Utopia
1 Capítulo 1
BY: L. L.
Me chamo Luna Lovegood e eu sou uma feiticeira. Sou uma garota de classe média e tenho dezessete anos. Meus cabelos são castanho-escuro, lisos, mais ou menos comprido com as pontas dos fios em dégradé, camadas longas e desfiadas. E ainda uma franjinha fofa. Sou bem branca, moro com meu pai, Thiago, quarenta, e meu irmão mais velho, Lucas, dezoito.
Vivo numa cidadezinha esquecida por Deus chamada Forks, localizada no sul das montanhas do Rio Grande do Sul, no Brasil. População: três mil habitantes. Aqui faz frio e chove trezentos dias por ano. Mas como a maior parte do país é quente, aqui só cai neve no inverno mesmo. Estudo num colégio que só leciona o ensino médio. Eu e minhas amigas somos as mais populares dessa escola. Somos bem extrovertidas e todo mundo fala com a gente, porque nós gostamos de conversar. E muito. Principalmente eu. Sou uma tagarela nata! Nunca consigo calar essa minha matraca. E adoro fazer todo mundo rir. Meus amigos quase estouram de tanto rirem das minhas besteiras. No 1º e no 2º anos até que eu era uma boa aluna. Mas acho que esse ano vai ser muito difícil. Meu colégio é típico daqueles que tem que usar uniforme de camisa branca e gravata, só que os garotos com calça e as meninas de meia-calça preta e saia. Não se esquecendo do casaco também, que ridículo de feio, com o semblante da escola. Nunca gostei muito de levar minhas amigas pra minha casa. É que tem muitas coisas de feitiçaria e isso com certeza iria trazer problemas.
No meu pescoço sempre carrego um colarzinho prateado que minha mãe me deu assim que eu nasci. O pingente é uma meia lua com um rosto. Minha irmã também tem um parecido, só que ao invés de ser uma lua, é um sol, com raios e um rosto no meio. Sim, além de ter um irmão também tenho uma irmã... só que gêmea! Seu nome é Lara. Ela não mora com a gente porque ela é louca. Vive num internato psiquiátrico. Freqüentemente vou visitá-la, mas a gente sempre acaba brigando.
Forks fica vizinha á uma floresta enorme.
Última semana de janeiro... Beleza! Primeiro dia de aula. Rever os amigos, reencontrar os professores chatos... Nossa família tem dois carros: um preto, grande, eco-esporte que é do meu irmão e um de cor chumbo, mais baixo e mais fino, que é do meu pai. Todo dia ele sai de casa ás 06h30min e vai trabalhar como agente de polícia. Sempre depois do colégio nos encontramos num restaurante (ninguém em casa sabe cozinhar) e almoçamos. Depois ele volta pro trabalho e eu e meu irmão vamos pra casa fazer tarefa. Mas se você está pensando que nossa vida é meio monótona, está enganado. Em todas as férias, a gente sempre viaja e nos divertimos á beça!
Eu estava tão empolgada com o primeiro dia de aula do ano que fui com o penteado mais clássico do mundo: cabelo solto e mais nada! Coloquei meus brincos de argola, me maquiei, ajeitei minha franjinha e as camadas do meu cabelo e fui com Lucas, que também está na mesma série que a minha, porque repetiu o ano.
Nas três primeiras aulas foram só conversa. Daí finalmente chegou a hora do intervalo. Eu não gosto muito da comida da lanchonete do colégio, por isso eu merendo em casa mesmo. Mas nesse dia eu até que comprei um pirulito.
Foi ali, dentro daquele salão enorme, cheio de adolescentes famintos, que eu os vi pela primeira vez. Eles estavam sentados num canto, o mais longe possível de todo mundo. Eram cinco novatos: três garotos e duas garotas. Pareciam bem mais velhos para estarem cursando o 3º ano. Mas o que mais chamou a minha atenção foi que metade daquele salão inteiro estava olhando para eles. Eles não conversavam nem comiam nada. E eram todos lindos, e pálidos, e tinham olheiras, e não olhavam pra ninguém. Dos três “garotos”, um era grande, musculoso e tinha cabelo escuro. Outro era alto, mais magro, mas ainda musculoso e com o cabelo rebelde loiro escuro. E o outro era mais magro, menos musculoso, com o cabelo cor de bronze, meio bagunçado. Ele parecia ser mais jovem do que os outros, que pareciam que poderiam estar na faculdade. Das garotas, a mais alta era maravilhosa. Ela tinha uma silhueta perfeita e esbelta, tipo uma modelo. Seu cabelo era dourado e ondulado, que balançava levemente até o meio das costas. Já a outra era mais baixa e parecia uma fadinha, com feições pequenas. Seu cabelo era totalmente preto, cortado curtinho como sininho e apontado para todas as direções.
Para acabar com aquele clima, comecei a tagarelar de novo e finalmente consegui a atenção de volta. Eu e meus amigos começamos a rir tanto, mas tanto, que quase todo mundo estava olhando para a gente. Quase todo mundo. Daí o Samuel, um amigo meu, começou a cantar uma música bem no meu ouvido só para frisar. Não deu em outra: para chamar ainda mais a atenção, saí correndo pela lanchonete atrás dele. Até que foi divertido. E os garotos do basquete começaram a gritar para mim:
- Pega, pega, pega, pega...
Eu e minhas amigas adoramos fazer isso: chamar a atenção. Eu, a Deborah, a Sophia e a Bárbara. Quando o intervalo acabou, a Bárbara teve uma idéia: chegar atrasada na sala de aula! Entramos poucos minutos depois que o sinal tocou e o professor fez uma careta. Sentamos lá no fundo e começamos a conversar. Daí, para descontar o nosso atraso em mim, o professor de história (que vive de marcação comigo) me mandou trocar de canto até o final do ano letivo para sentar lá na frente. Que porre! Botou-me para sentar ao lado de um cara bonitinho (é que as carteiras são duplas!), já que ao seu lado estava vazio. Ele era um dos garotos novatos que eu vira na lanchonete. Assim que eu me sentei, esse garoto se inclinou totalmente para longe de mim, como se eu tivesse cheiro ruim. Pelo canto do olho, percebi que seu punho estava fechado e apertando com força. Ele estava tão imóvel, que parecia que nem respirava. Ele tinha um jeito de pessoa mal e era mais forte do que eu pensava. Coitado! Acho que estava morrendo de vontade de ir ao banheiro. Reparei que ele me olhava com um olhar curioso, que logo se transformou em frustração. Quando o sinal bateu, ele se levantou rapidamente. Antes que qualquer um dos outros estivesse de pé, ele já tinha saído pela porta. Quando a manhã de aula acabou, marcamos com alguns meninos uma guerra de bola de neve lá fora, afinal, estamos no inverno. Até meu irmão entrou na jogada.
BY: E. C.
Mais um ano letivo começa e temos que ir a uma escola onde todo mundo só fala de orgias e palavras sujas. O que é que um vampiro não faz para tentar se civilizar? Eu e minha família nos mudamos para essa cidade pequena há pouco tempo, por razões óbvias: aqui chove bastante, faz frio e o céu está sempre que constantemente nublado. Isso quer dizer que sol: zero. Ótimo! Ainda mais tendo uma floresta enorme do lado para poder caçar em paz algum animal. Nosso “pai”, Carlos, é médico e vai trabalhar aqui também. Não sei como ele consegue agüentar...
Enfim, o 1º dia de aula... Como sempre acontece, chamamos bastante atenção. Droga de cidade pequena! O pior foi na hora do intervalo, cem pares de olhos femininos voltaram-se diretamente para mim. Li a mente de cada uma delas e a maioria estavam pensando em coisas que prefiro não comentar aqui. Do canto do salão dava para ouvir perfeitamente o que estavam cochichando. Os elogios eram bons, mas as intenções... Meus “irmãos” também não estavam muito animados. Emanuel estava pensando em alguma piada para acabar com aquele silencio. Jonnatah estava tentando se controlar para não voar na garganta de algum humano. Raqueli estava pensando nela mesma, como sempre. Alice estava pensando na cor das unhas que iria pintar de tarde. Já eu, Eduardo, estava entediado demais para pensar em alguma coisa. Aquela lanchonete era muito barulhenta. Tinha gente falando alto demais, brincando de guerra de comida, discutindo sobre a vida dos outros... Havia também um grupinho que estavam quase se engasgando do que uma garota, bem ativa, falava. E com isso, conseguiram chamar bastante atenção. Finalmente o intervalo acabou e eu fui depressa para a minha próxima aula, para tentar pegar uma carteira da frente. Pena que as carteiras desta escola são duplas. Mas parecia que eu estava sobrando ali. Tudo bem, já estou acostumado com isso. Quando o professor de história começou a dar aula, entraram duas meninas atrasadas e a zoação na sala começou. Daí, ele mandou uma delas, que estavam sentadas no fundo, ficar no lugar vazio do meu lado até o final do ano letivo. Só para você ver como alegria de vampiro dura pouco. Quando ela se sentou do meu lado, uma força dentro de mim se descontrolou e eu tive que me segurar. Aquele cheiro era tão doce! Nunca tinha sentido tal sensação como essa em toda minha vida. Era tão enlouquecedor! E porque eu não conseguia ler a sua mente, como das outras pessoas? A aula parecia se arrastar mais do que as outras. E assim que o sinal bateu, saí em disparada, tentando esquecer aquele odor tentador. Cheiro saudável. Saí da escola e fui direto para o estacionamento. Fiquei dentro do meu carro, um Volvo prateado, esperando aquela bendita manhã acabar para levar meus irmãos para casa.
Assim que chegamos, não consegui parar de pensar um minuto sequer naquele cheiro doce. E eu precisava daquele sangue... Eu não podia voltar para aquele colégio.
BY: L. L.
Bom, atualmente eu estou namorando o Rafa. Ele é skatista, já está na faculdade e tem os dois braços completamente tatuados. Não é demais? Não, não é! Estou percebendo a alguns dias que ele está querendo dar um tempo. Primeiro pelos ciúmes do meu irmão. E segundo porque nossa relação esfriou. Assim não dá! Mas tudo bem. Depois eu dou conta disso.
O resto da semana até que foi mais calma, já que aquele cara estranho da aula de história faltou os quatro dias seguintes.
A 2ª semana de aula já era fevereiro, último mês de inverno. Foi aí que, pelo canto do olho, na lanchonete novamente, vi que os cinco novatos estavam juntos de novo. E que aquele garoto de cabelo bagunçado e cor de bronze estava me olhando. Daí passou uma idéia louca pela minha cabeça: todos os cinco tinham pele branco-acinzentada, não comiam nem se aproximavam de ninguém. VAMPIROS! Não, não pode ser! Aqui não! Qualquer feiticeiro sabe identificar o que é um vampiro de longe. Puxei meu irmão rapidamente para fora da lanchonete e contei as minhas observações. Ele ficou perplexo.
- Luna, você tem certeza?
- Eu não sei... mas as características são afirmativas!
- Então é melhor a gente tomar bastante cuidado.
E voltou calado, meio cauteloso. Fui para o banheiro me ajeitar um pouquinho imaginado como seria a aula seguinte. Como eu sou uma ótima atriz, não vou fazer como as outras garotas e ficar cochichando sobre eles. Também não vou olhar na cara de nenhum. E se for verdade? Vou apenas ser eu mesma.
Pedi pra Bárbara para a gente chegar atrasadas na sala e ela concordou. Mas assim que entramos, o professor olhou pra minha cara e apontou para a carteira vazia da frente. Ai... mas que droga! Se eu pudesse transformar esse professor num sapo! Então lá fui eu pegar minha bolsa e meu fichário e me sentar ao lado de um “possível” hematófago.
Mas do meu outro lado estava sentada a Camila. Não é tão minha amiga, mas a gente até que se fala bastante. Não deu em outra: conversamos e rimos na aula todinha. E a gente não parava quietas um segundo. Desse jeito o tempo passou voando. Por isso que é bom ser popular!
BY: E. C.
Mas que garota irritante era aquela que estava sentada ao meu lado na aula de história! Dessa vez eu consegui controlar os meus instintos de vampiro. De todos os odores humanos que já senti esse me parecia ser tão delicioso! Tentei me afastar por uma semana da escola, mas minha família já estava achando estranho. A dona daquele aroma doce era uma menina bem extrovertida e cheia de amigos. Não parou de conversar um minuto sequer e isso atrapalhou a minha concentração na aula. Mas que estúpida! Os assuntos eram os mais fúteis possíveis e falava cada gíria diferente que mais parecia ser outra língua. Mas o que mais me intrigou foi que eu ainda continuava a não conseguir ler a sua mente. Eu já estava começando a ficar impaciente e morrendo de vontade de mandá-la as calar. Se ela ao menos soubesse do que eu sou capaz! Aquele cheiro... Não! Eu não posso fazer isso! Eu e minha família não matamos humanos. Tentamos controlar nossa sede apenas bebendo sangue de animais. Mas isso já estava passando do meu limite. Esquece Eduardo. Não vale a pena acabar com a vida de uma pessoa que é tão feliz.
BY: L. L.
Debaixo da minha casa tem um porão, que é aonde nossa família guarda nossos artefatos de magia. Tem uma estante enorme cheia de livros. A maioria é antiga e outros são enfeitiçados. Meu pai não gosta quando eu e meu irmão mexemos nesta estante. Ele diz que é perigoso. Besteira, na minha opinião. Os assuntos são dos mais diversos, tipo: ADIVINHAÇÃO, ARITMANCIA, ASTRONOMIA, DEFESA CONTRA AS ARTES DAS TREVAS, RUNAS ANTIGAS, FEITIÇOS, HERBOLOGIA, HISTÓRIA DA MAGIA, POÇÕES, TRANSFIGURAÇÃO e TRATO COM AS CRIATURAS MÁGICAS.
Foi por causa desse último que de noite eu desci escondida até o porão e peguei. Abri no artigo sobre vampiros. Não tinha lá muita coisa:
“NÃO SE SABE AO CERTO SUA ORIGEM. ESTÁ ENTRE AS CRIATURAS MAIS TEMÍVEIS DA FACE DA TERRA.”
Mais embaixo, com a letra bem pequenininha tinha escrito:
“Assim que a luxúria do sangue humano tocar-lhe os lábios, sua vida será plenamente tediosa.”
Credo! Uma garota popular como eu não conhece a palavra tédio. Mas... Espera aí! Tédio? Ora, ainda que fadado a vagar nas sombras, sua mordida é um convite para a imortalidade. Bem sabemos ser a morte nossa única certeza; e a angústia disso decorrente nos perturba a existência.
Botei o livro de volta no lugar e subi até o meu quarto. Meu pai, com certeza, já estaria dormindo. Meu irmão, talvez, assistindo TV. Escovei os dentes e depois me afoguei debaixo do edredom quentinho. Eu adoro ficar deitada com a minha gata. Mas calma! Ela não é preta! Tem os pêlos cheio de listras acinzentadas e os olhos azuis, como os meus. Seu nome é Madame Nora. Ela vive correndo atrás do rato de estimação do meu irmão, o Perebas. Eu detesto esse rato!
BY: E. C.
Uma hora da madrugada e eu aqui mofando em casa. Já li tantos livros que eu até perdi a conta. Acredite: televisão e internet não acabam mais com o meu tédio. E aquele cheiro que não saía da minha cabeça... Eu preciso senti-lo novamente... Será que a dona dele já está dormindo? Bom, vai ser apenas uma breve visitinha inesperada.
Como eu corro bem rápido, em pouquíssimo tempo cheguei á sua casa. Só numa cidade pequena mesmo que todo mundo sabe onde todo mundo mora. Por sorte, a janela do seu quarto era a única da casa que estava aberta. Escalei até o quarto de cima e entrei. Então aquele aroma doce logo tomou conta de mim. Aproveitei para saber como era o quarto de uma adolescente atual. Era todo branco e lilás. E ela dormia numa cama grande, com o ipod ligado no ouvido. Reparei que não tinha guarda-roupa, mas havia duas portas ali. Então uma deveria ser o banheiro e a outra o do closet. Debaixo da janela tinha uma espécie de sofá, só que mais bonitinho. Fiquei sentado ali por alguns instantes inalando seu aroma. Na outra ponta do quarto havia uma cadeira com rodas e uma mesa onde estavam os livros e deveres (incompletos!) do colégio. E mais ao lado tinha um notebook. Na parede estava uma televisão e um painel cheio de fotos suas com seus amigos. Fotos fazendo careta, sorrindo, fazendo bola com goma de mascar, dando língua... Fotos de pura alegria! De repente, meus olhos pararam numa fotografia sua quando criança. Seu irmão (provavelmente) estava no meio, ela estava de um lado e outra menina no outro lado. Só que essa outra menina era exatamente igual á ela! Mas como assim? No colégio eu nunca vi essa outra garota! Isso era muito confuso. Será que ela tinha uma irmã gêmea? Quando olhei para cima, percebi que havia umas estrelinhas de neon coladas no teto. Eram verdes e formavam alguma constelação. O céu começou a clarear e percebi que já era de eu voltar, senão, dariam pela minha falta em casa.
BY: L. L.
- Bom dia, flor do dia!
Acordei com o idiota do meu irmão tacando o travesseiro na minha cara. Que saco! Resolvi ir hoje pro colégio com uma tiara prateada que tem uma borboletinha de lado. Fiquei fofa! Coloquei meu colar de lua e fomos pro colégio.
O estacionamento estava cheio de gente fazendo guerra de bolas de neve. O asfalto até que estava bem escorregadio. Meu irmão estacionou seu carro numa parte onde tinha bastante vaga. Saí do carro e parei na lateral ajeitando a minha bolsa. Daí meu celular (um LG Scarlet) fez o favor de cair na neve... Eca! Quando eu me abaixei para pegá-lo, ouvi um som estranho. Era como um arranhão muito alto e estava se tornando dolorosamente alto. Eu vi várias coisas simultaneamente, tipo em câmera lenta como acontece nos filmes. Havia uma van azul escura derrapando, pneus guinchando contra os freios, girando selvagemente no gelo do estacionamento e estava prestes a colidir comigo. Com o susto, escorreguei de bunda na neve. Retirei rapidamente minha varinha do casaco e apontei para a van:
- Immobilus!
De repente, senti alguma coisa sólida e fria me pressionado no chão. Um braço longo e branco me agarrou pela cintura, enquanto o outro ficou protetoramente na minha frente e a van parou a um palmo de distancia de mim. As mãos dele se moveram tão rápido que ficaram fora de foco. Enquanto eu olhava pasma para a marca da sua mão que afundou a lateral da van azul, ele olhava abismado para a varinha apontada que estava na minha mão. Isso durou uns longos três segundos. Depois os nossos rostos se encontraram e percebi que era aquele garoto de cabelo cor de bronze. Ele tinha os olhos castanho-dourados e um olhar penetrante... Aquele olhar de cabeça baixa, tipo por debaixo dos cílios... Era muito profundo! E isso durou uns longos cinco segundos.
Daí ele se levantou e saiu como se nada tivesse acontecido. Ele tentou me salvar? E onde raios ele estava? Força e velocidade. Tinha acabado de tirar as minhas dúvidas sobre aquele grupinho de novatos. Tudo ficou absolutamente silencioso por um longo minuto antes de a gritaria começar. E então eu vi uma multidão de pessoas com lágrimas saindo dos olhos e escorregando pelo rosto, dizendo:
- Tirem Diego da van!
Antes que eu pudesse me levantar, meu irmão voou em cima de mim e me puxou pelo braço desesperado.
- Luna, você está bem?
- Eu estou bem.
Guardei rapidamente a varinha na bolsa e me dei conta de uma dor pulsante centrada bem no meu tornozelo esquerdo. Aquele lindo escorregão me fez torcer o pé.
- Au! – eu disse surpresa.
- O quê? – falou meu irmão em prantos.
- Meu tornozelo! Está doendo demais!
Lucas me botou nos braços e me levou até a enfermaria do colégio, acompanhado de uma multidão de gente. O resto dos alunos teve que voltar para a aula, é claro. De lá, uma ambulância chegou e levou eu e o Diego para o hospital da cidade. Uns cinco minutos depois entrou na sala de enfermagem do hospital o meu pai, em pânico.
- Luna, você esta bem?
- Pela trigésima oitava vez! Eu já disse que estou bem! – exagerei, como sempre.
Diego estava deitado numa maca vizinha a minha, me implorando desculpas, com um ferimento ensangüentado na testa.
- Pode dizer adeus a sua carteira! – disse meu pai, agente de polícia, pro coitado.
Enquanto isso, em pé do meu lado, tinha um enfermeiro colocando um amortecedor no meu pé – tive que tirar a meia-calça e guardar na bolsa. Como eu acho bizarro usar aquilo. Eu já estava perdendo a paciência. Logo após entrou na sala o homem mais bonito que eu já vi em todos os meus dezessete anos! Ele parecia um astro de cinema, jovem e loiro e também tinha a pele bem pálida. Meu queixo caiu! E estava acompanhado de adivinha quem? Vou lhe dar uma dica: acabou de tentar me salvar.
Assim que ele olhou pro Diego, fez cara feia, pôs a mão no nariz, deu meia volta e saiu da sala.
- Então, senhorita Lovegood. – disse o médico com a voz cansada – Como é que você está se sentindo?
- Péssima doutor! Manda esse enfermeiro tirar este troço da minha perna! Está doendo demais!
- Minha filha! Tenha modos! – pediu meu pai, quase chorando de vergonha.
- Agora não, mocinha. Você vai ter que passar um tempinho com isso aí para justamente para de doer.
- Mas usar isso é o cúmulo do ridículo!
- Luna! – meu pai choramingou.
- Pai! – falei enfurecida, cruzando os braços e dando o meu showzinho.
Os dedos frios do doutor tatearam levemente o meu crânio. Ele percebeu quando eu gemi.
- Delicado?
- Na verdade não. – podia ser pior.
Eu ouvi uma gargalhada e olhei para ver o sorriso complacente do novato bonitinho que estava encostado na entrada da sala e eu nem tinha percebido. Nessa hora o celular do meu pai tocou. Com certeza era da polícia. Eu revirei os olhos.
- Com licença, doutor Cullen.
- Claro.
E saiu para atender o bendito do celular.
- Senhor Thomas, queira me acompanhar até a sala de raio-x, por favor.
Disse o médico, levando o Diego para outra sala. Assim que eles curvaram a porta, joguei minhas pernas pro lado da cama e comecei a tirar o amortecedor.
- O que você pensa que está fazendo?
Perguntou uma voz musical. Aquele mesmo garoto espetacular que tem um rosto ainda mais espetacular estava no pé da minha cama, sorrindo.
- Tirando essa coisa ridícula da minha perna!
- Por quê? – ele perguntou curioso.
Fiz uma breve pausa, ergui uma sobrancelha e disse rispidamente:
- Porque tudo o que é ridículo chama a atenção!
Ele me olhou fixamente e eu o encarei. Não foi fácil – seria mais natural admirá-lo. Se alguém passasse nessa hora e tivesse visto a gente assim, juraria ter visto dois raiozinhos saindo dos olhos dele. Alguns segundos se passaram em silencio, daí ele deu o primeiro sinal de vida.
- Acho que ainda não tive a oportunidade de me apresentar... Meu nome é Eduardo Cullen...
- Luna Lovegood.
E mais alguns segundos se passaram em silencio.
- Como você parou aquele carro? – ele perguntou impaciente.
- Não fui eu... foi você!
- Claro que não fui eu! E o que era aquele negócio na sua mão?
Então me coloquei rápido de pé. Rápido demais – eu cambaleei e quase caí. Num flash, ele se aproximou para tentar me segurar. Mas parou no meio do caminho, porque eu gritei apavorada:
- Não! Não chega perto de mim!
Ele ficou pasmo, me olhando. Depois baixou a cabeça. Tive raiva de mim mesma. Mas logo aquela dor insuportável no tornozelo esquerdo chegou de volta.
- Aaaauuu! – eu disse num gemido agonizante.
- Teimosa!
Ele falou já com o amortecedor na mão e colocando na minha perna – super-rápido.
- Como você faz isso? – eu perguntei.
- Meu pai é médico.
- Não, é...
Nesse exato momento meu pai entrou na sala e me colocou nos braços para me levar para casa.
BY: E. C.
Nós vampiros, além de sermos rápidos e fortes, também temos um poder interno. Eu, por exemplo, consigo ver e ouvir o pensamento das pessoas... de todo mundo. Bom, quase todo mundo. Aquela humana, cujo seu odor era alucinador para mim, era diferente das outras pessoas. Por algum motivo, eu não conseguia ler a sua mente. Isso nunca tinha acontecido antes. Jonnatah, um dos meus irmãos consegue sentir e interferir as emoções das pessoas. Emanuel possui uma força que é extraordinária até para um vampiro. Raqueli tem uma beleza inigualável – ou talvez sua teimosia. Já Alice tem o dom de ter visões sobre o futuro. Não só o dela, mas de outras pessoas também. Sempre quando ela tem esses presságios, eu leio a sua mente e assim também consigo ver. E foi exatamente por causa de uma visão dela que eu quase não expus aos humanos daquele colégio o que éramos de verdade.
Ás vezes estamos numa roda de colisão. E nós não sabemos, seja por acidente ou intencional, não podemos fazer nada a respeito com o destino. Bem... Ao menos que você tenha uma irmã que preverá que em poucos segundos ocorrerá um acidente de carro e que eu não me controlaria com o cheiro de sangue derramado no chão.
Assim que eu parei o meu Volvo no estacionamento da escola, aconteceu o que eu vi na visão de Alice. Aquela garota branquinha, cujo sangue eu desejava profundamente, estava descendo do carro em que o irmão dirigia, mas parou na lateral para ajeitar a bolsa. Logo em seguida, seu celular caíra no chão, na neve, e então ela abaixara para pegar. Daí se assustou e caiu, com o barulho de uma van que estava vindo em alta velocidade. Só que a van perdeu o controle e, girando e deslizando, iria atropelá-la.
Se ao menos uma coisa tivesse ocorrido diferente... Se seu irmão não tivesse estacionado o carro naquela vaga... Ou se ela não tivesse parado na lateral e tivesse ajeitado a bolsa antes... Ou se seu celular não tivesse caído no chão e ela não precisasse se abaixar... Talvez ela não teria se assustado com o barulho da van em alta velocidade e não tivesse quase morrido atropelada. Quase. Mas, sendo a vida como ela é, uma série de eventos e incidentes interligados... Num único segundo, tomei o impulso de correr para não deixar isso acontecer. Com um braço, eu a segurei. Mas quando ergui o outro para parar o carro, ele já estava parado á alguns centímetros de distancia. Mas como?
Na mão dela tinha apontada para a van uma vareta de madeira. Assim que ela percebeu que eu vi, tratou logo de esconder. Aquilo era intrigante. Então não fui eu quem parou o carro. Foi ela! Seu coração estava batendo tão forte que eu conseguia ouvir claramente. Seu sangue estava correndo quente em suas veias... E o seu cheiro... Eu tinha que sair dali, senão acabaria lhe atacando. Logo uma multidão de gente começou a chegar. Quando me encontrei com meus irmãos, eles me olharam com uma cara dura. Sim, eu ia levar bronca por ter corrido tão rápido na frente de um monte de humanos. Por sorte, nenhum deles percebeu. Mas a minha família... Encontrei com Carlos, nosso pai adotivo, no hospital e contei-lhe o que houvera acontecido. Ele pôs a mão em meu ombro e disse que agora estava tudo tranqüilo. Resolvi acompanhá-lo para ver se a menina estava bem. Mas assim que entrei na sala de enfermagem, senti cheiro de sangue escorrendo na testa daquele delinqüente que estava dirigindo a van. Tive que sair dali ás pressas. Carlos já está muito bem acostumado e consegue controlar seus instintos. Tanto é que ele é médico! Quando o pai dela saiu da sala para atender ao telefone celular e Carlos ter levado o garoto para tirar raio-x, tentei falar com ela. Fazia o estilo de garota mimada e, com o acidente, tinha torcido o pé. Ela tinha os olhos azul-arroxeados, grandes e curiosos, meio loucos e obcecados. Mas que não deixava escapar o seu jeito sarcástico e irônico, vulgar e trivial. Por um momento fiquei hipnotizado pela cor dos seus olhos. Aqueles azul-arroxeados eram exuberantes. Perguntei seu nome e ela me respondera com ar de superioridade:
- Luna Lovegood!
Mas uma coisa martelava na minha cabeça. Como ela parou a van? E o que ela aquela vareta na sua mão? Quando lhe fiz essas perguntas ela desceu da maca apressadamente, mas seu tornozelo começou a dor. Tentei ajudá-la a colocar o amortecedor na perna, mas ela gritou. Vi o medo transparecer nos seus olhos.
- Não! Não chega perto de mim!
Fiquei parado, perplexo, pois não queria assustá-la. Então abaixei a cabeça. Será que ela percebeu alguma coisa? Seria mais fácil descobrir se eu pudesse ler a sua mente. Logo seu pai chegou e a levou para casa. Voltei para a escola e só entrei na segunda aula. Meus irmãos ficaram me infernizando pelo pensamento o tempo todo. Realmente, nenhum outro humano tinha notado o que de fato aconteceu.
BY: L. L.
Dia de semana de manhã e eu não tinha nada para fazer, a não ser voltar á dormir. Meu pai me deixou em casa e voltou pro trabalho. Meu irmão continuava no colégio. Mas meu pé estava doendo demais e eu acabei perdendo o sono. Bom, já que ninguém mais estava em casa... fui futricar no porão. Lá dentro, em cima da enorme estante de livros, tinha as únicas coisas que meu pai conservava de lembrança dos meus avós paternos: uma capa de invisibilidade, que pertenceu ao meu avô... E um velho chapéu pontiagudo de bruxo, que pertenceu á minha avó. Infelizmente nunca tive a oportunidade de conhecê-los.
Já era hora do almoço quando meu irmão chegou e me levou de carro pro restaurante, encontrar com o papai.
Meu namorado, o Rafa, anda sumido. Quase não me liga mais. Sou eu quem liga pra ele. Que saco! Eu amo a minha vida.
No dia seguinte, meu tornozelo esquerdo já estava melhor. Então eu pude ir à escola normalmente (e sem a droga do amortecedor!). Nos dias que se seguiram, percebi que nenhum dos “vampiros” olharam mais na minha direção. Até aquele garoto de cabelo cor de bronze, o Eduardo, quando sentava perto de mim na sala, tão longe de mim quanto a mesa permitia. Só de vez em quando, quando os pulsos dele se apertavam – a pele ficava ainda mais pálida ao redor dos ossos – eu ficava imaginando se ele estava mesmo tão inconsciente quanto queria fazer parecer, pois não falou mais comigo.
Ok! Se é assim que ele quer, assim será! Não sou louca de arriscar a minha vida se metendo com esse “tipo de gente”.
Mais uma semana se passou e eu já estava ficando com abuso de tanta neve. A neve daqui não é branquinha e fofinha – parece mais cotonetes usados. Numa certa aula de história, percebi que Eduardo estava me olhando cheio de curiosidade, aquele mesmo olhar de frustração ainda mais distintos agora nos seus olhos castanho-dourados.
- Luna...
Não deixei ele terminar de falar e me levantei da carteira. Quanto mais ignorar, melhor pra mim.
BY: E. C.
Minha cabeça estava rodando de perguntas sobre aquela humana. Tentei falar com ela na sala de aula, mas fingiu não me escutar. Quando se levantou da carteira, deixou cair desatentamente alguma coisa. Daí, peguei para devolvê-la, mas ela já estava longe. Quando olhei o objeto, tive uma surpresa: era uma pequena chave de prata enfeitada com quatro pedrinhas preciosas diferentes. De lado estava escrito: L & L. Tudo bem, no dia seguinte eu entregaria, então. Em casa, mostrei a chave a Carlos e seus olhos brilharam. Disse que aquilo era muito valioso e parecia ser de família. E que as pedrinhas eram de safira, rubi, diamante e esmeralda. Poxa! Eu tinha que devolver logo.
BY: L. L.
Cheguei em casa morta de cansada. Não estava a fim de fazer tarefa, então fui arrumar o meu quarto. Encontrei jogado embaixo da cama um Lembrol. É um artefato mágico, uma bolinha de cristal. Se pegarmos nele e uma fumaçinha vermelha aparecer dentro, significa que esquecemos alguma coisa. O único problema é que ele não mostra o que a pessoa esqueceu. E eu fiquei nervosa. Só de tarde eu fui notar que tinha perdido a chave da minha caixinha de música. Tinha pendurado no meu cordão, ao lado da lua. Agora eu estava ferrada! Aquilo era muito valioso, tanto no emocional quanto no material. Minha mãe tinha dado uma caixinha de música para mim e Lara. Mas Lara nunca ligou para a caixinha, então eu guardo até hoje no meu quarto. Mas, e a chave? O que eu iria dizer pro meu pai?
Quando eu quero conversar com ele, sempre o chamo para jogar xadrez. E ele sempre ganha. Então, depois que ele chegou do trabalho, a gente jogou uma partida e contei-lhe o que havia acontecido. Notei que ele ficou desanimado e disse que se em três dias eu não achasse a chave, poderia dizer olá para o castigo. Perfeito! Inacreditável como minha vida é! Eu devo ter jogado pedra na cruz, depois ter colado chiclete atrás da cruz e apontado:
- “Otário! Que idiota! Se deu mal!”
Só pode ter sido isso!
BY: E. C.
De madrugada, fui até o quarto dela outra vez, devolver sua chave, para não ter que falar com ela de manhã no colégio. Ia colocar a chave em cima de uma cômoda, ao lado de sua cama quando vi aquela mesma vareta de madeira. Quando segurei-a, senti uma força percorrer o meu corpo... E eu comecei a me sentir forte, tão forte...
Deixei cair no chão. Foi aí que percebi que havia uma caixinha prateada, também em cima da cômoda. Era do mesmo material que a chave e tinha uma pequena fechadura. Dei corda na caixinha e a chave começou a girar, produzindo uma música baixinha. Era uma música misteriosa que eu nunca tinha ouvido antes. Então eu fiquei hipnotizado pela música, em estado de transe por alguns minutos. Era linda demais! Dei corda novamente na caixinha e assim fiquei no quarto até o amanhecer: ouvindo a música e inalando o apetitoso cheiro daquela garota cheia de segredos. Ela tinha que me dar uma explicação no colégio. O que era aquela vareta misteriosa? Porque a música da caixinha me hipnotizava? Ela tinha uma irmã gêmea, afinal? Porque não posso ler sua mente?
Em casa, fui até o piano de cauda preto que tem na sala e toquei aquela musiquinha que não saía da minha mente. E ficou perfeita! Quando terminei de tocar, olhei para trás e vi todos me olhando encantados. Eliza, nossa “mãe”, veio correndo me abraçar de tão emocionada. Carlos me prestigiou pela belíssima canção. Realmente... era linda mesmo!
BY: L. L.
Credo! Acordei como meu cabelo nada legal, então resolvi deixá-lo preso numa pirainha. Mais uma vez, fiquei fofa! Foi quando eu reparei que a minha varinha estava no chão e a chave da caixinha de música no seu lugar. Corri pro quarto do meu irmão e comecei a pular de alegria em cima da cama dele. Começamos a pular juntos feito uma dupla de loucos. O meu humor estava ótimo, tanto é que estava nevando. Adoro ver aqueles floquinhos de neve cair do céu! Mas ficaria ainda melhor se eu não tivesse aula de história duas vezes na semana. O tempo foi passando e finalmente março chegou. O início da primavera. Chega de neve! O Rafa finalmente se tocou que não estava me dando atenção o suficiente e até que ele ficou mais carinhoso. Passamos uma tarde toda no shopping. Hiper-romântico!
Hoje de manhã, o fofo do meu namorado passou em casa pra me deixar no colégio... pra desgosto do meu irmão. E justamente neste dia, eu e a minha amiga Bárbara conversamos tanto na sala de aula que a professora de inglês nos pôs pra fora. Tudo bem, não era a primeira vez mesmo. Resumindo: suspensão.
O pai da Bárbara veio pegá-la. Já eu tive que avisar pro meu irmão que levaria o carro, para depois, no almoço, eu vir buscá-lo. Eu sei dirigir um pouco. Não tenho carteira. Se meu pai descobrisse que eu levei suspensão na escola – tudo bem. Agora, se ele descobrisse que eu peguei o carro e dirigi sem ter carteira de motorista e idade – não ia ficar nada bem. Mas, afinal, minha casa era bem pertinho.
Quando cheguei ao estacionamento, deixei as chaves do carro cair numa poça de água de chuva aos meus pés. Enquanto eu me abaixava para pegá-las, uma mão branca pegou-as num flash antes que eu pudesse tentar. Eduardo Cullen estava bem na minha frente.
- Como você faz isso?
- Faz o quê? – ele me jogou as chaves enquanto falava.
- Aparece do nada aqui neste estacionamento!
- Luna, não é culpa minha que você não é particularmente observadora.
Ele parecia estar se divertindo, então eu dei as costas e comecei a caminhar.
- Espere! – ele me chamou e eu continuei andando, mas ele estava perto de mim, acompanhando o meu passo facilmente. – Me desculpe por ser rude. – ele disse enquanto andávamos. Eu o ignorei. – Eu não estou dizendo que não é verdade, mas mesmo assim foi rude.
- Ah, ta... Valeu!
- E afinal, o que você está fazendo aqui? – seu rosto flamejante parecia ser moldado a cera.
- Eu e a Bárbara fomos suspensas... Estávamos conversando demais, quando a professora nos tirou de sala.
- E você vai embora dirigindo? Você por acaso tem idade para ter carteira? – perguntou curioso.
- Não... – disse olhando outra vez a sua face assombrosamente perfeita.
Ele pensou um pouco. Olhou para baixo e depois olhou para mim arrebatadoramente. Seus olhos castanho-dourados chamuscaram. Eu pisquei vacilante. Santa Mãe, como é que ele fazia isso? Bonito era um adjetivo fraco. Então ele falou calmamente:
- Se você quiser eu posso te deixar em casa!
- Não precisa... Obrigada. – senti minhas bochechas arderem.
Falei olhando pro seu carro de luxo. Acho que ele notou o brilho nos meus olhos, pois sua expressão ficou divertida.
- Tem certeza? – percebi o seu tom de brincadeira.
- Hummm... – ainda indecisa, olhando pro carro.
E que carro! Olhei para o seu rosto e continuei calada, sem saber o que falar.
- Acho que só uma carona não faz mal a ninguém. – comentou ele, quebrando minha concentração.
Então levantei uma sobrancelha e disse num sarcasmo pesado:
- Depende de quem dá a carona!
Os seus lábios se pressionaram e todos os sinais de humor tinham desaparecido do seu rosto angelical e imaculado.
- O que você quis dizer com isso? – ele perguntou severamente.
- Que não vou aceitar, obrigada. – respondi, tentando parecer santa.
Quando eu ia destravar o alarme, ele rapidamente tomou da minha mão e me agarrou pelo casaco, me puxando enfurecido.
- Ah... me solta! – eu insisti.
Ele me ignorou. Então, quando finalmente chegamos ao seu carro, ele me liberou. Eu quase me bati na porta do passageiro.
- Eu já disse que não preciso!
- Está aberta.
Foi tudo o que ele respondeu. Ele foi para o lado do motorista. Eu estava calculando as minhas chances de alcançar meu carro antes dele me pegar. Tenho que admitir, as chances não eram boas.
- Eu vou pegar você de novo. – ele ameaçou, adivinhando meu plano.
Entrei no carro fumaçando e ainda bati a porta com força excessiva.
- Isso foi completamente desnecessário. Se eu quisesse carona teria pedido pro meu namorado!
Ele não respondeu. Apenas mexeu nos controles e aumentou o aquecedor. Enquanto ele saía do estacionamento, eu estava me preparando para dar a ele o meu tratamento do silencio – meu rosto demonstrando minhas intenções – mas daí eu me lembrei:
- Agora que eu me toquei. Você também não devia estar na aula?
- É saudável matar aula de vez em quando.
- Sei... – respondi vendo que a velocidade estava muito alta. — Você dirige como um louco. Reduza a velocidade!
- Não se preocupe. Eu nunca levei uma multa! – ele contou se orgulhando.
- Mas isso está me deixando nervosa!
Num impulso, ele baixou de 80 para 40 km/h.
- Desculpe. – ele falou desanimado.
Passamos algum tempo em silencio e quando parou o carro, eu resolvi perguntar ingenuamente:
- Eduardo, quantos anos você tem?
- Dezoito!? – ele me respondeu surpreso.
Daí eu perguntei de novo misteriosamente irônica:
- E há quanto tempo tem dezoito?
Ele me olhou com uma expressão assustadoramente horrorizada. Decidi que era melhor já sair do carro. Ele ficou alguns segundos parado e depois foi embora.
BY: E. C.
Aquela já era a terceira noite que eu ia até o seu quarto para vê-la dormir. Aquilo era tão intrigante pra mim... Foi aí que eu percebi que debaixo do seu travesseiro havia um livro. Com certeza ela deve ter adormecido lendo-o. Tirei cuidadosamente para não acordá-la. Ele era um pouquinho grosso, meio antigo. O que me surpreendeu foi o título da capa: A MAGIA E A FEITIÇARIA ATRAVÉZ DOS SÉCULOS. Já que eu não estava fazendo nada, resolvi dar uma olhadinha. Contava histórias de grandes “feiticeiros” que tiveram papéis importantes na história da “feitiçaria”, etc. e tal. Daí eu refleti um pouco. Olhei para o graveto de madeira em cima da cômoda e depois fitei seu colar no seu pescoço em forma de lua. Será que ela... Não, que é isso! Estou ficando paranóico. Mas, então, será que Luna sabia que eu sou um vampiro?
BY: L. L.
No colégio, no intervalo, Sophia me olhou com um sorrisinho malicioso e disse:
- Tem um cara lindo olhando pra você agora, Luna!
Eu segui o olhar dela pra ver Eduardo, sorrindo, me observando de uma mesa vazia no lado contrário de onde ele se sentava de costume. Os outros que acompanhava ele não estavam na lanchonete. Assim que ele encontrou os meus olhos, fez um gesto com o dedo indicador pedindo pra que eu me juntasse a ele. Revirei os olhos e me levantei. Quando alcancei sua mesa, fiquei de pé atrás da cadeira na frente dele, esperando.
- Porque você não se senta comigo hoje? – ele me perguntou sorrindo.
Olhei pros meus amigos e depois pra ele de novo. Então sentei, observando ele com cuidado. Ele ainda estava sorrindo e parecia esperar que eu dissesse alguma coisa.
- Quê? – eu disse suspirando.
- Acho que seus amigos estão bravos comigo por roubar você.
- Ah, é... Com certeza!
- Porém, eu posso não te devolver... – os seus olhos cor de mel me ofuscaram por dentro.
Olhei pro lado, tentando esconder a minha cara de aflição.
- Posso te perguntar uma coisa?
- Já ta perguntando! – eu falei impaciente.
- Você tem um temperamento um pouco forte, não tem?
- Não gosto de duplos padrões.
Nós encaramos um ao outro sem sorrir. Olhei pra a chuva caindo pela janela de vidro, viajando no mundo da lua, enquanto ele não tirava os olhos de mim.
- No que você está pensando? – acordei dos pensamentos e me virei surpresa.
- Em nada... Por quê?
- Estou tentando descobrir o que você é.
Meus olhos se arregalaram incrédula.
- E está tendo alguma sorte? – perguntei num tom desinteressado.
- Não muita. – ele admitiu. – Mas eu quero saber a verdade. – falou com uma expressão nada amigável.
- Que verdade? – eu o encarei desafiadoramente.
- Luna, o que você é afinal?
Eu fiquei rígida. Então olhei para baixo confusa sem saber o que falar.
- Eu sei que você esconde algum segredo. Você não tem força o suficiente para parar uma van! – ele continuou e se inclinou pra frente.
- Escuta! Não é que eu não queira contar... É que eu não posso!
- Por quê?
- Porque isso poderia trazer problemas pra mim e pra minha família!
Falei ainda olhando para baixo e intimidada com a intensidade do seu olhar. Ele ficou em silencio e depois disse:
- Eu acho que eu sei o que você é.
- Ninguém vai acreditar em você! – repliquei furiosa e já levantando a cabeça.
- Eu não ia contar pra ninguém. – ele falou vagarosamente.
- Então porque você se importa? Porque não fica longe de mim?
Ele respondeu frigidamente.
- Eu... não... sei...
Nós nos olhamos em silencio. Eu fui a primeira a quebrar o silencio, tentando manter o foco:
- Você não vai desistir, vai?
- Não.
- Nesse caso, espero que goste de ser desapontado.
Quando eu ia me levantar, ele puxou o meu pulso com tanta força que eu pensei que fosse quebrar. O seu temperamento estava em chamas, esperando por uma resposta. Olhei para os lados para ver se ninguém estava observando. Fiquei com tanta raiva que disse na lata:
- Você acreditaria se eu contasse que sou uma feiticeira?
Ele me soltou boquiaberto.
O sinal tocou e nós continuamos sentados, em silencio. Eu olhando pra baixo de novo. Quando o fluxo de pessoas diminuiu, ele continuou:
- Feiticeira? E você acreditaria se eu contasse que sou um vampiro?
Olhei pra ele erguendo uma sobrancelha e fazendo sinal afirmativo com a cabeça.
Novamente ficamos calados. Daí eu disse calmamente, vendo a chuva cair pela janela de vidro da lanchonete:
- Sabe... Ao invés de fugir das pessoas, eu me junto á elas. Porque você acha que eu sou tão popular nesse colégio? Não porque eu fico me insinuando pros garotos do basquete, nada disso! Sou popular porque gosto de ter amigos. – então eu me virei pra ele – E amigos aceitam uns aos outros do jeito que são.
Ele ficou calado e depois confessou meio sussurrando:
- Luna, seria mais... prudente se você não fosse minha amiga. – ele explicou.
Eu entendi. Era realmente perigoso.
- Você está certo. – eu me virei para avisar que iria sair.
- Eu falei que seria melhor se não fossemos amigos, não que eu não queria.
Ele sorriu brevemente com a minha expressão de confusa, e então seu rosto ficou sério de novo.
- Mas você realmente devia ficar longe de mim. – ele avisou. – Te vejo na aula.
Eduardo se levantou e me deixou na mesa sozinha – ou, melhor dizendo – na lanchonete sozinha. Eu ainda fiquei alguns segundinhos tentando reagrupar a memória e a respiração. Entrei na sala de história atrasada.
BY: E. C.
108 anos de idade.
90 como vampiro.
Uma humana, aparentemente comum, me intrigou.
Seu odor era o mais doce que já senti.
Sua mente estava bloqueada, assim eu não podia ouvir seus pensamentos.
Um certo dia descobri o seu segredo: ela era uma feiticeira.
E aquilo foi uma descoberta fantástica.
Até o momento em que me vi obcecado pelos seus grandes olhos azul-arroxeado.
E isso me fez sentir bem.
BY: L. L.
De tarde, quando não estamos fazendo nada, Lucas e eu vamos jogar vídeo-game na sala. Tenho uma aproximação amigável com meu irmão. Tudo bem que rola umas briguinhas de vez em quando. Até que é legal ter um irmão mais velho que gosta de cuidar de você. Mas o que mais me incomoda é a sua petulância, esse ciúme bobo que ele tem do meu namorado. E para a sua felicidade, no dia seguinte de manhãzinha, antes da escola, o Rafa me ligou dizendo que queria acabar o nosso namoro. Falou que não sentia mais por mim o que ele sentia antes. Fiquei tão magoada com a notícia que acabei deixando escapar algumas lágrimas. Meu irmão veio me abraçar e disse que já estava na hora disso acontecer mesmo. Oh, grande apoio!
Estava fazendo 12°C. Meu nariz congelou. Fiz meu penteado do dia: prendi uma madeixa de cabelo em cima da cabeça com duas fivelinhas. E como sempre, fiquei fofa!
No colégio, passei a manhã toda calada. Minhas amigas ficaram preocupadas e no intervalo nós quatro fomos conversar no banheiro. Contei que meu namorado me deu um fora e elas me aconselharam a não mais quebrar cabeça com esse idiota. Nosso bate-papo até que me deixou mais relaxada, mas não mudou o meu humor. Eu ainda continuei de baixo astral. Como eu sou popular, quase todo mundo fala comigo naquele colégio que tem um pouco mais que trezentos e cinqüenta alunos. Tenho um monte de colegas. Mas, em especial, tenho minhas três amigas preferidas: Deborah, Sophia e Bárbara. Das três, minha melhor amiga é a Bárbara, uma ruivinha de cabelos lisos e alaranjados que adora traquinagem, como eu. Já fomos suspensas e levamos detenção tantas vezes! Ela senta do meu lado sempre nas aulas que temos juntas. É uma grande amiga! Ela adora música, moda e tecnologia. Tem também a Sophia, uma loirinha, com as pontas dos cabelos azuis, que é toda sensual. Ela ama cinema, viagens e principalmente garotos. E finalmente a Deborah, que é moreninha, esportista e elétrica. Todo mês nós vamos passear no shopping ou combinamos de ir pra balada. Somos o quarteto mais influente da escola! Mas, o problema de ser popular é que em pouco tempo toda a escola já fica sabendo de alguma coisa grave sobre você. E a fofoca de que meu namorado e eu terminamos correu o colégio. Bom, tudo bem. Falem mal de mim, mas falem de mim.
BY: E. C.
Na manhã seguinte, quando eu a vi na lanchonete, havia algo diferente no seu rosto, e eu não conseguia apontar qual era essa diferença. Eu a examinei mais cuidadosamente. Estava mais séria do que nos outros dias, mas não era só isso. Eu refleti, encarando, tentando descobrir a diferença. Quando ela percebia que tinha algum garoto a olhando, então abaixava a cabeça e fazia uma expressão de raiva. Mas praticamente quase todos os garotos daquela lanchonete a fitavam com luxúria! Eu não tinha história hoje, então não deu para falar com ela. Mas, lendo a mente das outras pessoas, soube o que estava acontecendo. Ela não estava mais namorando. Senti uma ponta de alegria correr pelo meu corpo. Quando deu meia-noite de sexta para sábado, fui até a casa de Luna. A luz do seu quarto estava acessa. Bom, como não queria perder a viagem, abri a janela que estava apenas encostada e entrei silenciosamente. Ela nem percebeu porque estava deitada na cama, de bruços, com as pernas cruzadas pra cima, teclando no seu notebook. Sem querer, eu fiz barulho quando ia fechar a janela e ela levantou a cabeça assustada.
- Como você entrou aqui?
- Pela janela! – falei brincando.
- Não é perigoso um vampiro entrar numa casa onde não é convidado?
Comecei a rir baixinho. Isso não tinha muita lógica.
- Queria saber como é a vida de uma feiticeira.
- Não é muito interessante. – falou séria sem tirar a atenção do computador.
Me sentei num sofá abaixo da janela e perguntei intrigado:
- Sou um vampiro e você uma humana! Devia ter medo de mim!
Ela apenas levantou a cabeça pra me olhar.
- Sou uma feiticeira e você um ser das trevas! Devia ter medo de mim!
- Então é isso que você acha que eu sou? Um monstro? Não, Luna, eu e minha família não matamos pessoas... Apenas animais da floresta.
Ela abaixou a cabeça e voltou sua atenção novamente pro notebook.
- Desculpe, então. – ela falou.
- Fale mais baixo, senão vão descobrir que estou aqui! – disse sussurrando.
- Não! Não se preocupe! Agora meu pai já deve estar sonhando e meu irmão vai passar esse fim de semana na casa de alguns amigos.
Ela contou ainda olhando pro notebook.
- Luna... Queria te perguntar uma coisa... – ela continuou em silencio. – Você voa em vassoura? – ela se virou pra mim surpresa e perguntou sarcástica:
- Você voa como um morcego?
- Não!
- Pois é... Eu também não...
Ela riu. E mais alguns segundos se passaram.
- Isso o que você está fazendo é tão importante? – disse entediado.
- OK! Você venceu!
Ela olhou pra mim, dando um leve sorriso e se levantou pra guardar o computador. Não tinha reparado ainda nas roupas que ela usava. Estava com o cabelo preso em duas “marias-chiquinhas” não muito altas, vestindo uma camiseta grande, quase escondendo um shortinho jeans e meias listradas de rosa e verde, que iam até embaixo do joelho. Parecia uma boneca. Quando ela notou que eu estava lhe observando, virei meu rosto rapidamente numa fração de segundos e olhei pro teto.
- Que constelação é essa?
Indaguei ainda olhando pra cima. Ela voltou, pegou aquela vareta de madeira e apontou pras estrelinhas de neon. Erguendo o braço pra cima, foi ligando cada estrelinha á outra, como se no ar aparecesse uma fumaça branca. Eu fiquei boquiaberto. Aquilo era magnífico! Ela olhou pra mim e riu da minha cara, de bobo.
- É a constelação de escorpião... Meu signo!
Seus olhos me hipnotizaram. Depois aquela fumaçinha branca foi sumindo no ar e ela guardou a vareta.
- C-Como você fez isso? – perguntei gaguejando.
- Com a minha varinha!
Luna respondeu com um pouco de ironia, mas logo foi para debaixo do cobertor.
- Hummm... Acho que já está na sua hora!
- Oh, desculpe. Não quis atrapalhar seu sono. Até mais!
Eu pulei rapidamente pela janela e fui para minha casa ainda intrigado com aquela humana – digo, feiticeira.
BY: L. L.
O assunto do dia foi: A TEMPESTADE DA NOITE DE DOMINGO.
Essa manhã no colégio eu tava morta de sono. Não tinha pregado o olho um minuto sequer a noite todinha. Fui para a escola com o cabelo meio-preso. Reparti-lo na horizontal e amarrei a parte de cima com uma lingüinha. E novamente fiquei fofa (adoro dizer isso). Fiz uma rodinha com minhas três amigas, e mais o Samuel e o Diego. Eu falava fazendo gestos com os braços e me descabelando toda. E eles morriam de rir. Pelo canto do olho, notei que os Cullens também estavam prestando atenção.
-... Foi horrível! Eu tava morrendo de medo. Parecia que o mundo ia acabar! De madrugada eu corri pra cama do Lucas e nós ficamos agarrados, embaixo do cobertor, fazendo cabaninha...
E dá-lhe mais risos! Continuei:
-... A gente ia até a cozinha tomar suco de maracujá, chá de camomila e nada da droga do sono chegar. Só fomos dormir lá pras quatro da manhã. Duas horas depois, ás seis, o idiota do Lucas me derrubou da cama. Eu caí de costas. Estou toda quebrada!
E a gente se engasgava de tanto gargalhar. Apesar do enorme cansaço, eu estava bem ativa hoje. Na sala, antes do professor de literatura chegar, eu e a Bárbara fomos lá pra lousa, pegamos dois pincéis e ficamos jogando forca e jogo da velha.
De tarde, depois do almoço, Lucas me deixou no shopping Center e voltou pra casa. Eu consegui pegar o cartão de crédito de papai, escondida, na sua carteira, no restaurante, e precisava de umas comprinhas básicas. Depois de um sorvete de chocolate, eu entrei numa loja de calçados. Eu procurei o que eu tinha visto no catalogo, mais não encontrei, então fui procurar uma atendente. A auxiliar de vendas mais próxima de mim estava falando com uma garota bem simpática. Ela estava com um monte de sacolas de compras nos braços com marcas de lojas de grife. Assim que eu cheguei perto, ela ficou estática como se estivesse vendo algo mais do que a parede da loja. Então ela se virou pra mim e sorriu. Eu a reconheci. Era uma das “vampiras” novatas.
- Olá, meu nome é Alice! Nós estudamos na mesma escola.
- Oi, eu sei. Eu sou Luna. – ela parecia querer fazer amizade comigo – essas sacolas são todas suas?
- São sim. Eu estou indo na Prada agora. Você quer me acompanhar?
- Claro!
Fomos a lojas de roupas, perfumarias, acessórios e principalmente sapatos. Damo-nos tão bem que parecia que eu a conhecia há anos. Alice andava com um passo rápido e gracioso – passos de dançarina. Quando ela foi me deixar em casa, no seu carro, um Porsche amarelo, me perguntou cautelosamente:
- Luna, Eduardo me disse que você sabe o que nós somos... E disse também que você e sua família são feiticeiros. Mas como assim feiticeiros?
- Pelo visto, seu irmão sabe mesmo guardar segredo, não é? – disse olhando pro lado, meio emburrada. Mas ela continuava esperando uma resposta. – Tudo bem. Creio que ainda dá tempo de te mostrar um lugar fantástico! Com certeza você vai adorar! Mas você tem que me prometer que não vai contar pra ninguém!
- Tudo bem, eu prometo. E que lugar é esse? – ela perguntou já curiosa.
- Fica no centro de Forks, na Rua Little Windding, nº 713.
BY: A. C.
Estacionei embaixo de uma árvore, um pouco distante do local e perguntei a Luna ainda dentro do carro.
- Mas não existe nº 713! Há apenas um muro preto e velho entre as lojas dos 710 e 715!
- Bom, você só encontrará se souber aonde ir. – ela disse com um ar de mistério.
Então me virei novamente e no meio do muro tinha aparecido do nada uma porta, também preta e antiga, de madeira grossa e em cima uma placa de ferro que dizia: BAR CALDEIRÃO FURADO. As pessoas que passavam em frente pareciam não perceber que havia aquela entrada.
- Da onde surgiu esse bar?
- Vamos! – ela falou me puxando. – Os trouxas não vêem!
- Trouxas?
- É como chamamos quem não é feiticeiro.
Daí entramos e haviam várias pessoas conversando e bebendo. Algumas delas estavam vestindo roupas vitorianas. Um homem pálido, com um enorme turbante roxo envolta da cabeça nos abordou.
- Srta. Lovego-go-go-de! Vê-ve-jo que está aco-co-companhada po-por alg-g-guem diferente, não é?
Ele era gago e disse sorrindo, olhando diretamente pra mim.
- Ah, como vai Sr. Antonio? Essa é minha amiga Alice.
- Como vai, Ali-li-lice?
Eu dei um sorrisinho frouxo e um aperto de mão. Mas quando as toquei, senti suas mãos tão gélidas quanto as minhas. Ele sorriu satisfeito.
- Temos que ir. Até mais.
- Até ma-mais!
Luna me levou até uma sala fechada, onde estavam guardados vários barris de vinhos. Ela tirou do casaco uma varetinha de madeira.
- O que é isso?
- Minha varinha!
Deu três batucadas na esquerda e duas na direita, ao redor de um tijolo fundo na parede.
- Vamos! – ela puxou novamente pelo braço.
- Espera! Você vai se tacar na parede?
- Calma Alice! É só um portal!
Puxou-me outra vez e passamos por dentro da parede. Fiquei boquiaberta quando abri os olhos.
- Bem-vinda ao Beco Diagonal.
- UAU! – eu estava encantada!
Era uma rua de caminhos de pedra. Tinha muita gente, alguns com roupas estranhas e muito comércio também. As lojas eram sóbrias, com estilos antigos e meio tortas. Passeamos pelos becos e entramos em vários lugares, mas Luna não me deixou comprar nada. Havia lojas de livros; de doces com os sabores mais estranhos tipo espinafre e peixe; lojas de animais que vendiam gatos, sapos e principalmente corujas; lojas de artefatos mágicos; bares e finalmente lojas de varinhas.
- Ali, no Olivaras – 382 a.C. – foi onde meus pais compraram as minhas primeiras varinhas.
- E que lugar é aquele ao fundo?
- Gringotes! O banco dos feiticeiros.
Andamos mais um pouco, até que chegamos perto de um bequinho estreito e eu perguntei:
- Luna, porque não vamos por aqui também?
- Não! Essa é a Travessa do Tranco. Um lugar suspeito! Podem achar que não estamos fazendo boa coisa. – ela disse com um ar alarmante.
- Magia negra? – falei sem pensar.
Ela logo mudou de assunto e continuamos a entrar nas lojas. Num certo momento, alguns rapazes estavam vindo em nossa direção e um deles esbarrou de propósito com força em Luna.
- Sua sangue-ruim! Você e sua família envergonham o nome dos feiticeiros andando com hematófagos! – ele gritou zombando e algumas pessoas que estavam passando por perto se afastaram.
Puxei o braço de Luna, que ficou rígida e resolvemos ir embora. No meu carro, ela ficou calada, então eu perguntei:
- Do que aquele cara te chamou?
- Me chamou de sangue-ruim. – ela falou olhando entristecida pra janela.
- E o que significa?
Ela suspirou e disse:
- Significa sangue-sujo. É como se humilha os feiticeiros mestiços.
- Mestiços? Você é mestiça? – eu ainda estava curiosa.
- Eu e meus irmãos. Meu pai era filho de feiticeiros, mas minha mãe era filha de trouxas. Dessa mistura de sangues diferentes, eu e meus irmãos nascemos mestiços.
- Mas porque aquele estranho humilhou você daquele jeito?
Luna ficou impaciente.
- Acontece Alice, que há alguns feiticeiros que se acham melhores do que os outros por terem o chamado “sangue-puro”.
- Isso é horrível! – realmente eu estava chocada.
- E é a maior besteira! – Luna abaixou a cabeça novamente.
- Oh, querida, esqueça isso... Mas me responda uma coisa: porque aquele rapaz me chamou de hematófaga? Como ele sabia que...
- Bom, acho que você percebeu que aquele homem que nos cumprimentou na entrada do Beco Diagonal é igual a você, não é? – ela riu.
- Exatamente... Mas, vampiros podem ser feiticeiros?
- Alguns... Obrigada pela carona Alice! Até amanhã. – já havia estacionado o carro enfrente a sua casa.
- Durma bem, querida! – eu me despedi.
Como ela me pediu antes, eu não podia contar pra ninguém do nosso passeio. Afinal, segredos são coisas de amigas.
BY: E. C.
De madrugada fui novamente à casa de Luna, mas ela estava dormindo. Então fui dar uma volta pela casa. Não precisei de luz alguma para enxergar no escuro. Desci até o andar de baixo. Tudo era bem sofisticado e havia muitos aparelhos eletrônicos. As duas salas pareciam ser bem confortáveis. Mas havia outra porta ali, perto da cozinha. Não estava trancada, daí eu resolvi entrar. Tinha uma escada que descia até a uma câmara secreta – ou será que era apenas um porão? Havia muitas coisas naquele subsolo, que cheirava a incenso. A maioria estava empacotada dentro de amontoadas caixas. Havia também uma enorme estante de livros e outra estante cheia de vidrinhos com líquidos dentro. Uma grande mesa circular ao centro, sem cadeira e bastante teia de aranha. Mas sem aranhas. Na parede á direita tinha um pequeno armário de vidro guardando um punhal prateado – ótimo para matar vampiros. Estava bem conservado e parecia ser verdadeiro. Ao fundo, tinha uma coisa coberta com um manto, que ia quase até o teto. Estava morto de curiosidade para saber o que estava escondido, então puxei o manto levemente. Era um espelho enorme, com molduras de ferro envelhecido e em cima tinha escrito numa forma circular: ESPELHO DE OJESED. E qual não foi a minha surpresa, vi meu reflexo pela primeira vez em 90 anos. Fiquei em estado de choque! Como aquele espelho poderia mostrar a imagem de um vampiro? Será que era mágico? Sentei no chão, olhando pro meu reflexo.
- Eduardo?
Levantei-me rapidamente e vi Luna atrás de mim, sorrindo.
- Desculpe... Eu não queria mexer... Eu nem devia estar aqui...
- Não! Não estou com raiva! – ela disse sorrindo e então fiquei mais calmo.
Luna sentou-se no chão, diante ao espelho e pediu que eu me sentasse também. Daí ela começou a falar e eu a ouvi atentamente, ainda surpreso.
- Vejo que você descobriu os prazeres do Espelho de Ojesed. Imagino que, a essa altura, já saiba o que ele faz.
Afirmei com a cabeça e ela fez uma breve pausa, continuando.
- Deixe-me dar uma pista: o homem mais feliz do mundo olharia para o espelho e veria somente a si próprio, exatamente como ele é.
- Então ele mostra o que queremos, seja lá o que for?
- Sim... E não! – ela falou cautelosamente – Ele nos mostra nada mais nada menos do que os desejos mais profundo e desesperados de nosso coração. Você, que há anos não via seu próprio reflexo, o vê agora através do espelho. Mas lembre-se de uma coisa: esse espelho não nos dá nem o conhecimento nem a verdade. Alguns de sua... espécie... definharam diante de outros espelhos como este. Até enlouqueceram! É por isso que, eu tenho que te pedir para não voltar a procurá-lo. Não vale a pena mergulhar nos sonhos e esquecer de viver...
Depois desse seu discurso enorme, ficamos alguns segundos em silencio. Ela se levantou e eu a ajudei a colocar o manto de volta no lugar. Daí eu a perguntei:
- Esse espelho pode mostrar o futuro?
- Como? Se minha mãe está morta!
Luna disse olhando tristemente pra baixo. Levantei o seu rosto com meus dedos em seu queixo.
- Então é isso que você vê?
Ela se virou e começou a subir as escadas, de volta para a cozinha, que estava com a luz acessa. Depois que eu saí, ela apenas fechou a porta, sem trancar. Quando chegamos no seu quarto, eu perguntei:
- Como você descobriu que eu estava ali embaixo?
- Vim pegar um copo d’água. Não me admiro nem um pouco que quisesse conhecer os artefatos de feitiçaria.
- Então o que tem no porão são artefatos mágicos? – perguntei curioso.
- Sim... – ela fez uma cara de sono.
- Você vai me contar tudo sobre isso.
Corri até a janela em direção a floresta.
Fale com o autor