Used

3 Capítulo 3 - Idiota.


Notas iniciais
LOOK WHO'S BACK!
Postando o capítulo 3 porque já estava na hora ~

Naquela noite, Kouyou esperou por Kai. Esperou inutilmente, diga-se de passagem. Na verdade nem sabia o porquê de ter esperado. Apenas sabia que aquela cama ficava absurdamente vazia sem ele. Na verdade, Uruha poderia muito bem preencher aquele espaço vazio sem um mínimo de esforço. Gente que adoraria ficar ali era o que não faltava. Mas então por que ele não se animava à discar para qualquer um dos números daquela extensa agenda telefônica? Porque a única pessoa que desejava ao seu lado naquele momento era Kai? Não fazia sentido, não fazia.

Eram duas e meia da manhã, já. Continuava rolando pela cama, a garrafa de whisky pela metade e o cinzeiro lotado. Havia desistido de dormir. Levantou, depois de alguns instantes, indo até a sala e ligando a televisão, se esparramando da melhor maneira possível no maior sofá da sala. Passou os canais, com descaso. Não esperava encontrar alguma coisa decente, então seu maior passatempo seria passar os canais até que seu organismo falasse mais alto que seu cérebro e cedesse ao sono.

Mal podia esperar.

Apertou o botão do controle remoto incessavelmente, mudando sem as vezes nem ao menos ver o que estava passando em tal canal. De repente, algo lhe chamou a atenção. Era o quê, mais um daqueles doramas adolescentes clichês? Provavelmente. Pensou um pouco, enquanto dava outro gole na garrafa, que agora já estava quase no fim. Não tinha nada melhor para fazer mesmo, iria se render àqueles romances que tanto lhe causavam náuseas.

A típica história da garota doce e meiga que gostava do cara babaca, — que por acaso a destratava e não a merecia. Logo a garota iria desistir de correr atrás dele e o cara perceberia que também a amava, e então tentaria reconquistá-la, coisa que obviamente aconteceria. Logo depois disso, um romance meloso, uma briga básica, um volta de namoro enjoativa e a morte de algum personagem. Aí, felizes para sempre. Enquanto pensava nisso, sentia algo familiar. Não sabia muito bem o quê. Mas era familiar. Até demais.

Assim, passara o que restara da noite pensando sobre isso. Volta e meia, seus pensamentos todos se voltavam para Kai. Será que estava bem? Onde estava? Com quem? Será que estava pensando nele? Será que não iria voltar? Será que o esqueceria? Será que voltaria se pedisse?

Antes que percebesse, caíra no sono, e antes que percebesse, já havia amanhecido. Acordou perto da hora do almoço, com o rosto amassado, uma garrafa vazia na mão esquerda, um resto de cigarro na direita, a televisão ligada passando algum filme meloso que não se deu ao trabalho de identificar e com o rosto ainda maquiado, de modo que parecia um panda. Olhou para seu próprio reflexo, debochado. Quanta decadência. E não havia se passado nem ao menos um dia inteiro.

Ah, por favor. Kai não lhe era tão importante assim. Do jeito que estava, iria parecer um desesperado. Não que estivesse, claro. Só que, por algum motivo que lhe era desconhecido, queria Kai de volta àquele apartamento. O mais rápido possível.

Tomou uma ducha rápida, encheu a maior xícara que havia no armário com café e saiu porta a fora. Com a certeza de que, pela primeira vez em muito tempo, não havia alguém esperando por ele quando voltasse.

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O moreninho devorava um enorme pote de sorvete enquanto assistia televisão, esparramado no sofá da sala de Takanori, que por sua vez preparava uma enorme xícara de chá para si na cozinha. Seus olhos pousaram em Kai, e deu um pequeno sorriso. Estava orgulhoso do amigo, que ao menos havia conseguido fingir que sua primeira noite longe de Kouyou não havia sido tão ruim assim. Doce e iludido Kai, pensava que Ruki não percebia o choro preso em sua respiração vacilante.

- Nee, eu sei que eu não devia ficar me intrometendo nos assuntos dos outros, Reita. – respondeu para o celular no modo viva-voz largado sobre o balcão da cozinha. O loiro do outro lado da linha dizia achar que se intrometer entre o relacionamento de Kouyou e Uke não era uma coisa muito inteligente a se fazer. Aquilo lhe renderia boas dores de cabeça. – Mas eu não podia deixar o Kai sofrendo na mão do estúpido do Uruha. – pausa para que Akira respondesse. – Eu sei que ele é seu melhor amigo. Mas é verdade. Kouyou não merece Kai, e todos nós sabemos disso. – Reita não contra-argumentou. Sabia que no fundo Ruki tinha razão, por mais que Uruha fosse seu amigo, nada que havia saído da boca do pequenino era mentira. – Falando no Uruha, ele falou com você? – perguntou, sabendo que Kouyou deveria estar enlouquecendo. Era mimado demais. – Ele deve estar enlouquecido atrás do Kai. – ambos riram. – Nee, ele é um bom garoto, lá no fundo. Ele só é... – Akira completou a frase com ‘’... Um babaca filho da puta?’’, fazendo Ruki rir outra vez, enquanto assentia. – É um tanto babaca e um tanto filho da puta, mas um bom garoto, lá no fundo – ‘’bem no fundo mesmo, tipo depois do inferno, né?’’ acrescentou o loiro da faixa, e ambos riram com gosto. Tratava-se apenas de uma brincadeira, Akira conhecia Kouyou melhor que qualquer um, e Ruki era próximo o bastante para saber que o loiro-mel não era tão ruim assim na verdade. De repente as risadas cessaram e a linha de Ruki ficou em silencio por um instante.

Kai encontrava-se escorado no batente da porta da cozinha, com um olhar tristemente-curioso, o pote de sorvete agora quase no final em mãos.

- Quem é um bom garoto? – perguntou, com a voz em um fiapo. Sabia a resposta, mas estava tentando não pensar naquilo. Nem Takanori nem Akira responderam, e o silêncio que jazia entre eles era absurdamente incomodo e constrangedor. – Respondam, quem é um bom garoto?

- I... Ishihara-chan... – mentiu Ruki, torcendo para que aquela história de ‘’conexão astral’’ entre namorados existisse para que Akira captasse suas ondas mentais, que gritavam para que ele pisasse onde ele pisava. – Estávamos falando de como o Miyavi é um bom partido para a Melody-san.

Aparentemente Reita tinha captado a mensagem, porque completou as palavras de Ruki rapidamente.

- Sim, Melody tem sorte de estar com alguém feito o Ishihara... Formam um casal muito bonito. – murmurou. A mentira não deixava de ser verdade.

Kai sorriu de canto, fingindo ter acreditado nas palavras dos dois. Não era necessário que soubessem que escutara grande parte da conversa. Tratou de mudar de assunto, perguntando a Ruki se não gostaria de convidar Reita para jantar com eles naquela noite. Este respondeu que precisaria olhar em sua agenda, que andava lotada; se possível, tentaria encaixar um horário para os dois no próximo mês, já que o número de garotas em sua fila de espera era enorme. Os três riram enquanto Takanori armava um bico e lhe advertira que receberia um belo tapa quando se vissem naquela semana. A campainha tocou e deixou amigo e namorado ‘’sozinhos’’ na cozinha, indo ver quem era. Abriu a porta, — sem olhar pelo olho mágico, já que não o alcançava – e toda a alegria em seu rosto se esvaiu no instante em que viu quem batia. Saiu do apartamento em direção ao pequeno Hall, batendo a porta com força, irritado.

- O quê diabos você está fazendo aqui? – rosnou. – Vá embora.

Kouyou sentiu vontade de se afastar alguns passos ao ver as chamas acesas de raiva nos olhos do pequeno.

- Bom te ver também, Taka. – brincou, arrependendo-se em seguida. Takanori cuspiu um ‘’o quê você quer?’’, ríspido. – Nee, eu queria saber se você sabe onde o Kai está. Eu quero que ele volte pra casa.

- Não acho que seja uma boa ideia. – retrucou, cruzando os braços. Encarava Kouyou com um semblante irritado, e talvez este não percebesse o quão seria melhor se voltasse para a casa enquanto havia tempo. – Deixe-o em paz. Já fez estrago demais no coração dele. Deixe que suas feridas se fechem, deixe que se esqueça você, se apaixone novamente e consiga ser feliz. Nós dois sabemos que você não demora nem um dia para encontrar um brinquedo ‘’substituto’’, Kouyou. Mesmo quando tinha Kai consigo encontrava, não é? – suas palavras eram cortantes e amargas. Ruki sabia ser bastante desagradável e sincero de uma forma cruel, quando queria. A expressão meiga desaparecia e suas palavras perfuravam as pessoas como se fossem navalhas. Uruha encarou o baixinho, sem responder. – Não percebe quanto o feriu, não é? Você deveria sentir nojo de si mesmo.

- Eu só quero conversar com ele, Taka. – disse, deixando que as palavras de Takanori o agredissem, porque sabia que cada uma delas era verdade. Embora que seu comportamento não lhe parecesse tão incorreto assim, sabia que era. Sabia que muita gente saía ferida, e não é como se fizesse por maldade, apenas... Alguns hábitos são difíceis de largar.

- Pois se depender de mim, você não vai chegar perto do Uke tão cedo. – respondeu, determinado. Encarregar-se-ia pessoalmente para que Kai nunca mais voltasse para Uruha. Sua determinação era tanta que estava disposto a ficar na frente de Kai, segurando uma enorme espada velha, tal qual Aragon fez com Frodo em O Senhor Dos Anéis. Esse era o tamanho de sua determinação.

- Por favor, Ruki. – insistiu Kouyou. Na verdade, não seria muito difícil descobrir onde Kai estava; se perguntasse a Reita este provavelmente lhe dissesse, além do mais, estava quase certo de que o moreno estava na casa de Takanori. Se tivesse certeza, não seria muito difícil de passar pelo pequeno e ir falar com ele, mas isso lhe causaria problemas com Akira e o próprio Takanori. – Esse assunto não é seu, é entre eu e Kai. Me deixa acertar as coisas.

- Não. – disse, como se fizesse uma barreira diante da porta. Não hesitaria em gritar feito garotinha caso precisasse. – Já falei, vá embora.

Ambos encararam-se durante alguns minutos, e se o choque dos olhares pudesse produzir faíscas, o teria feito. A porta atrás de Takanori se abriu, lentamente.

- Taka? Que aconteceu...? – perguntou, fitando o pequeno, ainda sem se dar conta de que havia outra pessoa junto do amigo. Quando seus olhos se chocaram com os do loiro-mel, sua voz se perdeu, e seu corpo ficou instantaneamente paralisado. Podia sentir seus dedos tremerem, e seus joelhos amoleceram. Por um instante perdeu o chão, enquanto seu estômago revirava-se mais vezes do que podia contar. – K... Kou... Kouyou... O quê você...

- Precisamos conversar, Kai. – disse, baixinho, pensando em se aproximar alguns passos. Um pequeno sorriso sem-graça brotou em seus lábios cheios e róseos, mas Kai estava tão desconcentrado que não era nem ao menos capaz de retribuir ou admirá-lo.

- Não, não precisam. – cortou Ruki, com os braços esticados, demonstrando que era bom que Kouyou não ousasse se aproximar. Olhou de esguelha para o moreninho desconcentrado detrás de si. – Vá para dentro, Kai. Eu já vou.

O moreno hesitou por uma fração de instante. Seu coração falhara ao encontrar os olhos castanhos de Uruha nos seus, e tinha certeza de que sentia falta deles. Mesmo estando afastados, podia sentir seu cheiro. E estranhou ao perceber que ele cheirava a ele mesmo. O cheiro doce de Kouyou. Só o cheiro doce de Kouyou. Piscou, respirando fundo. Outro de seus sorrisos melancólicos adornou seus lábios, e então se despediu do loiro, com um pequeno e dolorido aceno.

Takanori e Kouyou. Apenas os dois, novamente.

- Shima, esqueça o Kai. – pediu, relaxando os músculos pela primeira vez.

- Não. – decretou o loiro-mel. – Eu vou conseguir o Uke-chan de volta.

- Quero ver você tentar.

- Quero ver você me impedir.

Os dois rapazes se encararam novamente, cada qual um poço de determinação – ou devo dizer teimosia?

Apertaram-se as mãos, com sorrisos desafiadores. Ainda eram amigos, afinal.

- Você é um imbecil. – sibilou Takanori, antes de dar-lhe as costas. – Até mais, Kou.

Uruha sorriu, assumindo a mesa pose de sempre.

- Concordo plenamente com você. – retrucou, zombateiro. Olhou para a porta uma ultima vez, antes de ir embora. – Até breve. – Mais breve do quê você espera.

Notas finais
Vejo vocês no próximo e ~
Deixar review não mata, tá? /apanha
Obrigada por ler e lalala :3
See ya ~~~