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1 Nós


—------------- Paris, 28 de Novembro de 1788 --------------

O galo nunca se atrasava: 6 horas em ponto. O sol emergia aos poucos enquanto a luminosidade se tornava mais forte. O barulho do animal e os raios de sol que batiam nos olhos de uma rapariga de 16 anos, eram o suficiente para a acordar.

A rotina nunca mudava. Acordava e ia buscar água à fonte, o suficiente para que a família toda pudesse lavar o rosto nessa manhã. A casa era apertada e húmida, muitas eram as noites em que Elienor passava frio. Mas não se importava com esse facto, muito pelo contrário, tinha orgulho em ser de uma classe social trabalhadora.

—-- Bom dia, Eli. --- A mãe, assim que vê a filha a entrar na cozinha, cumprimenta-a.

—-- Bom dia. --- As suas palavras eram curtas e rápidas. Elienor era assim, demonstrava o pouco do muito que sentia. Era uma pessoa fechada e envergonhada, e por esses motivos, socializava com poucas pessoas.

O barulho da carne conseguia se ouvir bem pela cozinha. Elienor tentou desviar o olhar, com a intenção de não ver nada forte demais para o seu gosto. A morena tinha um grande desgosto por sangue, ficava enojada só de pensar na possibilidade da mãe estar a cortar algum animal vivo. Infelizmente, eram muitas as ocasiões que isso aconteceria.

A rapariga estranhou o comportamento da mãe. Eram poucas as vezes que ela acordava as seis horas em ponto, e muito menos para fazer coisas na cozinha. Intrigada, tentou pensar na melhor maneira para tocar no assunto mas, felizmente, a mãe percebeu a inquietude da filha.

—-- Quer vir comigo ao mercado? Vou precisar da sua ajuda para levar as coisas. --- Ela logo percebeu o motivo por ter acordado tão cedo.

O sorriso da mulher morena era sincero e brilhante. Fazia muitas vezes com que Elienor se envergonhasse. Ela adorava a mãe, todas as suas expressões que não herdou dela, e admirava-a muito.

—-- Claro. --- Responde, novamente com uma cara fechada. --- Deixe-me ir preparar. --- A jovem morena pegou num pedaço de pão e dirigiu-se ao seu quarto fechado, nas menores suspeitas e barulhos. Possivelmente o seu pai ainda dormia, apesar de ter de acordar daqui a poucos minutos.

Quando chega ao quarto, procura por todos os restantes a criatura que dormia em algum canto confortável e quente da casa. Chamou-a duas vezes, e finalmente ela aparecera, um pouco ensonada mas com fome. Demostrava o seu ar feliz que sempre a acompanhava.

—-- Bom dia, Tikki. --- Finalmente Elienor mostrava um sorriso, meio fechado e envergonhado, mas continuava a ser um sorriso. O seu relacionamento com Tikki era ótimo, talvez pelo facto de a puder deixar ser LadyBug, a sua identidade secreta. Ela sentia-se mais livre ao usar o vermelho. --- Desculpe, hoje só tenho pão. Tentarei comprar doce ainda hoje.

—-- Não se preocupe, Eli. Eu sei que é difícil para você. --- A criatura rosa entendia os sentimentos da rapariga, e isso deixava-a bastante feliz. A família dela era pobre, não possuía as maiores das riquezas e os doces sempre se encontravam a preços exuberantes. Era impossível comprar bolachas todas as semanas. No entanto, tentava satisfazer a sua amiga com o que tinha.

—-- Bem, é melhor não deixar a mãe mais à espera. Vamos ao mercado.

As ruas estavam agitadas de tanta pessoa a circular por elas. Muitos eram os mendigos que se sentavam no chão, a pedir esmola ou a esperar pela morte. Haviam vestígios de ratos e de pessoas doentes, sem médicos nem métodos para curar as suas doenças. Era complicado quando um arranhão se torna numa infeção. Infelizmente, era assim como o povo vivia, especialmente o mais pobre. A nobreza e o clero desfrutavam das suas regalias, banquetes todos os dias e dinheiro até encher os bolsos. O povo tinha que suportar os altos impostos, tudo a bem do rei e dos mais ricos ficarem ainda mais ricos. Todavia, Elienor não podia fazer nada contra. Sim, a LadyBug lutava contra os crimes e tudo o que poderia acontecer no reino. Mas era a nobreza e o clero que a apoiavam, que a deixaram se tornar numa imagem pública de segurança. Ela tinha muito a dever a essas classes sociais, mas, no entanto, também sabia o mal que elas faziam ao seu povo. Estava dividida entre Elienor e LadyBug.

O mercado estava cheio como sempre. Os burgueses aos gritos a tentarem vender o mesmo produto ao melhor preço. Um cliente era o suficiente para acabarem com a fortuna deles. Mas havia um burguês que, não importasse o número de clientes, nunca iria à falência. Enric Dubois era o nome desse burguês. Autoritário, cara de poucos amigos, alto e com cabelos grisalhos. Poucos eram os que gostavam dele, mas os seus produtos eram de maior qualidade e do mais baixo preço. Felizmente, a sua fortuna aumentava com a ajuda do seu filho: Oliver. Um rapaz alegre, com uns cabelos loiros bonitos de fazer inveja, e sempre disposto a ajudar os fregueses. Era o loiro que atendia os clientes, e uma das principais razões pela fortuna da família.

Elienor, desde o primeiro momento que o viu, começou a gostar dessa sua faceta. Era o rapaz que mais gostava e também uma das principais razões para ir ao mercado.

—-- Bom dia, senhora Rousseau. --- A voz rouca de Oliver suou nos ouvidos de Eli, fazendo com que se escondesse um pouco atrás da mãe. --- O que a traz por hoje?

—-- Bom dia, Oliver. Um quilo de farinha e batatas, por favor. --- A mãe, ao ver a reação da filha, deixa sair uma risada abafada. --- Não cumprimenta o Oliver, Elienor?

Com a mãe a repreende-la docemente, sai da guarda da mesma e faz uma leve vénia.

—-- Bom dia. --- Respondeu de uma forma curta e ligeiramente grossa. O loiro não se importou e à medida que entregava os alimentos à mãe, ria baixinho com a reação da morena. --- C-C-Como vai… o ne-ne-seu pai? --- Pergunta com dificuldade. Apesar de não ter o mínimo interesse no autoritário Enric, queria continuar a manter uma conversa agradável com Oliver. Infelizmente, nunca resultava da maneira como queria.

—-- Está bem, obrigado. Deve ainda estar a dormir, você sabe como é o meu pai. Fica muito mal disposto durante a manhã então prefere trabalhar durante a tarde. --- Explica, tentando ser o mais educado possível e o mais apressado. Era quase impossível estabelecer conversa naquele horário de grande agitação.

Ellienor revirou os olhos, tentando tapar a sua expressão com o tecido que tapava os seus cabelos. “O seu pai está sempre mal disposto”, pensou, achando graça ao comentário que ela própria tinha feito na sua mente.

—-- Desde que seu pai esteja de bem de saúde, isso é que importa. --- Intervêm Odete, mãe de Elienor. --- Quanto te devemos, Oliver?
No momento em que a senhora ia pagar, é brutamente empurrada para trás.

Muitos são aqueles que gritam insultos à mulher, dizendo para ter cuidado ou que “o sítio de uma mulher é em casa”. Muitos eram aqueles que preferiam nunca ver uma mulher à sua frente, e vice-versa. A sociedade estava moldada para os homens e ambas estavam já acostumadas a esse tipo de comentários. Era uma das razões por ter sido tão difícil a aceitação de uma mulher como símbolo de segurança. Porém, com o dinheiro e o poder consegue-se tudo.

—-- Está bem, mãe? --- Pergunta preocupada Elienor, não querendo ver a mãe ferida.

—-- Sim, estou bem mas… --- ambas olham para as mãos da senhora que se encontrava vazia. Havia um segundo motivo para aquele empurrão: Odete tinha sido roubada.

A raiva tentou apoderar-se da mente da jovem mas, com calma, tentou arranjar uma forma para resolver o assunto.

—-- Oliver, faça-me um favor. Tome conta da minha mãe enquanto peço ajuda. Acabou de ser roubada. --- Sem esperar pela sua resposta, a jovem afasta-se de ambos, na esperança que a mãe fique bem.

O seu objectivo era encontrar um beco sem saída, um beco em que se possa transformar sem ser vista por ninguém. Com o mercado cheio, era ligeiramente impossível tal coisa se suceder. Todavia, quase no final da rua do mercado, conseguiu encontrar uma rua suficientemente escura para que não soubessem a sua identidade.

—-- Tikki, por favor. --- Disse, assim que finalmente acha aquilo que queria. Sem mais demoras, Tikki junta-se ao brinco que a rapariga possuía, o seu miraculous.

A transformação é breve mas o vestido comprido que LadyBug usa, é exposto completamente. A máscara, simples, vermelha e com pontos pretos, esconde a sua identidade verdadeira.

O vestido é parecido com os da nobreza da época – uma faixa preta na cintura, colarinho igualmente preto e com um laço da mesma cor. As mangas e o vestido são igualmente compridos, com a abundância do vermelho e pintas pretas. Essa era a vestimenta de LadyBug.

Pouco tempo depois de se transformar, Elienor salta de telhado a telhado, com cuidado para não partir nada, de forma a tentar identificar o assaltante e o prender. No entanto, seria um pouco difícil com tanta gente naquela estreita rua.

“Isto vai ser mais difícil do que pensava”, pensa ao mesmo tempo que usa o seu ioiô, com o objetivo de prender o fio a uma chaminé da rua paralela e continuar o seu caminho no outro lado. Infelizmente, pouca coisa mudou já que continuava a não saber do indivíduo. Não sabia qual era a cara do assaltante, mas gostaria de saber imenso naquele momento.

Olhou mais a fundo, à procura de alguma figura suspeita o suficiente entre aquela multidão. De repente, ouve gritos.

—-- LADRÃO! LADRÃO! --- Naquele preciso momento, LadyBug acha o assaltante, na esperança de ser o mesmo, e corre em direção a ele. Com uma grande força, lança o ioiô na direção do sujeito mas o objeto embate em algo preto e duro, impedindo a captura. A capa esvoaçante vermelha denunciava o sujeito. Só havia uma pessoa em todo o reino que usava uma armadura preta e uma capa vermelha berrante: Chat Noir.

—-- My Lady, chegou tarde! Já capturei o assaltante! --- Disse Chat Noir, com o seu sorriso inocente que tanto ela odiava. Olhou-o com raiva. A armadura negra com alguns pormenores dourados cintilava à luz dos primeiros raios de sol. Ainda não eram 7 da manhã e já tinha que se transformar em LadyBug.

—-- Chat Noir! Poderia fazer o obséquio de não voltar a se intrometer?! Eu tinha tudo sobre controlo e você teve que estragar tudo! --- exclamou raivosa, aquela rapariga quieta. Chat Noir não tinha resposta aos comentários explosivos que a sua Lady lhe mandava, só podia pedir desculpa.

—-- Peço desculpa, My Lady…. --- pediu, à medida que as suas orelhas murchavam. Enquanto guardava a sua espada, os guardas reais se aproximavam da cena.

LadyBug e ChatNoir explicaram tudo o que se tinha sucedido. Ladybug explicou que, pelo menos, dois assaltos tinham sido confirmados. Infelizmente, não tinha provas o suficiente de ter sido ele o real culpado do primeiro roubo.

Depois de uma maior inspeção aos pertences do ladrão, verificaram que sim, se tratava do autor dos dois crimes. A partir desse relatório, os guardas puderam intervir justamente e levar o homem à justiça (ou guilhotina).

A rapariga suspirou de alívio ao ver que o primeiro caso do dia tinha sido resolvido tão facilmente. Ainda estava cansada da noite mal passada e ainda precisava de algum descanso. --- Bem, até outra vez, Chat Noir. --- diz com pouca convicção, com a intenção de ir embora. Porém, o gato negro a impede de prosseguir.

—-- My Lady, por favor, espere! Deixe-me compensar pelos meus erros cometidos. --- Antes que ela pudesse responder, é rapidamente carregada e sem puder se debater. A raiva que ela sentia por aquele homem estava a crescer cada vez mais, mas sabia que as suas intenções eram boas. Embora inconvenientes.

—-- Já chega, Chat Noir! Por onde me le- --- As palavras da jovem foram cortadas com a vista que se via do topo da casa mais alta de Paris. O sol, a bater na copa das árvores, fazia um ótimo quadro. A paisagem era de tirar o fôlego, nunca tivera visto cenário tão bonito nos 16 anos em que vivera.

--- Bem, estás desculpado por agora, Chat Noir. --- diz de uma forma rude para o seu orgulho não se apoderar de si. O gato preto sorriu, um sorriso brilhante que combinava perfeitamente bem com aquela paisagem.

—-- Hey, My Lady… Estive a pensar. O que será que acontecerá quando morrermos? --- o sorriso que dantes era brilhante tinha escurecido.

—-- Eles nos esquecerão, Chat Noir. --- explica com toda a convicção que isso iria acontecer.

—-- Eu nunca me esqueceria de si, LadyBug. Daqui a 300 anos, continuaremos a lutar contra o crime! Numa altura em que haverá maquinas, igualdade perante todos e pouca violência. --- Sonhou, como muito sonha. --- Nessa altura tenho a certeza que o homem vai poder voar!

—-- Não sejas tolo Chat Noir, isso nunca acontecerá. --- brinca com ele, explicando que está a ser demasiado sonhador para a época em que estava. --- E o que mais acontecerá nessa altura, gato idiota?

Depois de breves momentos a pensar o que iria dizer, diz sem quaisquer dúvidas:

—-- Nessa altura, My Lady, eu continuarei a amá-la.