Used

1 Capítulo 1 - Usado


Notas iniciais
Aqui está, o primeiro ~

Ouviu o barulho da chave na fechadura, e não demorou para que a porta fosse aberta. Finalmente havia voltado, depois de dois dias inteiros fora, sem dar o menor sinal de vida. Por mais que tentasse ligar para obter qualquer notícia, aparentemente o outro havia deixado o celular desligado. Outra vez. Não havia visto o horário em que o outro partira, provavelmente devia ter ido enquanto dormia. Ficara em casa desde então, resumindo-se a seus cigarros, seus videogames, seus livros, seus mangás e a enorme televisão da sala. No momento estava esparramado no sofá, bebendo uma enorme caneca de chá e relendo o que ele acreditava ser um dos volumes finais de Death Note, mas não tinha certeza, tampouco se importava no momento. Sua mente vagava por longícuos lugares, quando o outro resolvera dar o ar de sua graça.

Uruha atirou-se na poltrona ao seu lado, sem cumprimentá-lo, sem falar nada. Kai não iria ceder, não desta vez. Não iria fazer um monte de perguntas, iria fingir que não dava a mínima. Talvez assim o loiro-mel lhe desse mais valor e parasse de tratá-lo como seu brinquedinho. Tentou concentrar-se na história, mas não demorou muito para que a voz rouca de seu alguma-coisa?, penetrasse em seus ouvidos, perguntando-lhe.

- Nee, Kai, tem alguma coisa pra jantar?

Passaram-se alguns instantes até que o moreninho digerisse a pergunta. Mastigou-a bem durante alguns instantes. O jantar. Kouyou estava perguntando pelo jantar. Kai sempre fora uma pessoa extremamente paciente, inclusive com Kouyou, mas isso já era demais. Em um lapso extremamente incomum de raiva, jogou o mangá que segurava com toda a sua força no loiro, acertando em cheio sua cabeça.

- Mas que porra é essa? – perguntou, sentando-se adequadamente e passando a mão no rosto, na região atingida. – É capaz de ficar roxo, caralho.

- Eu quem pergunto que porra é essa. Você acha que eu sou o quê? Sua esposa? Sua empregada? Você passa dois malditos dias fora, sem dar o menor sinal de vida, sem nem ao menos me dizer pra onde vai ou quando volta, e quando volta se atira nessa merda de sofá e me pergunta se tem alguma coisa pra jantar? Você é um idiota, Takashima Kouyou, o maior idiota que eu já conheci.

Kai descarregou tudo que sentia em suas palavras, estava de pé diante do loiro, a raiva maior do que a tristeza por se sentir sempre colocado em segundo plano. Kouyou baixou a cabeça, parecendo se sentir culpado, como se as palavras do moreno lhe tivessem atingido. Tch, Kai sabia que não. Era fingimento, sempre foi. Nunca, em todos os seus anos de vida, havia conhecido alguém tão dissimulado quanto o loiro. Finalmente este ergueu o rosto, fixando seus olhos nos de Kai.

- Eu sinto muito. – disse, mas não soava real. Por mais que Kai quisesse acreditar, não sentia uma gota de sinceridade em suas palavras.

- Não, não sente. – retrucou, já mais calmo, sentando-se no sofá outra vez. – Você nunca sente nada, mesmo.

O moreno pegou o mangá que havia caído no chão depois de atingir Uruha, agradecendo mentalmente por não tê-lo amassado ou rasgado, e voltou a ler. Kouyou também voltara para a sua posição inicial, a cabeça apoiada em um dos braços da poltrona, parte das pernas em outro. Pensava que talvez pudesse ter comprado uma maior. Um silêncio muito desagradável preenchia a sala, e os únicos sons vinham das páginas do mangá de Kai, ao serem viradas.

- O que ele tem que eu não tenho? – perguntou, arrependendo-se amargamente no instante em que a última sílaba escapou por entre seus lábios, mas era tarde demais para retirá-la. Fechou o mangá, aguardando uma resposta do loiro, com o rosto levemente corado. Sentia-se o maior idiota do mundo, depois de Uruha.

- Ele quem? – perguntou Kouyou, fazendo-se de desentendido, apoiando o rosto em um dos braços.

- Você sabe muito bem quem. Aquele com quem você anda saindo nas últimas noites.

- Eu não estava com ninguém.

Kai suspirou. Sabia que Kouyou havia estado com ele. Podia sentir o cheiro dele no loiro. Como já havia sentido outras vezes antes. Aquele cheiro doce e absurdamente enjoativo para suas narinas. Por mais que Kouyou tentasse disfarçar às vezes, Kai podia sentir seu cheiro. Podia reconhecê-lo. Porque já havia sentido mais vezes do que gostaria.

Kouyou sorriu, com um pouco de desdém.

- Está com ciúmes do Yuu? Sério? – seu sorriso se alargou.

- Não estou com ciúmes! – respondeu, com a voz dois tons acima do normal. Estava completamente corado, e detestava a situação em que se encontrava com todas as suas forças. E sentia ciúmes, sim. Morria de ciúmes. E odiava-se por isso.

- Quer saber mesmo? – perguntou o loiro, levantando-se e indo até o encontro do outro, parando-se ao seu lado no sofá, sentado em seus joelhos.

- Quero. – respondeu, baixinho.

Inclinou-se sobre o corpo de Kai, prendendo-o debaixo de si. Aproximou seu rosto do pescoço do outro, inalando seu cheiro, fazendo com que sua respiração batesse no pescoço do menor, provocativo, arrepiando toda sua pele. Seus lábios roçaram no lóbulo de sua orelha enquanto sussurrava.

- Ele tem uma pele absurdamente lisa e suave, dá uma vontade absurda de tocar. – sussurrou, passando a mão por dentro da camiseta do moreno, que corava cada vez mais com os toques do maior. – E os seus lábios são enormes. – disse, mordendo-lhe o lóbulo levemente. O moreno tentava em vão resistir, divertindo Kouyou, que passeava seus lábios por todo o pescoço de Kai, mordendo levemente algumas regiões. – Sem contar aquele piercing… Você enlouquece só de sentir aquele metal brincando na sua boca.

Kai sentiu algo quente escorrer por seu rosto. Estava chorando. Sentia-se humilhado, principalmente por gostar de alguém feito Kouyou. Droga, era um idiota, mesmo. Sentia-se um ‘’nada’’ para o loiro, sentia-se apenas o brinquedinho que Uruha teria sempre esperando por ele quando chegasse em casa.

Subitamente, o Takashima deixou de tocá-lo, e ergueu-se até que seus olhos estivessem na mesma linha que os do Yutaka. Fitava-o, sério. Isso apenas piorava a situação. Sentia-se ridiculamente ainda mais exposto assim do que quando Kouyou o tocava. Sentia-se ridículo. Mas que podia fazer, as lágrimas não cessavam.

- Por que está chorando, Kai? – perguntou, sentando-se de modo que pudesse encarar o moreno de frente. Sua voz saía, mesmo que quase que imperceptivelmente, preocupada. Kai, depois de fungar algumas vezes, tentando controlar o choro, passou a falar por puro impulso, sem medo do que poderia obter como resposta. Sentia-se ridículo, a situação não poderia piorar mais.

- Por que você faz isso? Eu não significo absolutamente nada para você, não é mesmo? Você sabe o que eu sinto por você e mesmo assim não hesita em me pisotear! – antes mesmo que pudesse perguntar, as lágrimas voltaram. – Eu te odeio, e me odeio ainda mais por gostar de você, merda! Você é o maior filho da puta que eu conheço! – terminou empurrando com força o loiro-mel, surpreendendo-se mais do que o próprio o loiro.

Kouyou não demorou a se recompor. Sentou-se onde havia caído devido ao empurrão e pareceu pensar por um instante, antes de aproximar-se do moreno novamente. Foi até o menor e abaixou-se à sua frente, apoiando-se em seus joelhos. Este, por sua vez, nem ao menos esboçou uma reação.

- Me desculpe. – pela primeira vez, parecia realmente arrependido. – Eu não… Você sabe que eu não sou uma pessoa que se deixa segurar, não é mesmo?

O moreno assentiu fracamente.

- E mesmo assim, eu sempre acabo voltando pra você, não é? – disse. – Mesmo que eu passe algumas noites fora, eu sempre acabo voltando pra você, não é mesmo?

Kai assentiu, amaldiçoando a si mesmo por estar caindo mais uma vez na conversa do loiro.

- Eu amo você. – murmurou, mesmo sabendo o quão idiota era por isso.

Kouyou sorriu, de um modo que Kai nunca havia visto antes. Tocou seus lábios nos do moreno, em um selinho demorado.

- E, bem, pode até não parecer, mas… ‘’Voltar’’ é a minha maneira de dizer que gosto de você, Kai.

Aquele loiro manipulador, dissimulado, calculista, idiota, insensível, filho da puta.

Como era idiota por amá-lo.

Notas finais
Ia ser uma oneshot, mas me incentivaram à fazer uma long e-é
Espero que agrade ~
Até o próximo, e reviews sempre serão bem-vindos, hm /apanha
See ya ~