Mas essa sua beleza e perfeição era quase alienígena.
- Vamos, Luna, já tocou! – Sophia chegou perto de nós.
- Oi, Sophia. – eu disse voltando pro planeta terra.
- Bom dia, Sophia. – Eduardo falou educadamente.
Realmente ele não tinha culpa que a sua voz era tão irresistível.
- Er... Oi. – ela passou os olhos arregalados pra mim. – Te espero na aula de física.
- Ta bom.
Ela foi embora parando no caminho para olhar para nós por cima dos ombros.
- O que você vai dizer a ela? – ele perguntou recostando o braço na parede.
- O que? Do que você está falando? – eu questionei confusa.
- Ela vai te fazer um interrogatório agora...
- Mas como...
- ... e eu vou estar escutando na sala vizinha para ouvir suas respostas. – ele se virou e foi pra aula dele.
Eu entrei na sala de física sem compreender absolutamente nada. Sim, eu sabia que vampiros tem uma audição aguda, mas não sabia como ele sabia o que Sophia estava pensando. Ela me puxou lá pro fundo da sala e nós sentamos juntas.
- E então, o que está rolando entre vocês dois? – ela murmurou.
- O que? – eu me surpreendi.
- Me conte tudo, Luna Lovegood! – ela ordenou.
- Mas contar o que?
- Ora, você e o Eduardo!
- Sophia!
- Você gosta dele, não é? – ela forçou a barra.
Eu pensei um pouco e logo assenti afirmativamente.
- U-A-U! Eduardo Cullen! – ela vibrou.
- Eu sei! – nós fizemos agitação e o professor chamou nossa atenção.
- Ele é um gato! – ela continuou. – Mas, espera aí! Ele já te beijou?
- Que é isso, Sophia? Que pergunta é essa? – eu me perguntei se ele estava mesmo ouvindo isso.
- Ah, Luna, você é uma das poucas pessoas dessa escola que fala com ele. Não me diga que você não acha ele um deus grego?
- Fale mais baixo, por favor! – nós rimos alto de novo.
Quando a aula acabou, eu não sabia com que cara olhar pra ele. Mas para minha salvação – ou decepção – eu não o vi mais. Nem no intervalo, nem no estacionamento. Será que ele ficou com raiva de mim? Óbvio, não é, Luna, ele é um vampiro! O que eu esperava? Burra.
BY: E. C.
Ela não fazia idéia do quão eu estava feliz por saber que gostava de mim. Aquilo era uma sensação nova para mim, e eu nem sabia por onde começar. Subi até seu quarto naquela madrugada. Luna estava inquieta na cama, tendo outro pesadelo. Tive vontade de acordá-la e tirá-la daquele sofrimento. Não foi preciso. Luna acordou ofegante e assustada. Seus olhos estavam vermelhos e lacrimejando. Quando ela me viu, se posicionou sentada. Eu me aproximei e sentei na ponta da cama.
- O que você está fazendo aqui? – ela ajeitou os cabelos.
- Eu sou sonâmbulo. – eu sorri.
Ela também sorriu um pouco sonolenta.
- Então... É verdade o que você disse na sua aula de física? – eu quis ter certeza.
- Como você sabia que Sophia iria me fazer aquele interrogatório? – ela perguntou de imediato.
- Hummm... Amanhã eu lhe explico. Agora você tem que dormir.
- Amanhã eu não vou pro colégio. – ela cruzou os braços.
- Porque não? Você não está doente. Seu pai deixa você faltar aula quando quer?
- Eu só vou levar mais uma bronca e ficar de castigo mais uma vez. E que diferença isso vai fazer na minha vida? – ela se ajeitou embaixo do cobertor.
- Ta... – eu fiquei perplexo – E o que você vai ficar fazendo em casa a manhã inteira?
- Dormindo! – ela deitou a cabeça no travesseiro.
Eu pensei um pouco.
- Não. Eu tive uma idéia melhor!
- Que idéia? – ela se sentou de novo.
- Já que você não vai á escola amanhã, vou levá-la para conhecer o meu castelo mal-assombrado.
Ela inclinou a cabeça pasma.
- Ta... bom... – Luna piscou freneticamente os olhos.
- Combinado. Pego você ás oito. – eu me levantei do sofá da janela.
- Muito cedo!
- Tudo bem, sua dorminhoca, ás nove. Não esqueça.
- E se eu me esquecer?
Ela perguntou quando eu ia pular a janela. Eu não respondi, deixando um ar de mistério.
BY: L. L.
O despertador do quarto do meu irmão alarmou a casa inteira pontualmente ás seis horas. Meu pai saiu para o trabalho como de costume meia hora depois.
- Luna, tu ainda está dormindo? – Lucas estava passando pelo corredor e parou na minha porta.
- Eu estou morrendo de cólica. Você não entende, é coisa de mulher. – eu falei embaixo do edredom.
Lucas já conhecia essa minha desculpa. Significava que eu não estava a fim de ir pro colégio. Enfim, meu relógio interior me despertou ás oito e quinze. Tomei um banho quente e escolhi uma roupa confortável. Tomei meu café-da-manhã rapidinho e subi novamente. Eu tinha acabado de escovar os dentes e estava descendo as escadas quando ouvi uma batida baixinha na porta. Eu corri ansiosa até a porta de entrada. Ansiosa demais – eu me atrapalhei com a maçaneta. Eduardo estava impecável. Ele me olhou de baixo para cima e deu uma gargalhada. Eu fiquei sem jeito.
- Estamos combinando! – ele falou.
Eu observei nossas vestes. Estávamos de calça jeans e casacos azuis.
- Pronta? – ele perguntou.
- Pronta. – eu tranquei a casa com a chave e coloquei no bolso de trás.
Quando eu me virei, eu tive uma surpresa. O carro com que ele veio não era um Volvo prateado, nem um Porsche amarelo, muito menos um Mercedes conversível vermelho. Era um troller verde-escuro. Ele riu com a minha cara de espanto.
- Esse é de Emanuel. Ele me emprestou.
Eduardo abriu a porta do passageiro para mim e ele rapidamente já estava do meu lado ligando o motor. O caminho até seu “castelo mal-assombrado” era uma estrada por dentro da floresta. Ele me fez um monte de perguntas. Sobre qual era a minha cor preferida, a minha banda favorita, a minha comida predileta... Perguntas simples que me pareceram complicadas de responder a um vampiro. Ao longe eu vi uma mansão enorme. Não era muito antiga como as casas italianas e alemãs da cidade. Ela era pintada de um branco fraquinho, tinha três andares, era retangular e bem proporcional. Por dentro era ainda mais surpreendente, menos previsível do que do lado de fora. Era muito clara, muito aberta e muito grande. As janelas eram subitamente paredes de vidro com película escura contra raios ultra-violetas e o ar condicionado estava ligado. As paredes, o teto baixo com um deslumbrante lustre, o chão de madeira e o carpete eram todos de tons variantes de branco. Esperando por nós, num lado da sala que continha um piano de cauda preto, estava a única dos Cullens que eu ainda não conhecia. Ela era mais angular e um pouco mais cheinha que os outros. Ela me deu um sorriso de boas vindas, mas não fez nenhum movimento para se aproximar. Eu imaginei que ela estava tentando não me assustar.
- Eliza, esta é Luna. – Eduardo quebrou o curto silencio.
- Prazer em conhecê-la, Luna. – ela falou com uma voz macia. – Você tem um belo sorriso!
- Obrigada. – eu corei.
- Fique a vontade, querida. – ela piscou pra Eduardo.
Eliza se afastou e eu ainda estava sem ação. Eduardo me puxou até as escadas de cima.
- Então, esse é o seu “castelo mal-assombrado”? – eu perguntei enquanto subíamos.
- Ora, o que você esperava? Criptas, masmorras e fossos? – ele deu um sorriso zombeteiro.
- Onde estão os outros?
- Carlos está trabalhando no hospital e os outros estão onde nós deveríamos estar: no colégio. – ele me deu um olhar de reprovação.
No andar do meio haviam apenas três portas. Passamos pela do salão de jogos, com uma mesa de sinuca e outra de poker. Depois pela do escritório onde tinha uma estante de livros até o teto. Eduardo riu da minha expressão abobada.
- Acredite ou não, eu já li mais da metade.
Nós entramos na terceira porta. O cheiro de tinta fresca se expandiu facilmente no ar. O ateliê tinha vários quadros inacabados no chão e outros pregados nas paredes.
- Nossa! Quem pinta aqui? – eu fiquei curiosa.
- A maioria são de Carlos. Ele gosta de retratar lembranças e a história dele.
- E você pode me contar?
BY: E. C.
- Carlos nasceu como Carlito, em Portugal, em meados de mil e oitocentos. Ele foi atacado aos vinte e seis anos por um clã que estavam escondidos nos esgotos de Lisboa e conseguiu fugir. Ele suportou os três dias dolorosos da transformação e veio tentar uma nova vida no Brasil. Estudou medicina e prometeu a si mesmo nunca beber sangue humano.
Nós dois passávamos pelos quadros do ateliê enquanto eu falava. Não sei Luna estava prestando atenção em mim, mas eu estava gostando.
- Carlos me encontrou em um hospital de Minas Gerais em mil novecentos e vinte. Eu tinha dezoito anos e estava morrendo de tuberculose.
— Seus pais? – ela se virou pra mim.
- Meus pais já tinham morrido com a doença. Eu estava sozinho. Foi por isso que ele me escolheu. Com todo aquele caos da epidemia, ninguém se deu conta de que eu tinha desaparecido. Ele agiu por causa da solidão. – eu desabafei.
- E você sempre esteve com Dr. Cullen depois... disso? – os dedos dela subiam vagarosamente até as telas, mas não chegavam á tocá-las.
- Quase sempre.
- Quase? – Luna se virou pra mim novamente.
- Bem, eu tive um pouco de rebelião adolescente. Eu quis mostrar a ele o meu apetite, assim eu fui atrás da minha própria vida. Me juntei á vários outros clãs, mas depois eu voltei atrás. Encontrei Carlos, — já com Eliza e seus sobrinhos – e ele me recebeu de braços abertos.
Luna parou para ver um quadro com uma paisagem de um campo de lavandas. Um campo completamente lilás.
- Como Dr. Cullen conheceu Eliza? – ela quis continuar.
- Eliza é tia de Jonnatah e Raqueli – eles são irmãos. Em dois mil e quatro, eles moravam em Santa Catarina e eram uma família grande quando foram atacados por um grupo de bebedores que matava humanos. Eles três foram os únicos de sua família que sobreviveram. Carlos estava trabalhando em Santa Catarina nessa época e percebeu logo o que estava acontecendo com eles. Eliza tinha vinte e nove e os gêmeos, dezenove. Carlos se apaixonou por Eliza e eles se casaram.
Era divertido estar com Luna e poder contar aquelas histórias para ela. Ela ficou maravilhada com todas as pinturas.
- E os outros? – ela perguntou depois de alguns segundos.
- Em dois mil e cinco, nós cinco estávamos em São Paulo. Raqueli estava passeando de noite e num certo beco viu uma briga de gangues. Emanuel estava sendo espancado por um monte de delinqüentes juvenis e estava quase morrendo. Raqueli o carregou até Carlos e ele o transformou antes que fosse tarde. Emanuel tinha dezenove e até hoje ele diz que Raqueli é o anjo dele. Eles estão juntos até hoje.
- E Alice?
- Ah, Alice. Ela tinha dezoito quando ainda estávamos em São Paulo. Também foi atacada por um vampiro bebedor de sangue humano e, por sorte, sobreviveu. Ela não sabia o que fazer e então teve uma visão de que no futuro ela iria estar com Jonnatah. Ela veio nos procurar e...
- Espera aí! Alice teve visão do futuro? – Luna me repreendeu.
Eu tinha esquecido que ela não sabia e então eu ri de mim mesmo.
- Vocês... tem poderes? É isso? – ela ficou mais inquieta.
- Mais ou menos. Carlo e Eliza conseguem se aproximar de sangue humano sem perderem o controle. Nós dizemos que isso é um poder. Emanuel é o mais forte de todos nós. Raqueli é a mais teimosa e irritante. Já Jonnatah consegue influenciar os sentimentos das pessoas. Ele é capaz de acalmar uma sala de aula inteira. Alice tem, de vez em quando, previsões. Se não fosse por ela, você morreria naquela noite, no cemitério.
Luna estremeceu e ficou pensativa.
- E você?
- Eu sei ler mentes. Eu posso ver os pensamentos de todas as pessoas que estão perto de mim. Menos... a sua! – eu olhei bem no fundo dos olhos dela.
- Porque? Tem algo de errado comigo?
- Você é hilária, Luna. Eu digo que sou telepata e você pergunta se tem algo de errado com você! – eu gargalhei.
- E depois, vocês todos foram pra onde? – ela tentou voltar ao assunto de antes.
- Bom, nós fomos pro sul da Argentina procurar por documentos falsos. Depois viemos morar aqui em Forks, no começo desse ano. Aqui chove bastante e quase não aparece sol. E isso é bom para nós. Vamos! – eu a puxei até as escadas do último andar.
BY: L. L.
- O quarto de Carlos e Eliza... de Emanuel e Raqueli... de Jonnatah e Alice... – ele fazia gestos enquanto passávamos.
Nós paramos em frente a uma porta, no fim do corredor.
- Meu quarto. – ele informou e me levou para dentro.
Era bem espaçoso e bem claro, como o resto da casa. O carpete era bem felpudo e havia três pufs para sentar. Mas não havia cama. Meus olhos pararam numa estante gigante com prateleiras entupidas de CDs. Meus dedos passaram levemente por uma fileira.
- Uau! Quanto tempo você demorou para organizar isso tudo? – eu olhei para as laterais das capas.
Senti algo frio e sólido se posicionar atrás de mim. Eduardo segurou com uma mão a minha cintura e com a outra o meu rosto. Ele me virou rapidamente.
- Você é tão frágil! Eu tenho que comandar todas as minhas ações quando estou perto de você para não te machucar. Se eu estivesse muito ansioso... Se por um segundo eu não estivesse prestando atenção o suficiente... Eu não posso me dar ao luxo de perder o controle quando estou perto de você.
Meu coração disparou como uma bomba. Senti os lábios gélidos dele encostarem na minha jugular.
- O que você está fazendo? – eu temi.
- Você está com medo de mim? – ele falou no meu pescoço.
- Não. – eu menti pra mim mesma.
Ele deu uma risadinha baixa.
- O que foi? Só porque não posso beber o vinho, não quer dizer que eu também não possa sentir sua fragrância. – ele olhou pra mim. – Eu nunca desejei tanto na minha vida o sangue e o corpo de um humano ao mesmo tempo!
Ele parecia estar falando com dor. Eduardo abaixou sua cabeça devagar e encostou levemente seus lábios frios nos meus por um segundo, muito cuidadosamente, fazendo eles se abrirem. Ele hesitou por um momento para saborear o gosto do meu gloss labial. Meus dedos se fecharam no cabelo cor de bronze dele e então eu desmoronei.
- Luna! – sua voz estava preocupante enquanto me pegava e me mantinha de pé.
- Você me deixou... tonta! – eu acusei atordoada.
Ele riu enquanto me puxava até um dos pufs, me fazendo sentar em seu colo.
- E o leão se apaixonou pelo cordeiro. – seus braços me cercaram.
- Um leão maluco!
- Um cordeirinho mimado!
- Você é louco, sabia? – eu observei o seu rosto absurdamente perfeito.
- Louco por você! – as pupilas dele eram dilatadas como de um predador.
Eu não sabia o que falar. Como aquele ser tão belo e ao mesmo tempo tão perigoso podia dizer que era louco por mim?
- Ás vezes eu sinto que devo protegê-la como se fosse a minha menina. A menina que me enfeitiçou e fez o meu coração gelado derreter com o seu calor. – Eduardo levantou nossas mãos juntas e acariciou a minha bochecha com as costas da mão dele.
Eu fechei os olhos sentindo seu frio e logo abri-los.
- E o que você espera de uma feiticeira como eu?
- Que apenas encha de alegria e ternura o coração de pedra desse velho vampiro. – ele pegou uma mecha do meu cabelo e inalou brevemente. – Seu cheiro é como uma droga para mim.
- Você morreria na fogueira por mim? – eu ergui uma sobrancelha.
- Até no inferno, se for preciso! – ele tocou suavemente na minha face.
Ele tentou me beijar de novo, daí eu olhei para o relógio do seu pulso.
- Minha nossa, já é mais de meio-dia! – eu pulei do colo dele. – Eu tenho que chegar em casa rápido!
- Rápido? Sem problemas.
Eduardo segurou as minhas pernas de uma maneira tão rápida nas suas costas que em poucos segundos ele já tinha me carregado até o troller verde-escuro enfrente á mansão. Ele dirigia com uma só mão, segurando a minha mão no banco do carro. Ás vezes ele olhava para a trilha, ás vezes ele olhava para mim – meu rosto, meu cabelo voando ao vento da janela aberta, nossas mãos juntas... Era surpreendentemente apaixonante. E era como eu estava me sentindo.
BY: E. C.
Deixei Luna em frente a casa dela e voltei pra minha. É óbvio que eu tinha que explicar aos outros porque a casa estava com um leve aroma humano. A tarde passou num suspiro e a noite parecia se arrastar. Mas eu estava empolgado. Meus cinco sentidos imploravam ferozmente por ela. Eu queria vê-la, ouvir as batidas do seu coração, sentir o cheiro da sua pele, o gosto doce dos seus lábios e o calor do seu corpo. E na décima segunda badalada, eu já estava em seu aposento. Luna dormia calmamente. Sem pesadelos. Um sono sereno e tranqüilo. Um sono que eu instantaneamente quis acabar.
- Acorda, bela adormecida. – eu coloquei-a nos braços.
- Hummm... Você está atrapalhando o meu sono da beleza! – Luna esfregou os olhos.
Levei-a até o sofá branco próximo á janela e botei-a sentada no meu colo.
- Desculpe, não era minha intenção atrapalhar seu sono da beleza.
- Ahãn... – ela colocou um braço envolta do meu pescoço.
- Eu só vim aqui para conhecer o seu calabouço.
- Que calabouço? – Luna parou de sorrir.
- Bom, você já conheceu o meu castelo mal-assombrado. Agora está na hora de eu conhecer o esconderijo secreto da minha namorada feiticeira!
Ela sorriu esplendorosamente quando eu falei namorada.
- O porão?
- Exatamente. – eu confirmei.
Ela abaixou a cabeça e murmurou.
- Se você veio atrás daquele espelho...
- Não, eu não vim atrás do espelho, eu só estava curioso.
Eu esperei, mas ela não tornou a falar.
- E então? Vai me levar até lá ou não?
- Tudo bem.
Luna desceu do meu colo solenemente e calçou uma botinha sem salto que estava embaixo da cama. Ela segurou na minha mão enquanto caminhávamos até o porão. Ela ascendeu uma lâmpada na cozinha.
- Não tem iluminação no porão? – eu perguntei quando estávamos descendo as escadas.
- Não. Mas tem velas! – Luna foi esfregando as pontas dos dedos em algumas velas que já estavam pregadas em alguns acostamentos.
As velas se acendiam conforme ela passava os dedos. Era como... mágica! As chamas bruxuleavam, reproduzindo sombras esquisitas. E então eu vi aqueles mesmos amontoados de caixas, uma estante enorme cheia de livros velhos, um punhal pregado na parede, uma mesa sem cadeiras, alguns vidrinhos com líquidos dentro... E finalmente, o espelho.
- Apesar de viver como uma garota comum, — ela começou enquanto eu pegava nos livros – também tenho meu lado místico. Gosto de ouvir histórias sobre a caça ás bruxas, na idade média. Pobres camponesas! – ela balançou a cabeça.
- Joana D’arc? – eu puxei um livro cheio de símbolos e imagens.
- Também. Mas nós, feiticeiros, não fazemos rituais satânicos, mandingas, cultos á deuses pagãos, vodu, nem matamos bebezinhos ainda não batizados!
Eu ri com os exemplos que ela citou. Mas eu estava interessado mais nos livros. Eu mexi em todos enquanto eu a ouvia tagarelar.
- O ocultismo da feitiçaria é usar apenas a magia para necessidades materiais. Ah, esse livro aí é muito bom. Foi um maçom que deu pro meu pai. – ela apontou para o que já estava nas minhas mãos.
Eu o abri e ele não tinha nada escrito. Estava vazio.
- Um maçom que deu pro seu pai? Mas como dá pra ler?
- Segredo. Mas conta histórias de vários hematófagos populares.
Eu enrijeci que Luna disse hematófagos.
- Que hematófagos? – eu me virei pra ela e ela riu da minha expressão indignada.
- Tem o Conde Drácula, Vlad – o empalador, Condessa Elizabeth Bathory e outros personagens que me esqueci.
Eu soprei aliviado.
- Como é ser um feiticeiro? – agora eu folheei um livro falando de artes e filosofia. Meu assunto predileto.
- Todo feiticeiro ganha a sua primeira varinha no décimo terceiro aniversário. – ela argumentou. – Me lembro perfeitamente do dia em que meu irmão ganhou a dele.
- O que aconteceu?
BY: L. L.
- Ele fez o meu cabelo ficar azul. – eu relembrei aquele momento marcante na minha vida.
Eduardo riu baixinho. Afinal, já era madrugada. Ele colocou os livros no lugar e olhou para uma mesa redonda sem cadeiras no centro.
- E pra que essa mesa? – ele percebeu um enorme pentágono desenhado na madeira – Vocês falam com os mortos?
- Tábua Ouija não é bem a nossa praia! – eu ri com aquela pergunta maluca.
- Oh, muito sensato. – ele ficou sem jeito.
- Agora que você já visitou o meu calabouço, vamos lá pra cima. Está muito tarde para uma moça de família como eu ficar sozinha assim!
Dessa vez ele quase gargalhou. Eu peguei na mão dura e fria dele e nós subimos as escadas. Eduardo ainda se virou perplexo para ver as velas se apagando sozinhas. Nós fomos até o meu quarto e ele me colocou para sentar no seu colo novamente no sofá.
- Como anda sua relação com sua madrasta? – ele quis puxar assunto.
- Não, meu pai não se casou. É uma longa história. – eu olhei pra janela e vi a lua cintilando no céu.
Não estava coberta por nuvens. Então me virei pra ele de novo. Seu corpo estava imovelmente lívido.
- Seus olhos! Ficaram prateados!
Eu sorri docemente com a cara de bobo dele. Nós estabelecemos horários: da meia-noite até o meio-dia ele ficaria comigo. Do meio-dia até meia-noite seria o meu momento. O meu momento humano. Depois disso, meu namorado-vampiro me colocou na cama para dormir. Eu me enrolei no edredom gelando de frio.
- Você já vai embora? – eu o lembrei do acordo.
- Você quer que eu vá embora?
Eu abri a boca, mas nenhum som saiu, e então eu fechei de novo. Ele esperou e sua expressão se tornou triunfante porque ele sabia que eu não tinha nenhuma resposta de verdade. Ele se ajoelhou ao pé da minha cama.
- Durma, Luna. Você é a minha vida agora.
Eduardo colocou uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha enquanto eu fechava os olhos. Ele beijou a minha testa e eu adormeci embalada pelo seu carinho. Naquela noite eu não tive pesadelos. Ao acordar, vi um papel do meu bloquinho dobrado embaixo do meu travesseiro. O bilhete dizia:
“Fui caçar na floresta. Volto logo para lhe buscar e te levar pro colégio. Tome conta do meu coração – deixei-o com você!”
Eu suspirei observando a sua formal caligrafia. Me arrumei o mais rápido que pude. Poucos minutos depois que meu pai saiu para o trabalho, eu vi o Volvo dele pela janela do meu quarto. Aproveitei que Lucas ainda estava no banheiro e corri pelas escadas com passos leves. Eu caminhei para o carro dele parando timidamente antes de abrir a porta e entrar. Ele estava relaxado e, como sempre, o sorriso era convidativo e fascinante demais para explicar.
- Bom dia! Como você está hoje? – seus olhos examinaram meu rosto, como se a pergunta fosse algo mais que um simples gesto de educação.
- Bem, obrigada. – na verdade eu estava muito mais que bem.
Ele acelerou a velocidade e em poucos minutos já estávamos no colégio. A maioria da galera estava toda no estacionamento e quando Eduardo Cullen abriu a porta do seu carro importado para mim, muitos olhares se voltaram para a gente. Eu fiquei abobada com a reação de felicidade dele. Enquanto nós caminhávamos até o prédio, – eu abraçando firmemente o fichário e Eduardo com o braço envolta dos meus ombros – as pessoas apontavam e cochichavam sobre nós dois juntos. Logo a atenção do público se desviou para um outro carro que estava chegando. Era o mesmo Mercedes vermelho conversível que eu vira na noite do baile de verão. Raqueli dirigia no volante com os outros Cullens de carona.
- Ostentoso, não? – Eduardo sussurrou no meu ouvido.
- Nossa! Porque vocês têm carros tão caros? – eu perguntei cautelosamente e depois me arrependi, com medo de que ele se zangasse.
- Nós apenas gostamos de dirigir rápido. – ele me respondeu com uma voz prazerosa.
Mas hoje, eu e Eduardo não tínhamos aula de história – a única aula que temos no mesmo horário. No tempo entre uma aula e outra, eu o vi no corredor dos armários perto da secretaria, e ficamos nos olhando. Eu entendi. Antes de se afastar, ele sorriu meio torto. E eu entendi isso também, ele tinha razão, era melhor a gente não se agarrar num corredor público, a não ser que a gente quisesse alegrar a vida das secretárias. No intervalo, fomos para um lado do campo da escola e nos sentamos juntinhos e abraçados. A chuva parecia ter dado uma trégua essa manhã, mas o céu continuava nublado. E isso era bom.
- Você não está com fome? – seu olhar estava flamejante.
- Não, eu não como a comida dessa lanchonete e... Ah, eu quase ia esquecendo!
- O que?
- Depois do colégio eu não vou pra casa. Eu e Lucas sempre nos encontramos com papai num restaurante.
- Como assim?
Eu fiz uma breve pausa antes de responder. Ele talvez pudesse achar aquilo bizarro.
- Ninguém em casa sabe cozinhar. – eu falei num sopro.
- Você não sabe cozinhar? – sua expressão ficou duvidosa.
- Não.
Eu desejei enfiar minha cabeça num buraco. Porém, eu fiquei surpresa quando ele começou a gargalhar. Na hora de ir embora, nós tentamos nos despedir discretamente como dois namorados. Mas foi difícil porque, praticamente, a manhã inteira, os olhares curiosos não nos deixaram em paz.
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